terça-feira, 2 de setembro de 2014

Talentos de Taboão espalham Arte por 391 km de SP

Apresentação no bairro da Lapa, zona oeste de SP. Foto: David da Silva - 02.ago.2014
Na Vila Aricanduva, zona leste - Foto: Marco Pezão - 29.ago.2014
O grupo teatral Na Ponta do Lápis, de Taboão da Serra, fez todas as aberturas do Sarau Poético A Plenos Pulmões itinerante, no período de 26 de julho a 29 de agosto. A caravana cultural percorreu cinco bibliotecas e um ponto de leitura da Prefeitura de São Paulo cobrindo as zonas leste, oeste e norte. Foram mais de 390 quilômetros de deslocamentos em seis dias – precisamente, 391 km e 800 metros. O circuito integra o programa Literatura Periférica: Veia e Ventania nas bibliotecas públicas da capital paulista. Após cada apresentação da peça Nasce um Sarau: Clariô no Verso, o microfone é aberto para pessoas da plateia participarem com suas leituras de poesias.
Cena da peça no Jd São Mateus, zona leste. 
Foto: Zé Sarmento - 22.ago.2014
A trupe de 14 atores do Na Ponta do Lápis é fruto da oficina de teatro do Espaço Cultural Clariô, o mais premiado em toda a história das artes cênicas de Taboão da Serra. No último 27 de agosto, o Clariô completou nove anos de existência. O texto original da peça é dedicado a Mário Pazini, fundador do Clariô. Este trabalho de revelação de talentos, e o enredo do espetáculo Nasce um Sarau foi pauta do telejornal SPTV, da Rede Globo, na edição de 16 de agosto último.
Na trama escrita por Marco Antonio Iadoccico (Marco Pezão) e dirigida por Naloana Lima, o grupo conta como surgiu o atual movimento de declamação de poemas em bares e botequins.
No Bairro do Limão, zona norte, em 27.ago.2014.
Foto: David da Silva
Esta atividade (que resgata algo análogo ao que ocorreu na cidade de São Paulo na década de 1960 chamada Catequese Poética) começou em Taboão da Serra no ano 2001 por iniciativa dos escritores Marco Pezão e Sérgio Vaz. O fenômeno literário se espalhou por pontos comerciais paulistanos, espraiou-se pela Grande São Paulo, e atingiu várias localidades do Brasil. Em meados de abril e maio deste ano, os saraus paulistas foram convidados de honra da 40ª Feira Internacional do Livro em Buenos Aires, levando para a capital argentina 180 ativistas desta agitação poética.
Acampados pra não perder a hora. Foto: Michele Andrade 
28.ago.2014
Sarau A Plenos Pulmões é sediado na Casa das Rosas, um patrimônio histórico-cultural situado na Avenida Paulista. Organizado por Marco Pezão, este coletivo de artistas e escritores voltará a circular por escolas e bibliotecas da Cidade de São Paulo, em novo contrato a ser firmado com o Sistema Municipal de Bibliotecas, coordenado por Rosa Maria Falzoni. 
“Já temos pessoas interessadas em levar este sarau-espetáculo para suas unidades”, conta Falzoni.
No micro-ônibus a viagem era um sufoco.
Foto: David da Silva

Com a perna no mundo
Nenhum dos deslocamentos do Sarau a Plenos Pulmões com o grupo Na Ponta do Lápis teve menos de 50 quilômetros de distância. Só no bate-e-volta ao Ponto de Leitura do Jardim São Mateus, no extremo da zona leste paulistana, foram 84,8 km. 
A itinerância foi abençoada. Em nenhuma das viagens a trupe enfrentou qualquer tipo de congestionamento. A geralmente conturbada Cidade de São Paulo foi cruzada em tempo recorde nas seis apresentações.
Em duas ocasiões parte das atrizes e dos atores tiveram de pernoitar na casa do poeta Marco Pezão. Tanto para fugir da madrugada violenta, como para não perder a hora da saída (a ida para a Vila Aricanduva, zona leste, no último dia 29, teve início às 5h30 da manhã).
Ônibus grande ajudou no conforto dos 
artistas e na manutenção do cenário 
Foto: Zé Sarmento
A princípio foram fretados micro-ônibus, pagos com recursos próprios. “Mas ninguém guenta tirar do bolso aluguel de ônibus a cada apresentação”, brinca o coordenador jornalista David da Silva. Neste ponto da trajetória entrou o auxílio valioso do vereador taboanense Ronaldo Onishi, que intermediou a condução dos artistas com a viação Transkuba. Os motoristas que serviram a caravana cultural foram Rafael Moraes, Gustavo, Fabio Sousa, André e Roberto Silva.
A cada viagem matinal o ônibus se convertia tanto em oficina de manutenção do cenário, quanto num dormitório sobre rodas.
A performática Elide Nascimento
caracterizada em Fernando Pessoa.
Foto: Zé Sarmento - 22.ago.2014
A Biblioteca Milton Santos, na Av. Aricanduva, contou com duas apresentações – a de estreia e a de encerramento da temporada. No Bairro do Limão, zona norte, a Biblioteca Menotti Del Picchia também teve dupla apresentação.O já citado ponto de leitura do Jardim São Mateus foi antecedido pela Biblioteca Mário Schenberg, na Lapa. “Eu já pedi para a Rosa Falzoni agendar vocês de novo”, avisa a coordenadora Henriqueta Marques.
Na parte das leituras e/ou interpretações de poemas e outros textos, o sarau itinerante contou com as participações de Flávia D’Álima, Marco Pezão, Bispoeta, Elide Nacimento, Zé Sarmento, Otília Pires, e Pedro Lucas.
Flávia D'Álima e Marco Pezão
Foto: Zé Sarmento

Atrizes e atores (ordem alfabética) e personagens:
Angela Miranda (Amanda, em dias alternados))
Carolina Vellasco (Heloísa)
Dora Nascimento (Rosinha, em dias alternados)
Emily Pazini (dona Mirela)
Juliana Paula (Rosinha, em dias alternados)
Leninha Silva (Carla)
Marco Miranda (THC)
Marco Russo (Justino)
Michele Andrade (Laura)
Otília cantou e encantou nos saraus, 
e cuidou da alimentação da trupe
na temporada. Foto: Marco Pezão
Murilo Cóstola (Agenor)
Paloma Xavier (Amanda, em dias alternados)
Rafaela Tamires (Laura, no dia 27.ago)
Vitor D. Diaz (Gil)
Vitor Santana (Carlos)
Tainá Pazini (Mariana)
Taynara Pazini (Larissa)
Ton Moura (Vitão)

Cenografia: Alexandre Souza (João) e Marco Miranda 
Sonoplastia: Rafaela Tamires e Naloana Lima (no dia 27.ago) 
Iluminação: Kenny Rogers
"Quem é da poesia, diz: 'aêêê!!!' ". Foto: David da Silva - 22.ago.2014

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Uma tarde invulgar para quatro amigos incomuns

Foto: Tatiane Nogueira
Então, uma foto pode perfeitamente inverter a ordem natural das coisas. Na imagem acima dois nomes importantes da Cultura da cidade de São Paulo atentam pr’alguma coisa que digo.
O da esquerda é Djalma da Silveira Allegro, 76 anos, poeta, jornalista, advogado, autor teatral e ex-ator de teatro e televisão. O do centro é o sambista Sílvio Modesto, 70 anos, vencedor de mais de 20 concursos de samba-enredo, também ator, autor de músicas gravadas pelos maiores nomes do samba brasileiro, e parceiro do legendário dramaturgo Plínio Marcos num marco histórico do teatro paulistano.
Logo, eles têm nada a escutar de mim, esta pobre coisica.
O da direita é Aloísio Nogueira Alves, produtor de duas das mais importantes reportagens que já fiz. Conhecedor profundo da música nordestina e da literatura de cordel.
Portanto, eu tinha mais é de ficar (e fiquei) calado.
O retrato do momento acima é típico do que nos ensina Roland Barthes. Fotografias têm algo além do poder do tempo.
O encontro da foto foi promovido pelo Aloísio, no seu aniversário. De Aloísio vou contar coisa alguma aqui. Desde 1997 praticamente imploro para que ele próprio escreva sua história de vida. Mas este filho de Messejana, no interior do Ceará, refuga grudar no teclado, e dar de si para nosotros lermos. Já escrevi em incerta feita que Aloísio é um açude de informações e de inspirações. Injusto nos deixar assim, a seco.

Sentar à mesa com Djalma Allegro é festa para os ouvidos. Já se disse por aí que ele deveria cobrar para conversar, tal o prazer de a gente beber de suas palavras. Seja numa casa de família, ou no tradicional restaurante O Gato Que Rí, ou no mais respeitável estabelecimento comercial da Rua Maceió (o bar das putas). 
Djalma Allegro
O malabarismo verbal começa ao falar onde nasceu: “Eu nasci, de fato, em Bebedouro; de direito, em Viradouro. Mas sou mesmo é de Terra Roxa, tudo no interior de São Paulo”. A biografia de Djalma faz sulcos no Direito e na literatura paulistana. Foi secretário-geral da Caixa de Assistência dos Advogados de São Paulo; Conselheiro da OAB e organizador de concursos literários naquele órgão. Por duas gestões diretor da União Brasileira de Escritores. No jornalismo trabalhou na Editora Abril e no lendário Jornal da Tarde.
Mas, sua profissão (de fé) é a Poesia. Integrou a Ala dos Treze na Faculdade de Jornalismo Cásper Líbero. Poeta ativo na década de 1960 na Catequese Poética ao lado de Roberto Piva, Lindolfo Bell, Carlos Felipe Moisés... “Nós não deixávamos os poemas nas gavetas. Declamávamos em pontes, praças, viadutos, boates, botecos, estádios de futebol”, relembra Djalma.
Tem apenas um livro publicado. E justifica esta aridez com um arrazoado sacana: “A advocacia é um hobby que me toma muito tempo”.
Não há encontro com Djalma em que ele não me presenteie com algo inédito. Ou que eu ainda não tenha ouvido da sua vasta produção. Desta vez foi este poema, entregue em 2007 ao ator Paulo Autran que o gravaria para o programa Quadrantes, da Radio Band News. Faleceu logo depois de recebê-lo de Djalma, antes de poder registrá-lo em áudio.
Acesse o Facebook e veja a declamação do próprio Djalma Allegro aqui
Também disponível no Youtube

A festa do Aloisio aniversariante rolava divertida. Mas na nossa mesa o compositor Sílvio Modesto irrompeu num choro convulsivo. Não de tristeza. Por gratidão.
O sambista sempre me oferece nacos generosos da sua biografia quando nos vemos. Uma vida ainda não eternizada no papel. Mas digna de morar entre capa e contracapa de livro. Por mais  que já falei dele aqui no blog (veja os links no rodapé), sempre tem um detalhe que escapou do papo anterior.
Silvio Modesto. Foto: David da Silva
A comoção do Silvio no encontro com Aloísio, Djalma e eu, remete ao ano de 1982. “Eu andava numa dureza... Lá em casa, as panelas de boca para baixo, e do fogão não subia nenhuma fumaça”.  Vai daí que lhe procura o amigo Bicalho. “Era um policial amigo meu. Disse que ia me levar pro Rio de Janeiro naquela hora, no ato, pra gente negociar um samba meu no disco do Benito di Paula”. O disco estava quase completo com sete composições do próprio Benito, uma outra música de Roberto e Erasmo Carlos... mas Benito queria alguma coisa que falasse da Bahia. E Sílvio Modesto tinha um samba na manga. “O Bicalho me levou pro aeroporto, me enfiou num avião da Pan-Air. A gente não podia perder tempo”, relata o sambista Modesto, nascido em Brás de Pina e criado no morro do Salgueiro. Mas morando em São Paulo desde o fim da décade de 1960.
Para agilizar os trâmites Bicalho sugeriu a Sílvio que lhe desse a parceria no samba Doce Bahia. “Lógico que eu autorizei ele entrar de parceiro. No sufoco que eu tava...”.
Chegados ao Rio, Benito aceitou a música. Modesto e Bicalho foram receber o adiantamento pelos direitos autorais. “Quando chegamos na minha casa com um pacote lotado de dinheiro, minha mulher deu um pulo. Disse que ia chamar a Polícia, porque não queria dinheiro roubado”, diz Sílvio, que respira fundo e prossegue: “O Bicalho mostrou a carteirinha pra ela, disse ‘eu sou policial e este dinheiro veio da gravadora do disco que Benito di Paula vai lançar’. A mulher sossegou. E na hora que falei pro Bicalho pegar a parte dele daquela grana, ele simplesmente me disse: ‘é tudo teu’, e não aceitou nenhum centavo”, conta Sílvio com a face banhada em pranto.
Aqueles 3 minutos e 24 segundos de duração do samba Doce Bahia deu uma virada na vida de Sílvio Modesto. Foi com aquele ganho que ele comprou a casa onde mora até hoje no Parque Esplanada, vizinho à região do Jd São Judas, de Taboão da Serra.

Há outro vínculo do nome de Sílvio Modesto com a minha cidade de Taboão da Serra. Ele interpretou o sambista Wilson Baptista no musical O Poeta da Vila e seus Amores, de Plínio Marcos. Estreada em 27 de maio de 1977 na inauguração do Teatro Popular do Sesi, na peça Sílvio compartilhou elenco com gigantes do palco como Ewerton de Castro e Elias Gleiser. No elenco feminino, interpretando a principal namorada de Noel Rosa, estava Analy Alvarez. Irmã de Amaury Alvarez, o homem que revolucionou o teatro de Taboão da Serra.

Dado às riquezas destes fiapos de fatos aqui relatados, eu já disse a você no início deste texto - eu tinha coisa nenhuma pra falar de interessante pro Sílvio Modesto e pro Djalma Allegro.
Daí é que, às vezes, uma foto inverte totalmente a ordem natural das coisas.

Referências anteriores a Djalma Allegro no blog aquiaquiaquiaquiaqui, e aqui
Coisas que já publiquei sobre o Sílvio Modesto no nosso blog-boteco, quem inda não leu veja aquiaqui e aqui
Visite a página de Silvio Modesto no Facebook
Foto: Tatiane Nogueira

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

“Dona Iolanda era meu Papai Noel”, lembra antigo morador

Calor humano da fundadora de condomínio ecológico se espraiava para além dos muros da comunidade que Iolanda Catani criou em Taboão da Serra há 50 anos.

Iolanda Catani - Acervo pessoal de Nilton Esteves
Foi meio por acaso que a família Dos Ramos chegou ao Condomínio Rural Jardim Iolanda, em Taboão da Serra, na década de 60. O conjunto habitacional ecológico completou meio século de existência ontem, 20 de agosto.
No ano de 1968, Frederico dos Ramos veio visitar seu amigo proprietário do Boteco do Zé Grande, na margem da Rodovia Régis Bittencourt, na época chamada BR-2, hoje BR-116. Frederico é natural da aldeia Vilarelho da Raia, norte de Portugal, quase fronteira com Espanha. Zé Grande também era da mesma região. José Maria de Melo, o Zé Grande, veio para o Brasil em 1958. Chegou a ter terras no local onde dona Iolanda Catani já idealizava seu conjunto habitacional mergulhado na Mata Atlântica que então cobria boa parte de Taboão da Serra.
Paisagem vista da casa de Carolina dos Ramos
Foto: Nilton Esteves
Ao vender seu lote onde seria o futuro Jardim Iolanda, Zé Grande investiu em um comércio e outros imóveis no outro lado da rodovia. Seu boteco – na verdade um armazém, do tipo a que hoje chamamos mercadinho, e os antigos, venda - tinha de tudo. Todo tipo de comidas e até ferramentas. Enquanto servia os fregueses, Zé Grande sugeriu a Frederico: “Por que é que não compras um terreno lá, ó pá? Aquilo vai ficar muito bonito”. Frederico foi olhar. Dona Iolanda deu-lhe um tipo de alto-lá. “Aqui ainda é propriedade particular. Futuramente será um condomínio”, disse ela. Enfeitiçado pela beleza do lugar, Frederico e seus dois irmãos compraram o lote 42. A princípio construíram uma casa só para finais de semana. Tempos depois a propriedade foi desmembrada. Frederico construiu uma mansão num outro lote do mesmo condomínio. Em 1989, já casado com Maria Carolina dos Ramos, mudou-se do bairro Sumarezinho, na Capital, e fez do Jd Iolanda residência fixa.
Carolina dos Ramos recebe a reportagem - Foto: N. Esteves
Carolina dos Ramos me recebe em sua casa no topo mais alto do condomínio, constantemente banhada de sol. Como toda boa casa portuguesa com certeza o lar é encimado por dois torreões. A moradia imensa está de portas escancaradas quando chego lá acompanhado pelo síndico Nilton Esteves. Pensei estarem abertas porque a dona já nos esperava. Mas não. “Nunca fecho as portas daqui, pois é totalmente seguro”, conta Carolina. O portão elétrico desistiu de funcionar por desuso. Assim como o alarme nem alerta mais nada por quedar-se esquecido.
Carol no seu ateliê de pintura - Foto: Nilton Esteves
Em incerta feita um casal visitante de alguém no condomínio adentrou a propriedade de Carolina. “Eu estava varrendo aqui a porta de casa, e perguntei o que eles queriam. Disseram que estavam apenas passeando e vieram conhecer a igreja”, sorri Carolina. A entrada da mansão tem um hall abobadado, decorado por arte sacra, entre elas uma Nossa Senhora da Conceição. Outro quadro, uma Madonna, é obra da própria Carolina.
Carolina é artista plástica. Sua técnica mais frequente é massa colorida de acrílico sobre tela. A pintura pula para fora da moldura. 
Obras de Carolina Ramos - Foto: Nilton Esteves
“Adotei esta técnica pois eu tinha uma amiga cega, a Luzia, a quem chamávamos Nenê. Ela se queixava de a sua cegueira impedi-la ver meus quadros. Daí passei a fazer esta pintura tátil, para Nenê sentir o quadro com as mãos”, diz a artista.

