domingo, 1 de março de 2015

Falece o jornalista André Roberg

Internado desde o início da tarde de hoje no Pronto Atendimento do município de Juquitiba, onde residia, faleceu na noite deste domingo o jornalista André Raeder Roberg, do veículo informativo regional Folha-BR, sediada naquela cidade.

Na primeira postagem informando sobre sua saúde, às 12h25 de hoje, domingo 1º de março, André Roberg, 46 anos, informava: 
“No PA [pronto-atendimento] com [pressão arterial] 20 x 12. Na sala de urgências com o melhor atendimento do mundo. Quanto orgulho e gratidão tenho da minha cidade”.

O estado de ânimo do jornalista continuava em alto astral quando ele, mesmo se auto criticando, elogiava o serviço médico:
A última postagem do repórter André Roberg no Facebook, às 13h10 deste domingo, 1º de março.

André era natural da cidade litorânea São Vicente (SP), onde nasceu em 6 de novembro de 1968. A razão social da sua empresa Editora Syllas Roberg, era uma homenagem ao seu pai, um roteirista de programas de televisão que marcou época no meio artístico paulista e brasileiro.

No sábado, 28 de fevereiro, o jornalista mostrava um disposição conciliatória na rede social: "Negócio de só criticar, meu isso já saturou, já cansou! Nós temos que ajudar."
A mensagem era acompanhada por um vídeo onde André Roberg pintava com cal branca as guias da Praça dos Emancipadores, na forma de um presente para a cidade de Juquitiba.

André Roberg é irmão do fotógrafo Wladimir Raeder, da secretaria de Comunicação de Taboão da Serra.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Marco Pezão ganha o Prêmio Governador do Estado

Em seu agradecimento ao prêmio, Pezão relembrou o início dos saraus em bares da capital e Grande São Paulo. Foto: David da Silva – 23.jan.2015
Entregue na noite da última 2ª-feira, 23 de fevereiro, o Prêmio Governador do Estado de São Paulo contemplou artistas e/ou grupos culturais que se destacaram em suas atividades no ano de 2014. Foram 45 finalistas distribuídos em nove categorias. Dentre os cinco concorrentes avaliados pela capacidade de reinventar os espaços onde fazem sua arte, e pela criatividade na forma de se relacionar com o público, o poeta Marco Pezão foi eleito pelo Júri Especializado na categoria Territórios Culturais.
De camiseta azul, Pezão na plateia ao lado da esposa Otília acompanha o anúncio dos vencedores. 
Foto: Reprodução
Pezão é co-fundador do Sarau Poético da Cooperifa, criado em outubro de 2001 em um boteco do município de Taboão da Serra. Em 2011 coordenou a elaboração do Mapa da Poesia que identificou os saraus da Grande São Paulo e centro da capital.  Nos últimos quatro anos ele organiza o Sarau A Plenos Pulmões, sediado na Casa das Rosas, região central de São Paulo. Atualmente, está estruturando o projeto I Love Laje de estímulo à leitura e declamação de poemas, no bairro Campo Limpo, zona sul, onde reside.
A cerimônia de premiação foi no Theatro São Pedro, famoso pela sua elegância e clima aconchegante. Este teatro não foi construído pelo poder público. Conheça a história e as magníficas instalações desta casa de espetáculos aqui
A entrega dos troféus teve como Destaque Cultural o poeta Paulo Bomfim. Com 35 livros publicados desde 1947, membro da Academia Paulista de Letras há 52 anos, Bomfim, chamado “Príncipe dos Poetas Brasileiros”, além de troféu foi homenageado com R$ 100 mil, em reconhecimento à sua trajetória e contribuição para a cultura brasileira. O músico Eduardo Santhana, do grupo Trovadores Urbanos, cantou para o homenageado a melodia que criou para o poema “Não me pergunte mais nada”. Hoje com 89 anos de idade, na solenidade o poeta comparou a honraria recebida na noite da 2ª-feira ao primeiro troféu ganho em sua carreira em 1947 das mãos de Manoel Bandeira. “Aquele foi o meu batismo, e este é a minha crisma, a minha confirmação", afirmou no seu agradecimento.

O Prêmio Governador do Estado existe desde 1957. No meio da década de 1980 a premiação foi suspensa, e retomada em 2010. Em 2012 foi aberta a participação do público via internet na escolha dos premiados.  Neste ano de 2015, a votação dos internautas aconteceu entre 19 de janeiro a 19 de fevereiro. Nesse período foram contabilizados mais de 42 mil votos.
Na votação popular da modalidade de Territórios Culturais, o poeta Marco Pezão foi segundo colocado com 30% dos votos, contra 42% do Grupo OPNI, da região do bairro São Mateus, zona leste da capital.

Enquanto aguardávamos o Theatro São Pedro abrir suas portas, Marco Pezão contou à reportagem seus laços emotivos com aquela casa de espetáculos. 
“Eu tinha 22 anos, já estava casado, e resolvi voltar a estudar. Concluir o segundo grau no GECALI - Ginásio Estadual do Campo Limpo [atual Escola Estadual Leonardo Villas-Boas, colada ao Terminal de Ônibus Campo Limpo]. A gente tinha uma professora bem de esquerda, era época da ditadura militar, e ela nos levava para ver peças de conteúdo político. E foi aqui que vim assistir Galileu Galilei, em 1973. Meu interesse pela peça foi tanto, que até a moça lanterninha sugeriu que eu mudasse de lugar, longe da falação dos outros alunos. Nasceu dali o meu amor pelo teatro”, relembra.
Pezão com seu troféu na saída do Theatro São Pedro.
Foto: David da Silva - 23.jan.2015
Em 1978, já entrosado com grupo teatral, Pezão ensaiou no andar superior do Theatro São Pedro uma encenação de Cartas Chilenas, de Tomás Antonio Gonzaga. “A gente ensaiava lá em cima, na parte chamada na época Studio São Pedro. E na parte de baixo, no teatro mesmo, estavam ensaiando Macunaíma, dirigida pelo Antunes Filho. Então, voltar aqui hoje como indicado para um prêmio, passa todo um filme na minha cabeça”, disse Pezão minutos antes da cerimônia de onde sairia vencedor.

Os discursos mais aplaudidos da noite de prêmios ficaram por conta de grandes ícones da Cultura paulista. A bailarina e atriz Marilena Ansaldi, 80 anos, comoveu a plateia ao contar da sua recuperação de grande problema de saúde no início do ano passado, e sua volta aos espetáculos. “Fora do palco, longe da sua arte, o artista é uma pessoa morta”. Já o fotógrafo German Lorca arrancou risos do público, com seu discurso telegráfico: “A gente precisa fazer 93 anos de vida para receber um prêmio como este aqui”.
A fala mais envolvente foi do celebrado Zé Celso Martinez Corrêa, ator, diretor e criador do revolucionário Teatro Oficina. “Eu pensava que o Apocalipse fosse coisa para bem depois de eu estar morto e esquecido. Mas nós já estamos vivendo o apocalipse da falta de água”, disse para delírio dos presentes, que não economizaram palmas na crítica ferina ao governador Geraldo Alckmin que estava sentado no auditório. “Nós precisamos redescobrir os córregos desta cidade de São Paulo. Por baixo do nosso teatro Oficina passa um córrego, canalizado. A geração dos meus avôs tinha ódio da terra. Cobriram tudo com cimento. Precisamos reencontrar essas águas. Todas estas medidas que os governos estão tomando, medidas econômicas, não têm nada a ver. Precisamos resgatar a Vida. Combater o desmatamento também é coisa pouca. Precisamos é reflorestar. Plantar árvores aos milhões. Aqui em São Paulo temos os escritórios da Berrini [Avenida Luiz Carlos Berrini], o metro quadrado mais caro da cidade. E fica bem ao lado do Rio Pinheiros totalmente poluído, fedido. E os capitalistas não fazem nada contra este fedor”, seguiu o veterano artista no seu discurso apoteótico.

A Comissão Julgadora da categoria Territórios Culturais foi composta por:
·         Marcelino Freire, escritor paraibano-paulistano nascido em Sertânia (PB) há 47 anos, completa 48 de vida no próximo 20 de março. Autor dos mais renomados da atualidade na literatura brasileira. Como contista ganhou em 1991 o prêmio do Governo do Estado de Pernambuco, e em 2006 o Prêmio Jabuti de Literatura. Em 2014 lançou seu primeiro romance Nossos Ossos, ganhando o seu segundo Prêmio Jabuti. É criador da Balada Literária da cidade de SP, iniciada em 2006.
·         Rosa Iavelberg - graduada em Arquitetura e Urbanismo em 1973 pela USP (Universidade de São Paulo); especialização em arte-educação I e II pela ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP (1989); mestrado em Educação pela USP (1993), e doutorado em Artes pela ECA - USP (2000).
·         Maria Thereza Bosi de Magalhães - Foi coordenadora do Prêmio Governador em 2013. Graduada em Licenciatura em Psicologia pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília (1992) e graduação em Psicologia pela Universidade de Brasília (1996). Especialização em Arte pela PUC/SP e em Comunicação pela ECA - USP. Experiência em pesquisa, planejamento, curadoria, execução e avaliação de projetos artísticos e socioculturais, além de gestão de estratégias de comunicação.
·         Luciana Rodrigues
·         Eugenio Lima

Assista no perfil do Marco Pezão, no facebook, o seu discurso de agradecimento ao prêmio.

CONFIRA A LISTA COMPLETA DOS VENCEDORES - 2014:
DESTAQUE CULTURAL | Prêmio de R$ 100 mil e troféu criado por Ester Grinspum
Paulo Bomfim - Conjunto da Obra

VOTO DO JÚRI – Prêmio individual de R$ 60 mil e troféu criado por Ester Grinspum
ARTE PARA CRIANÇAS: Banda Mirim – 10 anos de trajetória
ARTES VISUAIS: German Lorca – Fotografia “Moderna para Sempre” e “A 5º Bandeira”
CINEMA: Alê Abreu – “O Menino e o Mundo”
CIRCO: Amercy Marrocos – Artista e formadora
DANÇA: Marilena Ansaldi – “Callas: O Mito”
MÚSICA: Juçara Marçal – “Encarnado”
TEATRO: Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona - Projeto Odisseia Cacildas
TERRITÓRIOS CULTURAIS: Marco Pezão – Agitador cultural

VOTO POPULAR – Troféu
ARTE PARA CRIANÇAS: Fortuna - Tic Tic Tati (29% dos votos)
ARTES VISUAIS: German Lorca – Fotografia “Moderna para Sempre” e “A 5º Bandeira” (86% dos votos)
CINEMA: Daniel Ribeiro – “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” (32% dos votos)
CIRCO: Amercy Marrocos – Artista e formadora (58% dos votos)
DANÇA: Holly Cavrell – “Suportar” (47% dos votos)
MÚSICA: Monica Salmaso - Corpo de Baile (30% dos votos)
TEATRO: Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona - Projeto Odisseia Cacildas (32% dos votos)
TERRITÓRIOS CULTURAIS: Grupo OPNI - Galeria Céu Aberto (42% dos votos)

INSTITUIÇÃO CULTURAL: SESC - Programação e espaços multidisciplinares (57% dos votos)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Vou-me embora pra Croácia

Kolinda Grabar no dia em que foi pedir votos
a jogadores da Seleção da Croácia. 
Foto: Goran Ferbežar/PIXSELL
Antes de você embirrar (“O que Croácia tem a ver com este blog sobre Taboão da Serra?”) lhe digo logo: 19 de fevereiro é dia do aniversário da minha cidade. E também a data querida em que a ex-diplomata Kolinda Grabar pegou as chaves do seu gabinete de primeira mulher presidente daquela nação. Eleita em 11 de janeiro último, teve um ritual burocrático de posse domingo passado, mas foi ontem que ela assumiu o escritório onde governará pelos próximos cinco anos.
Mas não foi a primeira mulher a se aventurar nas urnas eleitorais croatas. Em 2009, outra senhora tentou ser prefeita da cidade Kaštela, região sul do país. Era uma prostituta.

Primeira vez que li algo sobre Croácia foi por causa da música “Zagreb”, do maestro-arranjador-pianista mineiro Wagner Tiso, no seu primeiro disco-solo instrumental lançado em 1977. Gostei tanto da composição que fui buscar o significado daquele nome. Tinha eu meus 20 anos de idade...
Tempos depois, em 1997 na Prefeitura de Taboão da Serra conheci o motorista Peric, descendente de croatas. A gente se divertia quando ele dizia: “Meus parentes são tão invocados, briguentos, que lá em casa não existe ‘confraternização em família’. Se juntar a parentada toda na mesa, o almoço acaba em pancadaria. Croata é gente braba”. Daí descobri o porquê do jeitão pouco expansivo de um antigo instrutor profissional aqui do município, a quem chamávamos ‘professor Peric’; não lembro qual aula dava, só sei que era curso técnico que ele ensinava no antigo Cepim. Também não recordo se era pai ou tio do nosso motorista Peric. O ‘professor Peric’ gostava da política taboanense, e lançou sem sucesso candidatura a vereador nos idos da década de 80.

Minha curiosidade sobre Croácia reacendeu em 2001, quando estudei o livro “Jornalismo e Desinformação”, do repórter Leão Serva. Ele foi correspondente brasileiro de guerra na Croácia em 1992. Lembrei do gênio irascível dos parentes do meu amigo motorista Peric. No livro o repórter conta que croatas têm a estranha mania de colecionar um macabro troféu de batalha quando matam inimigos: arrancam-lhe os olhos...
Por falar em olhos...

Kolinda Grabar. Reprodução | Facebook
O mundo voltou os olhos para a Croácia no início deste ano 2015, nem tanto por causa de uma mulher no poder (há tantas e tão feias políticas por aí...). A galera se assanhou mesmo foi com as belas curvas da dona Kolinda vestida em biquíni azul. Forma física de fato atraente para quem está com 46 anos (ela faz aniversário em 29 de abril).

No primeiro turno da corrida presidencial Kolinda Grabar ficou em segundo: 37,22% contra 38,46% do candidato à reeleição Ivo Josipovic.
No segundo turno a loura virou o jogo: ela com 50,44%, e Ivo, 49,56%. Diferença miserável. (não se esqueça que croatas são zica)
Ivo Josipovic até que é um cara legal. Político de centro-esquerda, professor de Direito e compositor de música clássica... mas... volta pro teu piano que a rapaziada tá focada é na Kolinda.
A loira não vai ter vida fácil – desemprego a 20%, taxa das mais altas no mundo; país em crise permanente desde 2008. De cada dois jovens croatas, um está sem trabalho.
O povo croata está tão na pindaíba que o governo teve de perdoar no fim do mês passado 289 milhões de euros de pessoas com dívida no banco e débitos com empresas de telefonia, estatais, etc.

Voltando ao que te disse no início, a primeira notícia que li sobre mulher em disputa eleitoral na Croácia foi em 2009. Depois (como quase sempre) os jornais não tocaram mais no assunto.
(não esqueça que o livro citado acima chama “Jornalismo e Desinformação”. A maioria dos colegas tem o maldito hábito de não dar suporte histórico às suas matérias. Soltam reportagens a rodo, sem dar ao pobre do leitor a bênção de saber o que aconteceu antes e depois do assunto noticiado)
Pois bem. Em 2009, e então com 41 anos, a candidata Lidija Sunjerga (pronuncia-se suniêrga) entrou na briga pela prefeitura da sua cidade natal Kaštela (é assim mesmo que se escreve: com chapeuzinho da boca pra cima na letra s). O assunto botou lenha na fogueira eleitoral da cidadezinha. E os jornalistas pilantras sempre sacaneavam a moça, fazendo questão de não chamá-la apenas de candidata, e sim acrescentando “a prostituta e estrela pornô candidata a prefeita”. De fato a garota saiu da Croácia com 19 aninhos para ser puta na Holanda. Nas horas de folga, fazia filmes pornográficos. Mas daí a ficar remoendo o assunto a cada linha de cada notícia sobre Lidija, tenha a santa paciência...
Selecionei do jornal Slobodna Dalmacija, com a ajuda óbvia do tradutor google, algumas opiniões de eleitores da época sobre a então candidata (em croata: prefeita = gradonačelnik).
Mira Šegvic, 63 anos, pensionista, disse: “O passado dela é uma questão particular. Como candidata ela é uma mulher completamente normal. Eu apoio ela para prefeita”.
Já uma xará dela, Mira Višić, enfermeira, 60 anos, discordava: “Acho que para o lugar de prefeito a gente deve encontrar mulheres mais educadas, que tenha uma outra carreira, e não a que ela tinha”.
O pensionista Ranko Deanović, 58 anos, disse: “Eu não tenho absolutamente nada contra a sua candidatura. Seu passado não tem nada a ver com o tempo presente. E para o futuro ninguém pode contestar a sua qualidade e sua capacidade”.
A lojista Ivana Kelam, 35 anos, disse: “Sua candidatura a prefeita é uma experiência muito ousada. Não tenha vergonha do seu passado. Não precisa esconder o que fez. Ela tem o meu apoio”.
Gostei mesmo foi do que disse a repórter (em croata: novinarka) Dijana Putnik, 48 anos: “A lei garante a candidatura dela. A questão é saber se será bem sucedida na administração pública. Embora tenha escola de vida, não tem experiência em gestão urbana. Ela tem a língua afiada, mas é honesta. Poucos podem dizer que são íntegros iguais a ela. Pois se prostituem de outras formas, ganhando dos cofres públicos muito mais do que ela cobrava dos seus clientes na cama”.
Comitê eleitoral. Na parede ao lado da foto, escrito:
"Lidija prefeita. Por que não?"

Apesar de suas habilidades entre quatro paredes, Lidjia não excitou o eleitorado. Teve apenas 453 votos, o equivalente a 3,3%. 
Reflexo da saturação dos eleitores com os políticos, apenas 40,58% foram às urnas (13.719 comparecimentos em um universo de 33.809 inscritos).

Se a bonitona Kolinda Grabar teve sucesso nas urnas como presidente, um pouco ela deve ao pioneirismo de Lidija Sunjerga, que de certo modo botou o eleitor croata pra pensar, e romper com pré-conceitos.
Por uma feliz coincidência, Kolinda e Lidija têm a mesma idade, 46 anos.
A derrota nas urnas não derrubou Lidija Sunjerga das suas convicções. Não deixou de ser puta, nem se desinteressou da política. Li ontem no Facebook da moça que ela está empenhadíssima na luta contra a extração de gás e petróleo no mar Adriático, litoral da Croácia.

Apesar da exuberância e inteligência, Kolinda Grabar não agrada todos e todas. Uma jornalista fofoqueira de Zagreb, capital do país, escreve: “Especialistas em moda aqui têm muitas vezes criticado nossa nova presidente por causa de suas roupas bastante apertadas, o cabelo geralmente preso em coque, e os cílios postiços que ela não quer deixar de usar”.
Escolada em longos anos de diplomacia internacional, Kolinda tira de letra: “Estas observações sobre meu modo de vestir são coisas secundárias. A aparência é importante, mas, em vez de se lembrar de um penteado, as pessoas vão se lembrar muito mais do sorriso que abre todas as portas", disse a loira radiante a um semanário local.

Na vida particular Kolinda Grabar é casada e mãe de Katarina, 13 anos, e do menino Luka, 11.
Sobre seu esposo, ela diz ser ele quem administra toda a vida doméstica. E diz bem humorada: “Ele é um marido profissional”.

Traduzindo para a linguagem aqui do nosso blog-boteco, “marido profissional” significa: seriíssimo candidato a corno.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

58 anos de vida e de sonhos do candeeiro Geraldo Magela

Magela observa formação de temporal no Pq Marabá.
Foto: David da Silva - 19.dez.2014
O Facebook mandou me avisar que hoje é aniversário de Geraldo Magela. Líder de cortejo de Boi-Bumbá, mestre-cirandeiro, compositor, violonista, percussionista e fundador do Grupo Candearte. Mas ele troca todos estes títulos de nobreza por uma única singela autodefinição: “Sou folião, e filho de folião”.
Com 7 anos de idade, desobedecendo ao pai, o menino Magela espichou os olhos para uma Folia de Reis, lá na cidade de Barra Longa (MG) onde nasceu. Pela crendice popular, a uma criança é vedado assistir à Folia. Pra não dar azar, o pai disse ao garoto que ele deveria acompanhar a folia por sete anos seguidos. Chegando a São Paulo, Geraldo quis seguir a tradição paterna. Mas a Folia não deu pé. E ele enveredou pelo Boi-Bumbá, organizando cortejos nos finais de ano pelas ruas do Parque Marabá, bairro onde mora em Taboão da Serra.
“No começo o meu Boi-Bumbá só era assistido pelos bêbados, os cachorros e as crianças. As pessoas ‘normais’ achavam que eu era maluco”. Hoje o Boi de Geraldo Magela arrasta uma multidinha por onde vá.
O nome Candearte do seu grupo cultural também deita raízes na infância em Minas Gerais. “Com 6 anos de idade eu era candeeiro de boi. Aquela criança que vai na frente do carro-de-boi ou do arado, mostrando o caminho certo pro boi seguir. Daí que quando fui batizar meu grupo, bateu uma saudade danada da minha terra. E resolvi homenagear todo o meu passado, e as tradições que aprendi com meu pai e com as outras pessoas que criaram essa Cultura do nosso país”.
Foto: David da Silva - março/2008
Além deste alicerce sentimental na escolha do nome de seu grupo, Magela tem uma explicação poética para o título Candearte: “De certa forma, mesmo agora com a idade que eu já tenho de 58 anos, ainda sou um menino-candeeiro. Só que agora eu conduzo um imaginário carro-de-boi carregado de Artes”.

Tenho o privilégio de ser vizinho de Geraldo Magela. E privilégio maior me foi concedido quando vi surgir, de uma conversa nossa, a música título do seu mais recente disco ‘Minas Canções’.  No finalzinho do ano 2010, havíamos nos encontrado no bairro Jardim Roberto, distante cerca de três quilômetros de onde moramos. Percebendo que nossa conversa não caberia na rápida viagem de ônibus até nosso bairro, resolvemos vir a pé, para espichar a prosa. Na caminhada brotou a inspiração para a ansiada faixa-título do disco, lançado em maio de 2011.
Ciranda na estação Santa Cecília do Metrô.
Foto: David da Silva - 29.set.2009
Tive também o privilégio de filmar a primeira vez em que o Metrô de São Paulo foi palco de uma enorme roda de ciranda, comandada por Geraldo Magela. O fato se deu na finalização de um Sarau do Binho, realizado na Estação Santa Cecília, em setembro de 2009. Enquanto a multidão de passageiros se escoava lentamente em direção aos trilhos na volta para casa, a ciranda comia solta. Escrevi na época: “É como se um trem do metrô de São Paulo fosse partir daqui direto para a ilha de Itamaracá, um dos berços da ciranda em Pernambuco. A voz franzina deste mineiro se agiganta quando ele coloca as pessoas para cirandar”.
Magela e eu damos muitas risadas do período em que ele iniciou sua vida de professor de violão aqui na região. “Eu tinha só uma menina que fazia aula de violão comigo no projeto Arrastão [ONG situada no limite entre o bairro Campo Limpo e o município de Taboão da Serra]. Daí eu saia daqui do Parque Marabá, e no caminho até o local da aula, eu ia rezando a Deus pra aquela menina não desistir do violão. Não que ela fosse ser uma grande instrumentista. Acontece que a mensalidade dela era o único dinheirinho certo que eu podia contar naquela época”, diz Magela, se torcendo na gargalhada das lembranças dos tempos difíceis.
Magela e eu temos um samba inacabado, inspirado em um acidente medonho ocorrido durante a construção da Estação Pinheiros do Metrô. Começamos a fazer o samba em janeiro de 2007, época da tragédia onde sete pessoas morreram soterradas. A melodia do samba começou a brotar das cordas do violão de Magela, enquanto eu contava a ele que aquelas pessoas não eram todas trabalhadoras da obra. Foram engolidas pela cratera; estavam passando ao lado da construção quando a terra começou a desbarrancar. Volta e meia Magela se aperreia e cobra: “David, cadê a letra do samba?, rapaz...”. Mas depois ele mineiramente filosofa: “Esquenta a cabeça, não. Paulinho da Viola e Eduardo Gudin demoraram 20 anos pra fazer um samba, por que nós dois não podemos demorar 40, uai!?”.
Apesar dessa ‘privilegiação’ toda, não escrevi muita coisa sobre Magela no meu blog até hoje. Só uma coisa ou outra. A bem dizer, quase nada. Casa de ferreiro, espeto de pau, como se diz.
Faço agora um pequeno resgate dessa omissão, vicejada por tanto nos vermos nas manifestações culturais das quebradas do mundaréu. E por nos encontrarmos tamanhas vezes na fila do banco, na porta do açougue, balcão de padaria, no ponto de ônibus, no caminho do sacolão...

Vai aqui um salve! suave e um abraço forte para meu colega de copo e de cruz, Geraldo Magela do Brasil.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Eletropaulo sacrifica condomínio com 120 horas sem manutenção da rede

Foto: Nilton Esteves
O Condomínio Rural Jardim Iolanda, em Taboão da Serra, ficou por 18 horas entre a terça e a quarta-feira desta semana sem o abastecimento interno de água para suas casas, devido ao rompimento de um cabo de alta tensão.
O cabo de 13.800 Volts, na Alameda Clio, onde ficam as bombas que distribuem água para todo o condomínio, rompeu-se às 23h da terça-feira, 10 de fevereiro, e só foi consertado no final da tarde de ontem.
O síndico Nilton Esteves informa que sua comunidade foi penalizada por 120 horas sem serviços da Eletropaulo nos últimos três meses. “Se formos contar somente do dia 4 de dezembro último até hoje [quarta-feira 11 de fevereiro], somam-se 119 horas e quatro minutos de fornecimento interrompido devido à demora na manutenção da rede elétrica”, contabiliza Esteves.
Nem mesmo no dia de Natal a Eletropaulo deixou de dar mancada na qualidade de seu serviço.

A planilha do descaso
A demora da distribuidora de energia elétrica em consertar problemas da sua rede no Condomínio Jardim Iolanda, chegou a deixar os moradores dois dias consecutivos sem o serviço. Em 3 de janeiro deste ano o fornecimento parou às 14h21 e só foi restabelecido às 9h da noite do dia seguinte. Foram mais de 30 horas para a Eletropaulo enviar equipe de manutenção ao local.

Problema antigo e recorrente
Em Taboão da Serra os problemas com a Eletropaulo já entraram para o folclore político.
Na noite de 25 de março de 2014, o vereador José Aparecido Alves, hoje presidente da Câmara Municipal, trovejou da tribuna críticas à empresa. “Já passou da hora de a Eletropaulo prestar esclarecimentos sobre seus serviços. A conta de luz é muito cara, e o atendimento muito ruim”, disse na época o político.
A Eletropaulo chegou a ser convocada a se explicar em audiência pública da Câmara taboanense em 10 de abril do ano passado. A empresa ignorou solenemente a tal “convocação”.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

As peripécias do poeta Binho quando moço

Robinson Padial, o poeta Binho
Fiz esta entrevista com o poeta Binho em 19 de novembro de 2014, dias antes de ele completar 50 anos. Publico agora porque o Sarau que leva seu nome retoma as atividades na próxima 2ª-feira, 9 de fevereiro.
Nosso bate-papo se deu no Bar Fecha-Nunca do Campo Limpo. Bairro onde Binho nasceu e onde se mantém firmemente ancorado, independentemente de suas perambulações pela poesia e pelo mundo.

“Meu nome é Robinson de Oliveira Padial. Nasci em novembro de 1964. Meu pai chamava-se Joaquim Antonio Padial, o popular Mestiço. Ele nasceu em São José do Rio Preto, interior de São Paulo. Minha mãe chamava-se Hilda Vasconcelos de Oliveira Padial, nascida em Tambaú (SP), terra do padre Donizete. Não sei com que idade eles saíram dos lugares onde nasceram para vir morar em São Paulo.

“Meu pai conheceu minha mãe num trem da Sorocabana, parece. Acho que marcaram uma ponta, e...”.
“Meu pai morreu faz 15 anos. Faleceu em 1999 com 70 anos. Teve um câncer, e depois morreu devido a problemas do pulmão. Ele fumava muito. Minha mãe também fumava. Os dois sempre fumaram. Ela morreu em 1994 com 68 anos, talvez devido ao cigarro, provavelmente”.

“Minha família morava na Rua Antonio Antunes [Vila Pirajuçara, Campo Limpo]. Minha mãe foi me dar à luz em Taboão da Serra. Eu só nasci lá, pois a gente morou sempre aqui no Campo Limpo”.

Mestiço, pai do Binho
“Quando eu nasci, meu pai trabalhava com corretagem de imóveis. Não sei se a imobiliária era dele. Depois ele abriu a própria imobiliária, chamada “Irmãos Mestiço”, junto com o irmão dele, Antonio”.
“Antes de eu nascer, minha mãe chegou a trabalhar em auxiliar de enfermagem no Hospital das Clínicas. Mas depois só se dedicou a cuidar da casa e dos filhos”.
“Somos em cinco irmãos, uma escadinha. Diane, Lola, depois vem o João [havia falecido meses antes da entrevista], eu, e o Rodolfo, que quase ninguém daqui da região conhece; mora lá pra São Bernardo [região do ABC da Grande São Paulo], vem pouco aqui”.

“Na minha época de moleque, o Campo Limpo estava muito no começo. Tinha os rios aí pra trás, tinha as  lagoas. Aquela mata que você tá vendo ali ainda [aponta para os lados de Taboão da Serra] ali pra trás tinha as lagoas, naquelas quebradas. Eu saia daqui, perto da atual delegacia [de Polícia] onde eu morava, e a gente ia lá pro Parque Pinheiros. Tudo escondido da mãe. Sumia no mundo com a molecada do bairro. Diziam: ‘Tem uma lagoa lá”. A gente ia. A gente atravessava o córrego [Pirajuçara] e ia. Na época que não chovia, dava pra atravessar o córrego com água pela canela. O córrego era fedido, já. Não como é hoje, mas já fedia, água turva. Nas lagoas era perigoso pra caramba. Chegou a morrer gente lá. Aí a gente ficou com medo, parou de ir.”
Foto dedicada por Mestiço, pai do Binho, aos funcionários da
primeira linha de ônibus que ligou o Campo Limpo com Pinheiros
.
“A escola onde aprendi a escrever ficava nos fundos de onde é hoje o Terminal Campo Limpo de ônibus. Entrei na escola com seis anos e um pouquinho. A escola era um barraquinho de madeira. Minha primeira professora foi a dona Marli Rea. A gente fazia o primeiro ano lá, e aí no segundo ano você subia para o prédio da escola Kennedy. A escolinha de madeira também chamava Kennedy, mas a gente começava lá e vinha aqui pra cima, perto da igreja católica.
No segundo ano minha professora foi Heloisa. Não esqueço dela porque uma vez eu estava com a mão no nariz, e ela me recriminou, fez uma cara muito feia, e eu moleque tirando caquinha; nunca esqueço disso”.

“A minha infância foi toda sempre muito concentrada nessa área aqui. Onde tinha o campinho... eu gostava muito de jogar bola. Então, eu amava tanto jogar bola, que meu mundo foi aquele. Eu não saia muito do foco. Eu era livre ali, né? Era muito espaço. O campinho ficava onde hoje é o estacionamento das viaturas da Delegacia de Polícia do Campo Limpo.

“Quando moleque a gente não ficava vacilando na rua. Porque tinha muito medo do Juizado de Menores. Carteira de trabalho assinada também era importante pra gente. Com 14 anos você tinha que ter carteira assinada. Se te pegassem na rua com 14 anos sem carteira assinada, você já ia ter problemas”.

“Meu primeiro contato com o Poder do Estado, minha noção de existência de autoridades, foi por volta dos meus 11 a 12 anos, quando asfaltou a Rua Jacaratinga, e ainda nem tinha a delegacia lá. A gente estava brincando de carrinho de rolemã, e veio uns polícias encher o saco. Daí eu lembro que meu irmão por parte de pai, o Geraldão, quando os policiais mandaram a gente parar de brincar em cima do asfalto novo, meu irmão Geraldo falou: “Chama o Jesus lá que encavalou a marcha”. Ele falava muito na gíria. “Encavalou a marcha” era o jeito de dizer que tinha surgido complicação. Esse meu irmão por parte de pai era maloqueirão de tudo. Frequentava muito o campo de futebol do time Martinica. Ele foi nascido e criado lá pelos lados do bairro da Lapa [zona oeste da capital São Paulo]. O apelido dele era Morcegão. Era filho do meu pai com a dona Ditinha. Daí quando a polícia embaçou com nossos carrinhos de rolemã, o Geraldão mandou a gente chamar o Jesus, que era meu outro irmão. Filho do meu pai também com a Ditinha. Os policiais não mexeram com a gente; só mandaram parar com os carrinhos de rolemã. Mas quiseram pegar o Geraldão. Só que ele era muito forte, começou sacolejar os caras. Aí chegou mais gente, a turma do ‘deixa pra lá’.
Anúncio do pai de Binho, reproduzido

no livro Bebel que a Cidade Comeu,

de Ignácio de Loyola Brandão

“Meu pai teve além de nós cinco, filhos com várias mulheres. De casamentos antes da minha mãe, e depois de casado. Ele era muito mulherengo. Tinha amantes pra todo lado. Não era rico, mas tinha uma grana, trabalhava sempre, se virava bem, e o dinheiro facilitava os romances. Com a dona Ditinha meu pai teve três filhos: o Geraldão, o Jesus, e outro. Minha mãe adotou eles todos. Minha mãe era demais. Ela adotou as crianças não sei se porque ela gostava muito do meu pai, ou se foi por dó da molecada.
Quando eu era menino, talvez 14 anos, não sei que ano foi, chegou em casa um outro irmão meu, o Gino. Ficou o dia inteiro rondando a nossa casa, sem falar nada com ninguém. Ele era filho do meu pai com uma mulher lá do bairro Jabaquara. Quando meu pai chegou de tardezinha, foi colocar o carro Dodge Dart na garagem (ou talvez fosse Dodge Charger, não sei. Só sei que era carrão), daí o rapaz chegou nele: “Eu sou o Gino. Sou seu filho”. Assim, na lata, desse jeito. Meu pai tomou um susto, né, meu? O rapaz já tava na faixa dos seus 19 anos, por aí. Hoje esse Gino trabalha na Amazônia, gerente na área de marketing da Rede Globo.

“Meu pai teve a primeira farmácia aqui do Campo Limpo. Ele entendia bastante desse negócio de remédios, medir pressão, aplicava injeção em todo mundo. Tinha bastante prática nisso”.
Da minha época de menino não me lembro dessa farmácia. Quando comecei a tomar noção do mundo, meu pai já tinha montado a imobiliária. Inclusive tem um livro do Ignácio de Loyola Brandão, o romance Bebel que a Cidade Comeu, onde tem a reprodução de uma propaganda da imobiliária do meu pai. [No seu romance de estreia, Ignácio de Loyola Brandão usou a técnica de entremear a ficção com recortes de anúncios de jornais]. A imobiliária do meu pai ficava exatamente onde hoje é a Casas Bahia da Estrada do Campo Limpo [número 4.176].  Depois ele montou uma carpintaria, uma fábrica de portas e janelas.

“Em 1969 meu pai construiu uma casa na Rua Cajangá, perto de onde hoje fica a Delegacia de Polícia do Campo Limpo. Eu não lembro se a casa onde a gente morava antes dessa, se era própria ou aluguel.
No poema ‘Campo Limpo Taboão’ escrevo que quando nasci eu tinha seis anos. Na verdade eu tinha cinco. Não sei por que escrevi que tinha seis. Acho que errei a conta. Eu nasci em 1964. E a minha irmã Diane ganhou uma vitrolinha quando ela fez aniversário em 1969. Vitrola Philips azulzinha. Essa vitrolinha é a coisa mais antiga que eu lembro na minha vida. Daí pra trás eu não lembro mais nada. Então, é como se eu tivesse nascido na época que ela ganhou a vitrolinha. Não lembro que tipo de música se ouvia naquela vitrola.
A minha irmã Diane tem influência sobre alguns gostos meus. Como ela despontou primeiro para as coisas da cultura, por ter nascido primeiro, tinha essa influência. Ela foi estudar Psicologia na faculdade Osec que hoje é Unisa, no bairro Santo Amaro [zona sul da capital São Paulo]. Daí a Diane me deu o livro ‘Escuta Zé Ninguém’, do Willhelm Reich. Aí eu li aquele livro e fiquei doido. Mudou minha vida. Eu tinha 17 anos na época.
Na escola sempre um aluno mediano, medíocre. Nunca fui um cara assim... É uma pena, né cara? Eu não gostava muito de matemática, física, essas coisas não me... Achava que não ia servir pra nada. Fórmulas que você esquecia. Da escola para mim o mais importante era a sociabilidade. A gente conhecia todo mundo. Crescemos todos juntos. Desde a infância até a juventude. Mas eu gostava de História, Geografia”.

“Na época da minha infância, os ônibus vinham de Pinheiros e paravam em frente do Bar Nosso Ponto, na imediação de onde é hoje uma agência do Bradesco [Estrada do Campo Limpo, nº 3.000].

“Meu pai demorava para chegar em casa vindo do trabalho. Como ele tinha vida de boêmio, a gente acompanhava os horários dele. Dormia muito tarde, esperando ele chegar. E acordava tarde, para tomar café da manhã com ele.
Era um ritual quando meu pai sentava para comer. De manhã ele levantava, e minha mãe ia preparar pãozinho tostado pra ele. Me lembro da minha mãe pegando aquela panela de ferro, e fazendo pão com manteiga tostado pra ele. Meu pai era glutão, e a gente foi nessa de comer também. Ele passava nas padarias e sempre trazia coisas. Ele passava na padaria do seo Agostinho, no Umarizal. Na padaria do Pirajuçara. Depende do lugar de onde ele vinha, cada diz numa região. Em casa era uma fartura. Biscoitos, pão-doce, sonho. Essas porcarias de padaria, e hoje eu não como nada disso aí.

“Em algum período da minha adolescência meu pai mudou de ramo de negócios. Fechou a imobiliária e abriu uma fábrica de portas e janelas.
Descarreguei muitos caminhões de batentes de peroba vinda do Paraguai e do Mato Grosso.
Ele abriu filiais pra todo lado que você possa imaginar. Aeroporto, Osasco,  Maria Sampaio, vários lugares. Chegou a ter 19 lojas. Vieram até parentes da minha mãe do interior para ajudar, meus tios de Araçatuba e Marília. Montava as lojas, colocava gerentes. Teve mais ou menos 40 a 60 pessoas trabalhando pra ele. Final de semana lá em casa era fila, pro pessoal pegar dinheiro. Tinha as 19 lojas funcionando, mas não tinha controle sobre nada.

“Com 15 pra 16 anos consegui um trampo de Office-boy na Casas Pernambucanas. Os negócios do meu pai já não iam bem das pernas.
Meu amigo Nicola estava trabalhando lá, fui fazer uma ficha e acabei contratado.
Era um sofrimento, viu cara? Daqui até na Rua Consolação... Tinha que pegar o ônibus 7391, acordar às 6h da manhã. Cheguei até a ser promovido lá. Trabalhava de gravatinha e tudo, você acredita? Meu serviço era um trampo que eu não entendia muito bem. Mas me promoveram... (risos). Era negócio de ativo fixo, umas plaquinhas, calcular umas planilhas bestas com uns números... Pedi demissão porque já não aguentava mais aquele emprego.

“Saí da Casas Pernambucanas e voltei a trabalhar com meu pai. Começamos a lidar com consertos de janelas e persianas. A gente colocava umas placas: “Conserto janelas”. Aí o pessoal ligava no fone 511-4694. Sempre tivemos bastante serviço nesse ramo.

Suzi e Binho
“Conheci a Suzi em 1983 em um Dia dos Namorados, numa festa na casa do professor Toni, que morava na Estrada do Campo Limpo, perto da entrada para o Parque Ypê. Ele era professor de Artes na escola estadual onde a gente estudava. Esse professor fazia uns bailinhos na casa dele. Chego lá na festa, olho a Susi, me encanto. Dançamos. Eu estudei coma irmã da Susi a vida inteira, desde o primeiro ano de escola, e não conhecia ela. Daí teve uma briga lá no bailinho, um empurra-empurra. Naquela de proteger ela, a gente se aproximou. Segurei na mão dela.
Daí namoramos durante uns seis meses, e separamos. Ficamos uns quatro anos afastados.
Depois voltamos.

“Em 1982 fui pra Juquiá, com 18 anos de idade. Meu tio Antonio, ex-sócio do meu pai na imobiliária, esse tio estava montando uma fábrica de doces de banana em Juquiá. Fiquei oito meses ajudando lá. Fazendo serviço de peão na montagem da fábrica. Mas demorou demais pra começar a funcionar. Decidi: ‘Eu não posso ficar aqui’. E vim embora.
Decidi vender bananas em cacho aqui em São Paulo. Fui no Ceasa, comprei um caminhão de bananas. Quando vieram me entregar, o caminhão quebrou no meio do caminho, na avenida Marginal, do lado da raia olímpica da USP. Mas tiveram de se virar; obrigação deles era trazer a banana até mim. Transferiram a carga de um caminhão para outro, e enfim chegou.
Peguei um Corcel velho que eu tinha, e saí pra vender. Lembro até hoje: primeiro lugar que bati em portas pra vender, foi nos sobradinhos da subida da Engemix [concreteira que tinha suas instalações na Rua César Simões, Taboão da Serra]. Meu bordão era: ‘Cambalacho, banana no cacho’. Na época não era costume vender banana em cacho nas portas das casas. Vendi bananas por uns dois anos. Ganhei uma boa graninha.
Daí decidi estudar e tentar passar no vestibular para Medicina. Ganhei uma bolsa de estudos no Anglo. Tentei por dois anos. Mas daí, sem chance. Moleque de periferia trabalhando e estudando, vai disputar um cargo na USP?

“Na minha adolescência tinha os bailinhos do clube da Casas Pernambucanas, na Estrada do Campo Limpo. A gente dança black music, K.C. and Sunshine Band, James Brown, essas coisas.

“Quando fui fazer o cursinho para prestar vestibular para Medicina em 1988, com 24 anos, me veio uma inspiração para escrever uma poesia pela primeira vez na minha vida. Meu pai alugava para outras pessoas uns quartinhos no quintal da nossa casa. Um dia, eu estava chegando em casa vindo do cursinho pré-vestibular, e dois dos inquilinos estavam querendo se matar na faca. E tavam naquela discussão: ‘Você falou’. E o outro: ‘Eu não falei’. Batendo boca um com outro, ameaçando dar facadas. No disse-me-disse. Daí eu transformei a confusão daqueles dois em poema: ‘Cê falou. Não falei. Cê falou. Não falei. Cê falou. Não falei. Cefaleia’. Foi o primeiro poema que escrevi. E ficou só neste na época. Eu gostava de ler, mas não de escrever. Tinha um poema antes do ‘Cefaleia’, mas era muito narcísico. Estava apenas esboçado, era uma brincadeira com meu próprio apelido, uma brincadeira. Mas era muito narcisista e deixei pra lá. A minha sobrinha Emayra talvez tenha guardado este esboço, mas... Eu vim descobrir a poesia com a biodança, um curso que eu fiz em 1995, na Rua dos Escultores, no Alto de Pinheiros, na Escola Paulista de Biodança. Minha irmã Diane quem me levou. Daí tinha de fazer lá uma aula de criatividade, oferecer um poema para um amigo. Ali foi meu verdadeiro encontro com a poesia”.

“Na adolescência, cursando o ensino médio (antigo colegial) eu pensava em estudar alguma coisa ligada com Medicina, ou Psicologia, por influência da minha irmã Diane.
A Diane, minha irmã, vai ver que é minha mentora (risos)... Aquela poesia: ‘Quando eu nasci tinha seis anos’, que é a idade com que eu me deparei com aquela vitrolinha da minha irmã. A memória mais antiga da minha infância. Antes desse acontecimento não tenho lembrança de nada. Eu passo a existir pra mim mesmo só depois da vitrolinha. E essa poesia termina com: ‘De tão solitário sou meu próprio vizinho’. É um verso que a filha da Diane – olha a ponta da raiz ligando! – a Raíssa filha da minha irmã era menina, e estava brincando de bonecas com a minha filha Naiana, no tempo em que eu morava em um apartamento no Jardim Umarizal. Eu estava passando do quarto pro banheiro, escutei ela falar: ‘Ué, Naiana, onde já se viu? Como você vai ser sua própria vizinha?’. Aí eu anotei e usei essas duas pontas no meu poema “Campo Limpo/Taboão”. Um fato que aconteceu comigo quando criança abre o poema, e o poema fecha com outro fato da infância da minha filha e minha sobrinha. E minha irmã Diane no eixo disso tudo”.

“Em 1990, resolvi conhecer a Europa. Vendi uma moto e um fusca que eu tinha. Vendi meus livros, discos... Tudo que desse grana. Também fiz uma festa para arrecadar dinheiro para a viagem. Nesta época eu já não usava cueca. Comprei uma cueca, a gente cortou ela em pedaços, tipo gravata de casamento. Pra arrecadar um dinheirinho. Fizemos a festa no quintal de uma escolinha que a minha irmã Diane tinha no bairro Monte Kemel.
Na hora de eu ir viajar, o dinheiro ficou preso no banco. Mas como a Susi trabalhava no banco Itaú, conseguiu lá de alguma forma liberar essa grana.
Fui embora, e desembarquei em Madri. No mesmo dia, alguma coisa me dizia: ‘Vai pra Barcelona’. Peguei um trem e fui. Em Barcelona não consegui emprego. Minha ideia era arrumar trabalho e ficar por lá. Tinha que trabalhar, porque eu tinha pouco dinheiro. Levei apenas 1456 dólares.
Depois de 15 dias em Barcelona, fui embora pra Itália. Ia ter a Copa do Mundo, e fui para Torino, onde a Seleção Brasileira ficou hospedada. Lá perto, nas proximidades de Siena, estava morando o meu amigo Mazzola, que também é morador antigo aqui do Campo Limpo. O Mazzola e uns parentes dele trabalhavam num lava-rápido na cidade de Colle di Val d'Elsa, e fiquei ajudando eles por uns 15 dias. Não podiam me dar emprego porque eu não tinha autorização para trabalhar na Itália. Na Copa cheguei a assistir dois jogos do Brasil. Também conheci Milão e Roma Em termos de dinheiro, só uma merreca no bolso. Mas eu dormia de qualquer jeito: em estação de trem, rodoviária. Onde desse. Era época de verão na Europa, então não tinha problema. Se fosse inverno, eu tinha dançado.
No dia que atravessei a fronteira da Itália com a França, conheci o Ezio Sandroni. Estávamos no mesmo ônibus. Lembro até que ele tinha machucado o braço. Como ele já tinha estado no Brasil, começamos a conversar. Daí ele me deu o telefone dele, e falou pra eu procurá-lo na casa dele, na comuna de Monforte D’Alba. Fica na região onde se produz o vinho Barolo, um dos melhores vinhos do mundo.
Nessa fase eu já tava preocupado, porque minha grana estava acabando, e eu não conseguia emprego. Liguei pro Ezio. Ele veio me encontrar numa estação de trem, e fomos no carro dele para o sítio onde ele morava bem afastado da cidade. O Ezio trabalhava com restauração de móveis, e eu fiquei ajudando nesse serviço.
Dali fui para Israel. Fiquei cinco meses lá, trabalhando no Kibutz Erez, na localidade de Ashkelon [no litoral sul de Israel, ao norte da Faixa de Gaza. Segundo uma lenda bíblica, nesta cidade teriam vivido os personagens Sansão e Dalila].
Fui para Israel porque, sem dinheiro no bolso e sem autorização para trabalhar na Itália, eu tinha de ir embora para algum lugar. E fui servir como voluntário no kibutz em Israel [Kibutz é uma fazenda de propriedade coletiva. Toda a produção é repartida por igual entre os seus membros, e forte prioridade à Educação das crianças].
Na época o Saddam Hussein ainda não tinha invadido o Kwait. Então foi fácil ir para a região do Oriente Médio. Um mês depois que eu estava em Israel, houve a invasão, e a coisa ficou meio tensa. Mas em Israel não tive problemas. Até porque eu não saia muito do kibutz. Num kibutz você faz de tudo. Cuida de jardim, limpa piscina, trabalha no estábulo, na plantação. Não cheguei a trabalhar no estábulo. Mas trabalhava com uns canos de irrigação, e também colhia abacates. Colhi muito abacate; muito mesmo. A gente usa essas cadeiras elevatórias, tipo as que usam para consertar luzes em postes.
Mas em cinco meses tive de ir embora, porque o clima ficou tenso na região. O Saddam tinha ameaçado abrir guerra com Israel. Com os palestinos infelizmente não pude criar nenhum vínculo. Só uma vez cheguei perto da Faixa de Gaza, e mesmo assim dentro de um ônibus escoltado pelo exército. Era muito perigoso ir na Faixa de Gaza, e eu não quis me arriscar. Pra você ter uma ideia de como os árabes e os judeus de odeiam, quando eu estava indo embora para a Jordânia, um palestino me deu um dinheiro, e disse: ‘Isto é para te ajudar na sua viagem’. Daí veio um molequinho judeu e me questionou: ‘O que você está conversando com esse árabe filho da puta?’. O moleque falava um português todo cheio de sotaque judeu, mas veio cobrar satisfação do por quê eu estava conversando com um palestino.

“Antes de sair de Israel, eu precisava arrumar dinheiro pra viagem. Daí fui trabalhar em uma moshav, que é fazenda nos moldes capitalistas. Lá eles pagam em dinheiro. No kibtuz eu não ganhava nada.
No moshav trabalhei para um judeu-argentino, colhendo tomates e envenenando rosas.

“Saindo de Israel fui para Londres, e lá eu trabalhei lavando pratos em uma pizzaria. Depois também trabalhei numa discoteca. Um ano depois que eu estava em Londres a Susi foi me encontrar, e trabalhou lá trabalhando de faxineira em casas de famílias.
“Quando voltamos de Londres em 1993, quis montar um comércio. Fui pra Santo Amaro procurar um ponto para abrir um barzinho, uma lanchonete. Pra começar a vida. A Susi tinha engravidado em Londres.
Em abril ou maio de 1993 abri o bar junto com a Susi. Naquele bar cheguei a fazer saraus. Mas era muito esporádico. A cada seis meses eu fazia a “noite da vela”. Acendíamos velas para o ambiente ficar meio na penumbra. A gente punha pra tocar discos de vinil (o popular bolachão). Rolava de tudo que é tipo de música. Ravi Shankar, Enio Morricone, Pink Floyd, Milton Nascimento. E tocava só lado B.

“Eu sou muito ruim pra escrever. Faz sete anos que eu não escrevo nada inédito. Às vezes uma frasezinha que eu guardo. Não escrevi nada ainda sobre as caminhadas do Donde Miras. Pode ser que venham poemas. Pode ser que não venha. Mas não fico ansioso, me cobrando por não escrever. Eu vou fazendo outras coisas da vida, né? Fico na fazeção, e aí quando vou ver, já estou envolvido com outras coisas. Sou um poeta temporão. Teve o Postesia em 1997, e o Donde Miras em 2007, dez anos depois. Depois que conheci a ayahuasca, por ela ter aflorado a minha espiritualidade, talvez a minha poesia vá se modificar. Porque já é uma outra dimensão que eu estou vivendo com a poesia. Já é uma outra poesia que virá, eu acho. Mas estou deixando ela aí. Não tenho pressa. Pode ser que não venha.
Eu não me preocupo em fazer nada inédito. A Susi se preocupa. Ela me diz: ‘Você não vai fazer nada? Tá na hora, tá na hora [de publicar algo novo]’. Ela quer que eu lance um livro, mas eu não tenho pressa”.

“Faz dois meses que só bebo água de uma nascente aqui da região do Campo Limpo, no caminho do Jardim Catanduva, perto do condomínio Floresta. Essa água não tem cloro e nem flúor. Se flúor fosse bom para os dentes, a Estrada do Campo Limpo não teria tantos consultórios de dentistas. O flúor é um resíduo da indústria do alumínio. Eles jogavam isto nos rios. Daí alguém fez uma pesquisa comprada, fraude científica, por volta da década de 1930 ou 1940 nos Estados Unidos, dizendo que o flúor faz bem para a dentição. Daí, claro, as ações foram lá pra cima. O cara que fez isto ganhou uma puta grana, era funcionário do governo. O flúor dá problema na tireóide, e calcifica a glândula pineal, que é o nosso regulador de hormônios. Com relação à cárie, o flúor não previne nada; não está provado isto. Ele melhora apenas zero vírgula zero qualquer coisa. É praticamente nada. A Alemanha proibiu o flúor na água, a Irlanda do Norte proibiu, a Bélgica, Dinamarca, Finlândia, todos os países sérios proibiram.
Binho e David no boteco
Fecha-Nunca, no Campo Limpo
“Manoel de Barros é minha paixão. Meu inspirador. Quando eu fui na casa dele em 2003, mandei uma carta antes onde eu dizia apenas: ‘Estou indo, Manoel. Estou indo’. Pra chegar lá, foi uma epopéia. De São Paulo até Araçatuba, comprei passagem nesses ônibus que levam pessoas para visitar presidiários. Fui com os familiares dos presos porque esse tipo de passagem é bem mais barata. Em Araçatuba fiquei na casa de uns primos que moram lá, até me arrumarem uma carona de caminhão até o Mato Grosso. Fui com o caminhoneiro Paco, numa carreta Volvo carregada de óleo de cozinha.
Quando mandei aquela carta em 2003 pro Manoel de Barros, nem esperei resposta. Fui logo para a estrada. O único contato anterior que eu tinha com o Manoel  de Barros foi uma carta que mandei pra ele quando lancei o Postesia. Daí ele mandou uma cartinha manuscrita de volta, dizendo que adorou. Essa carta ficava na cabeceira da minha cama. Mas um dia levei esta carta em um evento onde fui falar sobre o Manoel de Barros e não sei onde ela está. Mas está em casa. Preciso achar.
Voltando ao assunto da minha carona no caminhão. Chegamos em Cuiabá à meia-noite. Fui dormir na casa do caminhoneiro. Ele tinha um filho recém-nascido. Em casa já tinha recado para ele sair às 4h da madrugada, porque foi escalado para uma nova viagem.
O motorista Paco me deixou em um posto de gasolina, longe da cidade porque a carreta não podia entrar na área urbana. Do local onde o caminhão me deixou andei um quilômetro até pegar um ônibus. Nesta caminhada até o ponto do ônibus, vi umas formigas pelo chão. Aí me veio este verso: ‘E de eu assim tão ermo, me destaco da paisagem’. Eu estava impregnado de Manoel de Barros, e guardei esta frase para usá-la depois em um poema.
Chegando na Rua Piratininga, no Jardim dos Estados, onde ele morava, não fui na casa do Manoel de Barros de uma vez. Fiquei cerca de meia hora em frente ao portão. Pensando: ‘Será que ele está aí?”. Daí fui até a esquina, fiz mais uma hora, tomando coragem.  Toquei a campainha, alguém da casa atendeu ao portão. Daí vem o Manoel, aquele velhinho sorrindo, de sandália. E me diz: ‘Ô, rapaz. Você deu sorte. Cheguei hoje do Pantanal’. Ficamos conversando. Eu não lembro quase nada do que falamos, porque minha memória é uma bosta. E eu também não queria gravar a conversa. Queria guardar aquele momento na minha emoção. Daí ele me recomendou ler Padre Antonio Vieira, falamos de Guimarães Rosa e várias coisas. O que almoçamos eu não lembro. Só sei que estava bom pra caramba. Salada tinha bastante, e azeite que ele gostava. Estava o Manoel, a dona Estela esposa dele, o Pedro filho dele, uma sobrinha, a empregada, Ele era muito espirituoso. Achou graça de eu ter ido até lá da maneira como eu fiz. Daí ele disse: ‘Você fez muito esforço para chegar até aqui. Vou levar você lá em cima na minha toca [o escritório do autor]’. Era ali onde ele sentava para trabalhar às 7h da manhã e só saia ao meio-dia para almoçar. Lá na toca dele, me  deu um livro de sua autoria editado na Espanha. Disse: ‘Vou te dar este aqui de presente. Já que você veio de tão longe’.
David... Eu não bebo. Quando eu sai da casa do Manoel de Barros, eu fui para a rodoviária e tomei duas cervejas. Eu estava em regozijo. Não era êxtase porque eu já sei o que é êxtase. Êxtase eu senti quando eu voltei de Londres e vi meu pai e minha mãe no aeroporto. Ali foi êxtase. Abracei meu pai, minha mãe, e minha família. Ali entendi essa emoção que o meu corpo desconhecia até então. Não tinha sentido aquilo ainda. Um choro de alegria. Um frêmito. Meu corpo tremia todo, vibrava.”

