quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Passos do Senegal em Campo Limpo e Taboão

Ambulante senegalês na Estrada do Campo Limpo - Foto: David da Silva - 10.nov.2020

Por David da Silva

A paronomásia “ser negão no Senegal deve ser legal” criada por Chico César na sua canção mais famosa [“Mama África “, de 1995] não faz sentido algum para os 5.995 senegaleses que em dezembro de 2019 aguardavam o visto de permanência no Brasil.

É sofrido ser negão no Senegal.

Segundo a Polícia Federal, 14.106 senegaleses migraram para o Brasil entre os anos de 2010 a 2017. De janeiro a outubro de 2014, os senegaleses foram o povo que mais solicitou refúgio no Brasil – 1.687 pedidos. O número caiu drasticamente de janeiro a maio de 2020: apenas 173 pedidos de refúgio devido ao fechamento de fronteiras por causa da pandemia.


Foi a canseira nas pernas que levou Birame a sentar-se ao meu lado no bar Fecha-Nunca, zona sul de São Paulo. Estudante do 3º ano de Direito na Université Cheikh Anta Diop, ele meteu o pé na estrada empurrado pela grave crise econômica do seu País. Foi com Birame que estabeleci o primeiro melhor contato com imigrantes senegaleses que percorrem as ruas de Campo Limpo e Taboão da Serra. Ele fala francês (língua oficial do Senegal), inglês, espanhol e principalmente wolof, idioma nativo da África Ocidental e dominante entre o povo senegalês. A grande maioria dos imigrantes senegaleses que batalha como vendedor ambulante não sabe ler ou escrever, o que dificultava nosso diálogo. Com Birame aprendi algumas frases básicas da língua wolof, e até receita do prato mais típico da sua nação.

Agora é comum eu cruzar com senegaleses na nossa quebrada e trocar cumprimentos como Sama xarit, na nga def?” e eles sempre sorridentes respondem Maa ngi fii”.

Pelo seu bom grau de instrução, Birame não perambula mais por Campo Limpo e Taboão vendendo relógios, tênis, bijuterias, etc. Meus bate-papos mais constantes agora são com Diop Issa, 25 anos, que se mandou do Senegal em 2015, e só depois de dois anos e meio andando como clandestino pelas nossas ruas teve atendido seu pedido de permanência no Brasil.

Senegalês mostra produtos a clientes em restaurante - Foto: David da Silva - 19.maio.2016

Em 2017 o Conselho Nacional de Imigração deferiu 2.285 autorizações de permanência de senegaleses. A fila de espera tangencia hoje 6 mil pessoas como se viu no parágrafo de abertura.

Nessa reportagem você vai seguir passo a passo a saída de senegaleses da sua terra natal até chegar aqui.

Foto: David da Silva - 08.out.2020

O chamado da carne

A primeira grande leva de imigrantes senegaleses veio ao Brasil trabalhar nos frigoríficos que aderiram ao abate Halal, visando exportar carnes para países muçulmanos. O abate Halal só pode ser executado por praticantes do islamismo, seguindo regras rígidas do Alcorão. Segundo a pesquisa “Os novos rostos da imigração no Brasil”, publicada em 2014, mais de 300 empresas brasileiras vendem carnes para cerca de 40 países de religião muçulmana, que é a crença predominante no Senegal.

O número de carteiras profissionais emitidas no Brasil para imigrantes senegaleses saltou cinco vezes de 2012 para 2013 e chegou a 2.657 em 2016. Mas não há facas para tantas mãos, e quem não conseguiu emprego na indústria frigorífica teve de pegar o rumo da rua como camelôs.

Carteiras profissionais emitidas para senegaleses no Brasil

Inferno na Terra Prometida

A vinda do Senegal para o Brasil, pelo sofrido caminho dos imigrantes ilegais, custa em torno de 6.500 dólares. As famílias e os amigos ajudam com o que têm, fazem vaquinha, e colocam o filho pródigo no avião. Metade do que ganham aqui é mandado para lá em retribuição.

Meu amigo Diop Issa partiu da cidade de Mbacké, a 190 km de Dakar, capital do Senegal.

Se voasse de Dakar para SP, com escala na Espanha, seriam em torno de 19h a 23h de viagem. Mas o sendeiro dos excluídos é comprido e pedregoso.

Uma reportagem de junho de 2017 descreve Mbacké como uma comuna onde centenas de famílias “vivem em pobreza extrema e indescritível”. Foi para fugir dessa estatística que Diop Issa juntou toda a grana que podia e pronunciou o nome de São Paulo.

O voo Dakar-Madri leva de quatro a cinco horas. De Madri a Quito, mais 11 horas e meia. O ingresso na América via Equador é porque aquele País não exige visto de entrada de estrangeiros.

Arte: Guilherme Gonçalves | Zero Hora

Na capital equatoriana os senegaleses iniciam uma jornada terrestre de nove dias até o Acre, passando por Lima, capital e o interior do Peru. Se por ventura tiverem de vencer algum trecho a pé, são atacados por malandros que abordam os imigrantes fatigados fingindo querer ajudá-los, mas tomam suas malas e somem no meio da mata. Os que não roubam, exigem propinas de 20 dólares para não denunciá-los à polícia. A polícia peruana é bandida. Intercepta os ônibus lotados de imigrantes e cobra “pedágios” de 100 a 200 dólares pra liberar a estrada. Exaustos de extorsão, os sofridos senegaleses finalmente veem a placa da fronteira Peru-Brasil.


São Paulo ainda está a 4 mil km de distância. Mais 79 horas de rodovia. Quase 4 dias pela frente

Ao entrar em nosso território por Assis Brasil, os viajantes têm duas escolhas de locomoção – os próprios pés ou os tristemente famosos táxis-lotação. Enquanto não chegarem a Rio Branco, a mais de 300 km, onde podem oficialmente pedir refúgio, os senegaleses são considerados clandestinos. Os taxistas podem negar o transporte ou exigir o dobro do que cobram de outros passageiros.

O fim da saga senegalesa

No auge da revoada senegalesa, o governo do Acre reservava um alojamento sórdido para imigrantes africanos e caribenhos. A imundície do lugar era um estímulo a mais para os peregrinos saírem dali o mais rápido possível.

Quando o campo de refugiados incha (como inchava) demais, o governo estadual aluga ônibus para despachar os visitantes incômodos.

Na ruazinha de terra onde os senegaleses se abrigam o motorista do ônibus age como um Moisés abrindo um mar vermelho:

- São Paulo! São Paulo! Bora comprar passagem logo, macho. Pro ônibus ir embora logo, macho.

Mesmo quem tá com a grana, costuma fazer hora, na esperança de conseguir poltrona no ônibus grátis do governo. Isso atrasa a saída do ônibus pago por dois ou mais dias.

Com a lotação completa, novo capítulo da saga senegalesa. A travessia do Rio Madeira por balsa encanta e assusta. A Ponte Abunã de 2 km de comprimento iniciada em 2014 já ‘comeu’ mais de R$ 130 milhões e ainda está em obras. Prometeram inaugurá-la em setembro de 2019. Adiaram para o fim de 2020. Mas nada nem ninguém garante.


Três dias e meio depois de escapar do inferno em Rio Branco, os senegaleses têm à sua frente a Rodoviária do Tietê e uma São Paulo plena de possibilidades.

A maioria dos que conheço mora em uma república em um prédio de fachada arredondada na Avenida Ipiranga, nº 73, a poucos metros do Consulado Honorário do Senegal, naquela mesma avenida.

Prédio alugado por senegaleses na esquina da Avenida Ipiranga com Rua Consolação 
Foto: David da Silva - Apoio: Táxi Lucas

Mais problemas à vista (e a prazo também)

Em uma medida intempestiva, e sem dar nenhuma explicação, o presidente do Senegal, Macky Sall, trocou todo o seu ministério no último 28 de outubro. Diz que é para enfrentar os efeitos econômicos da crise sanitária mundial. Só que ele está no poder desde 2012, muito antes da pandemia, já foi primeiro-ministro do País em 2004, e a diáspora senegalesa ainda é uma hemorragia que não estanca.

O coronavírus está sendo um aliado do presidente senegalês para adotar medidas autoritárias.

Na semana passada, em 17 de novembro mais de 300 pescadores do Senegal voltaram do mar com com seus corpos todos cobertos de bolhas, uma misteriosa moléstia de pele que especialistas classificam como doença tóxica de origem desconhecida.

Não é nada fácil ser negão no Senegal

Foto: David da Silva - 19.nov.2020

sexta-feira, 29 de março de 2019

O indigenista que incitou a construção do CEMUR

Foto: Eduardo Toledo

Aniversariante do ano.
 Inaugurado em 1979, CEMUR vai completar 40 anos em 23 de novembro


David da Silva

Na manhã de uma 5ª-feira, 2 de dezembro de 1976, em Taboão da Serra um Volkswagen intercepta outro da mesma marca. Os motoristas descem dos carros, e vão conversar na calçada em frente à Escola Estadual Wandick de Freitas. Quem olhasse de longe podia imaginar briga de trânsito. “O Armando Andrade estava recém-eleito prefeito, ia assumir o cargo dali a alguns dias, e me parou para fazer um convite”, explica Antonio Carlos Fenólio, um dos protagonistas daquele papo na beira da rua.
Fenólio lembra com detalhes cromáticos o episódio. “O Armando tinha um fuscão cor de abóbora, e o meu era um fuscão azul. Ele emparelhou comigo, fez sinal para eu encostar, e ali mesmo, na calçada, perguntou se eu aceitava colaborar com o governo dele na Educação e Cultura”, relata o mestre, na época diretor da E.E. Aracy de Abreu Pestana.

O grande cacique branco

Para fazer boa estreia na administração municipal, Fenólio buscou conselho com seu pai, que já tinha experiência política em Espírito Santo do Pinhal (SP) - o prédio da Câmara de Vereadores daquela cidade leva o nome dele. O velho sugeriu um seminário sobre as vertentes da cultura brasileira. Fenólio convidou o sertanista Orlando Villas-Bôas. O homem era um herói nacional. Com seus irmãos Cláudio e Leonardo, desbravou o oeste do Brasil, abriu caminhos que serviram de base para construção de estradas, fundou cidades, fez contato pacífico com tribos indígenas, e idealizou o Parque Xingu, sendo seu primeiro diretor. Os líderes dos povos da floresta o consideravam ‘o grande cacique branco’. O herói aceitou vir a Taboão da Serra para o seminário Formação do Povo Brasileiro que Fenólio ia organizar.
Orlando Villas-Bôas era idolatrado pelos povos da floresta

Mas  Orlando Villas-Bôas tinha um requisito para vir. Contador incomparável de ‘causos’ que viveu em longos anos embrenhado na selva amazônica, ele atraia multidões. “O Orlando ponderou comigo que não fazia palestras para pequenas plateias”, relata Fenólio. “Disse que seria adequado um local para 500 pessoas. Fui atrás deste espaço”.

Corrida contra o relógio

O falecido prefeito Armando Andrade costumava dizer que a construção do CEMUR (Centro Municipal de Recreação e Cultura) foi uma “corrida contra o tempo para cumprir o que eu havia prometido” durante um baile beneficente realizado fora do município em 1978.
Mas faltava ainda um ano para o ex-prefeito fazer essa promessa, e Fenólio tinha pressa em encontrar o lugar para Orlando Villas-Bôas falar. “Fui com o José Carlos, do Departamento de Engenharia da prefeitura, ver se o pátio da Escola Estadual Alípio comportaria as 500 pessoas, mas os cálculos mostraram que não”.
Frustrado o plano de ter o grande sertanista entre nós, ficou patente que o município não podia mais esperar. Foi o que impulsionou o então prefeito a pegar o microfone durante o baile no extinto Club Solar dos Amigos.  “Eu assumi naquele momento, publicamente, o compromisso de que no ano seguinte essa falta de local apropriado estaria corrigida”, escreveu em uma crônica publicada no site O Taboanense.
Na seta, área desapropriada para construir o CEMUR. Foto 2: Etapa final da obra em outubro de 1979.

Erguido em frente à praça principal da cidade, o CEMUR completará 40 anos em 23 de novembro. No seu palco já se apresentaram figuras míticas da cultura brasileira como o dramaturgo Plínio Marcos e o compositor Belchior.
“Quando o CEMUR ficou pronto não consegui mais Orlando Villas-Bôas, pois era muito requisitado para palestras no Brasil e no exterior. Mas se já havia na época intenção de levantar o Cemur, o Orlando foi a gota d’água, o acelerador que coroou a ideia”, aponta Fenólio.
Fenólio, 73 anos, foi vereador por 3 mandatos e secretário da Educação e Cultura de Taboão da Serra - Foto: David da Silva, 20.dez.2018

terça-feira, 19 de março de 2019

Terceiro livro de Luan Luando é 100% dedicado às pipas

Luan Luando reflete lições de vida nos poemas sobre sua infância debaixo de um céu recheado de pipas
Foto: David da Silva, 08.dez.2017


David da Silva

Nas publicações anteriores de Luan Luando, as pipas dividiram páginas com poesias sobre outros assuntos. Já o inédito Tá na Mão é totalmente temático. Com o novo livro, Luan fecha a trilogia iniciada em 2011 com Manda Busca, seguida de Rélo (2017). A obra será lançada provavelmente no segundo semestre de 2019.
Os títulos da trilogia referem as três mais importantes manobras na arte de empinar pipas – ‘manda busca’ é quando a pessoa põe sua pipa no encalço de outra; ‘rélo’ é o ato de fazer a linha de uma pipa roçar na linha da outra cortando-a ou enlaçando-a, concluindo com a posse do objeto perseguido (‘tá na mão’).
De ascendência baiana, filho da doméstica Aureni de Jesus e do alfaiate José Felício, o menino nasceu em Osasco e cresceu no Jardim São Judas, zona periférica no sudoeste da Região Metropolitana de São Paulo onde Taboão da Serra faz limite com Embu das Artes.
Luan passou toda sua infância “de cara pra cima atento na imensidão”, como diz em seu poema “Dente por dente, presa por presa”. A pipa é a primeira professora de meteorologia da criançada ensinando-lhes os recados das nuvens, e as direções dos ventos.
Afora o aspecto puramente lúdico, a pipa é uma metáfora da resistência cultural deste poeta nascido em 13 de maio de 1988.
E ninguém nasce em 13 de maio impunemente.
Do universo das pipas, Luan Luando extrai lições sobre o lugar onde se criou, a família (vide a pungente poesia “Papagaio de meu pai”), os amigos, o choque social e econômico que marca a fase de crescimento dos jovens dos subúrbios (como exposto no poema “Pipa à prova d’água”), o conhecimento amoroso (como nos versos onde o garoto se depara com “a destemida e misteriosa pipeira”), e uma visão filosófica da existência (refletida na poesia “O roubo dos cascos”).

Pipas de guerra e de Arte

A pipa já nasceu briguenta.
Em Palmares, feitas de palha e palito, as pipas eram o sistema de alarme dos sentinelas avançados da Serra da Barriga. Na China de 1200 anos antes de Cristo, feitas de seda e bambu, conforme suas cores e padrões de desenho, e pelos seus movimentos no ar, as pipas transmitiam mensagens militares nos campos de batalha.
Satélites e drones não conseguem aposentar as pipas. Elas são usadas hoje em dia pelos jovens da Faixa de Gaza. Com artefatos incendiários amarrados na rabiola, as pipas palestinas são um tormento para soldados israelenses, sempre ocupados em apagar o fogo que elas ateiam nos matos e até nas lavouras do território inimigo.
Jovens palestinos na Faixa de Gaza lançam pipas incendiárias. Foto: Khalil Hamra, jun.2018
Mas as pipas não são apenas artefatos indomáveis de arsenais aéreos. Pipa é também fonte de inspiração de grandes mestres. Manuel Bandeira compôs “Canção da Pipa”. Carlos Drummond de Andrade disse em versos que bom “é sentir individualmente a pipa dando ao céu o recado da gente”. Cândido Portinari dedicou uma série inteira a esta temática. Seu quadro “Meninos Soltando Pipas”, pintado em 1941, foi leiloado em Nova York por 1,4 milhão de dólares em maio de 2013.
Na Ciência a pipa também tem sua tribuna de honra como mãe do para-raios. Assim, um dos primeiros heróis de Luan Luando foi Benjamin Franklin “o homem que empinava pipas no meio do temporal, tentando pescar raios”.

A nação chamada infância
O escritor Mia Couto define que “a infância não tem outra nação, se vive ali sempre”.
O céu cravejado de pipas tem seu próprio dialeto, seu código de condutas, e só é acessível a quem não tenha a alma presa pelos carretéis do sistema. Qualquer sistema. Em qualquer ponto do planeta.
Menina empina pipa em Jaisalmer, a “cidade dourada”, próximo à fronteira da índia com Paquistão

Trechos de Tá na Mão, livro de poemas inéditos de Luan Luando
“A chuva traz a majestade do tempo
Que atrasa o movimento dos ponteiros dos relógios nas paredes
confinando pipeiros nas quarentenas dos lares.”
“Pipeiro e seus guias
Estaciona suas latas nas guias das ruas
Linhas emboladas no chão do asfalto
desenham ciclo de círculos infinitos”
“...as pessoas vivem como pipas
enroscadas em bancos, cruzes e antenas parabólicas”

quinta-feira, 14 de março de 2019

Nova HQ de Gau Effe tem medicina high tech, cabala e aventura

Gau Effe dá aulas na Prefeitura de Taboão da Serra. É instrutor de artes visuais, professor de histórias em quadrinhos, ilustrador, cenógrafo, quadrinhista e caricaturista.


David da Silva
                              
Parece ficção, mas está mais perto do que você pensa.
Mini máquinas de tamanhos imperceptíveis a olho nu viajam pelo interior do corpo humano transportando medicamentos, e aplicam o remédio diretamente na célula doente. Pequeninos robôs, seis vezes menores que um glóbulo vermelho, realizam manobras complexas e ‘consertam’ o que está ‘quebrado’ dentro da pessoa.
Esta possibilidade referida pela primeira vez pelo cientista Kim Eric Drexler em 1981, é o tema da nova história em quadrinhos de Gau Effe, que criou o enredo, fez a colorização e assina o roteiro, com desenhos de Daniel Oliveira.
Trecho de NanoStein, que traz a nanomedicina para o universo das histórias em quadrinhos
Eric Drexler tem a primazia de referir engenharia molecular no extremo do invisível aplicada à medicina, mas cabe a Richard Feynman a glória de ter falado pela primeira vez em nanotecnologia em dezembro de 1959.
O termo nanotecnologia vem do grego nánnos, que significa anão. Pra te dar uma ideia de o quanto é diminuta a proporção à qual estou me referindo, um nanómetro é cerca de 1000 vezes menor que a espessura de um fio de cabelo humano. A este nível, consegue-se manipular moléculas, átomos e elétrons.
E é isto o que o personagem cientista Álvaro Mendes de Souza faz no corpo do seu filho Ícaro na HQ inédita que Gau Effe batizou de NanoStein, uma trama bem sacada que faz grandes feitos científicos entrarem em conflito com intriga internacional, fanatismo religioso, organizações criminosas, mitologia grega, política e cabala.
Quando você pegar NanoStein para ler, esteja (ou pelo menos imagine-se) em boa forma física. A história não te dá trégua do primeiro ao último quadrinho.

Tributos explícitos e sutis

Quem bolou o primeiro filme de ficção-científica onde máquinas quase invisíveis de tão pequenas realizam cirurgias dentro do corpo humano foi Otto Klement, que assinou com Jerome Bixby o roteiro de Fantastic Voyage lançado em 1966.
Muitas pessoas atribuem erroneamente Viagem Fantástica a Isaac Asimov. Mas o livro dele foi apenas uma peça promocional escrita por encomenda da produção do filme.
Gau Effe deu à sua nova HQ o título NanoStein pela simbiose da alta tecnologia em escala liliputiana com o clássico Frankenstein, de Mary Shelley, publicado em 1817 e considerado a primeira obra de ficção-científica na literatura universal.
Se na história criada por Mary Shelley o doutor Victor Frankenstein tem como objetivo narcisista a sua consagração como cientista, o personagem idealizado por Gau Effe é movido pelo amor. Frustrado por não conseguir salvar a vida da esposa, o doutor Álvaro Mendes de Souza busca na nanomedicina a cura do filho.
O desafio das novas tecnologias aplicadas à medicina é um elemento de tensão no enredo de NanoStein
O fascínio por Feynman fica patente quando conversamos com Gau Effe.
Quando o entrevistei em sua casa no bairro Parque Albina, em Taboão da Serra, não falamos de Feynman nada além da sua vida em laboratório. Mas este homem incomum no mundo da Ciência também teve uma vida privada bastante peculiar. Richard Feynman integrou a equipe do Projeto Manhattan, que criou a bomba atômica lançada sobre Hiroshima e Nagasaki na 2ª Guerra Mundial. No início dos anos 50 deu aulas no Brasil, e desfilava no bloco carnavalesco “Os Farsantes de Copacabana”. Gostava de fazer batucada na frigideira e de tocar cuíca (diz a lenda que a cuíca causou seu divórcio com a primeira esposa). Mulherengo, todas as noites o doutor Feynman se embrenhava pelos botecos onde garotas faziam strip-tease. Mas durante o dia o renomado cientista não se envolvia com prostitutas. Dedicava-se a assediar as esposas dos seus alunos.
Trecho da HQ inédita NanoStein com roteiro de Gau Effe e desenho de Daniel Oliveira



Peripécias de um desenhador

Modesto como todo bom artista, Gau Effe é instrutor de artes visuais, professor de histórias em quadrinhos, ilustrador, cenógrafo, quadrinhista e caricaturista. Mas na hora de dizer qual a profissão, suaviza o traço: “Sou um desenhador”, diz e enfatiza que qualquer pessoa pode aprender a desenhar.
Eis aqui outro traço de união entre Feynman e Gau Effe – Feynman também gostava de desenhar. Dizia o Nobel da Física: “Eu queria muito aprender a desenhar por uma razão que guardava para mim mesmo. Queria transmitir a emoção que sinto diante da beleza do mundo. É um sentimento de espanto, de admiração científica, que eu senti que poderia ser comunicado através de um desenho para alguém que também sentisse essa emoção”, declarou o cientista. Feynman assinava suas obras de arte sob o pseudônimo de Ofey.
Por sua vida venturosa, o doutor Richard Feynman teve sua biografia transformada em história em quadrinhos com roteiro de Jim Ottaviani e desenhos de Leland Myrick. Até onde sei, este livro ainda não foi traduzido para o português.

Voltemos a Gau Effe.
Foto: David da Silva
Nascido na capital da Bahia, filho de uma sergipana, aos 3 anos foi morar com a mãe no Rio de Janeiro, depois veio para São Paulo onde se formou. No RG ele é Carlos Alberto Ferreira. Dá aulas de HQ desde 1984. O apelido Gau é coisa do tempo da adolescência.
As HQs entraram na vida de Gau Effe ainda na sua fase do Rio. “Lembro do Flecha Ligeira, do Kid Colt, do Zorro. Na época a gente chamava essas revistas de gibis”.
Heróis com superpoderes chegaram aos olhos de Gau Effe por volta de 1964-65 na tela da TV de um boteco carioca, onde pela primeira vez viu Nacional Kid.
Trecho da história em quadrinhos inédita de Gau Effe, que mescla medicina de ponta com grandes intrigas internacionais
Aos 22 anos de idade Gau Effe entrou no Iadê - Instituto de Arte e Decoração, onde o desenho ganhou a queda-de-braço com o teatro. Gau fez parte do Grupo de Teatro Vivará, fundado em 1978 por alunos do Iadê. Vem daí sua vertente de compositor de músicas teatrais e cenógrafo.
O entrosamento definitivo com o lápis veio do convívio intensificado com artistas paulistanos do traço. “Naquela ocasião descobri a revista Heavy Metal, que me levou à original Metal Hurlant, revista francesa de gênios como Moebius, Enki Bilal, Druillet, Rich Corben, Sergio Macedo, entre outros, que fizeram minha cabeça e me instigou a desenhar quadrinhos”, relata.
Gau Effe fez oficinas de HQs na extinta Associação de Artistas Gráficos e Fotógrafos de São Paulo (Agraf), e cursou Caricatura e Animação na FAAP com Rodolfo Cittadino em 1980-81.
Quando decidiu publicar seus quadrinhos, já ministrava oficinas no SESC e estava enturmado com profissionais consagrados como JAL, Gualberto, Franco, Worney, Laerte.
Desde janeiro de 2009 Gau Effe é professor de Desenho e HQ na Prefeitura de Taboão da Serra.
NanoStein será lançado com 68 páginas. Quem der apoio cultural ao projeto terá o nome impresso no livro

quarta-feira, 6 de março de 2019

Tula Pilar tem sua história preservada em arquivo mundial no Polo Norte

Biografia da poetisa está conservada em um cofre no fundo de uma montanha gelada no Círculo Polar Ártico

