quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Ao dia da sua consciência, negra

Era bem invocado o Estevão

Estevão da Silva pintado por Pereira Netto
(publicada em 08.jul.2012)

Primeiro negro de renome nas artes plásticas do Brasil, pintor disse poucas e boas bem na fuça do imperador

Estava tudo pronto e pomposo naquele certo dia do ano de 1879 no salão principal da Academia Imperial de Belas Artes, na antiga Travessa do Sacramento (atual avenida Passos, no coração comercial da cidade do Rio de Janeiro). 
Era a premiação da 25ª Exposição Geral de Belas Artes. 
Os prêmios seriam entregues pelo imperador dom Pedro II em pessoa...
Chamaram à frente o segundo colocado:
- Estevão Roberto da Silva!
O artista de 35 anos se levantou lá de trás do grupo onde estivera quase escondido entre os colegas. Chorando, cruzou com passos lentos o salão. Aproximou-se cabisbaixo do estrado onde o aguardava El Rei. Enxugou os olhos com as mãos, ergueu a cabeça e gritou:
- Recuso!!!
Era muito invocado o Estevão.

Alvoroço. 
Burburinho. 
Os diretores da academia pensaram logo em expulsar da instituição o negro insolente.
Mas, como botar porta a fora o maior pintor de naturezas-mortas da época?
Já era bem famoso o Estevão...
Natureza-morta, Estevão Silva, 1891
Museu Afro Brasil - Pq Ibirapuera - São Paulo
A diretoria amarelou. 
Se limitou a suspendê-lo por um ano. Alegaram que “ouvindo a defesa do aluno delinquente”, se convenceram que ele recusou o prêmio de segundo lugar “por acanhamento de inteligência”.
Era bem abusado o Estevão...

Sete anos depois, o jornalista Arthur de Azevedo confirmava que Estevão Silva estava certo em não se deixar passar pra trás: 
“Este pintor tem uma especialidade; as frutas; não me parece que nesse gênero encontre no Brasil competidor que o exceda, nem mesmo o iguale.” – Folha da Tarde, Rio,  16.jul.1887.
Natureza-morta, Estevão Silva, 1888

Era este mesmo o grande barato de Estevão.
Provocava nas pessoas um deliciamento dos sentidos. 
Ao vermos seus quadros, a tinta salta da tela, provoca a impressão de podermos cheirá-los, comer as frutas ali pintadas.

Filho de escravos africanos, Estevão Silva nasceu no Rio em 26 de dezembro de 1844.
Entrou para a Academia Imperial de Belas Artes aos 19 anos.
Não há registros sobre sua vida particular. 
Sua existência pobre era ganha como professor do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro.
Na mesma cidade onde passou toda a sua existência, morreu dormindo em 9 de novembro de 1891. 
A causa de sua morte ainda hoje é desconhecida.
Era bem misterioso o Estevão.

Natureza-morta, Estevão Silva, 1884
A superioridade da arte de Estevão Silva vem sendo resgatada nos últimos anos.
Mas seus contemporâneos não deixaram de enaltecê-lo em vida.
Na reportagem sobre uma das exposições do altivo pintor negro, o jornalista Manoel Cordeiro publicou na capa do Diário Ilustrado, em 21 de julho de 1887:
“Às vezes despertam desejos os seus quadros, desejos inocentes de trincar a talhada de uma melancia rubra e partida, uma romã aberta como uma boca de menina, numa provocação acesa de beijos.”
Como era danado o Estevão...

Nenhum comentário: