quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Doutor em hip-hop lança livro em SP, dia 26

Batista Félix é doutor em Antropologia Social. Foto: Reprodução

David da Silva

O antropólogo Batista e eu éramos “ratos” da Biblioteca Mário de Andrade, no centro da cidade de São Paulo. Após o último encontro em 1982, só voltei a vê-lo 25 anos depois em uma palestra no Cemur, espaço de eventos em Taboão da Serra. De lá pra cá, nosso contato só rompe a distância de 2.225 quilômetros na cerveja de fim de ano.
Professor na Universidade Federal de Tocantinópolis, doutor em Antropologia Social e Coordenador do Curso de Ciências Sociais, o meu mano João Batista de Jesus Félix lança na 6ª-feira, 26 de outubro, seu livro Hip-Hop: Cultura e Política no Contexto Paulistano.

Um rapaz desce bufando de raiva a Rua São Vicente, no bairro paulistano do Bexiga. Estamos em julho de 1987. Ao passar pela quadra da Escola de Samba Vai-Vai, o que ecoa na cabeça de João Batista não é o som dos tamborins. Soam-lhe pesadas as palavras do advogado Celso Fontana, no escritório de quem Batista estava minutos atrás. “Pôrra, Batista! Você não tem nenhum curso superior? Assim não dá! Eu achava que você fosse formado”. A decepção do advogado vinha da admiração que nutria pela vasta cultura do rapaz. Velhos amigos, Celso Fontana se prontificou a apresentar Batista para uma vaga na Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo. Mas quando viu o currículo do moço...
Os imensos conhecimentos de história, cinema e filosofia de Batista vinham das suas longas jornadas de leituras na Mário (esta intimidade é concedida a mim e ao meu amigo devido à nossa assiduidade naquele templo do aprendizado autodidata). A biblioteca-símbolo de Sampa fazia a nossa conexão norte-sul. Batista é do Bairro do Limão, e eu, das quebradas do quadrante sudoeste da Grande SP.

“Esfregar na cara”
Sem um puto no bolso, Batista resolveu bater na recepção de um curso pré-vestibular ali mesmo na Rua São Vicente onde descarregava sua bronca numa caminhada estugada. Conquistada a bolsa de estudo, ingressou na turma de agosto. Em dezembro a Fuvest anunciava que Batista fora admitido na USP (Universidade de São Paulo).
Sua aplicação no estudo tinha uma pitada de vingança. “Eu não tinha engolido o desaforo do Celso em não levar meu currículo à prefeitura. Minha intenção era terminar a graduação e esfregar o diploma na cara dele. Hoje sou totalmente grato a ele. Sem a atitude dele eu jamais teria tomado a decisão que mudou profundamente a minha vida”, relata.
No ano 2000 Batista defendeu sua dissertação de mestrado, fruto de 15 anos de pesquisa sobre a construção da identidade negra nos bailes paulistanos. Em 2006 defendeu sua tese de doutorado que agora chega ao grande público no formato físico do livro.
A ladeira onde Batista decidiu mudar o rumo da sua vida. Rua São Vicente - São Paulo/SP

“Operação Salva Batista”
O êxito acadêmico não se deu sem percalços. No último degrau para se tornar doutor, Batista balançou. Seus colegas montaram uma operação de resgate para dar respaldo na redação final da sua tese de doutorado.
Nenhuma narrativa escrita substitui o relato em viva voz do Batista sobre a tal operação de salvamento. Nada supera as modulações da sua voz possante. Nenhum prazer maior do que ouvir sua explanação explodir em gargalhadas de vigor vulcânico. Vê-lo rir remete a um trecho do Henry Miller, onde o autor norte-americano afirma que dos negros provêm “acessos autênticos de riso como nunca se ouviram de gargantas de gente branca. O negro ri tão facilmente quanto respira” (The Rosy Crucifixion – Plexus).

De olho no furacão
Batista teve um estudo seu publicado no Anuário Brasileiro de Segurança Pública, lançado em 30 de agosto deste ano. O autor debruçou-se sobre as estatísticas dos homicídios em Tocantins no período de 2014 a 2017. Constatou que o número de mortes violentas intencionais ali cresceram 12,7% no período. Mortes causadas por intervenções policiais naquele Estado subiram 1.380% nos quatro anos pesquisados. Se entre 2014 e 2017 a polícia de Tocantins matou 74 pessoas, 46 delas ocorreram só em 2017.
Além de professor, Batista é Diretor de Cultura da
Universidade Federal de Tocantins

Suburbano coração
Para o seu mestrado, Batista foi atrás dos sons dos subúrbios. Se embrenhou nos bailes black. Seu périplo pela periferia me lembra Jorge Luis Borges quando moço, onde o escritor argentino revela que “en aquel tiempo, buscaba los atardeceres, los arrabales y la desdicha”.
O doutorado de Batista veio de outro mergulho nas entranhas da metrópole.
Uma das suas conclusões foi que “a aproximação entre o PT (Partido dos Trabalhadores) e o rap [na periferia paulistana] fez com que esses grupos não sentissem a necessidade de criar nenhuma forma de atuação política alternativa”. O movimento hip-hop se sentia protegido pelo partido. Cria que o partido podia resolver todas as paradas. A análise fria de Batista prenunciava uma advertência diante da ingenuidade política do movimento.
Sintomaticamente, na noite de ontem o maior nome do rap nacional falou que o PT perdeu a capacidade de interagir com as periferias. Espetando o polegar no ar, Mano Brown apontou de costas para membros do PT e seus candidatos a presidente e vice: “O pessoal daqui falhou e agora vai pagar o preço. Porque a comunicação é alma, e se não está falando a língua do povo vai perder mesmo, certo?”, questionou o líder dos Racionais MC’s.
O artista se mostrou desiludido com a atuação partidária. “Política não rima, não tem swing, não tem balanço. Não tem nada que me interessa”, depreciou.

NOITE DE AUTÓGRAFOS
Hip-Hop: Cultura e Política no Contexto Paulistano (Editora Appris)
De João Batista de Jesus Felix
26 de outubro de 2018 – sexta-feira, às 19h
Sindicato dos Professores (APEOESP)
Praça da República, 282 – São Paulo/SP

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O grafite guerreiro de Marcelo Molão

Molão com grafite de Sérgio Vaz feito a partir de foto de Ricardo Vaz. Foto: David da Silva
David da Silva

Ligeiro no desenho, lento no futebol. Vem daí o nome de guerra de um dos melhores grafiteiros do Estado de São Paulo. “Eu era bom de bola, mas os moleques diziam que eu era mole, o apelido pegou”, recorda rindo. Marcelo Molão recebeu a reportagem para falar do encontro de grafite que está organizando no Projeto Nós por Nós, a ser realizado em novembro. Também antecipa que seu personagem Pele Vermelha, famoso nos muros das quebradas, vai virar história em quadrinhos. O primeiro volume está em fase de roteirização, em parceria com Stephanie Funny.

 Molão é paulistano da gema. “Poucos têm o privilégio de ser batizado na Catedral da Sé. Eu fui. Meu pai trabalhava perto da Sé, e morava no próprio emprego. Mas ele judiava da minha mãe. Quando eu tinha quatro anos ela largou dele, fomos morar no Real Parque [bairro da zona sul de SP]. Quando fiz 10 anos de idade viemos morar no Jardim do Colégio [subúrbio de Embu das Artes, região sudoeste da Grande São Paulo]”.

Para chegar à casa do artista, o carro sai da Avenida Aymará, sobe serpenteando a Rua Órion, cruza a Triângulo Astral, e desemboca na Rua Eridano, na confluência com a Rua Pégaso, quase esquina com a Rua Centauro, a poucos metros da Rua Ursa Maior. Você já se ligou que as vias públicas do lugar são todas ligadas à astronomia.
Fachada de imóvel no Jd do Colégio. Arte: Molão
Estamos no coração da terra do Pele Vermelha. Aqui Marcelo Molão é onipresente. Seus grafites estão nas fachadas de estabelecimentos comerciais, nos muros das residências, na carenagem de carros e motos, em tatuagens, e principalmente no Boteco do Velho. “Aqui é o meu escritório”, diz divertido ao entrar no bar do Reinaldo.

Menino tem a atenção atraída por grafite no Jardim do Colégio. Foto: David da Silva
Gostos e influências
Molão foi abduzido pelo grafite ainda criança. “Eu me ligava nos desenhos dos muros, pirava com a combinação das cores, e senti que eu também era capaz de fazer aquilo”, relata enquanto sorve goles de cerveja Lokal.
No mundo do grafite sua admiração vai para Gláucio Santos. “Conheci ele na locadora de vídeos onde trabalhei por 13 anos. Gláucio era freguês da loja. É um monstrão no grafite, aprendi muito vendo os seus trampos”.
No universo do cartoon, o ídolo de Molão é Angeli.
No panorama musical, o astro que brilha é Al Green. “O Al Green é a trilha sonora da minha vida inteira”.

Sina de grafiteiro
A devoção de Marcelo Molão à Arte já rendeu fruto. Excelente fruto, por sinal. Seu filho, também chamado Marcelo, mas com nome artístico Mazola, 20 anos, é respeitado na galera da street art. “Minhas filhas também curtem lidar com tintas. Talvez saia mais algum artista lá de casa”, diz nomeando as meninas Isabela, 18, Giovanna, 14, e Luíza, sete anos.

Mazola não esconde o orgulho de o filho ser igual seu pai. “É sempre um grande prazer pintar com meu pai. Sempre quando estamos juntos num trampo são altas zoeiras, risadas, aprendizado, ideias boas que fluem. Às vezes uns desentendimentos, mas acontece nas melhores famílias. Enfim, a saga continua”, escreveu recentemente em sua conta do Facebook.
Mazola e sua arte (Morgan Freeman) na Bienal Internacional de Graffiti em set/2018. Foto: Ranielly Bezerra
Galeria de heróis anônimos
Molão tem grande prazer em desenhar moradores símbolo do seu bairro. As biografias mudas ganham eloqüência nos murais.
Seu Anísio fez 80 anos em 10 de março. Natural de Monteiro (PB). “Faz 30 anos que tô quieto aqui no Jd do Colégio. Trabalhei em parque de diversão e circo. Qualquer lugar do Brasil que você me perguntar, eu já fui. Aprendi tocar sanfona sozinho. Muitas coisas já não lembro. Tem vez que esqueço até do meu nome. Minha cabeça não tá mais funcionando direito”. Arte: Molão. Foto: David da Silva
“Eu sempre quis homenagear o Velho Mancha, morador ancião aqui do bairro. Ele era pintor de paredes. Figura marcante. Ainda bem que ele teve tempo de ver a pintura que fiz dele.”, diz Molão. Mancha faleceu em agosto/2018. Foto: David da Silva

O mundo distópico do Pele Vermelha

O personagem criado por Molão é filho da amargura. “Quando perdi minha família, parei de acreditar em várias coisas. Em 2012 minha mãe morreu de infarto fulminante aos 62 anos. Em 2013 meu irmão Anderson de 26 anos morreu em acidente de automóvel. Daí o Pele Vermelha brotou na minha mente. Eu ainda não sabia que nome ele teria, nem o jeito que era. Mas o tema veio forte”, explica o autor.

O criador e a criatura. Foto: Reprodução | Facebook

Pele Vermelha é uma espécie de alter ego do povo da periferia. “Tem muito Pele Vermelha por aí, viu? Ele é o trabalhador sofrido, que cumpre com as obrigações, acredita nas pessoas. Mas na hora do vamos ver, não consegue nada”.
No gibi, Pele Vermelha já vai estar no último degrau da vida. “Os quadrinhos vão mostrar o Pele com mais ou menos uns 80 anos. Mas ainda estamos desenvolvendo este assunto.  Vamos mostrar ele quando ainda brincava com crianças, tinha esperanças”, diz Molão que na capa da HQ aparece com assinatura espelhada OALOM.
Em novembro de 2017 Marcelo Molão fez a exposição Pele Vermelha na Terra do Cão, na organização não governamental Associação Comitiva Esperança, no Jardim Independência, onde ensina desenho para crianças embuenses.

O encontro de grafiteiros, em data a ser divulgada em breve, vai rolar na Rua Pégaso, nº 164, próximo ao CEU Jardim do Colégio.

Conheça um pouco mais da Arte de Marcelo Molão aqui

Para contratar serviços de arte grafite, acesse seu perfil no facebook

AGRADECIMENTOS

Apesar de as ruas do Jd do Colégio terem nomes de corpos celestes, na hora de eu ir embora a Claro não tinha sinal de internet naquele local. Fui salvo pela gentileza da Irlândia, morena de beleza majestosa, que chamou o Uber para a reportagem.
Foto: Bruna Morgado - 12.out.2018
Fiel escudeira - A técnica em logística Bruna, 26 anos, sempre acompanha os grafiteiros. “Um dia o Molão falou pra mim: ‘Você tá sempre junto com a gente, mas não desenha nada. Tá na hora de você fazer alguma arte sua’. Fui no muro e fiz. Gosto de desenhar gatos”. Fotos: Bruna Morgado (esq) e David da Silva

Reinaldo Silva de Oliveira, 62 anos, natural de Rui Barbosa (BA) mora há 22 anos no Jd do Colégio. Antes do comércio próprio, trabalhou em lanchonete, padaria e lojas de roupas e calçados. Foto: David da Silva

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Jovem de Taboão da Serra está preso por engano, afirma diretor de escola

Victor Hugo - Reprodução do Facebook
David da Silva

Dois roubos a residências na cidade de Jundiaí (SP) na noite do último 1º de março estão sendo atribuídos a Victor Hugo Campos Terkeli, de 19 anos. Porém, na data e no horário da ocorrência ele estava na sua sala de aula aqui em Taboão da Serra, a 68 quilômetros de distância do local do delito.
Os roubos aconteceram por volta das 20h30. Quem garante que o aluno estava dentro da unidade de ensino no período das 19h às 23h é o próprio diretor da Escola Estadual Neusa Demétrio, onde Victor Hugo cursa o 3º ano do ensino médio.

Os assaltantes eram quatro homens encapuzados. A juíza Jane Rute Nalini Anderson acreditou no depoimento de duas vítimas (uma delas, também juíza), que disseram ter reconhecido o rapaz pelos olhos, através do buraco do capuz.
Ao julgar um caso idêntico a este, em 2015 o Tribunal de Justiça de São Paulo absolveu por unanimidade um homem que foi igualmente preso acusado de ser reconhecido num assalto pela abertura da touca ninja.

Do trabalho para a aula

Naquela 5ª-feira 1º de março de 2018, Victor Hugo saiu de manhã para a firma de confecções onde entra às 7h e trabalha como auxiliar de produção. O relógio de ponto registra que o rapaz encerrou sua jornada às 17h40. Além de disponibilizar para a Justiça os registros dos horários de entrada e saída, a empresa emitiu uma declaração em favor do funcionário segundo a qual “ao longo do seu contrato sempre manteve um bom comportamento profissional, competente, pontual e ético”.
Após o serviço, Victor passou em sua casa no Jardim Panorama, faz um lanche e seguiu para a escola.
Aluno estava dentro da escola quando foi acusado de estar em Jundiaí
A torre da discórdia

A polícia de Jundiaí investigou as chamadas feitas por meio da torre telefônica mais próxima à casa da juíza roubada. Um dos celulares era de Taboão da Serra. Era o marceneiro Miguel Terkeli, 56 anos, pai de Victor, ligando para seu outro filho, Tiago, que estava naquele dia trabalhando em Jundiaí com um empreiteiro de obras também de Taboão da Serra.
O azar de Victor Hugo é que seu irmão Tiago, 32 anos, já tem antecedentes. Seu Miguel admite que o filho maior “durante a adolescência quebrou um pouco a cara, deu um pouco de dor de cabeça e teve passagem pela polícia...”.
A polícia vinculou o passado de Tiago com o presente do irmão menor, e resolveu prender os dois no dia 12 de junho. Eles aguardam julgamento no Centro de Detenção Provisória (CDP) de Jundiaí.
Os outros suspeitos presos são Miguel Azevedo Ramos, 29 anos, com quem a polícia encontrou um dos celulares roubados, e Alex Sandro Ferreira da Silva Catuaba, 38 anos, que também tem antecedente criminal.

Revolta

No sábado passado, 1º de setembro, um grupo de colegas de escola, vizinhos e familiares de Victor Hugo fizeram manifestação na BR-116 pedindo sua libertação.
O diretor da escola onde Victor Hugo estuda vai ser sua testemunha de defesa quando a juíza marcar a audiência.