Sinal dos tempos
Até 1994 o Condomínio Iolanda vivia em clima de verdadeira comunidade rural incrustada no subúrbio da suburbana Taboão da Serra. Com o Plano Real [reforma econômica implantada pelo ex-presidente FHC] muitos proprietários desdobraram seus imóveis. Ficou caro manter as despesas sem os juros que auferiam na ciranda financeira. O número de casas saltou de 92 para 120 moradias.
Detalhe de pintura que pula da tela - Foto: Nilton Esteves
Os novos proprietários já não vinham com a filosofia de vida dos antigos habitantes da área, que prezavam acima de tudo a amizade e a harmonia entre vizinhos.
Carolina é uma das que estranharam os hábitos refratários dos novos moradores. “Aqui sempre vivemos em comunhão. E quem chegou depois não incorporava nossa concepção de morar”, conta. 
Quem conviveu com a afetividade da vizinhança original do Jd Iolanda, jamais esquece. “Tenho uma filha que mora na França, e ela veio de lá exclusivamente para casar-se aqui em casa, pois tem laços profundos com o que viveu aqui na infância e adolescência”, relata Carol (pelo apelido aqui usado você nota que já me sinto amigo antigo da moradora).
Com o passar dos tempos os novos vizinhos já mostram sinais de adequação ao espírito amistoso implantado por Iolanda Catani.
“Às vezes algumas pessoas estranham o meu jeito de tratar os outros. Alguns podem até pensar que estou precisando de tratamento por eu ser assim tão empolgada e expansiva”, brinca Carol. Aí é que se enganam. Eles (os arredios) é quem precisam tratamento. Carolina dos Ramos é psicanalista com consultório na Avenida Faria Lima, em Pinheiros.
José Melo - Foto: David da Silva
A concórdia entre os moradores do paraíso habitacional criado por Iolanda Catani não se fechava nos muros do empreendimento. 
Moradores do entorno do condomínio costumavam vez ou outra passear pela propriedade de natureza exuberante e até nadar na piscina da casa de dona Iolanda. “Todos os anos, até meus 14 anos de idade, dona Iolanda sempre mandava presentes de Natal para mim”, lembra José Antonio Coelho de Melo, 49 anos, nascido na localidade vizinha ao Jd Iolanda. Ele é filho do Zé Grande do início desta história.

Na próxima postagem, entrevista com o engenheiro agrônomo Cláudio Catani Beretta, filho de dona Iolanda.

Paciente se queixa de atendimento no Hospital São Paulo

Natasha Marques / Divulgação
A atriz Natasha Marques, 21 anos, internada desde o dia 6 de abril quando sofreu grave atropelamento na zona leste da cidade de São Paulo, foi transferida há três dias para o Hospital São Paulo, vinda do Hospital Vila Alpina onde recebeu os primeiros socorros e as cirurgias iniciais.
Acostumada com a equipe que a assistiu nos momentos mais críticos de sua recuperação no Hospital Vila Alpina (“médicos que estavam me tratando como se eu fosse um familiar deles, pessoas de empatia”, registra a paciente) Natasha divulgou às 2h35 da madrugada de hoje um desabafo-denúncia pelo Facebook.
Segundo a artista, a relação de remédios que vinha tomando no hospital anterior não está sendo seguida no Hospital São Paulo. “A enfermeira me disse que o médico [daqui] tem que autorizar. Mas eu já tenho prescrição [médica]. Uma lista enorme com antibióticos, antiinflamatórios e psicotrópicos autorizados”, escreve na sua página da rede social.
Por padecer de muita insônia, a paciente se queixa da falta de carta do médico local para autorizar psicotrópicos que a auxiliem a dormir. Ela informa só ter recebido amitriptilina.
O que mais inquieta Natasha Marques foi não ter tomado o anticoagulante. “Como estou de cama há muito tempo, meu sangue pode coagular por falta de circulação”, relata.
A paciente reclama que lhe teria sido servida uma dieta enteral (alimentação por sonda) vencida.
Coroando o quadro de tormentos da artista hospitalizada, há um quadro alérgico não diagnosticado. “Estou com uma alergia que ninguém sabe de nada. Meu rosto está cada vez mais inchado”.
O Hospital São Paulo já foi alvo de denúncia por parte da Rede Globo na edição do telejornal Bom Dia São Paulo do último dia 29 de janeiro – aqui
A respeito de sua recuperação no período em que esteve no Hospital Vila Alpina, leia o que a própria Natasha escreveu aqui
Sobre o acidente gravíssimo que a garota sofreu, leia aqui aqui

terça-feira, 19 de agosto de 2014

É de Taboão motorista que matou idoso na USP

Motorista tentou fugir após atropelar 5 pessoas,
matando uma delas. Foto: Marco Ambrósio / Estadão
O pedreiro Luis Antonio Conceição Machado, 43 anos, que matou atropelado um idoso e feriu outras quatro pessoas dentro do campus da USP na manhã de sábado, 16 de agosto, responderá processo por homicídio doloso (com intenção de matar). A decisão da Justiça foi divulgada no início da noite de ontem, 2ª-feira, dia 18.
O pedreiro, que reside na periferia de Taboão da Serra, dirigia seu Toyota Corolla às 9h da manhã nas vias internas da Universidade de São Paulo (USP) quando atropelou pedestres na via pública, subiu na calçada atingindo mais pessoas, e bateu em uma árvore. Ele tentou fugir do local, e ao dar ré no veículo atropelou outro transeunte. Frequentadores do campus impediram a fuga do condutor. Atingido pelo carro, o maratonista Álvaro Teno, 67 anos, não resistiu aos ferimentos e faleceu momentos depois do acidente.
O teste de bafômetro indicou que Luis Antonio estava com 0,54 decigramas de álcool, acima do limite permitido. Preso em flagrante pelo cabo Jefferson Dias, o motorista alegou que havia cochilado ao volante.
Inicialmente a Polícia Civil instruiu a ocorrência como homicídio culposo (sem intenção). A Promotoria pediu a reclassificação do crime, mas o juiz de plantão negou, estipulando uma fiança de R$ 55 mil para Luis Antonio não ser preso. A juíza Aparecida Angélica Correia decidiu em contrário, e o pedreiro segue preso no Cadeião de Pinheiros.

Em contato telefônico com a imprensa, a esposa do motorista, que se identificou apenas como Fátima, disse que o advogado a orientou a não declarar se Luis Antonio tem o hábito de dirigir sob efeito de álcool. Eles são casados há 20 anos, e têm dois filhos adolescentes. Segundo Fátima, seu marido “está passando por transtornos psicológicos no momento”. O automóvel Corolla de cor prata, ano de fabricação 2004, é financiado.

domingo, 17 de agosto de 2014

Condomínio ecológico faz 50 anos em Taboão da Serra

Dados históricos desta postagem gentilmente fornecidos por Nilton Esteves, síndico do Condomínio Rural Jardim Iolanda.
Condomínio é localizado no limite entre os municípios de Taboão da Serra e Embu das Artes.


Nunca perguntei ao administrador Nilton Esteves se ele gosta da música em que Jorge Benjor faz tributo subliminar ao Tim Maia. Mas toda vez que ouço a frase “Eu vou chamar o síndico!”, o nome de Nilton me assoma à memória. Ele é o mais determinado líder de conjunto habitacional de que se tem notícia na cidade de Taboão da Serra. Não é para menos. É guardião de um paraíso ecológico. O Condomínio Rural Jardim Iolanda é dos últimos remanescentes de Mata Atlântica da região sudoeste da Grande São Paulo. O empreendimento completará meio século de existência na próxima 4ª-feira, 20 de agosto.
No decorrer desta semana, o blog vai publicar depoimentos de pessoas que detêm laços de família ou antiga relação de vizinhança com a idealizadora deste que é pioneiro em condomínio horizontal mergulhado na mata nativa da região.
O núcleo de moradores foi criado pela cantora lírica Iolanda Catani, falecida há nove anos. A propriedade foi adquirida na década de 1950, quando apenas uma elite intelectualizada racionava em termos de preservação da natureza.
Iolanda e seu marido César Francisco Beretta costumavam cruzar Taboão da Serra rumo ao sítio Morro do Vento, em Embu. Ali o casal se desestressava da vida urbana praticando horticultura, viticultura, criação de porcos, aviário e gado leiteiro. Na época Embu e Taboão nem eram municípios. A visão de uma vasta área delicadamente emoldurada por um córrego no ainda distrito de Taboão da Serra atraiu a atenção de “dona Iolanda”, como é lembrada e venerada até hoje. A compra da propriedade de 477.965m² foi sacramentada em 12 de maio de 1954 no 3º Tabelião de São Paulo.  Dez anos depois, o imóvel foi transformado em Condomínio Rural. Hoje conta com 100 residências distribuídas em 120 glebas. Nenhum lote pode ter menos de 1.500 m².
O empreendimento foi concebido no clima de amor e harmonia que unia o casal. César Francisco, engenheiro civil, planejou todo o arruamento do local que leva o nome de sua esposa.
Dona Iolanda Catani em fotos do acervo pessoal de Nilton Esteves
Iolanda Catani arregimentou moradores para o seu projeto junto ao meio artístico com que tinha contato na sua atividade de cantora no Theatro Municipal de São Paulo. Entre os ex-moradores mais festejados pela mídia, estão os artistas plásticos Arcangelo Ianelli e Emanoel de Araújo, ex-diretor da Pinacoteca de São Paulo e criador do Museu Afro-Brasileiro.
Como toda pessoa amante da alta cultura, Iolanda era helenista. As alamedas e praças do condomínio são batizadas com nomes de musas da Mitologia Grega.
O DNA de artista de Iolanda foi herdado do sangue de seu pai, Gino Catani, pintor de murais da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, e das igrejas Santa Cecília e Santa Efigênia, ambas igualmente na capital paulista.
O amor à natureza de Iolanda foi transmitido geneticamente ao seu filho Cláudio, hoje com 74 anos e residindo no mesmo local idealizado por seus pais. Ele formou-se engenheiro agrônomo no ano em que César e Iolanda formalizaram a criação do condomínio rural taboanense, em 1964.
A longevidade é outra marca de família. Dona Iolanda viveu 94 anos – sua partida se deu em 2 de janeiro de 2005. Sua mãe, Virgínia, faleceu em 1988 aos 103 anos de idade.

Filosofia de morar
A criação do Condomínio Rural Jardim Iolanda não foi apenas uma sacada imobiliária de sua idealizadora. Havia toda uma concepção filosófica envolvendo o projeto. Para Iolanda Catani, “
uma das falhas mais lamentáveis dos empreendimentos que fracassam, deriva unicamente da incapacidade de seus dirigentes para estabelecer e conservar amizades”, registrou em reunião condominial de 11 de março de 1967.

O apego à natureza não é sinônimo de fechar-se no pequeno paraíso que rodeia seus moradores. Nilton Esteves mantém luta sem quartel pela construção de uma segunda alça de viaduto, para saída no sentido sul dos veículos de freqüentadores do Shopping Taboão. Denunciou o shopping em 14 de abril de 2012 na Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão. A medida vai suavizar o impacto do trânsito gerado pelo centro de compras no seu entorno. A obra deverá ser entregue em 2015. A criação de um retorno sobre a BR-116 na altura do quilômetro 277 é outra obstinação do síndico. Atualmente o condomínio protagoniza uma pendência jurídica com a concessionária da Rodovia Régis Bittencourt, devido à desapropriação de parte de sua área para construção de uma via marginal à pista. A gestora pediu suspensão do processo por 40 dias, e a Justiça acatou. “Só o deposito judiciário [em favor] do Jardim Iolanda é de R$ 568.332,00. Alguma coisa está acontecendo nos bastidores da Autopista. Tentei acordo de todas as formas. Não quiseram. Só restou recorrer aos Tribunais, e assim continuaremos fazendo”, garante Nilton, que entre uma demanda e outra ocupa seus olhos em fotografar os presentes que a Natureza oferece diariamente ao Jardim Iolanda.
Foto: Nilton Esteves - 28.nov.2012
Foto: Nilton Esteves - 19.set.2013
Foto: Nilton Esteves - 18.dez.2012
Foto: Nilton Esteves - 10.mar.2013
Foto: Nilton Esteves - 04.dez.2012
Foto: Nilton Esteves - 06.set.2013
Foto: Nilton Esteves - 19.mar.2013
Foto: Nilton Esteves - 19.mar.2013

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

"Estou em metamorfose", informa Natasha Marques

Natasha em Eros Despedaçado
Foto: José Walter Costa
A atriz Natasha Marques, 21 anos, prossegue sua firme recuperação do acidente que sofreu no último dia 6 de abril.
Sobre o acidente que já noticiamos na data, não vou falar agora.  
Por obrigação jornalística, e somente por isto, disponibilizo o link para quem está entrando no blog agora, aqui

A artista envia hoje um relato da sua determinação em superar o episódio. 

Os que vivemos no lado da luz sabemos do quanto o Bem é capaz.

Naty, como a chamamos os amigos, iniciou sua vida teatral em Taboão da Serra aos nove anos de idade. 
Sempre teve forte atuação em vários núcleos da Encenação da Paixão de Cristo na cidade. 
Teve papel destacado em 2010; em 2011 interpretou a personagem Cláudia, mulher de Pilatos; fez a Salomé, em 2013, e faria novamente Cláudia em 2014, quando foi interrompida pelo acidente.
Além de atriz vigorosa, Natasha é maquiadora (foi responsável pela caracterização do elenco em 2013) e especializada em pirofagia.

Segue o recado da artista:

Natasha Marques
Assim que entrei na sala de cirurgia, como sempre o Médico dos médicos já estava lá, à minha espera. Então vi o anestesista. Ele disse: “Oi, Natasha! Sabe quanto você está pesando? 43 quilos”. ( sim, realmente eu havia perdido 20 quilos). Ele prosseguiu: “OK. Vou começar. Você vai sentir uma tonturinha...”. E injetou fentanil através do cateter venoso central instalado no meu pescoço. A sedação era tão forte que eu sentia o poder de cada gota se espalhando pelo meu sangue. Senti de leve aquela delícia do sedativo. Ele injetou mais, porque meu corpo já pedia doses maiores. Aí a tontura aumentou, e vi o relógio da parede sair do lugar. Os médicos e enfermeiros pra lá e pra cá. Meus olhos se fecharam sozinhos, como se as pálpebras estivessem pesando uma tonelada

E foi assim, nas várias vezes em que entrei naquele centro cirúrgico. É um lugar muito tenso. A sensação de estar lá é estranha. A cada três dias eu trocava de curativo lá no Centro Cirúrgico. Para o Governo, cada curativo (a vácuo) custa por volta de R$ 3 mil reais. É uma despesa e tanto. Eu não teria como bancar meu tratamento. O SUS [Sistema Único de Saúde] até que está suprindo bem as minhas necessidades. Serei transferida dia 18 [deste mês de agosto] para o Hospital São Paulo, onde farei cirurgias e reconstruções. O grande problema de ter sofrido este acidente foi ficar de cama. Como tive fraturas no quadril, tive de colocar pinos. Então, eu mal podia me mexer. Acontece que tive de ficar muito tempo acamada, resultando em perda das forças e dos músculos. Fiquei muito fraca. Então, vou encarar muita fisioterapia, para reaprender a ficar de pé e andar. Estou começando do zero.

Recomeçar do zero, como eu sempre digo, é algo só para os fortes. Mas muitas pessoas, inclusive daqui do hospital, estão me dando forças para continuar. Pois sempre achei que sozinhos iremos mais devagar. Mas, apesar de ter um milhão torcendo por mim e me encorajando, eu sou humana. Eu sou humana e choro. Só quem sabe da minha dor é DEUS e meu travesseiro. O estado depressivo se instala  às vezes. E isso faz com que eu me sinta muito sozinha, sem poder dividir minha dor com alguém. 