David da Silva

Agora a poetisa Tula Pilar tem dois endereços. O primeiro, é a residência dela aqui em Taboão da Serra. O segundo, é o arquipélago de Svalbard, no Mar da Noruega, onde desde o último dia 21 de fevereiro a sua história de vida está depositada em um cofre à prova de desastres, a mais de 100 metros de profundidade, em uma extinta mina de carvão.
Svalbard é a última cidade do planeta para quem navega em direção ao Polo Norte. Passou dali, são só geleiras. É a região do imperecível permafrost – o gelo que nunca derrete. A biografia de Tula Pilar foi parar lá pela parceria do Arquivo Mundial do Ártico com o Museu da Pessoa, que transferiu para aquela instituição 100 horas de gravações da sua coleção “Memórias de Brasileiros e Brasileiras”.
O Museu da Pessoa no Brasil tem mais de 20 mil histórias de vidas gravadas. Mas, para integrar o acervo do arquivo global precisou selecionar os relatos de apenas 300 pessoas. Tula Pilar foi uma das escolhidas.
O Arquivo Mundial do Ártico foi fundado em março de 2017 graças à associação da PIQL, empresa de ponta em preservação de arquivos, e a mineradora Store Norske Spitsbergen Kulkompani, empresa estatal pertencente ao Governo da Noruega.
Os relatos pessoais estão armazenados em uma região a salvo de terremotos e bombardeios em caso de guerra. Nem mesmo os hackers conseguirão profanar este depósito de dados, pois o local não está conectado à internet. As informações ali estocadas podem durar por mais de 500 anos.

No cocuruto do planeta

Na seta vermelha, a ilha onde está o Arquivo Mundial do Ártico

A “casa” onde as memórias da Pilar estão “morando” foi descoberta pelos vikings em 1194.
O arquipélago Svalbard está a 560 km da costa da Noruega e a 1.300 km do coração do Polo Norte.
Em 1899 foram descobertas grandes jazidas de carvão na ilha. O americano que explorava essa riqueza mineral, e levou as primeiras pessoas a morar lá, foi à falência em 1916, devido à Primeira Guerra Mundial. O governo norueguês comprou o negócio, e até hoje é dono de tudo por lá.
A biografia de Tula Pilar está acondicionada em uma instalação vizinha ao Silo Global de Sementes, que guarda quatro milhões e meio de espécies de sementes de quase todas as espécies vegetais do planeta.


Na foto abaixo, a porta da mina nº 3, aberta em 1984 e desativada quando a extração do carvão terminou. O local foi recondicionado para receber os arquivos de documentos, obras de arte e depoimentos humanos.
A mina nº 3 restaurada virou o Arquivo Mundial do Ártico


Pilar e o urso polar

Segundo o Gabinete Central de Estatísticas da Noruega hoje Svalbard tem 2.310 habitantes, sendo 1.239 homens e 1.071 mulheres.
Na região daquele arquipélago vivem 975 ursos polares, disse o relatório de pesquisadores noruegueses em dezembro de 2015. Isso dá uma média de um urso para cada três moradores da ilha.
Até placas de trânsito alertam para a presença de ursos em toda parte de Svalbard. Exemplo da eficácia do alerta é o ocorrido em 3 de junho do ano passado.

Às 7h30 daquele domingo a polícia de Svalbard recebeu um chamado. Havia um urso polar dentro de um dos hotéis.
Foto: Hilde Kristin Røsvik
A jornalista Hilde Kristin Røsvik chegou ao local antes da polícia, e a situação foi considerada segura. “Estamos acostumados com isso por aqui, por isso os funcionários andam sempre com rifles por aí”, relata a repórter. Quando os policiais chegaram de helicóptero, com o barulho o urso saiu pela janela, deixando uma bagunça feliz na despensa do hotel.
Em 2014 outro urso entrou no bar do Hotel Tulipan, no mesmo vilarejo.
Mas o último caso de pessoa morta por urso em Svalbard foi em 1995.

