sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Leopoldina e sua letra prenhe de dor

Revelações sofridas da verdadeira autora da Independência do Brasil

Reprodução
Vagueando em vão madrugada adentro pela net, deparei com o manuscrito de uma carta da imperatriz Leopoldina.
Vista assim por alto, nada me diz aos olhos a caligrafia em cursiva gótica, de decifração quase impossível. 
Inda mais porque escrita no idioma da distinta, e dirigida à sua irmã Marie Louise (viúva de Napoleão Bonaparte). Era ela a única pessoa em que a rainha do Brasil confiava e confidenciava todas as suas amarguras.
Aqui é que o olhar começa a vislumbrar, na letrinha elegante e miúda, quanta dor traspassava o corpo e o espírito daquela mulher.

No império da fofoca

A vida amorosa miserável de Leopoldina foi tanto pior, pois sua educação refinada não combinava com a das demais mulheres do palácio: “o interesse e as intrigas são os motores principais do sexo feminino português”, desabafava a tristonha majestade.

A verdadeira autora da Independência do Brasil

Fazia quatro anos que ela havia chegado ao Brasil. O ambiente irrespirável em que vivia transborda a cada linha da carta. Seu interesse intelectual por botânica e mineralogia foi o único consolo na fase de agruras em que veio viver no nosso país.
Se a terra brasileira não lhe deu alegria alguma, Leopoldina retribuiu com alma nobre. Dom Pedro perambulava pelo estado de São Paulo (atrás do rabo da saia da Marquesa de Santos) quando, no dia 2 de setembro de 1822, no cargo interino de rainha-regente Leopoldina assinou o Decreto da Independência do Brasil. (aquele papo de Pedro I, cinco dias depois, espada em punho às margens plácidas, pura cascata. Até porque na época não existia telejornal).

Criadora da bandeira brasileira

Foi também de Leopoldina a ideia de usar como cores dominantes da bandeira o verde e o amarelo. Mas não em louvor ao ouro e às densas matas. Verde era a cor da família Bragança (do imperador) e amarelo o emblema dos Habsburg (família da imperatriz).

Fraturas da alma

Boêmio e mulherengo e grosseirão e boca-suja, todavia Pedro não quebrou a coxa da mulher com um chute. Recente exumação provou que Leopoldina não sofreu fratura nos ossos. Mas não há tomografia capaz de revelar fraturas num coração dolorido.
O geólogo Wilhelm Eschwege logo notou a incompatibilidade de gênios, e segredou numa carta a seu sócio na Alemanha: “Embora não seja destituído de inteligência natural, o príncipe-herdeiro é falho de educação formal. Foi criado entre cavalos, e a Princesa [Leopoldina] cedo ou tarde perceberá que ele não é capaz de coexistir em harmonia.”
A imperatriz segredou à irmã que Pedro I era mau exemplo até na educação dos filhos: "... é o querido do papai que lhe ensina todas as desobediências possíveis”, disse Leopoldina sobre um filho seu que nasceu e morreu ainda bebê, antes de D. Pedro II.

Diferenças políticas

A dessintonia do casal extrapolava até para a política: 
“O caráter do meu marido é extremamente exaltado por causa do tratamento contraditório, duro e injusto em relação a todas as mudanças, de modo que tudo que denote levemente liberdade lhe é odioso. Assim só posso continuar observando e chorando em silêncio”.
Nos nove anos vividos debaixo dos caprichos do seu imperador, a infeliz Leopoldina ficou grávida 10 vezes.
Resignada à sua triste sina, ela chorava pelos dedos: 
“Fui criada desde a minha infância para dominar a minha vontade e os meus desejos, e para desistir da minha sorte e do meu contentamento se for para o bem comum, assim consigo aguentar todas as lutas e situações difíceis e duras, mas me resta uma certa depressão e tristeza quando penso e fico meditando.”

Desgosto mortal

Às 4h da madrugada do dia 8 de dezembro de 1826, Leopoldina sentiu necessidade urgente de escrever para a irmã. Seu coração era um pote até aqui de mágoa. Não tinha mais forças na mão sequer para mergulhar a pena no tinteiro. Pediu à amiga marquesa d'Aguiar que escrevesse o que ela ia ditar. Segue o texto na caligrafia original da época:
“A quaze quatro annos minha adorada Mâna como Vos tenho escrito que por amor de um monstro Seductor me vejo redozida ao estado da maior escravidão e totalmente esquecida de meu adorado Pedro. Ultimamente acabou de dar-me a última prova de seu total esquecimento a meu respeito mal-tratando-me na presença daquela mesma que he a causa de todas as minhas desgraças. Muito e Muito tinha a dizer-Vos, mas faltão me as forças pra me lembrar de tão orrorozo atentado que será sem duvida a causa de minha morte......8 de dezembro de 1826 as 4 horas da manhan. L.S.B. Marquesa d’Aguiar Escrevi”.

Foi a última carta da nossa infeliz imperatriz para Marie Luise.
Três dias depois de rasgar o peito nessas lamentações, morria Caroline Josepha Leopoldine Franziska Ferdinanda von Habsburg-Lothringen, a nossa melancólica princesa Leopoldina. 
Tinha 29 anos de idade.

Nenhum comentário: