sábado, 5 de julho de 2014

Invasão amarela: mercaditos de Buenos Aires

Sim. Você não anda mais que três ou quatro quadras em Buenos Aires sem deparar com um mercado.
Não. Não são daqueles super. Mas, tipo mercadinhos de vila (mercaditos, na linguagem aqui deles). Para compras providenciais.
Por mais que bebas vinho (e como o temos bebido, né Flávia?) não pense estar vendo coisas.
Sim. Todos os mercadinhos portenhos têm um chinês no caixa.
Aqui onde estamos hospedados, então, é uma exuberância. Tem o mercadinho chinês da Rua Charcas esquina com Rua Jorge Luis Borges, e tem o mercadinho chinês da Rua Jorge Luis Borges esquina com Rua Charcas.
Meu amigo proprietário do Daniel’s Bar, na esquina da Rua Charcas com Rua Thames, me ajuda a desvendar o mistério com base numa reportagem do jornal El Clarín (há sempre exemplares deste diário sobre as mesas do seu restaurante. “É o único que não se rendeu ao governo”, me diz).
Estima-se que a cada semana cinco novos mercadinhos chineses são abertos na Argentina. Somam hoje em torno de 10 mil pelo país.
A grande onda de imigração chino-argentina se deu na década de 1990. Era fácil obter documentação – demorava entre 90 a 180 dias. Depois o governo embirrou. O visto de entrada passou a demorar de seis meses a dois anos. A invasão amarela arrefeceu.
Como tudo que é oficial na Argentina cheira a picaretagem, o censo também mente. O levantamento populacional de 2010 alega 8.929 chineses por aqui. Mas eles próprios admitem serem em torno de 100 mil às margens plácidas do Rio da Prata.
Oitenta por cento dos imigrantes chineses na Argentina vêm da província Fujian, no leste da China. O resto é na maioria de Taiwan, já que são vizinhos lá naquela banda onde o Sol espreguiça seus primeiros raios.
A importância dos mercadinhos chineses no cotidiano argentino foi reconhecida pela própria presidente dona Cris Kirchner. O governo federal incluiu os mercaditos no pacto de preços controlados de 122 artigos. Os de maior demanda são: macarrão, arroz, erva-mate, produtos de higiene pessoal e de limpeza doméstica. Sem esquecer o sal e o fernet. Sim, o direito etílico está incluso na cesta básica do governo.

Não fosse mi amigo Daniel, pelos chineses daqui eu jamais saberia o que acabo de te contar. Estes imigrantes não dominam o idioma local. Mal balbuciam “si” ou “no”. Foi só depois da minha undécima ida ao mercadito da Rua Borges, que a orientalzinha rabiscou um risinho nos lábios e perguntou: “Quieres bolsa?”.
Com salões de normalmente 200 a 300 metros quadrados, os mercadinhos chineses de Buenos Aires seguem sempre o mesmo desenho. Na parte da frente uma quitanda (verdulería) e na de trás um açougue (carnicería). O setor horti-fruti nunca é do chinês (invariavelmente de bolivianos ou peruanos). E o açougue é sempre de um argentino.
Os mercadistas chineses bonaerenses (donatários do neologismo gentílico argenchinos) chegaram à conclusão que carnes e legumes devem estar nas mãos de quem lhes chama e respeita pelo nome. Se mal aprendem a dizer donde estás corazón, como poderiam decifrar o corte de carne pedido pelo freguês? Mesmo uma brasileira feito você passaria maus bocados na quitanda. Aqui, beterraba é remolacha, mexerica é mandarina, alface é lechuga, cenoura é zanahoria... e por aí vai.
Quando um chinês chega aqui uma família patrícia o adota. Ele começa a trabalhar como repositor, depois assume o caixa e, guardando dinheiro, abre seu próprio negócio.
Agora você vai saber o que a Flávia está fazendo nesta postagem com sua taça sempiternamente cheia de vinho. Nos bares da vida a gente chegou a pagar entre 80 a 120 pesos argentinos por uma garrafa de vinho popular. Nos mercaditos chinos abençoados por Baco a garrafa orbita em bem menos da metade disto.
Na minha primeira manhã no bairro Palermo, a chinesinha do mercadito da Rua Borges quase foi à loucura pra entender que eu queria queijo fatiado. Até que acalorada pelo entendimento me apontou na seção de frios – queso máquina.
Que louco. Parece recheio de sanduíche pra robô...
Buenos Aires, 1º.mai.2014

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Nove dias e oito noites no bairro de Borges

Baixei em Buenos Aires sem reserva onde dormir.
Suzi estranhou eu vir assim de jeito zíngaro.
Mas, meti uma grana no bolso e... “deixa a vida me levar”.
Quis a sorte que eu quedasse hospedado em Palermo.
Foto: David da Silva - 29.abr.2014
Bairro onde o escritor Jorge Luis Borges viveu toda sua infância e metade da juventud.
Minha sina é mãe, e não má-drasta.
Depois da primeira noite portenha dividindo quarto com Helena, o destino decidiu me cambiar pra outra rua. Pra um lugar chamado Borges Design Hostel.
Já te disse. Minha sina é mãe.
O Borges Design Hostel fica perto da casa onde Jorge Luis Borges viveu dos seus dois anos aos 15 anos de idade. O hostel é um casarão de três andares, construído no final da década de 1920. Escadas de madeira maciça, elevador de porta pantográfica. Uma delícia de tradicionalismo incrustado no bairro da vanguarda cultural da capital argentina.
Agradeci. Minha sina não é má-drasta.

Palermo Velho sempre redivivo
Antes d’eu chegar a Buenos Aires, há muito essa cidade já estava aqui dentro de mim.
Muitas vezes fiz a viagem imaginária com Clara no conto Ônibus, do Júlio Cortázar. Cruzava mentalmente toda a cidade, desde a Villa Del Parque até o bairro Retiro.
O bairro Palermo eu conheci ainda moleque pela escrita de Jorge Luis Borges.
É do tamanho da minha cidade. Taboão da Serra tem 22,5 km². Palermo tem 15,9 km². A população taboanense é de 264.352 pessoas. A de Palermo, 225.970.
Situado na zona norte de Buenos Aires, Palermo hoje tem tudo. Aeroporto, zoológico, jardim botânico, planetário, hipódromo, a maioria dos estúdios de canais de televisão, produtoras de cinema. Habitado por artistas e profissionais liberais. Uma espécie de Vila Madalena paulistana em tamanho gigante.
Mas teve uma origem perigosa, boca quente, barra pesada. História contada na ponta das facas. Homens se sangrando a cada esquina. Era bairro tão pobrezinho, habitado por gentes tão baixa renda e tão sem profissão, que o apelidaram “Terra do Fogo”. Comparação maldosa com a região de natureza mais carrasca e mais longínqua da Argentina.
A visão do bar El Preferido de Palermo evoca o conto Homem da Esquina Rosada, de J. L. Borges. Fundado em 1959, o bar e restaurante está entre os 73 mais famosos de Buenos Aires. É reconhecido pela administração municipal como patrimônio histórico da cidade. Foto: David da Silva – 29.abr.2014
Bar-restaurante El Preferido vestido para a noite
Borges ensina nos seus contos e crônicas que Palermo foi em seu berço um local de inquilinatos. Semeado aqui e ali, esparsamente, pelas “cazas-chorizo” (“casas-lingüiça”, com habitações grudadas uma às outras feito gomos).
Borges interrogou em seus textos os mistérios de Palermo. Impossível a gente saber o que foi real ou fantástico. Seus contos são povoados por valentes e brigões. A quem ele chamou “compadritos”.
Usou em suas estórias a linguagem tosca, rústica, palavras dos arrabaldes para desvendar a alma do seu povo. Para construir sua obra, Borges buscava os entardeceres, os subúrbios, a miséria.
O bairro Palermo da infância de Borges era, segundo ele, de “uma pobreza despreocupada”. Os dias escorrendo sempre iguais perante as varandas humildes. Vez ou outra o silêncio quebrado pelo apito de um vendedor de amendoins. Bairro de moral arruinada, esquinas de agressão ou de solidão, com homens se chamando por meio de assobios a fim de se baterem com punhais e logo sumirem pelos becos escuros. “O bairro era uma esquina final”.

Terra ingrata
Borges recolheu pessoalmente em livros estas histórias até o dia em que a visão o abandonou.
Contou-nos em seus contos que Palermo era um bairro alagadiço. (A rua em que fiquei hospedado na primeira noite, e que está bem aqui à minha frente agora, não por acaso se chama Calle Charcas – Rua Lagoas).
Para construir o bairro, foram trazidas milhares de carroças de terra preta tiradas das propriedades do caudilho Juán Manuel Rosas. O político construiu no bairro sua casa de campo. As obras do aterro duraram dois anos ininterruptos para nivelar e preparar o terreno arenoso, até que o barro e a terra ingrata sucumbiram à vontade de Juán Manuel Rosas.
Assim se deram, no estilo enxuto e elegante de Borges, “as etapas da distraída marcha secular de Buenos Aires sobre o bairro Palermo”.
Enquanto pôde caminhar pela cidade, Borges dizia que mesmo em suas desilusões e sofrimentos, Buenos Aires jamais deixou de consolá-lo com um toque de vida.
Aos 55 anos, a cegueira fechou seu cerco sobre o escritor. Ele conta a sensação deste incômodo acontecimento: “Uma das primeiras cores que se perde é o negro. Perde-se a escuridão e o vermelho também. Vivo no centro de uma indefinida neblina luminosa. Mas não estou nunca na escuridão. Neste momento esta neblina não sei se é azulada, acinzentada ou rosada, mas luminosa. Tive que me acostumar com isto. Fecho os olhos e estou rodeado de luz, mas sem formas. Vejo luzes. Por exemplo, naquela direção, onde está a janela, há uma luz, vejo minha mão. Vejo movimento mas não coisas. Não vejo rostos e letras. É incômodo mas, sendo gradual, não é trágico. A cegueira brusca deve ser terrível. Mas se pouco a pouco as coisas se distanciam, esmaecem… No meu caso, comecei a perder a vista desde o momento em que comecei a enxergar. Tem sido um processo de toda minha vida. Mas a partir de 55 anos, não pude mais ler. Passei a ditar”.
Outro morador famoso do bairro Palermo foi o guerrilheiro Ernesto Guevara. O “Che” viveu com seus pais por certo período na Calle Araoz, 2.180, a sete esquinas daqui onde estou.

Faço estes apontamentos no meu quartel-general, o Daniel’s Bar, na esquina da rua Charcas com rua Thames. Acho que por hoje basta de lembrar o passado heróico do bairro Palermo e seus homens destemidos.
Buenos Aires, 05.mai.2014

Cursinhos Populares fazem encontro neste sábado, 5 de julho

Com dois temas que resumem as principais preocupações de professores e alunos dos cursinhos populares,  vai ser realizado amanhã, 5 de julho, um encontro para detectar problemas e apontar soluções para o ingresso dos filhos de famílias trabalhadoras nas faculdades públicas.
O evento, sediado no Núcleo de Consciência Negra, dentro do campus da UPS, no Butantã, vai se desenrolar durante todo o sábado, finalizando com um Sarau-Arraiá organizado por alunos do núcleo.
O café da manhã e o almoço serão comunitários. Cada participante deve levar comes e bebes para o lanche e a refeição principal coletiva.
Cursinhos Populares seguem orientação pedagógica de mestres como Paulo Freire e Lauro de Oliveira Lima, que valorizam os saberes tradicionais e culturais do povo.
O Núcleo de Consciência surgiu em 1987 formado por servidores técnico-administrativos, professores e alunos de graduação e pós-graduação da USP, para discutir a questão racial na Universidade e na sociedade. A grande meta dos ativistas é o acesso à Universidade Pública para a parcela da população historicamente excluída.
O Núcleo de Consciência Negra ocupa um barracão no Campus do Butantã, na Universidade de São Paulo. Por não ter vínculo oficial com a Universidade e situar-se em um local projetado para outra obra, o Núcleo vive a constante ameaça de não ter um espaço para realizar seus projetos, e enfrenta diariamente problemas pela falta de infraestrutura. A realização do evento no local significa fortalecer esse processo de resistência, que é combatido e marginalizado pela instituição.

Apresentações/atividades confirmadas para o Sarau:
  • Desafetos do Sistema
  • Jongo
  • Quadrilha do NCN
  • Cantarolices da Jess Mary

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Jussanam: canção de verão ao som do Mediterrâneo

“She may be the song that summer sings”
(Charles Aznavour)


Jussanam canta na praia particular do Hotel
Martinez, em Cannes. Fotos: Bjorn Olsson





Essa postagem sobre a Jussanam não está aqui agora só porque sim.
Nesta ocasião precisa, dois sólidos motivos empurram-me os dedos de volta ao teclado, para contar pra vocês como vai a vida da cantora e atriz brasileira que foi morar na Islândia em 2008, e hoje está radicada no sul da França.
Terminou nesta 5ª-feira, 26 de junho, há poucas horas, a primeira grande temporada francesa de Jussanam Dejah. 
“Estou realizando um grande sonho. Às vezes nem acredito que estou cantando na praia do Martinez em plena Croisette”, me escreveu a cantora dias atrás. Pr’ocê ter uma ideia da importância do lugar, a referida Croisette é a via pública mais charmosa do planeta. Espreguiçando-se ao longo de 2 km na beira do Mar Mediterrâneo, esta estrada é o endereço do badalado Festival de Cinema de Cannes, no Palais des Festivals et des Congrès (Palácio dos Festivais e dos Congressos). A Wikipédia me conta que ali “é uma das áreas mais luxuosas, caras e sofisticadas do mundo”. É a cobiçada C’Ôte d’Azur dos contos de fadas milionários.
É lá onde a carioca Jussanam Dejah está morando desde 8 de julho de 2013, e fez 13 shows nos últimos 15 dias. 
Jussanam com Jean-Yves Mestre (violão) e Max Miguel
Jussanam chegou a este local para participar de um programa de residência artística representando o Brasil e a Islândia, já que tem dupla cidadania. Era para permanecer somente até setembro do ano passado. Mas resolveu ficar.
Nascida no bairro Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, Jussanam deixou na Islândia uma bela história de amor à arte, determinação e solidariedade humana. 
Quem ainda não sabe toda a saga desta morena para ter seu direito respeitado pelo governo islandês, dá uma espiada aqui
E é justamente este o tal segundo sólido motivo a que me referi na abertura da postagem. 
Há exatos dois anos, em junho de 2011 Jussanam teve expedido o seu título de cidadã da Islândia. 
O Parlamento reconheceu-lhe a cidadania “devido as suas qualidades artísticas, sua contribuição para o enriquecimento da vida cultural islandesa, e sua forte ligação com o povo islandês”.
O escritor argentino Jorge Luis Borges disse que felicidade é estar ao lado da mulher amada na Islândia, debaixo do grande dia imóvel, e repartir o momento presente como se reparte a música e o sabor de uma fruta.
Pierre Palvair (violão) e Eric Prive (bateria) com Jussanam acariciada 
pela brisa do mar Mediterrâneo
Um brinde, pois, à Jussanam, por estes dois anos do seu grande triunfo internacional no coração efervescente da gélida Islândia.

Em 13.mar.2008 Jussanam me mandou e-mail, a respeito daquelas suas então ainda poucas semanas na Islândia: “Conheço outros países como Espanha, França, Alemanha, mas ainda não cantei nesses lugares. Acredito que isso não tardará a ocorrer”.
Tardou quase nada. Agora, além de söngkonan da Islândia, ela é também a “chanteuse bresilienne dans la C’Ôte d’Azur”.


A SAGA EUROPÉIA DE JUSSANAM
·         Fevereiro de 2008 – muda-se para Reykjavik, capital da Islândia
·         2009 – lança seu primeiro CD “Ela é Carioca”, na Islândia
·         2009/2010 – primeiras turnês pela Suécia
·         2011 – obtém o título de Cidadã da Islândia
·         2012 – excursiona por 5 países do Norte da Europa patrocinada pelo Fundo de Cultura Nórdica
·         Novembro de 2012 – lança seu segundo CD “Rio/Reykjavik”, na Islândia
·         Julho de 2013 – muda-se para o sul da França
·         De 12 a 26 de junho de 2014 – primeira grande temporada na França, contratada pelo hotel 5 estrelas Grand Hyatt Hotel Martinez
Jussanam com Jean-Yves Mestre (violão) e Nicolas Castagnola (bateria) na Place Lisnard, cidade de Vallauris, convidada pela organização da tradicional Fete de La Poterie – 10.ago.2013

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Leve seu pé de tomate no próximo sarau

 
O tomate foi domesticado pelos incas do Peru, e teve sua
lavoura expandida pelos maias e astecas do México. Seu nome
original é tomatl, no idioma asteca Nahuatl.
"As rosas não falam”, diz o samba do Cartola. Mas os tomateiros mandam recados entre si.

Num bate-papo, tempos atrás, com o poeta Sérgio Vaz, entrou tomate na nossa conversa.
Eu dizia a ele do poder do tomate contra o câncer de próstata, graças ao licopeno, substância responsável pela cor vermelha do fruto. Mas a Medicina recomenda comê-lo sem sementes. “Pôxa... daí perde a graça”, assim falou o poeta.
Nos encontros hoje já não tão amiúde, em muita coisa a gente discrepa. Mas há dois pontos de vista que acendem nossos cachimbos da paz à sombra de um tomateiro em flor:
“Água sem gelo não tem gosto”, e “Tomate sem semente não tem alma”.
Lembrei disto porque hoje Sérgio Vaz festeja 50 anos de vida, e 25 de poesia. E também porque aprendi sábado retrasado com o biólogo Fernando Reinach que os pés de tomate enviam mensagens uns aos outros.
Na Europa Antiga, o tomate era apenas planta ornamental. Temiam comê-lo, 
pois julgavam-no venenoso. E o associavam à mandrágora, usada em feitiçarias.
Em novembro de 2013 cientistas japoneses divulgaram uma experiência encantadora. Colocaram potes com tomateiros em dois recipientes de vidro, ligados por um tubo para passagem de ar. Depositaram larvas de insetos herbívoros nas folhas do primeiro grupo de plantas. Por duas horas as larvas devoraram os tomateiros. Durante todo este tempo, os tomateiros do segundo recipiente ficaram recebendo o ar que vinha dos tomateiros atacados.
Terminado o experimento, os cientistas colocaram larvas herbívoras nos tomateiros do segundo recipiente, e recolocaram larvas naqueles que já tinham sofrido ataque. Verificaram que os tomateiros do segundo lote estavam imunes às larvas, enquanto seus “colegas” permaneciam vítimas da fome insaciável dos filhotes de insetos.
Para saber o que estava protegendo as plantas do segundo recipiente, compararam as moléculas das folhas atacadas com as das plantas imunes.
Descobriram que nos tomateiros resistentes havia uma molécula a mais, chamada HexVic. Para saber se era mesmo esta molécula a valente defensora dos tomateiros do segundo grupo, adicionaram HexVic na dieta das larvas. Não deu outra. Elas morriam mais depressa, ou não se desenvolviam bem.
Mas... como é que o HexVic foi parar nos tomateiros do segundo grupo?
Recolheram moléculas do ar daquele tubo de passagem, e nelas descobriram uma molécula bem parecida com o HexVic. Marcaram os átomos desta molécula, e borrifaram nas folhas das plantas sadias. Quando recolheram o HexVic, ele continha aqueles mesmos átomos marcados.
Conclusão: ao serem atacados, os tomateiros do primeiro recipiente liberaram no ar uma substância que foi parar sobre seus vizinhos. Ao receberem este sinal químico, capturaram a molécula precursora e “fabricaram” seu próprio defensivo agrícola, o HexVic.
Esta experiência maravilhosa aconteceu no Departamento de Nutrição e Ciências da Vida, do Instituto de Tecnologia Kanagawa, Japão.

No meu sonho impossível, penso que se tomateiros são capazes de mandar alertas aos seus parentes para que acionem o sistema de proteção, eles bem podem aprender a espalhar versos sobre os tomatais do mundo.

O poeta chileno Pablo Neruda em sua exaltação ao tomate disse que este fruto cor de fogo pega o verão pela cintura, invade as cozinhas, senta repousado nas travessas. Cabe a nós, infelizmente, assassiná-lo; afundar a faca na sua polpa viva, abri-lo em dois hemisférios de vermelho víscera. Para Neruda, o tomate tem luz própria; é um sol fresco, profundo, inesgotável. Casa-se alegremente com a branca cebola, e nos dá de presente a totalidade do seu frescor.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Africanizando os Aires

Performance da poetisa Tula Pilar na Feira do Livro em Buenos Aires - Foto: Lucas Oliveira
É da poetisa Tula Pilar a melhor frase sobre a temporada portenha dos saraus paulistanos:
“Estamos africanizando em Buenos Aires”, escreveu ela com melanínica convicção no seu Facebook, sobre o período de abril a maio últimos, quando poetas da periferia da Grande São Paulo participaram da 40ª Feira Internacional do Livro na capital da Argentina.
Daí cê me pergunta: “Tem negros lá, não?”
Tinha.
Mas faz tanto tempo... Em 1778 o censo apontou 54% de negros no povo argentino em algumas regiões do país. Em 1887 a população negra argentina tinha caído para míseros 1,8%.
Daí, numa espécie de remorso governamental, pararam de contar os argentinos negros. Só retomaram a contagem em 2010.
Hoje os afro-argentinos são apenas 0,4% dos habitantes – não somam 150 mil pessoas; 149.493 pra ser exato.
Negros da Argentina morreram na linha de tiro das guerras que o país moveu no fim do século XIX contra espanhóis, ingleses e paraguaios. Buchas de canhão, como se diz. A febre-amarela fez o resto do serviço.
Por isto foi sintomático o jornal El Clarín, diário de maior tiragem da Argentina, ter estampado a foto de um negro na reportagem da intervenção poética dos sarausistas periféricos no stand da Cidade de São Paulo, convidada de honra do evento literário.
Stand da cidade de São Paulo recebeu bom público em todas as noites de saraus - Foto: Rogério Gonzaga

Fervendo na Feira
A fervura dos declamadores de poemas transformou o stand paulistano num caldeirão de 144 metros quadrados.  “A cidade convidada de honra proporcionou uma experiência imperdível”, anotou logo no início da sua matéria o jornalista Guido Carelli Lynch (lá jornalista é periodista, e repórter, reportero)
Trecho da reportagem do maior jornal da Argentina
Mas, teve gente que fez beicinho. Stands vizinhos pediram para baixar o volume do som no espaço da Grande Sampa. Foi uma “decisión antipática”, concordou o repórter no seu texto publicado. Entonces, os poetas passaram a declamar mais alto. “Não era uma apresentação, era um sarau”, arremata o amável reportero.

Na duração da Feira do Livro, de 22 de abril a 12 de maio, Buenos Aires recebeu muitos paulistas ilustres. Vários artistas da TV Globo. Grandes nomes da música paulistana: Tulipa Ruiz, Arnaldo Antunes, Criollo.
Mas só o povo dos saraus poéticos foi louvado pelo maior jornal argentino – a página 44 toda, e avançou mais uma coluna inteira, do topo ao rodapé, da página 45.

Isto acontece porque há, nos saraus, muito do modo africano de viver. A fala expansiva. Os gestos eloquentes. O riso largo transpirando energia.
O escritor norte-americano Henry Miller, filho de alemães, sintetizou sobre o povo negro um parágrafo que encaixa direitinho naquilo que vemos e vivemos nos saraus de boteco. Dá até pra pendurar na parede da memória do finado Bar do Binho:
“É um privilégio fazer parte de uma multidão de negros. A atmosfera está sempre sobrecarregada. A intervalos, soam gargalhadas estrepitosas, ejaculações misteriosas, acessos autênticos de riso como nunca se ouviram de gargantas de gente branca. Os brancos carecem de espontaneidade. Quando riem, raramente o riso vem das entranhas. O negro ri tão facilmente quanto respira”. (H. Miller – Plexus)
Talvez seja a perda desse DNA que tornou a Argentina meio soturna, adernando para o melancólico.

Apontamentos sobre a estação portenha
Andei colhendo algumas impressões que a viagem causou em colegas de aventura poética nas margens do Rio de La Plata.

Mara Esteves
Terça-feira, 6 de maio
Eita, que estamos de volta!
Devido à intensidade dos dias passados em Buenos Aires, junto com o bando de andorinhas do Sarau do Binho, demorei alguns dias para refletir sobre tudo o que marcou nossa passagem por terras porteñas.
Intenso, assim defino o que foi participar dessa empreitada à la Donde Miras, e fazer parte dessa linda invasão poética das periferias de São Paulo à Argentina.
Foi lindo e emocionante ver e participar desse momento histórico para todos nós, como para os hermanos que nos receberam tão bem. Acredito que não irão esquecer de nós tão fácil assim, rs. E que as parcerias só estejam começando!
Conviver 24 horas com um grande número de pessoas e cheias de energia não é tarefa fácil. Porém ninguém disse que seria. Exige preparação e reflexão para compreender que todos estavam no mesmo barco, navegando na mesma direção, mas que somos heterogêneos e portadores dessa multiplicidade cultural.
Por isso digo a quem quiser ouvir: Agradeço por todo o aprendizado e troca que tive com cada um que esteve presente nessa caminhada. A cada dia sinto necessidade de melhorar, de evoluir como ser, e fico feliz por poder aprender com vocês parceiros de caminhadas, de sonhos e de lutas.
Agradeço de todo o coração à aqueles que tiveram paciência em lidar com a minha ansiedade (coisa em mim que preciso melhorar e muito), minha insegurança e minha inexperiência em caminhar em bando. E de todo o coração a nossa querida e amada Suzi Soares e Binho, tão gentis e generosos com todos. Sou grata e abençoada por tê-los por perto nessa vida!


Dora Nascimento
Segunda-feira, 5 de maio
Somamos alegria, entusiasmo.
Multiplicamos sorrisos, abraços, e poesia.
Dividimos vinho, cerveja, pão, e macarrão.
Estreitamos laços, andamos, rimos.
O calor humano esquentou,
E a poesia ecoou na Feira.
Eita barulhinho bom.
Muitos momentos vamos repassar na memória...
Carinho muito grande por todos vocês.
Foi contagiante estar junto com toda essa moçada. .




Suzi Soares
5 de maio
Estamos de volta! Estou feliz e com a sensação de dever muito bem cumprido. Agradeço a todos que compartilharam esta semana, foi maravilhoso ver cada um solto pelas ruas de Buenos Aires praticando seu "Portunhol" , que como disse Sarau do Binho, é a língua do futuro. Os saraus foram lindos e o que fica de mais importante nesta viagem foram o encontros e a troca. O encontros com os artistas de outros saraus de SP, com os artistas e hermanos argentinos, com a outra língua, que é quase nossa, encontros de irmãs que não se viam há muito tempo, e também do choripán com chimichurri (mistura perfeita ). Gracias a la vida, gracias a todos!



Camila Brasil
Segunda-feira, 5 de maio
De volta a São Paulo, depois de uma iluminada e maravilhosa semana em Buenos Aires com o Sarau do Binho. Agradeço imensamente por todo o aprendizado e pela troca. Gratidão a Buenos Aires por ter nos recebido tão bem. Gratidão Suzi Soares, por todo o Amor e dedicação. Sou muito grata ao universo pela oportunidade de ser parte de vocês. Parabéns a todos os saraus, cada um com sua singularidade. Muito feliz!



Flávia D'Álima
5 de maio
O mundo aí que a gente vive é cheio de coisas toscas, e chatas, e desigualdades, e momentos e situações infelizes. Se for pra listar, vixe maria! Vai faltar espaço aqui nesse quadrado, e se bobear muita gente corta os pulsos... Mas também é um lugar com gente linda, que une as pessoas, independente dos ideais, posições políticas e chatices de cada um. Gente que agrega e vai aumentando a família, vai causando alvoroço onde quer que chegue, vai plantando gentilezas e esperança no coração da gente. Essa semana isso ficou claro, e é bonito de ver, e poder estar junto, e é nisso que acredito, no estar junto, porque ninguém nessa vida faz nada, nada sozinho.
Suzi sua danada, Binho querido, gratidão pela semana, pela viagem, por tudo que vivemos em terras argentinas e tudo mais. Dias felizes, viu? E viva! Viva aquela esquina do boteco que aproximou tanta gente. Que deu asas a tantas andorinhas.



Anne Alves
Domingo, 8 de junho

Precisei ir até Buenos Aires pra perceber que encontros como esses são de extrema importância. Lá aconteceu a união das quebradas, dos coletivos, que não acontece aqui. Onde a distância é bem menor.



Helena Silvestre
Domingo, 4 de maio
Primeiro que tudo, queria agradecer a vida, que por diferentes estradas nos levou a um bar no Campo Limpo e permitiu que pudéssemos cruzar as estradas de muitos e muitas e nos engrandecer.
Queria, depois, agradecer a duas pessoas que, por diferentes motivos nos marcam a referência de gente, de humanos de sonhadores, de compartilhadores de futuro: À Suzi Soares e ao Binho, um brinde.
Alguns me conhecem e sabem de minhas posições políticas em relação à vida; por elas, o Sarau do Binho sempre foi um lugar onde me senti em casa, não porque todos pensam como eu, não porque todos pensam igual, porque neste espaço sempre pudemos pensar diferente e mesmo assim ser companheir@s. A honestidade e a franqueza são revolucionárias também.
Queria agradecer a todos e todas que dividiram este momento de ir a lugares estranhos falar de quem somos, que nos ajudamos, que nos emprestamos dinheiro, que nos indicamos lojinhas, pois víamos nelas a cara de algum amigo, de algum poeta.
Queria agradecer à feira do livro que, por sua quadradice, nos reafirmou a certeza de que nossa arte e nossa cultura não cabem nos esquemas dos stands para venda. Nossa arte não cabe nos stands, não cabe na bolsa de valores, não cabe nos esquemas mesmo.
Voltamos mais inteiros, mais engrandecidos pelas histórias compartidas e agora, nos fortalecemos para seguir com uma cultura e uma arte de libertação, em São Paulo, em Buenos Aires, em Macondo ou nos sonhos de Macunaíma.
Somos favela em qualquer lugar, somos trabalhadores em qualquer lugar, e a leva de funileiros poetas, gráficos poetas, camelôs poetas e etc, se engrandece e aprofunda sua identidade como arte de quebra dos esquemas mofados da literatura de balcão.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Coveiro de Campo Limpo trabalha em seu terceiro livro

Enquanto sepulta os corpos, o coveiro Tico tem ideias para novas estórias. Foto: Karin Salomão
Para o coveiro Francisco Pinto de Campos Neto, o Tico, já vai longe a infância feliz vivida no Jardim Umarizal onde ele nasceu, na região do Campo Limpo, zona sul da capital de São Paulo, no limite com o município de Taboão da Serra. Mas, graças ao Sarau do Binho, também surgido na mesma região, Tico, aos 55 anos, vive um feliz recomeço da sua existência atribulada. Ele prepara o seu terceiro livro, desta vez um romance – os dois anteriores foram de contos.
“Sem parecer pretensioso, quero que meu próximo livro chegue para arrebentar. Meu plano é terminá-lo em um ano”, disse o coveiro-escritor à repórter Taísa Szabatura. A matéria saiu no último número da revista Superinteressante, edição de maio/2014.
Ele esteve internado por cerca de 20 vezes em clínicas para viciados em cocaína e álcool. Mas a crueldade dos tratamentos sempre o impelia a fugas. Até que se libertou das drogas pelo seu próprio esforço.
Em maio de 2013, Tico, conhecido como o “Charles Bukowski do Campo Limpo”, ganhou o Prêmio Carrano da luta contra a internação em manicômios.
Francisco foi resgatado para a literatura por Robinson Padial, 
criador do Sarau do Binho. Foto: Fernando Pastorelli

Salvo pelo Sarau
No ano 2012, pouco antes de se tornar coveiro, Tico procurou o Sarau do Binho, na época realizado no Bar do Binho, no bairro Campo Limpo. O boteco estava nas últimas. Ferido de morte pela burocracia da prefeitura paulistana, o bar foi definitivamente fechado em junho daquele ano. Não sem antes salvar uma vida para a literatura brasileira.
Além do apoio cultural, Binho deu abrigo e comida a Tico, que na ocasião morava nas ruas.
O primeiro livro de Tico – “Elas, etc” – saiu em 2006, patrocinado por um amigo. “Ninguém leu”, conta o autor. Já o segundo título, “As Núpcias do Escorpião”, teve melhor sorte. Robinson Padial, o Binho criador do sarau que leva seu nome, encaminhou Tico para a Agência Popular de Fomento à Cultura Solano Trindade, que financiou os primeiros 500 exemplares.
A obra foi “abençoada” por Zé do Caixão, pseudônimo do cineasta macabro José Mojica Marins. “Numa escala em que só Edgard Allan Poe pode levar nota 10, eu dou nota 8,5 para ele”, disse o cineasta. O vaticínio do artista famoso rendeu uma segunda edição de “As Núpcias do Escorpião”, que vai saltar dos 500 exemplares para mais 2 mil cópias.

A vida entre as mortes
Enquanto sepulta corpos de segunda a sexta-feira das 9h às 16h no Cemitério da Consolação, região central de São Paulo, Tico vai tramando novas estórias. A maioria delas inspiradas em seu próprio calvário pessoal. Dos 10 contos de “As Núpcias”, quatro deles são ambientados nos manicômios por onde o autor passou nas guerras contra o vício.
A dependência química de Tico, que já era terrível, levou-o ao fundo do abismo em 2010, quando sua mãe morreu. A compulsão por escrever foi sua melhor terapia.
Filho de motorista e ônibus e empregada doméstica, ambos falecidos, Tico escreve desde os 14 anos de idade. Chegou a ser aprovado na faculdade de Letras da USP em 1980, mas os entorpecentes abduziram o seu talento.
Se a admissão na melhor faculdade do país não conseguiu desentortar o seu caminho, Tico aprumou sua vida ao passar no concurso para coveiro em abril de 2012.
“Nunca escrevo no cemitério porque nem dá tempo. Faço isto à noite, no quarto da pensão onde moro. É pequeno, mas é meu”.