Daí, fico sem fazer nada. Não quero ler, escrever, nem  comer, nada... Apenas fico chorando.
[Fico lembrando] O meu sangue derramado naquele asfalto.
Mas aos poucos vai passando.
Meus pais, meus amigos, e meu noivo, são pessoas que estão me ajudando muito. Sei que com eles posso dividir a minha dor psíquica. Porque ficar entre 4 paredes, sentindo dores constantes,  durante 4 meses,  é muito sofrimento.  Às vezes meu pai chora na minha frente... E acabo dizendo a ele: “Você tem de ser mais forte do que eu!". Acho que é um momento de união. Todos torcendo pro mesmo time. Faz bem pra alma encorajar os outros e ter o apoio recíproco.

Às vezes paro pra pensar e imagino como será daqui pra frente. E aí dá vontade de acelerar uns dois anos da minha vida. Só pra não sofrer nesta longa recuperação. Penso e imagino como será que está o Everton meu noivo. Como ele fica quando vai dormir e se lembra daquele acidente... Minha mãe e meu pai, como que eles ficam em casa? Deve estar um vazio tão grande... uma familia desestruturada... Todos sofrendo.
E o futuro lindo que eu tinha pela frente como artista.
Eu mesma sinto falta de mim, lá fora...
É como se eu estivesse passando pelo processo de metamorfose.
Estou escondida e presa dentro de mim.
Mas tenho fé que vou criar asas e voar.
Liberdade, pra mim, é tudo que eu preciso pra ser feliz

Não vejo a hora de sair daqui dessas quatro paredes enlouquecedoras.
Desejo o mais simples. O mais banal...
Coisas que você faz todos os dias mas não percebe a importância.
Poder andar, tomar banho de chuveiro sozinha...
Já até me imagino vestindo o jeans e a camiseta pra sair com meu amor... passando o batom vermelho nos lábios, os cabelos soltos e hidratados para caminharmos de mãos dadas... fazer coisas rotineiras como trabalhar, estudar...
Nunca dei valor a essas coisas. E hoje peço a Deus paciência e força.
Porque sei que vou precisar...
Anseio muito a hora de o médico entrar aqui e dizer: "Você está de alta, pode ir pra casa!"

Sei que quando eu sair daqui vou contar minha história, de alguma forma... Talvez no palco - que é a minha paixão - talvez num livro...
Mas vou contar.
Eu preciso mostrar o que passei para que possa servir como exemplo de superação.
Porque eu sei que vou superar.
Acho que este acidente me ensinou muitas coisas.
Principalmente  ter Fé e valorização da vida. Pois a vida é tão preciosa que é pra ser vivida com alegria.
Se eu já era feliz, imagine quando eu sair daqui.
A minha vida, daqui pra frente, quero que seja bem vivida.
Que as solas da minha vida fiquem gastas.
E que ainda assim eu possa viver. Viver, sonhar, realizar, crescer e viver.
Viver gostosamente!
Foto: Arquivo pessoal da atriz, maquiadora, pirofagista e produtora cultural Natasha Marques

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Caravana teatraliza origem dos saraus na periferia

Cena de Nasce um Sarau na Biblioteca Mário Schenberg.
Foto: David da Silva - 02.ago.2014
Acontece nesta 5ª-feira, 14 de agosto, a terceira incursão do Sarau Poético a Plenos Pulmões em bibliotecas públicas na cidade de São Paulo. Todos os saraus são precedidos por uma tragicomédia juvenil. A peça é uma metalinguagem sobre a origem do movimento de declamação de poesias dentro de bares na Capital e na Grande São Paulo.
A razão pela qual três anos atrás o poeta Zé Carlos Batalhafam instalou seu sarau poético numa lanchonete na zona leste de São Paulo, foi a mesma falta de espaço cultural que há 12 anos, em outubro de 2001, forçou os poetas Marco Pezão e Sérgio Vaz a ocuparem com versos um boteco no extremo oposto da região metropolitana, em Taboão da Serra, a sudoeste da Capital. É esta realidade que o grupo teatral Na Ponta do Lápis faz rir e refletir com o espetáculo Nasce
Participação do poeta Batalhafam em sarau na
Biblioteca Milton Santos. Foto: David da Silva
um Sarau: Clariô no Verso
.
Na trama escrita por Marco Pezão, um rapaz conhece um sarau de poesias, e quer montar um idêntico no botequim do bairro onde mora. A ideia do sarau se desenvolve em meio a dramas suburbanos como violência doméstica e uma guerra entre traficantes que, se estourar, colocará em risco a tão sonhada inauguração do sarau (veja galeria de imagens e o elenco completo aqui)
A primeira apresentação desta série ocorreu em 26 de julho último na Vila Aricanduva, zona leste paulistana, na Biblioteca Municipal Milton Santos, seguida da Lapa, zona oeste, em 2 de agosto na Biblioteca Municipal Mário Schenberg. A desta 5ª-feira é na zona norte, bairro do Limão.
Livia Domingues. Foto: David da Silva - 26.jul.2014
Além da semelhança nas histórias de vida dos poetas Pezão e Batalhafam, o sarau na Vila Aricanduva trouxe outra feliz coincidência. A bibliotecária-coordenadora Lívia Domingues nasceu e se criou na região limite entre o bairro Campo Limpo e o município de Taboão da Serra. Com exceção de dois integrantes, todos os demais membros do sarau itinerante A Plenos Pulmões e do grupo teatral são desta mesma área onde ela viveu toda a sua infância e adolescência. Lívia é uma mulher encantadora, totalmente entusiasmada em incentivar nas pessoas o hábito da leitura. Nos próximos dias 16 e 30 sua biblioteca terá a sequência do programa Poesia nos Varais, onde crianças abrem contato com o universo poético, brincando com palavras e rimas que ficarão penduradas num lindo varal cheio de versos para outras crianças lerem. E no dia 29 terá de volta o Sarau A Plenos Pulmões.
Henriqueta Marques. Foto: David da Silva - 02.ago.2014
No sarau no bairro da Lapa, outro traço de união com a região de Campo Limpo/Taboão. A coordenadora Henriqueta Marques conheceu o Sarau do Binho, citado na peça como fonte de nspiração, em outra biblioteca municipal no bairro Umarizal, onde sua colega Lívia nasceu. Henriqueta é outra atentada. Mantém as portas da Biblioteca Mário Schenberg abertas até em finais de semana, seja para encontros literários, colecionadores de histórias em quadrinhos, ou fanáticos pelo seriado Jornada nas Estrelas.