Se um dia Pilar for a Svalbard, vai dar muita risada ouvindo causos de ursos, e contando suas muitas histórias vividas nas quebradas do mundaréu.
Tula Pilar no Boteco Fecha-Nunca - Foto: David da Silva, 23.jun.2015


terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Há 92 anos, uma história de sangue na beira de um riacho


Para Augusto Cerqueira, livreiro
David da Silva

Exatamente em um dia 26 de fevereiro, 92 anos atrás, era publicada a 1ª versão do conto Homem da Esquina Rosada, o mais famoso texto de ficção do Jorge Luis Borges (voltei a Buenos Aires só para comprar os dois volumes com suas Obras Completas, e fiz questão de adquiri-las das mãos de um vetusto livreiro na legendária Feira de San Telmo).
Borges não entrega facilmente o período histórico nem o local preciso onde o Homem da Esquina Rosada se passa. Situa o caso pelos lados do riacho Maldonado (“de águas torrentosas e sofridas”, como diz o conto), numa fase imprecisa em que a periferia de Buenos Aires era apenas um amontoado de ruas barrentas e homens sanguinários. 
Trecho do Arroyo (riacho) Maldonado, em 1895. Na beira deste córrego o escritor Borges fez acontecer sua mais famosa ficção
Com humor transbordante ele deu a receita: “Prefiro situar meus contos em tempos remotos e em lugares um pouco indeterminados. Porque se não imediatamente os leitores vão descobrir erros”. E completa de forma ainda mais divertida: “Se não descobrirem erros logo na primeira leitura, vão procurar, e procurando, vão achar”.
O duelo (não realizado) entre os dois valentões da história é contado quando as águas do córrego Maldonado ainda corriam soltas, e a gente pode se atrever a imaginar que foi por volta de 1895.
Outra dica de data é o personagem violinista cego que, com a chegada da polícia, começa a tocar “umas habaneras que já não se ouvem mais”; ou seja, o tango já imperava, mas ainda era mal visto pela sociedade; era música circunscrita aos ambientes do submundo.

No fundão
Na época em que Borges põe Francisco Real e Rosendo Juárez pra se enfrentar, já existia o bar El Preferido, na esquina rosada do bairro Palermo (foto abaixo), onde o escritor viveu sua infância.
Bar centenário, fundado em 1885, perto da casa onde cresceu Jorge Luis Borges, na rua que hoje leva o seu nome.
Foto: David da Silva
Mas ele preferiu empurrar o acontecido mais para o fundo, para as beiradas da então nascente Buenos Aires, lá pra cima da Vila Santa Rita. E em vez de um bar de família, ele coloca os personagens dentro de um puteiro, com muita cachaça, milonga, o mulherio e os palavrões.
Se o conto se passa num trecho inexato entre as atuais Avenida Gaona e Avenida Juan B. Justo, aqui a história ganha um componente de Brasil. A Gaona era o Camino de Gauna no conto, assim como a Juan B. Justo de agora era o ribeirão Maldonado, hoje totalmente canalizado.
As ruas daquela região eram indomáveis, sempre alagadas. No início dos anos 1800, o governo implementou grandes obras de aterramento para submeter as vias públicas à força do progresso. Em 1828 o Brasil estava em guerra contra a Argentina, na disputa pela Cisplatina (Uruguai). Os marinheiros brasileiros feitos prisioneiros no conflito foram colocados em trabalho forçado carregando terra para cobrir os charcos do Caminho de Gauna. É nestas imediações que ficava o “salão da Júlia”, onde acontece o Homem da Esquina Rosada.
Borges situa o conto Esquina Rosada em algum ponto deste quadrilátero da Vila Santa Rita, entre as avenidas Gaona e Juan B. Justo. O "salão da Júlia" ficava na beirada do arroyo Maldonado (hoje Av. Juan B. Justo), pois tudo o que se jogava pela janela dos fundos caia diretamente no córrego.


Bastidores do conto

A versão pioneira de Homem da Esquina Rosada surgiu em 1927 como Notícia Policial, com letras pequeníssimas na coluna central da revista Martin Fierro.
Borges não era um neófito; estava com 28 anos de idade, já tinha quatro livros publicados, dois de poemas e dois de ensaios. Mas nunca tinha escrito ficção.
No ano seguinte Leyenda Policial reaparece ampliado sob o título Hombres pelearan (homens brigaram) que deu origem a Hombre de las orillas (homem da periferia) publicado no jornal Crítica em um sábado 16 de setembro de 1933. Mas ali ele não usa seu nome. Assinou com o pseudônimo Francisco Bustos. Como se estivesse ensaiando o voo mais alto no universo da ficção.
Em 1935 o conto foi publicado na forma definitiva no livro História Universal da Infâmia.
A mitologia suburbana presente neste conto vem das coisas que Borges escutava quando criança. Muito precoce, o moleque escreveu seu primeiro conto aos 9 anos de idade, e com 10 traduziu do inglês para o espanhol O Príncipe Feliz, de Oscar Wilde. Por isto foi com certo desgosto que os pais viram seu menino se interessar mais pelas coisas mundanas da periferia, do que se entregar a temas literários mais “elevados”.