Fique a lição às “autoridades” do verdadeiro crime que cometem quando fecham um ambiente devotado à Cultura. O coveiro-escritor é prova eloquente de quantos seres humanos podem ser salvos de si próprios, graças à simples existência de um lugar onde pessoas trocam experiências literárias e de vida.
Fotos que fiz no início de 2012, quando o Sarau já se realizava ao relento, diante das portas fechadas do extinto bar.
Foto: David da Silva, 16.jan.2012
Foto: David da Silva, 16.jan.2012
Foto: David da Silva, 16.jan.2012
Foto: David da Silva, 16.jan.2012
Foto: David da Silva, 16.jan.2012

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Grupo coral de Taboão da Serra empolga público em Osasco

Grupo coral Vozes em Movimento - Foto: David da Silva
Foi um breve giro por três continentes a bordo de quatro canções. A primeira apresentação em público do grupo coral Vozes em Movimento, da Associação Músicos do Futuro, de Taboão da Serra, se deu durante um encontro de corais no município de Osasco no último sábado, dia 31 de maio. O grupo taboanense com jovens de 12 a 21 anos cantou músicas da África, da Europa e da América (do Norte e do Sul).
O 1º Encontro de Corais no Conservatório Villa-Lobos, da Fundação Instituto Tecnológico Osasco, lotou o auditório. Além das 218 poltronas fixas, foram necessárias cadeiras extras, e ainda assim havia pessoas sentadas nos degraus da platéia.
O comando do evento foi da maestrina Mara Campos, que dá aula de canto coral na Associação Músicos do Futuro. A maestrina é uma das maiores autoridades brasileiras na sua área. É fundadora do Coral da USP, do coral do Teatro Municipal de São Paulo, dos corais infantil e juvenil da Escola Municipal de Música de São Paulo, e do coral da Escola de Belas Artes do Paraná. Neste Estado também organizou por mais de 20 anos a Oficina de Música de Curitiba.
No campo internacional, Mara Campos regeu os coros ingleses BBC Singers, New Colege e The Sixteen; criou o coral da Aliança Francesa, e participou da gravação do CD Villa-Lobos, em Paris.
Casa cheia para os jovens cantores de Taboão da Serra em Osasco
Foto: David da Silva

Seduzindo olhos e ouvidos
Quem ouve o grupo coral Vozes em Movimento custa a crer que cantam juntos a apenas 90 dias. Como o próprio nome revela, a metodologia da maestrina Mara Campos trabalha com abordagens artísticas que somam expressivamente as linguagens do corpo e da voz.
O público veio abaixo com a interpretação de uma cantiga medieval espanhola. É um daqueles momentos em que as lágrimas ficam à disposição dos olhos. Surgida no século 16, de autoria desconhecida, Pase el agoa gruda na memória auditiva da pessoa. É uma criação impressionante, de melodia alegre e ritmo brilhante. A linha vocal chega no topo já na segunda nota. Como fosse um salto atlético convidando a dama da canção a pular por sobre a água para seguir com seu amado ao jardim colher rosas.
Também arrancaram aplausos a cantiga gospel dos negros dos Estados Unidos, e um hino do compositor sul-africano Stephen Cuthbert Molefe (1917-1987), cantada no idioma xhosa, a língua da tribo onde nasceu Nelson Mandela. A participação dos 13 jovens (seis rapazes e sete garotas) de Taboão da Serra fechou com uma linda canção brasileira.
Todos os integrantes do Vozes em Movimento estudam instrumentos na
Rua Nair Marques de Souza, 129 - Jardim Maria Rosa 
Taboão da Serra – Telefone: 4787-8277
Associação Músicos do Futuro. Thainá Rios, 16 anos, está na associação desde 2010 e estuda violino. Ester Rosa William, 16 anos, chegou à associação no final de 2011 e estuda violoncelo. Stephannie Mendes, 16 anos, estuda violão erudito desde 2008. Débora Cabral iniciou em meados de 2011 seu aprendizado de clarinete. Amanda Santos há um ano e meio estuda trompete. Gabrielli Coelho, 17 anos, estuda flauta desde fevereiro de 2011. Iandra Cabral, 18, aprendeu flauta transversal na associação. Miquéias Leme, 16 anos, estuda trompete desde 2008. Sidney Júlio, 21 anos, é percussionista. Arthur Bernardes, 13 anos, iniciou no ano passado o estudo da flauta transversal. Mateus Cabral, 12 anos, estuda trompete. Ygor Rodrigues, 16 anos, estuda violão desde 2011. Renan Vitor Santana, 16 anos, desde o início de 2012 estuda clarinete.



quinta-feira, 29 de maio de 2014

Subterrâneos de Buenos Aires

Estação Retiro do metrô de Buenos Aires foi inaugurada em 1936.
Foto: David da Silva – 05.maio.2014
O metrô que me levou até a estação Retiro, na zona leste de Buenos Aires, estava todo grafitado.
Até setembro do ano passado, dos 567 vagões do metrô da capital argentina, 399 deles estavam cobertos por pinturas graffiti.
Antes que você (que adora graffiti, eu sei) ache isto bonitinho, aviso logo. Não é uma integração da Metrovias com a cultura de rua. É o rastro colorido da rebeldia nas entranhas da metrópole portenha.
Os próprios grafiteiros com quem conversei no bairro Palermo, zona norte da cidade, dão a letra: “No dia que autorizarem a grafitagem dos trens, a gente pára. Gostamos de ser ilegais”.
Devido à crise econômica do país, a Companhia do Metrô havia parado de remover os graffitis. Cada limpeza de vagão custa em torno de $ 35 mil a $40 mil pesos argentinos. Por questão de economia, limpavam apenas as janelas. E reduziram os gastos com o pessoal da segurança.
Trem grafitado antes de começar a funcionar
Agora o caldo entornou. Antes de ontem, terça-feira, dia 27 de maio, a própria presidente Cristina Kirchner soltou os cachorros pra cima da galera grafiteira. “Não se trata de denunciar. É defender. Não é justo que se queime o estofamento dos bancos do metrô com bitucas de cigarros, que rabisquem ou escrevam [nos vagões]”.
Dona Cristina ficou puta porque os trens novos da linha Sarmiento, entregues na sexta-feira passada, ainda nem entraram em operação, e já amanheceram grafitados no domingo.

O sistema subterrâneo de trens em Buenos Aires foi inaugurado em 1913. Mas 27 anos antes, desde 1886, já havia planos para transportar a população bonaerense por debaixo do chão.
Mendigo na estação Retiro, zona leste da capital argentina.
Foto: David da Silva – 05.maio.2014
Os argentinos chamam o seu metrô de SubTe.
Deixar sua marca com traços e cores no metrô é a grande adrenalina dos manos (e algumas minas) do lugar.
A tinta spray mais utilizada pelos artistas clandestinos é a Kwait, de fabricação argentina. Custa em torno de $ 25 pesos. Os mais afortunados preferem a marca Montana, importada da Espanha - $ 45 pesos a lata.
Para as invasões noturnas das oficinas onde os vagões dormem, os grafiteiros costumam dar maços de cigarros para os cartoneros (catadores de papel) que dormem nas ruas em torno dos pátios de manobras e manutenção do trem metropolitano. Mas esses cartoneros também costumam caguetar os grafiteiros para a polícia. Afinal os guardas os deixam dormir naqueles locais para ajudarem na vigilância informal. E os mendigos atuam assim, no jogo duplo, conforme suas conveniências.

Mano grafiteiro parte para mais uma missão
A moral de um grafiteiro é medida pela sua ousadia. Uma bomba (marca pessoal simples) em um vagão pode ser coberta por um cromo que leva preenchimento prateado. Um cromo pode ser coberto por uma pieza, que é um graffiti mais elaborado. Já uma pieza pode ser coberta por um end to end, graffiti que vai de ponta a ponta do vagão. Um end to end pode ser coberto com um whole car – vagão inteiro. O whole car pode ser coberto pelo triple whole. A glória das glórias é o whole train – grafitar o trem inteiro.

A Subterráneos de Buenos Aires Sociedad Del Estado contratou em 2013 uma firma especializada em remoções de tintas. A empresa desenvolveu um produto que retira o grafitti sem prejudicar a pintura original dos vagões. Depois de meia hora aplicada sobre o desenho, a substância faz a tintura artística secar e pode ser removida como fosse uma pele ressecada. Depois disto é aplicada sobre o trem uma solução química anti-graffiti. Caso ocorra um novo “ataque”, é só limpar com um trapo embebido em álcool.

Binho em Buenos Aires, a terra do choripán

Quiosque onde fiz minha última refeição em Buenos Aires. Na entrada 
da Plaza Puerto Argentino, em frente ao aeroporto Jorge Newbery
Aqui se vende um dos melhores choripán da cidade.
Não. Eu não comi choripán em Buenos Aires.
Nem mesmo na saideira. Minutos antes de pegar o avião de volta a Sampa, estive prestes a provar a iguaria. Mas optei pelo lomito, outro sanduíche típico da culinária argentina. Nos nove dias por lá, choripán pra mim foi tipo o caviar do Zeca Pagodinho (“nunca vi, nem comi, eu só ouço falar”).
Quem me enfiou na cabeça a curiosidade (“Come choripán, David”... “Prova choripán, cê vai gostar, David”) foi a Suzi Soares, primeira-dama do Sarau do Binho. O sarau foi um dos convidados de honra da 40ª Feira Internacional do Livro de Buenos Aires.
Este rango é uma verdadeira mania nacional argentina. Idosos e crianças, pobres e ricos, a todos le gustan o bendito choripán. Está entre os 10 pratos mais importantes do país, junto com o churrasco, o bife à milanesa com batata e o fideo con tuco (macarrão ao molho de tomate com carne).
Choripán na Argentina tem o dom da ubiquidade.
Você nem bem botou os pés no chão, o choripán começa a fazer parte da sua vida. Já da janelinha do avião se avistam pontos de venda de rua (puntos de ventas callejeras) deste alimento na Avenida Costanera Norte, que margeia o Aeroparque Jorge Newbery.
É assim por todo canto. As carretillas de choripán em Buenos Aires são o equivalente aos nossos carrinhos de cachorro-quente ou o churrasquinho-de-gato de cada esquina.

Choripán é sanduíche de pão francês com lingüiça assada na brasa (chorizo asado na língua lá deles) regado a molho chimichurri. O nome vem da junção de chorizo (chori, na intimidade) + pão (pan em espanhol). O consumo nacional é de 600 milhões de choripans por ano.
A choripanera Rocío trabalha em lanchonete de Córdoba

Invenção de vaqueiros gauchos (eles pronunciam gáutchos) do século XIX, o choripán logo dominou campos e cidades. O chimichurri também nasceu no século XIX,criado pelo inglês Jimmy Curry. O gringo bolou este molho em agradecimento ao big churrasco que os gauchos argentinos lhe ofereceram logo na sua primeira viagem para importar carne para a Inglaterra.

A linguiça do choripán não é um chorizo qualquer. É um embutido especial de carne bovina + carne de porco + condimentos (alho em pó, noz moscada moída, orégano, pimenta-caiena moída, erva-doce, colorau, cravo e canela). O molho chimichurri original leva pimentões (verde, amarelo, vermelho), alho, cebola, tomate, orégano, alecrim e tomilho.