Segredo de Justiça?
Procurados pela reportagem, a Secretaria de Segurança, o Ministério Público e o Tribunal de Justiça de São Paulo afirmam que não comentam o caso por estar em segredo de justiça.
Tem segredo nenhum.
Semanas atrás, no dia 17 de agosto o Diário Oficial do Estado de São Paulo publicou, na página 1.480 da Primeira Instância do Interior parte 2, edital da juíza Jane Rute Nalini Anderson sobre a movimentação mais recente do processo. Leia aqui

Outros erros
O caso idêntico de reconhecimento com base na área dos olhos, ocorrido no ano 2007 em Tatuí, interior de São Paulo, foi julgado em 2015 pelo Tribunal de Justiça paulista.
A desembargadora relatora do processo admitiu que a região dos olhos do injustiçado não tinha nenhuma marca de pele, verruga ou cicatriz, que permitisse que ele fosse apontado como suspeito sem nenhuma sombra de dúvidas.
Faça o download com a íntegra da decisão judicial aqui

Manchete do site Consultor Jurídico sobre caso semelhante ao de Victor Hugo


No ano 2011 publiquei aqui no blog outro caso de um morador de Taboão da Serra preso injustamente devido a erros na investigação policial. Relembre

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

“Não vamos permitir golpe político em Taboão”, afirma Fernandes

Fernando Fernandes em entrevista coletiva - Foto: Allan dos Reis | Taboão em Foco

David da Silva

O prefeito Fernando Fernandes convidou a imprensa regional na última 5ª-feira (30) para denunciar que quatro vereadores tucanos e um do PPS estão conspirando contra o seu governo. “Querem tomar a prefeitura por meio de um golpe político. Chamaram até meu vice-prefeito para a reunião de rompimento. Estão copiando o Temer”, satirizou.
Os cinco vereadores taboanenses apontados por Fernandes como golpistas anunciaram, na noite da quarta-feira (29), que irão apoiar candidatos de Embu das Artes. Já o grupo político de Fernando Fernandes defende as reeleições da deputada federal Bruna Furlan e da deputada estadual Analice Fernandes, que cumpre o seu quarto mandato consecutivo, e é a atual vice-presidente da Assembléia Legislativa de SP. Em 2014 Analice obteve mais de 151 mil votos, e foi a mulher mais votada do Estado.

Infidelidade
Os quatro vereadores do PSDB rompidos com a administração tucana de Taboão da Serra também fizeram acordo para apoiar o candidato a governador do MDB, conforme revelação do vice-prefeito Laércio Lopes.
“É muito clara a infidelidade partidária gigantesca que eles estão cometendo”, afirma o prefeito Fernandes, que anuncia: “Tudo isto vai ser avaliado pelo partido. Não vai passar em branco. Com a possibilidade de serem expulsos do partido e perderem a cadeira [na Câmara Municipal]. Hoje em dia as decisões dos tribunais eleitorais não têm sido favoráveis aos que cometem este tipo de crime”.

Campo minado
Fernando Fernandes antevê que os cinco vereadores rebelados tentarão inviabilizar seu governo. “Farão tentativas de CPI e acusações. É o desenho político que nós vamos assistir na Câmara Municipal”.
O prefeito denunciou que os dissidentes têm se reunido com frequencia com o ex-vereador Aprígio, candidato à prefeitura derrotado por Fernandes nas eleições de 2012 e 2016.
Recentemente o prefeito Ney Santos, de Embu das Artes, ameaçou que vai interferir na política de Taboão da Serra, tanto na presidência da Câmara Municipal quanto na eleição de prefeito em 2020. O alcaide embuense é aliado dos cinco vereadores taboanenses que abandonaram a base governista.
Fernandes rebate as pretensões dos amotinados. “Vamos enfrentar a situação. Não vamos permitir e não vamos ser vítimas de um golpe político na nossa cidade. Principalmente um golpe político arquitetado por Ney Santos. Que deveria estar cuidando da cidade dele. Que está um caos”.
Fernandes relata que a rede de Saúde de Taboão da Serra atende um grande número de moradores de Embu das Artes. “Tenho dados estatísticos que provam isto. Somente no pronto-socorro infantil são cerca de 50% de pacientes de lá”, enumera.
Quanto à sustentabilidade da aliança dos cinco vereadores taboanenses com o prefeito embuense, Fernandes minimiza: “Até quando vão durar os cinco votos deles? Tudo que se alicerça numa base ruim, não se sustenta. Esse solo [Ney Santos] é contaminado”.

Sucessão
Ao término do seu quarto mandato na prefeitura, Fernandes afirma: “Posso garantir o seguinte. A sucessão será liderada por mim. Nosso governo vai fazer o sucessor. O legado deixado ao longo de todos esses anos não será transgredido através da imoralidade e da corrupção. Aventureiro nenhum vai tomar conta da nossa cidade”.

Momento de dor

O prefeito esclareceu à opinião pública o seu desentendimento semanas atrás com o vereador Bodinho: “Estavam os cinco vereadores dissidentes aqui no meu gabinete. No exato momento daquela reunião, meu neto de apenas seis meses de idade tinha acabado de passar por uma cirurgia no coração. Teve uma complicação, uma osteomielite, extravasou um abscesso muito grande, meu filho me ligou chorando, dizendo que a criança estava morrendo. Mandou uma foto do bebê para mim. Neste momento o Bodinho começou a gritar, dizendo que podia mandar todo mundo embora, falou um palavrão. Eu realmente perdi a cabeça, fui pra cima dele e pedi para ele sair da minha sala. Porque ele não teve respeito nenhum pela minha dor”.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Julia Ferreira reconquista espaço da Bossa Nova em SP

Bourbon Street é a próxima parada da cantora que já se apresentou no Beco das Garrafas e no Bar Brahma. 
Foto: David da Silva - 04.jun.2018
David da Silva

“São Paulo foi a primeira cidade a aderir e importar grandes nomes da Bossa Nova”. A afirmação é de uma autoridade eclesiástica no assunto. O musicólogo Zuza Homem de Mello aponta a capital paulista como o primeiro lugar onde compositores bossa-novistas conheceram a consagração longe das praias cariocas. O show coletivo no Carneggie Hall de Nova York na noite de 21 de novembro de 1962 foi sofrível – a ponto de a revista The New Yorker escrever “Bossa, go home” (Bossa Nova, volte para casa). Foi aqui em SP onde Tom Jobim deu o primeiro grande espetáculo da sua vida em solo brasileiro. Baden Powell optou por SP para fazer seu show na volta ao Brasil depois de anos morando em Paris. A noite paulistana foi o ambiente de trabalho eleito por Johnny Alf, que se mudou do Rio para cá em 1955, três anos antes da data considerada oficial da Bossa Nova.
É o peso dessas referências que passa pela voz de uma artista paulista de 22 anos de idade no projeto que homenageia os 60 anos de criação da Bossa Nova. A cantora Julia Ferreira se apresentou em 28 de abril último no legendário Beco das Garrafas, berço do movimento no Rio. Em 4 de junho a apresentação foi no histórico Bar Brahma, em SP.

Como e quando Julia e Oscar passaram a trabalhar juntos, já contei aqui
No Beco das Garrafas c/ Rubens Barbosa (baixo) e Rick Siqueira (bateria)
“Nossa próxima apresentação será no Bourbon Street aqui de SP, e depois faremos uma temporada na Casa Natura Musical, também aqui na capital”, antecipa o guitarrista Oscar González, criador do projeto e diretor musical dos espetáculos onde Julia Ferreira se firma como uma sólida promessa de vida nos corações de quem anseia pela boa música de Jobim, Menescal, Carlos Lyra, Marcos Valle, Djalma Ferreira, e outros gênios da Bossa Nova.

Carioca da gema, cidadã paulistana
Com a certidão de nascimento carimbada no Rio, a Bossa Nova tornou-se em pouquíssimo tempo cidadã da “terra da garoa”. A tal ponto que a Rádio Eldorado, emissora paulista fundada em 1958 (ano da gravação de “Chega de Saudade”) tinha como prefixo musical “Bim Bom”, composta pelo mesmo João Gilberto que eternizou a composição de Jobim e Vinícius de Moraes.
Se o precursor Johnny Alf já tinha trazido seu piano para SP três anos antes da eclosão do movimento, em 1962 e 1963 foi a vez de as cantoras Alaíde Costa e Claudette Soares trocarem Copacabana pela Praça Roosevelt. Nessa praça, em 1959 o pianista e cantor Dick Farney já tinha aberto um bar (o Farney’s, depois comprado por Djalma Ferreira tornando-se Djalma’s, e hoje, na posse de Esdras Vassalo (Doca) se chama “Pinga, Papo e Petiscos”). Foi neste histórico número 118 da Praça Roosevelt que Elis Regina cantou pela primeira vez em SP, no dia 5 de agosto de 1964.
Naquele mesmo ano de 1964, no dia 26 de outubro, Tom Jobim se apresentou pela primeira vez ao vivo para os paulistas, no show O Remédio é Bossa, na platéia repleta de 1.530 lugares do teatro Paramount.
Foto: David da Silva
Túmulo do samba?
O jornalista Ruy Castro diz que “mudar-se para SP foi a solução mais confortável encontrada pela Bossa Nova para fazer de conta que não estava saindo de casa”. No auge bossa-novístico, a capital paulista tinha 27 importantes casas noturnas dedicadas a este estilo musical.
Foi numa dessas casas, a boate Cave na Rua da Consolação, que Vinícius de Moraes ficou muito puto com um grupinho de burgueses bêbados que falando alto atrapalhavam o som de Johnny Alf. “Meu irmãozinho, pegue a sua malinha e se mande para o Rio, porque São Paulo é o túmulo do samba”, aconselhou o poeta ao pianista. Claro que era um exagero, e Johnny Alf morou em SP até falecer.
Foi também na boate Cave onde Baden Powell tocou pela primeira vez no Brasil após sua volta de Paris. Ele lotou aquela casa durante um mês acompanhado pelo Jongo Trio.
Por falar em trio, foi na Baiúca, na mesma Rua da Consolação, que em 1964 nasceu o Zimbo Trio, um dos grupos mais representativos da música instrumental brasileira.

