quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Garçom serve alegria no prato principal

O garçom Josivaldo - Foto: David da Silva
Bem no meio da refeição, o freguês teve de se levantar pra ir ao banheiro. Era o primeiro cliente na vida do garçom Josivaldo. “Pensei que o rapaz tinha terminado, fui lá e levei a comida dele embora. Quando tô juntando os pratos, vem ele bem nas minhas costas: ‘Ô, meu chapa! Deixa meu almoço aí!’. Ele tinha pedido uma comida facinha de servir. Arroz, feijão, bife e ovo. Eu trabalhava antes na construção civil. Nunca tinha servido ninguém na minha vida. Quis ser eficiente demais no meu primeiro atendimento e dei aquela mancada”, relembra entre risos.
Mas isso já faz muito tempo.
Hoje Josivaldo é um dos garçons mais competentes e queridos de Taboão da Serra. É também um dos profissionais mais divertidos em seu ramo. “Não tô nem aí. Eu brinco com todo mundo. Trabalho contente”, diz.

A infância e juventude de Josivaldo repetem a história de milhões de migrantes nordestinos. Nascido no município de Solânea, no agreste paraibano, a 138 quilômetros da capital João Pessoa. Filho do senhor Josafá Ferreira da Silva e de dona Maria das Neves.
Pouco depois de sua chegada a São Paulo, Josivaldo foi levado por sua tia Raimunda a morar em Brasília. “Eu era muito bom em fazer aqueles caminhõezinhos de madeira em miniatura, e fui pra lá trabalhar numa fábrica. Fiquei lá um ano e pouco, e saí fora”.
O pai de Josivaldo possuía um galpão na capital federal, e cedeu o espaço para seu filho viver do ofício de marceneiro. “Comprei duas maquininhas e comecei a mexer com móveis usados. Fazer reformas, entendeu? Dá dinheiro, sabia? Móveis usados pra você reformar, guarda-roupa, cômodas, mesa, cadeira, penteadeira... Mas dá um trabalho danado, viu?”.

Certa feita Josivaldo foi procurado pelo dirigente de uma igreja evangélica. Ele não se lembra do nome do religioso. Só recorda que a pessoa era duma localidade chamada Lago Azul, no entorno de Brasília. “Daí, resumindo. Lá tinha uma igrejinha pequena, da Universal, e o pastor precisava de uma cruz grandona. Eu fiz a cruzona pros caras. Uma cruz de uns dois metros de altura, enorme. Pra eles pôr bem no centro da igreja”.
Os crentes gostaram do serviço. “Daí eles falaram: ‘Vamos fazer umas cruzes pequenas pra gente vender para os irmãos que freqüentam nossa igreja’. Aí eu me lasquei”.
A marcenaria de Josivaldo teve de se dedicar em tempo integral às encomendas do pastor da Igreja Universal do Reino de Deus. “Eram umas cruzinhas assim, bem miudinhas (imita o tamanho entre os dedos indicador e polegar). Coisa de 8cm de comprimento por 5cm de largura”.
A semana toda inteira tomada. “De segunda e terça-feira eu cortava as madeirinhas. Quarta e quinta-feira eu lixava todas elas. Sexta e sábado eu colava as cruzinhas. E sábado de noite o irmão passava lá e levava embora”.
Pergunto a quantidade da produção semanal. Josivaldo responde com a precisão típica dos botecos: “A quantidade certa assim de cabeça não dá pra dizer quantas eram, não. Mas era cruz que só a porra”.
Passado o acesso e o excesso de riso, concluímos que ele vendia cerca de 1.500 a 2.000 cruzinhas de madeira toda semana para o mercador da fé.
Um dia Josivaldo ficou sabendo por quanto o tal pastor vendia cada pequenina cruz de madeira.  “Ele me pagava uma miséria em cada cruz. Mas vendia cada cruzinha por R$ 2,00 pros irmãos lá da igreja dele. Um lucro de mais de mil por cento em cima do meu trabalho. Daí eu me invoquei e parei com aquela exploração”.

Em São Paulo Josivaldo tinha seu irmão, Francisco, empregado na construção civil. “Vim trabalhar mais ele”.
“Um dia eu tava pintando um restaurante aqui na BR-116, perto do Shopping Taboão. O sobrinho do dono do restaurante me chamou pra pintar a casa dele. Era o Valmor, meu patrão até hoje. Que eu chamo de Gauchão”.
Valmor foi dono de um dos bares e restaurantes mais freqüentados de Taboão da Serra. Na esquina da Praça Nicola Vivilechio com Rua Levy de Souza e Silva. Bem ao lado do Cemur. “A gente fez amizade pelo serviço de obras que eu fazia na casa dele. E o Gauchão perguntou se eu encarava trabalhar no restaurante dele”, diz Josivaldo, ainda rindo muito do vexame que passou com seu primeiro cliente.

Foto: David da Silva
Na badalada esquina ao lado do Cemur, zona boêmia taboanense, Josivaldo era uma atração à parte. Muitas gargalhadas a cada prato ou bebida servida. No início de 2014 a sociedade de Valmor com seu irmão se desfez. Mas ele carregou Josivaldo para seu novo ponto comercial. “Os caras que compraram o restaurante lá do lado do Cemur me ofereceram um salário melhor pra eu continuar lá. Mas sou amigo do Gauchão, e resolvi seguir com ele”.
Hoje Josivaldo serve bom humor como prato principal na nova lanchonete-restaurante do seu amigo-patrão.

Quem vê Josivaldo naquela risadaria toda, sequer pensa ser ele um homem solitário. Separado de dois relacionamentos, seus olhos brilham ao falar das duas filhas, cada uma com uma mãe diferente. “Eu não tenho nada nessa vida. Só as minhas duas filhas. A Bruna, de 17 anos, que vive com a mãe dela em Brasília. E a Milena, de 9 anos, vive aqui em São Paulo com a mãe. Para mim, abaixo de Deus, só elas”.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Gravação de CD vai impulsionar campanha dos Músicos do Futuro

Leandro Lehart e Maestro Edison lançam a campanha
em pról da sede própria da Associação Músicos do Futuro
Foto: David da Silva - 19.out.2014
Poucas horas depois de ter saído da Associação Músicos do Futuro na tarde de ontem, domingo 19 de outubro, o compositor Leandro Lehart já publicava em sua página no Facebook: “Hoje apadrinhei uma escola de música em Taboão da Serra. Espero que com essa divulgação eu possa conhecer mais gente heróica neste país, que faça o papel que os governos não fazem. Quero conhecer ainda mais os meninos e as meninas artistas deste Brasil, e que eu possa estar envolvido de alguma maneira. Vamos arregaçar as mangas e fazer, ao invés de esperar governos que nunca fazem da música parte do ensino fundamental”.
A inclusão do aprendizado musical na rede pública do ensino foi reiterada pelo artista várias vezes durante a sua conversa com o público que compareceu em massa na VI Feijoada Músicos do Futuro. O evento é anual e visa arrecadar verbas para a manutenção da escola, e a compra de instrumentos musicais para alunos cujas famílias não podem comprar.
No vídeo que postou na rede social, Leandro Lehart gravou que “a Associação Músicos do Futuro é um exemplo de superação e de amor à música”.
A iniciativa de apoiar a entidade arrancou prontos elogios de internautas. “Você sempre teve um coração repleto de amor ao próximo”, escreveu Irene Neri. “É disso que precisamos no Brasil”, comentou Gilberto Rosa. O ativismo social não é novidade na carreira do compositor. Ele conta com reconhecimento da ONU (Organização das Nações Unidas) pela criação de uma instituição de combate ao câncer infantil.
Foto: Joelma Sales - 19.out.2014

A qualidade da feijoada repercutiu na internet. “Hoje cometi o pecado da gula. Mas papai do céu perdoa. Tava bom demais, e ainda na presença de uma pá de gente querida. Valeu, maestro!”, registrou o ator e diretor teatral Orias Elias, criador do Espaço Cultural Encena. Estima-se que no decorrer de toda a tarde do domingo passaram pela sede da Associação Músicos do Futuro em torno de 1.200 pessoas.
“No decorrer desta semana vamos divulgar uma lista detalhada com os nomes de todos os que colaboraram para o sucesso da festa. Seja trabalhando diretamente no evento como voluntário, seja com contribuições indiretas. Fazemos questão de contemplar todos e cada um que tornou possível atingirmos nossa meta e deixar nossos convidados felizes”, declara o maestro Edison Ferreira. Ele criou a Associação há 18 anos.
Foto: David da Silva - 19.out.2014
Ao agradecer ao maestro-fundador o convite para iniciar a campanha denominada “Eu Apoio”, Leandro Lehart lembrou dos seus tempos de criança: “Gente, que emoção estar aqui. Vocês nem imaginam como estou emocionado. De verdade. Lembro quando eu comecei no Conservatório Municipal de Música [no bairro] de Tucuruvi [zona norte da cidade de São Paulo/SP]. Andando pelas ruas de São Paulo a gente percebe que as escolas de música estão cada vez mais raras. A musicalização da juventude como o maestro Edison está fazendo, e como tantos professores envolvidos aqui fazem... A gente vê exatamente isto: puxa um pouco aqui, puxa um pouco ali... faz uma sala nova aqui, faz uma sala nova ali... Como são heróicas essas pessoas que fazem o que o governo deveria fazer. A gente realmente tem este sonho desde criança, que a educação musical deveria fazer parte do ensino fundamental nas escolas. Infelizmente não fazem. E pessoas heróicas como o maestro, como tantos professores de música, tantas pessoas envolvidas fazem no lugar onde o governo deveria estar. Eu praticamente vim dessa leva de músicos que aprendeu teoria musical na juventude. Meu pai era alfaiate. A gente dividia o dinheiro entre a escola
Maestro Edison apresenta a Leandro Lehart o projeto
da futura sede própria dos Músicos do Futuro.
Foto: David da Silva - 19.out.2014
pública e o conservatório, aprendi a teoria musical. Vejo o quão é importante o envolvimento de vocês com a música. Mesmo que apenas 10% dos alunos possam seguir adiante com a carreira de músicos , e os outros 90% vão ser arquitetos, engenheiros, médicos, ou advogados, seja lá a profissão que forem, levar a música para o resto da vida é uma coisa realmente inexplicável e arrebatadora nos corações. Tanto da pessoa que faz a música, quanto da sua família, os seus amigos, enfim, todas as pessoas que fazem parte do seu cotidiano. Eu acho que consegui enfeitiçar a minha família, os meus amigos,  meu grupo social, os meus fãs, através da minha música. Eu sempre levei essa coisa de compartilhar e agradecer a sorte que eu tive de ser músico no Brasil, um país tão difícil, que não reconhece a música como parte do ensino fundamental. É tão difícil viver de música hoje no Brasil. Sei da batalha de tantos músicos, de tantos sonhos. Eu me sinto privilegiado de estar aqui. Eu espero, sendo um dos padrinhos deste projeto, ajudar vocês no máximo que eu puder”.
Leandro Lehart sugeriu ao maestro Edison Ferreira a gravação de um CD cuja venda será revertida ao cofre da Associação com vistas à construção de sua sede própria. A entidade funciona hoje em uma casa alugada. O imóvel já foi vendido para uma construtora. A Associação terá de desocupar o prédio em breve. “O maestro vai fazer uma seleção de alunos e professores, vai elaborar uns arranjos musicais, e eu vou levar este pessoal no meu estúdio de gravação”, afirmou o cantor.
No próximo dia 22 de outubro, quarta-feira, Leandro Lehart faz show no CEU Paraisópolis, às 20h, com entrada gratuita.

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Veja a galeria de fotos da VI Feijoada.
Foto: David da Silva - 19.out.2014

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Maior vendedor de discos do país virá a Taboão, domingo

Associação Músicos do Futuro recebe compositor Leandro Lehart (ex-líder do grupo Art-Popular) em feijoada beneficente

Maestro Edison - Foto: Rose Santana
“Hoje a bandeira de Taboão da Serra está fincada em várias orquestras do Brasil”. Essa a frase favorita do maestro Edison Ferreira, fundador da Associação Músicos do Futuro. A entidade, que completou 18 anos em 2014, recebe neste domingo, 19 de outubro, o compositor Leandro Lehart, ex-líder do grupo Art-Popular, em feijoada beneficente. A verba do evento será revertida na manutenção da escola de música e na compra de instrumentos para seus alunos.
Leandro Lehart foi o maior vendedor de discos do Brasil na década de 1990. O grupo de pagode Art-Popular, produzido por ele, vendeu mais de 8 milhões de álbuns no seu auge. Na época, de cada 10 músicas mais tocadas nas rádios, pelo menos cinco eram de sua autoria.
Multi-instrumentista e arranjador, Leandro Lehart, que aos 16 anos já era professor de música com 80 alunos, não ficou só no gozo da fama e da fortuna apenas para si. Idealizou o projeto
“O Samba Cura com o Câncer”. Sua campanha ajudou a construir o Instituto de Tratamento do Câncer Infantil. Reconhecido pela ONU (Organização das Nações Unidas) como plano social inovador.
Leandro Lehart - Divulgação
A ONG (organização não governamental) Músicos do Futuro também tem marcas campeãs. Pela escola já passaram 4.600 crianças e jovens. Lá, a música não pára das 7h da matina até as 9h da noite. São 716 alunos nos turnos matutino, vespertino e noturno.
“Não dá pra falar de bate-pronto quantos músicos formamos neste período de quase 20 anos”, diz o maestro Edison.
Enquanto o mestre pega a canetar sua lista, a reportagem antecipa, de fresca memória e com risco de levar pancada dos não citados, pelo menos 11 talentos com que teve contato de janeiro para cá. O percussionista César Simões, 25 anos, formado pelos Músicos do Futuro, ingressou em março na Orquestra do Theatro Municipal de São Paulo. O artista Erick Felix, do oboé, ingressou na faculdade de Música da Universidade Estadual Paulista. O trompetista Rafael Dias, que iniciou nos Músicos do Futuro aos 11 anos, aplainou seu caminho no grupo de metais da afamada Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo). A violoncelista Roberta Regina, que iniciou nos Músicos do Futuro em 2008, hoje faz Mestrado na Faculdade Federal da
Roberta Regina - Foto: Maíra Bedin
Paraíba, e toca na Orquestra Sinfônica da paraíba. O trompista Rafael Nascimento, que um dia saiu de sua casa na Rua Vicente Pereira, no Parque Marabá, para aprender música com o maestro Edison no vestiário improvisado em sala de aula numa escola do próprio bairro, hoje é professor da UNESP, e toca na orquestra do musical “Homem de La Mancha”, no Teatro do Sesi, na capital paulista. Com ele, toca o percussionista Rubens Alves, morador do Parque Jacarandá, também em Taboão da Serra. O clarinetista Felipe Esteves voltou recentemente de sua terceira turnê pela Europa. A trompista Carol Francisco segue trilha virtuosa na Osesp. O trompetista Wellington retornou de temporada de seis anos nos Estados Unidos e ganha a vida com seu instrumento. Michel Sales, outro aluno da turma inicial dos Músicos do Futuro no Parque Marabá em 1996, hoje é primeiro trompetista da Orquestra Sinfônica de Manaus, no Amazonas. Seu irmão, Roberto Sales, é sinônimo de trombone no meio cultural de São Paulo.

Domingão bem brasileiro
A programação da VI Feijoada Músicos do Futuro mescla a música clássica com a popular. Mesmo sem peças eruditas no repertório, o apuro técnico vai permear as apresentações.  “Todos os nossos músicos têm formação na música sinfônica. Isto garante a qualidade das pessoas que aprendem conosco”, garante o maestro Edison Ferreira.
Confira o que vai temperar sua degustação gastronômica e sonora neste domingo bem brasileiro:
13h45 – Banda formada por nossos professores:
•        Jorginho da Silva (contrabaixo)
•        Graciana Camacho (canto)
•        Vinícius Stentzler (bateria)
•        Rafael D’Arco (piano)

14h30 - Coral de crianças e adolescentes, regido pela professora Marcia Corrêa

Roberto Sales - Divulgação
15h15 - Grupo Só Cadência com a participação dos professores:
•        Roberto Sales (Trombone)
•        Jean Willy (Saxofone)
•        Eurípedes (Trompete)
•        Vinícius Stentzler (bateria)

16h - Leandro Lehart – Abrirá a Campanha “EU APOIO a Associação Músicos do Futuro”
16h15 - Apresentação das crianças da Professora Enny Parejo com Leandro Lehart
16h30 – Retorno do Grupo Só Cadência

Serviço:

VI Feijoada com Música da Associação Músicos do Futuro

Convidado Especial: Leandro Lehart

Dia 19.out.2014 – das 12h30 às 17h
R$ 22,00 (antecipado) 
Fone: 4787-8277

Rua Nair Marques de Souza, nº 129 – Jd Maria Rosa (próximo à Câmara Municipal) - Taboão da Serra/SP

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Chácara do Jockey será entregue ao povo, nesta 5ª

Povo ocupou a chácara em defesa da área verde. Foto: David da Silva - 24.ago.2013
Casal de pica-paus na chácara.
Foto: David da Silva - 14.dez.2010
O que eu já ouvi de opinião estapafúrdia e proposta indecente sobre a Chácara do Jockey, abusa a paciência de qualquer cristão. Instalada no bairro Ferreira, zona oeste da capital, a chácara será definitivamente apossada pela Prefeitura de São Paulo na tarde desta 5ª-feira, 2 de outubro. O local será convertido em imenso parque público de 151 mil metros quadrados.
O imóvel pertencia ao Jockey Clube de São Paulo, agremiação de magnatas donos de cavalos de corridas. A entidade deu um calote de R$ 133 milhões em dívidas com IPTU na prefeitura paulistana. E deve outros R$ 70 milhões à Receita Federal.
Para se livrar da dívida, em 2008 o Jockey tentou construir 648 apartamentos de alto luxo dentro da chácara.
A população dos arredores chiou.
Outra jogada do Jockey sob alegação de arrecadar grana para zerar o calote milionário, era alugar a chácara para mega-shows. Transformou a vida da vizinhança num inferno.
O Ministério Público mandou parar com a algazarra.
Atividades esportivas serão preservadas.
Foto: Luiz Carlos Murauskas
Passei a acompanhar o problema da Chácara do Jockey quando iniciei breve período na assessoria de imprensa ao Clube Pequeninos do Jockey, que se utiliza de parte da área. O destino da escolinha de futebol dependia do futuro da chácara.
Foi daí que comecei a escutar as extravagâncias que citei na primeira linha deste texto.
Na sua gestão, a ex-prefeita Marta Suplicy ousou desapropriar a chácara para enfiar no lugar das árvores blocos de prédios para moradias populares. Moradores do entorno foram à Justiça pela preservação da área verde. A prefeita recuou.
A luta popular em defesa da chácara como riqueza natural arrefeceu um pouco com a desistência da mandatária. Mas permaneceu fogo sob cinzas. Continuaram as articulações de bastidores para mantê-la a salvo da sanha das construtoras.
Antigas cocheiras serão destinadas a atividades culturais
Foto: David da Silva - 18.nov.2009

Na Igreja e nas faculdades
Em 2011 a defesa da chácara ganhou valorosos aliados. Virou sermão na igreja do padre Darci Bortolini, e se espalhou até pelos corredores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP (Universidade de São Paulo).
Padre Darci conclamou seus fiéis da Paróquia Nossa Senhora de Fátima. Rapidinho saiu um abaixo-assinado com mais de 2.000 adesões.
No meio acadêmico, a Chácara do Jockey virou tema na disciplina de paisagismo. O professor de urbanismo Fábio Muniz Gonçalves estimulou seus alunos a criarem projetos de utilização da chácara para debater com os moradores.
A especulação imobiliária também teve de enfrentar a trincheira levantada pelo antropólogo Pedro Guasco, no comando da Rede Butantã de Entidades e Forças Sociais.
Todos os três personagens citados acima são moradores da região da chácara.
A concretização da posse da Chácara do Jockey pela Prefeitura de São Paulo tem, além da racionalidade, uma questão sentimental. Ao saber da cerimônia de assinatura da posse na tarde desta 5ª-feira, a universitária Kelly Gimenes desabafou no Facebook: “Estou emocionada!!! Escolhi esta área como tema para meu Trabalho Final de Graduação em Arquitetura e Urbanismo, com o tema Parque Chácara do Jockey, com o desejo de vê-lo realizado”.

Padre Darci no ato público dentro da chácara
Foto: David da Silva - 24.ago.2013
Cronologia de uma encrenca
Pelo alto poder aquisitivo dos sócios do Jockey Clube, muitas pessoas não criam na vitória da luta pela conversão da chácara em parque aberto ao público.
Houve um breve despertar de ânimos em 4 de março de 2011, com a visita do então secretário municipal de Esportes Walter Feldman à área. “A decisão já está tomada. O terreno tem de virar um parque. É a sua vocação”, pregou Feldman.
Mas a prefeitura decidiu dar um prazo para o Jockey escolher entre pagar a dívida, ou ceder a chácara como amortização do que deixou fiado em impostos. A data para a decisão final expirou em março de 2013. Nem a prefeitura nem o Jockey davam um piu sobre o assunto.
As reuniões a portas fechadas nos gabinetes da prefeitura e nas salas do Jockey continuavam.
Nem mesmo a visita do ministro dos Esportes Aldo Rebelo à chácara em maio de 2013 desengasgou a demanda.
Flamboayant na Chácara do Jockey
Foto: David da Silva - 08.nov.2012
Foi daí que resolvi propor um ato público. Botar o povo na rua era a única maneira de não deixar a questão esfriar novamente.
No dia 24 de agosto de 2013 cerca de 350 manifestantes deram um abraço simbólico na chácara. O clamor por parque público envolto em área verde da chácara desembolorou.
No último dia 17 de julho o prefeito da capital anunciou a criação do parque. Dias depois, em 1º de julho de 2014 foi liberado o repasse de quase R$ 64 milhões (mais exatamente R$ 63.915.332,57) para desapropriação do imóvel.
A chácara é nossa. O parque é do povo.
Futuramente, na parte dos fundos do terreno ficará a Estação Chácara do Jockey, do Metrô.

A pior delas
Deixei pra contar pra você aqui no final a sugestão mais absurda que me falaram, dentre as tantas que tive de aturar sobre a Chácara do Jockey.
Em abril de 2006, estava eu na minha humilde salinha no Pequeninos do Jockey, quando adentra um famoso deputado. O parlamentar veio nos dizer que havia achado a solução para o problema da chácara. “O Bóris vem aqui no Brasil daqui a poucos dias, e tem dinheiro suficiente pra comprar a chácara, e vocês [Pequeninos do Jockey] podem continuar aqui na área”.
Falou assim na boa, como se o tal “Bóris” fosse pessoa das minhas relações.
Tratava-se nada menos que o mafioso russo Boris Berezovsky. Envolvido na lavagem de dinheiro entre a empresa MSI e o time Corinthians. Berezovsky nem conseguiu autorização pra descer do seu jatinho particular. Se o fizesse, nossa Polícia Federal já estava com algemas prontas a recebê-lo.
O super milionário criminoso russo, que o político teve a cara-de-pau de apresentar-nos como provável dono da Chácara do Jockey, foi encontrado morto na sua mansão em março de 2013. Se enforcou no banheiro.

Cerimônia de posse da Chácara do Jockey pela Prefeitura de São Paulo
Dia 2 de outubro (5ª-feira) – às 14h30
Rua Santa Crescência, nº 323

Altura do nº 5.100 da Avenida Francisco Morato
Vista aérea do futuro parque público no bairro Ferreira - Foto: Google

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Clariô vira circo com Carozzi, hoje

Irmãos Carozzi. Foto: Iraci Tomiato
Para o ator Sérgio Carozzi, o riso pode ser o caminho mais curto entre o cérebro e a reflexão. E é para gargalhar e fazer pensar que a Trupe da Lona Preta vai transformar num aconchegante picadeiro o Teatro Clariô, na noite de hoje em Taboão da Serra.
Esta será a 64ª edição do evento Quintasoito, promovido todas as últimas quintas-feiras de cada mês pelo Espaço Cultural Clariô. O grupo recebeu em fevereiro deste ano o Prêmio Governador do Estado na categoria Inclusão Social. Como o próprio nome diz, o Quintasoito começa às 20h. Após o espetáculo é servida uma sopa ao respeitável público, seguida de um bate-papo com os artistas.
Em O Perrengue da Lona Preta os palhaços Rabiola e Chico Remela reinterpretam o conceito da propriedade privada. A trupe percorre as quebradas do mundaréu da Grande São Paulo em apresentações grátis para populações periféricas. Principalmente em acampamentos de sem-tetos.
Com 37 anos de vida completados no último 21 de maio, Sérgio Carozzi foi atraído pelo teatro quando tinha 19 anos. “Fui assistir uma peça chamada Mambembe, no Teatro Popular do Sesi, na Avenida Paulista. Quando começou a peça entrou o ator bem assim na minha frente. Pensei: Nossa, meu. Que doideira. Que bagulho louco!. Daí comecei a assistir muito teatro, muito teatro mesmo. Todos os finais de semana eu ia ver espetáculos”.
Sérgio Carozzi - Foto: David da Silva - 26.mai.2010
Quem hoje vê Carozzi arrancando gargalhadas de gentes de todas as idades, nem imagina o moleque tímido que ele era. “Eu tinha medo até de sair da sala de aula nos recreios para ir ao banheiro”. Daí o menino fugia do mundo se refugiando no desenho.
Em 1997 o artista foi abduzido pela União Teatral Taboão (UTT), na época mantida pela Prefeitura de Taboão da Serra. “Comecei no teatro taboanense naquela base de saber por um amigo que tinha ficado sabendo por outro que havia recebido a informação por aquele outro: ‘Tá tendo teatro lá!’. A primeira coisa que Carozzi fez na UTT foram os cenários nas peças dirigidas por Amaury Alvarez. Um dia lhe deram um personagem para interpretar.
No início de sua caminhada pelos palcos da vida, Carozzi trabalhou de office-boy, depois serviu em restaurantes, até que se formou em Artes Plásticas.
A vivência de Sérgio Carozzi como ator na Paixão de Cristo aqui no município tem um episódio divertido. “Eu intepretava um soldado, o legionário Longinus [aquele que perfura com a lança o tórax do Cristo na cruz]. Na hora da crucificação, a encenação é interrompida e o padre começa a falar, e falar, e falar, começa a fazer discurso, e mandar o povo erguer as mãos... baixar as mãos... virar prum lado, virar pro outro. E eu vestido de legionário romano lá em pé, esperando o padre terminar pra eu pendurar o Cristo na cruz. Decidi: Mano do céu!, nunca mais eu faço este papel!. Apesar de ser teatro de rua, de ser emocionante estar ali com aquela plateia enorme, eu já pensava naquela época que teatro é mais que isto. Foi a partir deste momento que eu fui atrás de buscar, refletir mais sobre a ligação da política com o teatro. O significado da intervenção teatral, qual a dimensão que isto tem”, diz o artista que passou desde então a ser um leitor atento de Walter Benjamin.
O circo entrou na vida de Carozzi no ano 2005. “Eu estava numa militância social, num acampamento de sem-tetos aqui em Taboão. Ali eu conheci um palhaço, o Fernando, e ele passou pra mim e pro meu irmão Joel algumas coisas. Daí começamos a trabalhar com circo dentro deste acampamento de sem-tetos no Jardim Helena. Hoje trabalhamos esta discussão da arte com engajamento e com humor, porque o humor é muito próximo da reflexão. Uma piada pode fazer a pessoa pensar”.
Foto: Iraci Tomiato

Serviço:
O Perrengue da Lona Preta
25 de setembro, às 20h
Entrada franca
Classificação: Livre 
Duração: 60 minutos
Direção: Sergio Carozzi
Elenco: Joel Carozzi, Sergio Carozzi.
Figurinos: O Grupo
Produção: Henrique Alonso

ESPAÇO CLARIÔ
Rua Santa Luzia, 96 
(próximo ao Hospital Family)
Taboão da Serra

Informações: 4701-8401

Joel e Sérgio Carozzi em atuação no bairro Monte Azul, zona sul de São Paulo - Foto: Divulgação

Grafiteiro taboanense expõe em Sampa, sexta

Tico Finkenauer
Eu já contei pra você quem é Tico Finkenauer. Quem não leu a matéria na época, termina de ler este texto aqui, depois pega carona no atalho do link lá embaixo da postagem.
Ele é o grafiteiro mais descolado de Taboão da Serra. Único artista de rua do nosso município que tem um personagem. O famoso mascaradinho magrelo. Estampado em muros de becos e vielas e ruas e avenidas da cidade.
Amanhã, sexta-feira 26 de setembro, Tico Finkenauer terá sua arte exposta na badalada Rua Henrique Schaumann.
Tico vai fazer pinturas em grafite ao vivo durante a 1º Expofesta Hogar Coletivo. Durante o evento será inaugurado o primeiro mural deste coletivo de artistas.
Além do grafiteiro taboanense, também serão estrelas da festa o ilustrador Harã e a multimídia Evelyn Queiróz, também conhecida no meio artístico como Negahamburguer. Harã e Evelyn não poderiam morar num lugar mais apropriado. São de Embu das Artes.
Segundo o site oficial da moça, Negahamburguer usa seu dom artístico para denunciar a opressão e o preconceito sofrido por mulheres fora do padrão estético imposto pela sociedade de consumo. 
“Evelyn dá vida às personagens – algumas delas com certa dose biográfica -, que se assumem como são: gordas, magras, peludas, disformes, mas sobretudo, reais”. Esta vai ser a primeira instalação artística dela.

1º Expofesta Hogar Coletivo
26 de setembro (sexta-feira)
Rua Henrique Schaumann, 125
(quase na esquina com Avenida Rebouças)
Som por: Kaiser Marius
Live paint por: Tico Finkennauer
Ilustrações por: Harã
Ilustração presencial por: Negahamburguer
Camisetas por: Luv T (aceita cartão débito/crédito)
Comidinhas por: Rosana Delgado
Lojinha com obras originais a partir de r$ 25,00 (em dinheiro)
A entrada é gratuita.
Tico Finkenauer (de óculos) transmite a sua arte para a molecada. Foto: Tatu do Bem.
Agora você que inda não leu, dá uma olhada na biografia do meu amigo Tico Finkenauer aqui

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Atriz de Taboão da Serra integra filme indicado ao Oscar

Naruna Costa - Foto: Divulgação
Quem escreve algo sobre a atriz Naruna Costa não consegue fugir do adjetivo superlativo absoluto. Extremamente capaz, a artista nascida em Taboão da Serra atua em teatro, televisão e cinema, e é também cantora e compositora. Estreou dois filmes em rede nacional neste ano de 2014 – Causa e Efeito, lançado em julho (onde faz o papel de “Madalena”), e antes dele, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, estreado em abril. Nesse filme, Naruna Costa interpreta a personagem “professora Ana”.
Hoje Eu Quero Voltar Sozinho vai representar o Brasil no Oscar-2015 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. A obra conta a estória de um garoto cego que descobre a sua homossexualidade. É o primeiro longa-metragem do diretor paulistano Daniel Ribeiro, de 31 anos.
Naruna Costa também está com 31 anos. Iniciou sua carreira artística em 1997 na União Teatral Taboão, na época mantida pela Prefeitura de Taboão da Serra. Em 2008 formou-se pela Escola de Arte Dramática da USP (Universidade de São Paulo).
Naruna no cartaz de um de seus filmes
Criada na periferia taboanense, no bairro Freitas Junior, Naruna é co-fundadora do Grupo Teatral Clariô. É a trupe mais premiada de toda a história de Taboão da Serra nas artes cênicas. O grupo está com 9 anos de atividades ininterruptas.