Voltando de Manoel de Barros

Robinson Padial, o Binho

Até onde eu quero ir com minha incompletude?
Até a meia noite de um rio!?
Até quando um homem aguenta de não morrer?
Em mim o silêncio faz a festa.
Sou cheio de dentros.
Sou tão de misericórdia quanto de petição.
De eu ser assim tão ermo, me destaco da paisagem.
E dá gosto de haver-se estado gente um dia.
Quanto mais pra dentro o demônio me combina,
mais me amplia para Deus.
Sei que a ninguém pode acontecer isso,
mas eu chuvo no meu ser.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Artistas de Taboão e Embu ganham verbas da Cultura estadual

O Programa de Ação Cultural (ProAC) da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo premiou artistas e coletivos culturais das cidades de Taboão da Serra e Embu das Artes com dinheiro para a realização de seus projetos em 2015. Eles foram contemplados na modalidade ProAC-Editais. Já na modalidade ProAC-ICMS, o município de Taboão da Serra teve aprovada a montagem da comédia Pedro e Domitila, sobre o relacionamento do imperador Pedro I com a Marquesa de Santos. Nesta modalidade, o grupo não recebe dinheiro vivo, e sim a autorização para captar recursos junto a empresas. A trupe coordenada por José Maria Lucena está habilitada a buscar R$ 98.400,00 com patrocinadores.
Criado em 2006, o ProAC favorece todos os tipos de manifestações artísticas. Para concorrer ao benefício, o artista ou grupo cultural se inscreve gratuitamente. O ProAC-Editais funciona por meio de concursos públicos, em prazos específicos. No ProAC-ICMS as inscrições estarão abertas a partir de 2ª-feira, 9 de fevereiro, e vão até outubro.
Em 2014, a Secretaria da Cultura do Estado destinou R$ 44 milhões para 690 projetos distribuídos em 48 categorias.
Mesmo não sendo de Taboão da Serra ou Embu das Artes, dois coletivos de saraus culturais merecem destaque nesta matéria. Eles são da região do bairro Campo Limpo, e têm ligação orgânica com o meio artístico taboanense. O Sarau do Binho, do poeta Robinson Padial, e o Praçarau, do fotógrafo Rogério Gonzaga, foram contemplados com R$ 40 mil cada um. Eles concorreram com 64 projetos inscritos. A partir de 2014, o ProAC exige que 50% dos saraus aprovados sejam de fora do município de São Paulo.
Outro nome importante na cultura periférica da nossa região pode ter uma grande conquista em 2015. Marco Pezão, cronista esportivo, fotógrafo e poeta fundador da Cooperifa, concorre ao Prêmio Governador do Estado.

Os premiados do ProAC-Editais
Na categoria Produção e Apresentações de Número Circense, o prêmio de R$ 15 mil veio para “Doce Ilusão”, de Priscila Vasconcelos de Freitas, de Taboão da Serra. Ela foi uma das 30 aprovadas no concurso que teve 95 inscritos.
Outro prêmio para Taboão da Serra foi na categoria Histórias em Quadrinhos. Marcelo Scaff Marques é um dos 20 projetos aprovados dentre 169 inscritos. Vai receber R$ R$ 40 mil pela obra “Arlequins, Pierrôs e Colombinas”.
Em Embu das Artes, Rodrigo Bianchini, da Cia AsSimétrica, teve aprovado o projeto “SerTão de Vidro: Periférico”, com verba de R$ 50 mil. Foi um dos 20 aprovados entre 267 concorrentes.
Na categoria Promoção e Proteção das Culturas Negras, o prêmio de R$ 40 mil foi para Solemar Cristina da Silva, de Embu das Artes. O VI Encontro Paulista de Jongueiros foi um dos 20 projetos aprovados entre os 185 inscritos. Nesta mesma categoria, e também de Embu das Artes, a sexta suplência está com o projeto “Ritmo e Movimento dos Orixás”, do Teatro Popular Solano Trindade.
Se ficou na suplência da categoria citada acima, a legendária Raquel Trindade de Souza venceu na categoria Promoção das Culturas Populares e Tradicionais.. O projeto “Brasil Terreiro de Brinquedos e Magia” foi premiado com R$ 40 mil, sendo um dos 25 aprovados entre 205 que entraram na disputa. Na mesma categoria, na terceira suplência está Jeferson Virmondes da Costa, também de Embu das Artes, com o projeto “Ganga-Zumbá”.
Também de Embu das Artes é o vencedor na categoria Telefilme. O projeto “Os Óculos – A Janela” recebe R$ 40 mil, sendo um dos 10 aprovados entre 85 concorrentes.
Na categoria Bolsa de Incentivo à Criação Infantil e/ou Juvenil, o prêmio de R$ 10 mil foi para São Lourenço da Serra. Ana Cristina Araújo Ayer de Oliveira venceu com o projeto “Maria Antonieta e o Gnomo”, sendo um dos 10 projetos aprovados entre 117 inscritos.

Apesar de não estarem entre os primeiros classificados, também tiveram bom desempenho no ProAc-2014 dois taboanenses. Jamesson Rocha de Santana é primeiro suplente na categoria Artes Integradas, e Andressa Lima dos Santos é suplente na categoria Moda, Gastronomia e Cultura Digital, com o projeto “A Cultura Popular e seus Sabores”, com o Bando Trapos. Nada mal se avaliarmos que Jamesson entrou na disputa com 206 inscritos, e Andressa teve 86 concorrentes. Isto lhes serve de estímulo para aprimorar seus projetos e virem firmes na briga pelo ProAC-2015.