É no solo fértil destes acontecimentos, que a voz de Julia Ferreira e a guitarra de Oscar González resgatam a paisagem sonora que São Paulo nunca mereceu ter perdido.
Show no Bar Brahma c/ Billy Magno (piano e sax), Rick Siqueira (bateria) e Jorginho Silva (contrabaixo). 
Foto: David da Silva - 04.jun.2018

segunda-feira, 7 de maio de 2018

O morto no banco dos réus

Fotomontagem sobre certidão disponível no site do Tribunal de Justiça de São Paulo
David da Silva

Nos últimos sete dias as redes sociais viraram palco de linchamento moral contra Ricardo de Oliveira Galvão Pinheiro, 39 anos, morto na 3ª-feira passada agarrado à parede do prédio abandonado onde morava há quatro anos. Devido a duas tatuagens que trazia no peito com desenhos de palhaços, o homem está sendo postumamente apontado por milhões de internautas como “matador de policiais”.
Na consulta que fiz ao Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, não existe processo criminal contra ele.
No nome de Ricardo aparecem apenas uma ação de despejo por falta de pagamento de aluguel em 2013, e uma execução fiscal movida pela Prefeitura de São Paulo em 2011. A dívida com a prefeitura vem da microempresa de revenda de eletrônicos que Ricardo tinha em seu nome com o CNPJ 11.290.308/0001-35, estabelecida na Travessa Julio Tupy, 45, casa 1-B, Vila Nancy, zona leste de São Paulo.
Parte da equipe de ajudantes de caminhão que era coordenada por Ricardo "Tatuage",
na Rua Tiers, nº 282, bairro do Brás
Depois que se tornou morador em situação de rua, Ricardo trabalhou como eletricista, entregador, lustrador e lavador de carro. Na Justiça do Trabalho constam dois processos (de 2015 e 2016) que moveu contra seus empregadores, o último deles uma pizzaria na Rua Conselheiro Nébias, nº 1251, bairro Campos Elíseos, região central de São Paulo.
Depósito de mercadorias onde Ricardo trabalhava no Shopping Porto Brás, no setor leste da cidade de São Paulo. Foto: Rauan Costa Neto
Atualmente, Ricardo coordenava uma turma de 30 ajudantes de caminhão a serviço de comerciantes do Brás, e também fazia bicos na Rua 25 de Março.
“Eu conhecia ele porque a gente trabalhava junto. Fazia carga e descarga de contêiner com coisas da China, bolsa, brinquedo, essas coisas”, conta Rauan Costa Neto. “Segunda-feira mesmo a gente descarregou um caminhão na 25 de Março”, conta Rauan sobre o dia anterior à morte do colega.


Comentário no Instagran
A farra e os fake-news


Em 25 de setembro de 2015 Ricardo postou no instagram foto sua com uma sacola contendo dinheiro. A imagem desencadeou uma tonelada de comentários acusando-o de pertencer ao PCC, que o dinheiro era da venda de drogas, que era Ricardo quem fazia o recolhe do dinheiro extorquido dos moradores da ocupação, e que ele teria voltado ao prédio em chamas não para salvar vidas, mas para retirar as sacolas de dinheiro.