Um sonoro “Êita!”
Quando sua irmã Najara postou no Facebook que Hoje Eu Quero Voltar Sozinho foi escolhido representante brasileiro perante a Academia de Cinema dos EUA, Naruna Costa respondeu com a interjeição “ÊITA!!!”. Talvez ela já soubesse da boa notícia na manhã do último 18 de setembro. Mas é desse modo despojado que Naruna reage às grandes conquistas de sua carreira. Perfeitamente vinculada às suas origens humildes. Sempre tratando colegas de palco e a plateia com afeto, sem afetação.

Palco, telinha e telão
A grande consagração de Naruna Costa nos palcos de teatro veio com as peças Hospital da Gente, de Marcelino Freire, e Urubu Come Carniça e Voa, de Miró da Muribeca, ambos dirigidos por Mário Pazini. Nos dois espetáculos, com prêmio da Cooperativa de Teatro Paulista, Naruna acumulou a função de atriz com a de produtora musical. Também fez a produção musical da peça Sangoma, da Companhia de Arte Negra Capulanas.
Foto: Raphael Valverde
No final de 2012 a artista lançou seu primeiro CD, Girandêra, com seu grupo Clarianas, com Naloana Lima e Martinha Soares. Em agosto de 2013 o trabalho foi relançado no formato DVD. Antes destas gravações, Naruna Costa teve composições suas incluídas no CD Tapa na Nuca, do Grupo Noite Clara; na coletânea Mulheres Periféricas Cantam; na trilha sonora do filme Andaluz, de Guilherme Motta, e no documentário Quilombos Culturais. Ela também canta na trilha sonora composta por Chico César para o filme Sonho de Igacim, de Eliézer Rolim.
Na TV Globo, em 2011, Naruna Costa trabalhou no seriado Força Tarefa (foi a personagem “Sargento Lidiane”) e na novela Insensato Coração, no papel de “Renata”. Ainda na Globo foi a personagem “Dodô” na novela Tempos Modernos, em 2010.
Na TV Brasil, apresentou os programas Resistir é Preciso, de Ricardo Carvalho com direção de Mário Masetti (2013/2014), e Tela Digital – festival de vídeos, em 2009/2011.
Na TV Bandeirantes Naruna Costa interpretou “Suzi” na novela Dance, Dance, Dance, em 2007/2008.
A Televisão Cultura contou com atuações de Naruna Costa no episódio “Macunaíma”, da série Tudo que é Sólido Pode Derreter em 2009; no programa Profissão Professor, ainda em 2009; no Telecurso-Tec em 2007, e no episódio “Caiu o Ministério” do programa Senta Que Lá Vem Comédia, em 2005.
A atriz ainda adolescente. Com colegas da UTT. 
Naruna é a primeira à esquerda, no alto
No cinema, além dos já citados Causa e Efeito e Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, Naruna Costa tem as seguintes atuações:
2013: Amor Em Sampa - direção: Carlos Alberto Riccelli - (personagem Nathália)
2013: Mundo Deserto de Almas Negras - direção: Ruy Veridiano - (Débora)
2012: curta-metragem Pré-Ocupação, de David Alves e Alisson Paz - (Helena)
2011: Telefilme Andaluz - dir. Guilherme Motta - (Cecília Andaluz)
2007: Cigano - curta dirigido por Eduardo Mattos - (Joaquina)
2006: Falsa Loura - Dir. Carlos Heinchenbach - (Fátima)
2005: O Magnata - Dir. Jonny Araújo

Naruna em uma sessão de filmagens
Trajetória que promete
Se depender dos números que amealhou no primeiro trecho de sua caminhada, o filme Hoje Eu Quero Voltar Sozinho tem tudo para ganhar o cenário internacional. Teve sua primeira exibição em fevereiro passado no Festival de Berlim, na Alemanha, de onde voltou com o prêmio Teddy, e a segunda colocação na preferência do público na mostra Panorama, disputando com 36 filmes de 29 países. É o único representante do Brasil no Festival Internacional de Cinema de Cartagena das Índias, na Colômbia, um dos eventos mais antigos deste gênero na América Latina. Está vendido para distribuidoras de cinemas em 15 países.
No Brasil, estreou no último 10 de abril em apenas 37 cinemas. Já no primeiro final de semana levou mais de 30 mil pessoas às salas de exibição. Na segunda semana superou 100 mil pagantes. No final de julho já havia batido a marca de 190 mil expectadores, tendo arrecadado R$ 2,3 milhões nas bilheterias.
Caso seja eleito melhor filme estrangeiro em Hollywood, o cobiçado Oscar será entregue em 22 de fevereiro de 2015.
Dois dias antes de Naruna Costa fazer aniversário.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Cinquentão, Jardim Iolanda “dá à luz” 650 novas árvores