A caravana sarausista do coletivo A Plenos Pulmões com o grupo Na Ponta do Lápis integra o Projeto Veia e Ventania do Sistema Municipal de Bibliotecas, órgão da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo.

Para contratar o espetáculo Nasce um Sarau: (11) 98712-1919 c/ David da Silva ou (11) 98539-7061 c/ Marco Pezão

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A gaúcha gauche chamada Anjo

Marie Ange Bordas. Foto: René Cabrales - 2011 
Dá impressão que o sobrenome dela é nome artístico de afirmação ideológica. Afinal, todo o trabalho da fotógrafa Marie Ange Bordas é voltado para pessoas que vivem à margem da sociedade, nas beiras do mundo.
Mas o nome de família vem de Bordeaux, onde seu avô negociava uvas no sudoeste da França. Gaúcha de Porto Alegre onde nasceu em 1970 e de onde foi embora aos 16 anos, Marie Ange, apesar do nomezinho angelical, nunca foi de beatitudes. Aos 25 anos de idade já tinha morado na Austrália, na França, Porto Alegre, São Paulo, Nova York... É como se ela quando ainda menina também tivesse ouvido o mesmo anjo torto que soprou no ouvido de Drummond: “Vai, Carlos, ser gauche na vida”.
Logo mais, em novembro, será lançado em livro o resultado do trabalho de Marie Ange Bordas com crianças da tribo kaxinawá, no Acre, e da comunidade Mondongo, no Pará. No projeto Tecendo Saberes, a criança indígena aprende a ler e a escrever a partir da sua própria realidade. Uma criança da cidade pode entender “A”, de amor, “B”, de bola, “C” de casa, etc.  Mas lá, no coração da Amazônia de selvas e rios, casa é oca. Melhor ensiná-las com “A” de ashu e
Marie Ange em seu trabalho como educadora em comunidades nativas. Foto: Andrés Velez
atsa (tipos de árvores), “B” de bote, “C” de carapanã (espécie de mosquito) e assim vai. Você que conhece o método Paulo Freire deve estar lendo isto com meneios de satisfação na cabeça.
As próprias crianças recolheram lendas, receitas de comidas e brincadeiras a serem reunidas em almanaques sobre o lugar onde vivem. “Já o alfabeto é um capítulo feito por crianças para crianças. Elas é que criam novo jeito de aprender”, explica Marie Ange.
A atividade prodigiosa de Marie no Norte do Brasil é dose tripla do que ela já realizou com êxito aqui no Sudeste e também no Nordeste. Em fevereiro de 2012 ela lançou o Manual da Criança Caiçara. “A ideia nasceu do meu convívio com uma comunidade de Iguape, litoral sul de São Paulo. Foram dois anos de labuta no Ponto de Cultura Caiçara da Barra do Ribeira”, conta a artista e educadora. O projeto recebeu o Prêmio Interações Estéticas da Funarte/Minc.
Antes disto, lançou em 2010 Histórias da Cazumbinha, realizado com a comunidade quilombola do Rio das Rãs, no sertão da Bahia.

Lugar nenhum
Teu encanto pelo o que esta mulher fez e faz em comunidades invisíveis brasileiras vai virar adoração agora.
Leitora na infância de As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, e de Júlio Cortázar na adolescência, Marie defende que não pode faltar na estante de uma criança livros que a façam viajar e abram caminhos para outros mundos e culturas.
No ano 2000 ela começou a retratar a realidade em campos de exilados na África (do Sul, Etiópia e Quênia), e entre refugiados do que sobrou no Sri Lanka quando um tsunami destroçou a Ásia em 2004.
Cena do vídeo (Des)Apegos, de Marie Ange Bordas - Áustria, 2002
Jornalista, Marie largou a profissão. “Como repórter eu só posso contar o que vejo. Já como artista eu posso interferir para mudar o que vejo”, filosofa com a convicção de Mestra em imagem e som pela ECA/USP (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo) e se autodefine como “jornalista por formação, artista por quereres e educadora por convicção”. “Eu acredito na criação visual (fotografia/desenho) como ferramenta poderosa de construção de identidades individuais e comunitárias”, garante. A artista se coloca como uma ponte entre as diferentes condições culturais e de vida. Ela que viaja por vontade própria, se angustia pelas pessoas que são forçadas a viver de um canto para outro, sem ter onde nem com o que se identificar.
Um dos trabalhos de Marie Ange Bordas que mais me marcaram foi o de outubro de 2002 com a comunidade kurda na periferia de Paris. Há mais de 100 mil kurdos na capital francesa, vindos da Turquia. Acantonam-se na maioria pelo trecho do 10º arrondissement (distrito). Marie ficou três semanas por lá. Nas imagens que capturou mesclou poemas do turco Nazim Hikmet (mártir da repressão). O resultado foi impresso em toalhas de mesa de papel para restaurantes, e em cartazes lambe-lambes colados pelas ruas.

Desde 2007 Marie Ange tem ficado um pouco mais no Brasil. Mas pensa que ela deu ao seu corpo ágil o merecido descanso e conforto que pode ter aqui na São Paulo onde mora hoje?
Qual o que...
Tá lá, no meio do mato. Ensinando crianças índias a contar a história dos seus povos.
Marie Ange com o músico Arrigo Barnabé. Foto: Júlio de Paula - 2011