Pé no chão
O garotinho classe média alta sentia atração irrefreável pela realidade proletária que rodeava sua casa paterna. É o próprio Borges quem conta:
“Durante muitos anos acreditei ter sido criado em um subúrbio de Buenos Aires. Mas o certo é que me criei em um jardim, detrás de uma grade com lanças. O bairro Palermo do punhal e do violão ficava pelas esquinas”.
É na busca do que existia no lado de fora da grade com lanças que surge Hombre de la Esquina Rosada.
O responsável pelo ingresso de Borges no mundo da periferia foi seu vizinho Evaristo Carriego, poeta exaltador dos subúrbios morto de tuberculose com apenas 29 anos de idade e um único livro publicado.
Borges é o pioneiro a trazer para a literatura as classes populares do conurbano bonaerense.

Legado de um conto imortal
A grande sacada de Hombre de la Esquina Rosada é a força das imagens que ele imprime em nosso cérebro. Note que o título do conto não tem artigo, igual aos títulos da maioria dos quadros dos grandes pintores.
Em 1962 surgiu uma primeira adaptação do conto para o cinema. O filme dirigido por René Mugica traz Francisco Petrone no papel de Francisco Real, el Corralero; Suzana Campos como a sedutora La Lujanera, e Jacinto Herrera encarnando Rosendo Juárez, el Pegador.
Borges no set de filmagens do seu conto em 1962
Em 1965 Borges se uniu a Astor Piazzola para compor o disco El Tango, tendo em uma das faixas a musicalização da trágica noite no salão da Júlia.
Em 19 de setembro de 1985 veio a público a adaptação do Hombre para história em quadrinhos, com roteiro de José Luis Arévalo e desenhos de Carlos Alberto Magallanes.
Uma das transposições de Hombre para outra forma de arte de que Borges mais gostou, foi um balé. “Quando escrevi este conto eu o fiz com um propósito visual. E pensei que seria curioso aplicar um assunto de periferia a essa técnica que quer que cada coisa ocorra de um modo muito intenso, quer dizer, que todas as coisas ocorram como um balé”, explica o autor. A bailarina Ana Itelman coreografou o conto em 1960.

Frases imagéticas
A magia pictórica deste conto emana de frases poderosas, que vamos descobrindo a cada releitura, como se antes não estivessem ali.
Há um parágrafo no conto aonde o narrador vai para fora do salão, decepcionado com o homem a quem até agora considerava um mito. “Fiquei olhando aquelas coisas da vida inteira – céu até dizer chega, o riacho se empelotando solitário lá embaixo, um cavalo dormido, o beco de terra, os fornos das olarias dos tijolos...”
Ao refletir sobre sua condição de humilde morador da periferia, permite-se a autocomiseração: “Pensei que eu era apenas outro matinho daquelas beiras, criado entre flores de brejo e ossadas. (...) Me deu coragem de sentir que não éramos ninguém”.
Mas logo sobrevém a autoestima: “Senti depois que não. Que quanto mais aporrinhado o bairro, maior a obrigação de ser bravo”. Encanta-se com o espetáculo celeste: “Havia estrelas de se ficar tonto olhando-as, umas em cima das outras”. E louva em pensamento a música e o cheiro das madressilvas que o vento traz. “Lá fora estava querendo clarear. Uns postes sobre o morro pareciam soltos, porque os fios fininhos não se deixavam avistar tão cedo”.
A energia imagética do texto explode na caracterização de Rosendo: “Os homens e os cachorros o respeitavam e as mulheres também. Os moços copiávamos até seu jeito de cuspir”.
Outra descrição cirúrgica é a da personagem La Lujanera: “Vê-la não dava sono”.
Nada, porém, é mais contundente do que a definição da figura do provocador Francisco Real, el Corralero: “ ... chamaram à porta com autoridade, uma pancada e uma voz... um silêncio geral, uma peitada poderosa na porta e o homem estava dentro. O homem era parecido com a voz”.
Borges no traço de Iñaki Massini Pontis (2010)

Rosendo redimido
O narrador autodiegético volta pra casa no fim da madrugada com um conceito ruim do seu ex-herói. Ele é mantido sem nome desde o início, mesmo com Borges tendo experimentado nomes variados para os personagens centrais – no manuscrito original (vendido em 1996 por 164.000 dólares) Francisco Real era Francisco Madrano, e Rosendo Juárez era Rosendo Fraga.
Por falar em personagens centrais, é só na última frase do conto que Borges nos deixa saber qual o real papel do narrador anônimo na encrenca toda.
Trinta e cinco anos depois de publicar Hombre de la Esquina Rosada Borges retomou o assunto com História de Rosendo Juárez, integrante do volume O Informe de Brodie (1970).
A história de Rosendo também é ambientada numa quebrada do mundaréu. “Seriam umas 11 da noite; eu tinha entrado no armazém, que agora é um bar”, principia o narrador. Lá num canto do armazém, sentado a uma mesa diante de um copo vazio, um homem faz pssst chamando para conversar. É Rosendo agora que quer contar a sua versão dos fatos.
Córrego Maldonado em 1934, dois quarteirões acima do lugar onde Borges imaginou o conto Homem da Esquina Rosada. Foi nesta água que o personagem Rosendo jogou sua faca pela janela dos fundos do salão da Júlia