Foto: Nilton Esteves - 23.ago.2014
Na porta de entrada da casa do Nilton, no canto esquerdo externo tem um termômetro, um barômetro e outro ômetro do qual só lembro o sobrenome. Do teto da varanda despencam mini flores sapatinho-de-judia. Em cachos encachoeirados. Moldura perfeita pra deixar beija-flor endoidecido e fotografar rostos queridos.
Antes da reportagem, o almoço. Uma bacalhoada magnífica brota das mãos mágicas de dona Magnólia, que reina no fogão da família Esteves há 13 anos. Reflito: “o Nilton é tão apaixonado pela Natureza, que o destino lhe providenciou uma cozinheira com nome de planta”.
Nilton Benedito Esteves é há 12 anos síndico do Condomínio Rural Jardim Iolanda, em Taboão da Serra. O conjunto habitacional completou 50 anos de fundação no último 20 de agosto. É um remanescente da Mata Atlântica no município. E razão de viver do síndico.
Carolina Ramos e jornalista Sandra Pereira
“Como nosso síndico, o Nilton é um fator de garantia de que minha casa não vai se desvalorizar”, diz a psicanalista Carolina dos Ramos, moradora fixa do lugar desde julho de 1989 – a família, no entanto, é proprietária no condomínio desde a década de 1960, quando o lugar era usado por alguns apenas para lazer. Hoje todos os 120 imóveis do condomínio são habitados.
Prova da abnegação do síndico pela preservação da cobertura vegetal do condomínio, foi o plantio de 400 mudas de árvores pelo DEAEE (Departamento Estadual de Águas e Energia Elétrica) em substituição às 10 espécies nativas arrancadas para abrir caminho à canalização do córrego que corta o Jardim Iolanda.
Mudas em crescimento - Foto: Nilton Esteves
O condomínio replantou por conta própria mais 250 mudas no trecho canalizado. Todos os dias, antes de iniciar sua rotina de trabalho, o síndico Nilton dedica longos minutos a contemplar o crescimento das 650 mudas de ipês-amarelos, paus-ferro, patas-de-vaca e sibipirunas.
O resultado desta dedicação é convertido em números nas eleições do condomínio. Em outubro de 2013 Nilton Esteves foi reeleito com 53 votos dentre as 65 pessoas que compareceram ao pleito – o condomínio tem 120 eleitores, e o voto é aberto, declarado em viva voz.

Rígido no desempenho da função de protetor de uma área de quase 500 mil metros quadrados - pra ser exato: 477.965,00 m² -, e lutador encarniçado pela construção dos viadutos para retornos na BR-116 na altura do Km 276 e no Shopping Taboão, o síndico, todavia, é gentil no trato com as pessoas. E apaixonado por sua câmera fotográfica. Gasta horas a fio clicando o nascer e o pôr do Sol. E emenda noite adentro retratando a Lua. Fixa seu foco na exuberância da mata que reveste o condomínio e seus animaizinhos silvestres. Capaz de se emocionar diante de uma amoreira se abrindo em frutos. “Hoje voltei aos meus 8 anos de idade, quando apanhava a fruta no pé, e saboreava amoras, carambolas, jabuticabas, mangas, pitangas, nêsperas, etc... Tudo tem sabor de infância”, me escreveu ele no Facebook no entardecer sentimental do último dia 5 de setembro.
O desvelo pelo seu passado é marca registrada do síndico Nilton. Sempre saudoso dos tempos de moleque em que assistia Tarzan, Homem de Virgínia, Dólar Furado, Perdido nas Estrelas, Zorro, Túnel do Tempo, e outros seriados que marcaram a adolescência da televisão brasileira.
Nilton Esteves
Com a infância vivida no Sítio Tanquinho, em Dois Córregos, interior de São Paulo, o síndico Nilton conserva a hospitalidade típica das pessoas ligadas à terra.  Que gosta de receber gente em casa. E de brindá-las com comidas especiais. Chegou até a inventar a Salada Tropical Nilton. Cada visita vira um retrato na parede apinhada de fotos das pessoas que lhe falam ao coração. Órfão quando sua mãe estava com 44 anos, Nilton estampa no fundo da parede da sala de estar um pôster dela. Linda feito uma Rita Hayworth.

Para manter o Jardim Iolanda na forma com que foi planejado pela sua fundadora, Nilton Esteves comanda um pequeno exército de seis porteiros, quatro jardineiros, um encarregado, uma faxineira e patrulhas de seguranças armados.

A devoção do síndico pela fundadora do condomínio é quase diariamente revivida em sua página no Facebook. Emoldurados na parede da sala de visitas do Nilton, vários cartazes de espetáculos que Iolanda Catani lhe trazia de presente nas suas viagens à Europa. Outra demonstração de afeto do síndico por dona Iolanda é o vídeo que ele gravou num crepúsculo solar há 30 anos – e que compartilha com amigos numa deferência quase religiosa. Na gravação, Iolanda Catani, que era cantora lírica, entoa a Ave Maria de Gounod e Johann Sebastian Bach (assista aqui)

Cláudio Catani e eu - Foto: Nilton Esteves
Escoltado gentilmente por Nilton Esteves fui conhecer a casa onde viveu dona Iolanda. O local é identificado por uma placa onde se lê Olimpo. Todas as ruas do condomínio têm nomes de musas da mitologia grega.
Somos recebidos pelo engenheiro-agrônomo Cláudio Catani Beretta, filho de Iolanda. O sobrenome Catani da mãe é originário de Florença, e o Beretta do pai, vem de Milão.
Cláudio Catani Beretta se formou engenheiro-agrônomo no mesmo ano em que seus pais fundaram o condomínio. Ele me mostra na biblioteca dos seus genitores uma raridade. O Dizionario Storico Mitologico em vários volumes que sua mãe sempre consultava, e de onde saíram os nomes das ruas para o Jardim Iolanda. A obra foi publicada em 1828.
Toda a sala de visita dos pioneiros é decorada por obras de arte de Gino Catani, avô de Cláudio, e outros quadros de seu bisavô, do qual infelizmente não conseguimos descobrir o nome.
Gino Catani - Foto: Nilton Esteves
Gino Catani nasceu no ano 1879 em Florença, Itália. Veio para o Brasil com apenas 14 anos. Em 1908 voltou à Itália para se especializar em pinturas decorativas. Quando retornou ao Brasil em 1909, trabalhou na decoração da Igreja de Santa Cecília juntamente com Benedito Calixto. É também de Gino Catani a decoração da Igreja Santa Ifigênia pela mesma época, ambas na cidade de São Paulo. Em 1913 Gino decorou a capela da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Também executou pinturas e murais em residências particulares, e desenvolveu intensa produção artística em desenhos e telas. Gino Catani faleceu em 1944, 20 anos antes de sua filha fundar o Condomínio Rural em Taboão da Serra.
Vejo na estante de dona Iolanda Catani três artesanatos de corujas. Esta ave é símbolo deste blog bar & lanches taboão. Fiquei feliz de encontrar nossa mascote na prateleira da casa da pioneira.

Formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, em Araraquara, Cláudio exerceu por 35 anos a profissão. Manteve várias parcerias com seu pai em fazendas pelo interior do estado de São Paulo.
Fiel ao seu ofício, Cláudio critica a forma como as autoridades ambientais tratam hoje a compensação na derrubada de árvores. “Se uma pessoa desmata aqui no Condomínio Iolanda, o replantio de árvores deve ser feito exclusivamente aqui dentro. E não como fazem hoje, em que o desmatador pode fazer a compensação vegetal em outro local”, adverte.

De sua mãe Cláudio guarda uma lembrança bem humorada. “Certa vez ela foi cantar uma peça lírica, e a personagem que ela fazia morria no final. Mas eu reparei que minha mãe se levantou antes de baixar a cortina no final do espetáculo. Fui fazer uma espécie de crítica a ela, e recebi de resposta: ‘Se eu não tivesse pulado antes de descer a cortina você seria um menino órfão, agora. Aquele cortinado estava caindo com todo o peso em cima de mim’ “.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O balde gelado e o “rei” da Imprensa no Brasil

Cena 01 – Jornalista brasileiro sofre um acidente vascular cerebral (AVC), e fica com o corpo totalmente paralisado. Mas a mente continua ativa. Ele se comunica com o mundo exterior pelo método desenvolvido por sua enfermeira, para a qual “dita” textos, piscando os olhos quando ela lhe aponta letras do alfabeto em uma placa.

Cena 02 – Jornalista francês sofre um AVC, e permanece consciente embora não possa mover os músculos do corpo. Uma enfermeira copia para o papel a biografia do enfermo, pelo método desenvolvido pela fonoaudióloga do paciente, que pisca toda vez que lhe indicam determinadas letras do alfabeto em uma placa.

A cena um aconteceu em fevereiro de 1960, no Rio de Janeiro. A de número dois foi no nordeste da França em dezembro de 1995. Lembrei destes dois fatos e sua extraordinária coincidência quando rolou a onda do “balde gelado”, para estimular doações à cura da síndrome degenerativa de células nervosas. Na qual os doentes também ficam enterrados vivos dentro de seus próprios corpos.
Porém deixei pra publicar somente hoje, por ser Dia Nacional da Imprensa Brasileira. Mudaram a data em 1999 para 1º de junho. Mas a maioria de nós mantém o costume anterior. E para mim, setembro diz mais perto ao coração. É o meu mês.
Não posso afirmar que a fonoaudióloga francesa Henriette Durand tenha plagiado em 1995 o sistema criado pela enfermeira pernambucana Emilia Araúna 35 anos antes. Afinal, coincidências acontecem. Todavia, tá aí uma semelhança digna de ser desvendada.
Enfermeira Claude copia a biografia 
que Jean “escreveu” piscando o olho

O francês Jean-Dominique Bauby era famoso editor-chefe da revista de modas Elle. Já tinha passagens brilhantes pelas revistas Quotidien de Paris e Paris Match. No dia 8 de dezembro de 1995 o AVC pôs fim à sua carreira. Estava com 43 anos. A fono Henriette notou que embora o jornalista não conseguisse falar nem mexer braços ou pernas, movia a pálpebra esquerda. Montou numa placa o alfabeto. Quando apontava a letra certa, Jean piscava. A enfermeira Claude Mendibil ficou encarregada de copiar letra por letra as palavras com a qual o jornalista contou sua história de vida. O livro ficou pronto em 1997. Jean morreu 10 dias depois do lançamento. O assunto virou filme célebre em 2007 – com o mesmo título do livro: O Escafandro e a Borboleta. Premiado em Cannes e indicado ao Oscar.
Aqui no Brasil, só no ano que vem ficará pronto o filme Chatô – O Rei do Brasil, dirigido por Guilherme Fontes. Que luta pelo projeto desde 1995, mesmo ano em que começou a saga de Jean-Dominique como sepultado vivo debaixo da própria pele.

O paraibano Assis Chateaubriand, apelidado Chatô, foi o homem mais poderoso do jornalismo brasileiro. Dono da rede Diários Associados – jornais, revistas e emissoras de rádio e TV. Aos 78 anos um AVC jogou Chatô em cima de uma cama, completamente mudo e imóvel.
Emilia escreveu seu livro estimulada pelo 
cineasta Walter Lima Jr. que 
a entrevistou em 1996 para um documentário
O telefone tocou para a enfermeira Emilia Belchior Araúna na noite de 28 de fevereiro de 1960, em pleno plantão durante o Carnaval. Ela ficaria responsável pela higiene pessoal do paciente Chateubriand, por trocar o soro que o alimentava, e mudar a posição do corpo a cada três horas para evitar as escaras.
Emilia, então com 22 anos, vinda um ano antes de Caruaru (PE) tinha deixado na terra natal os pais e nove irmãos – seis homens e três mulheres. 
Notou que o doente, apesar de absolutamente inválido, lhe dirigia um olhar expressivo. 
Ela resolveu tentar um contato.
“O senhor está me ouvindo? Entende o que estou dizendo? Se estiver entendendo, feche os dois olhos”. Chatô apertou os olhos com força. Ela pegou duas folhas de papel. Escreveu em uma a letra A; na outra, a B. O doente deu mostras que sabia o que Emilia pretendia. A moça saiu em disparada para o almoxarifado da clínica. Voltou com cartolinas, e grafou nelas o abecedário, colando-as com esparadrapo na parede em frente à cama do doente. “O senhor vai piscar toda vez que eu colocar a régua em cima da letra que o senhor quer”.
Como jornalista hábil no manejo das palavras, Chatô recorreu logo a uma figura de linguagem na primeira manifestação do que lhe ia na mente aprisionada pelo corpo inerte:
- Já entendi tudo. O edifício pegou fogo, só sobrou a biblioteca.

Emilia hoje com 76 anos, autografando o 
livro que publicou em 2009
Emilia tinha experiência em lidar com gente em dificuldade de expressão. Ela alfabetizou sozinha a irmã caçula, Idalina, surda-muda de nascença.

Sete meses depois de estar aos cuidados de Emilia, em setembro de 1960 Chatô informou a ela: “Vou voltar a escrever meus textos”. E “ditou” com os olhos um artigo de 928 palavras.

Tempos depois foi desenvolvida uma máquina de escrever elétrica especial, onde Chatô “milhografava” seus editoriais. Ele já conseguia uma débil movimentação com o braço sustentado por roldanas. Mas a sua fala não passava de grunhidos desesperados, que somente Emilia conseguia decifrar. E assim foi em todos os dias, até a sua morte em 1968, aos 86 anos.