Sobre isto Rauan afirma que a foto foi uma farra; encheram a sacola com papéis e puseram dinheiro por cima. Aquela quantia, segundo Rauan, provinha da venda de uma moto de Ricardo.
Ricardo estava a poucos metros e poucos segundos para ser salvo. No topo do prédio verde, o bombeiro o aguardava quando o edifício desmoronou. Imagem: Abiatar Arruda | TV Globo

Corpo e honra aos pedaços

No filme The Lost Honor of Christopher Jefferies um advogado diz: “As coisas de que uma pessoa pode se livrar por parecer normal”. O filme é sobre um fato ocorrido em 2011 na Inglaterra, e a pessoa ofendida recebeu uma fortuna de indenização dos seus caluniadores. Ricardo não terá a mesma sorte.
Seu corpo despedaçado foi encontrado graças a Vasty, uma cadela de 5 anos da raça pastor belga, do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo. O animal farejou carne humana entre os destroços ao meio dia da 5ª-feira, 3 de maio.
Na 6ª-feira por volta das 14h a equipe de resgate encontrou uma das pernas separada do corpo. Mais adiante, o tórax esmigalhado, os braços arrancados do tronco. Mas não acharam a cabeça.
O corpo decapitado saiu do IML às 11h do sábado, 5 de maio, para o Cemitério da Vila Formosa, aonde chegou às 12h30. Depois de um velório tão curto quanto constrangedor, os restos mortais parciais de Ricardo foram sepultados às 13h30.
Somente no cair da tarde de domingo, às 17h do sombrio 6 de maio, os bombeiros localizaram as arcadas dentárias e um pedaço do rosto de Ricardo.
Ricardo "Tatuage" em 28.mar.2015 - Foto: Plinio Hokama Angeli | Folha de SP
O fato de Ricardo ostentar uma aparência diferente o transformou em alvo fácil para toneladas de julgamentos atrozes. 
Nos dias de hoje com a velocidade eletrônica das trocas de insultos, basta um pequeno estopim para desencadear opiniões impiedosas.  No meu perfil do Facebook, até as 15h19 (momento desta postagem) recebi 36.881 comentários, milhares deles atribuindo a este sofredor uma vida de crimes.
Mas também tive 53.369 compartilhamentos favoráveis ao rapaz imolado.
Se diante uma tragédia desta dimensão as pessoas ainda se colocam “contra” ou “a favor” das vítimas, é sinal que não foi apenas o prédio que desmoronou. Nossa sociedade desabou junto.
Funeral de Ricardo no Cemitério Vila Formosa, cinco dias após a sua morte. Foto: Rauan C. Neto

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Bossa Nova recria força na voz de Julia Ferreira

Júlia Ferreira e Oscar Gonzalez trazem de volta o estilo de cantar e viver das décadas do nascimento e expansão da bossa nova. Foto: David da Silva - 21.abr.2018


David da Silva

“É tão difícil que dá até gosto a gente aprender”. Essa a reação da cantora Julia Ferreira, 22 anos, ao ser introduzida no universo da bossa nova pelo guitarrista Oscar Gonzalez. Além de instrumentista Gonzalez, 50 anos de idade e 35 de músico profissional, é produtor de espetáculos, arranjador, dono de estúdio de gravação e autor do projeto Bossa Nova 60 Anos. Ambos moram em Taboão da Serra onde iniciaram o estudo da música, ele aos 14 e ela aos 13 de idade. A bossa nova é o traço de união entre estes dois artistas de diferentes gerações que embarcam logo mais às 23h30 de hoje para o Rio de Janeiro, para uma apresentação na casa de espetáculos onde Elis Regina saltou para o estrelato na MPB. O show no legendário Beco das Garrafas será no próximo sábado.
Oscar Gonzalez. Foto: David da Silva - 21.abr.2018
O projeto de Oscar Gonzalez em louvor ao estilo musical criado por Tom Jobim e João Gilberto demorou a se concretizar. Se no teatro há a peça Seis Personagens à procura de um Autor, no caso de Gonzalez era um projeto à procura de uma voz. “Há três anos pensei nesta homenagem à bossa nova, que agora em 2018 completa 60 anos de criação. Fiz testes com várias cantoras, mas nenhuma delas se encaixava no que eu queria. Até que me lembrei de uma garota que eu tinha conhecido tempos atrás aqui mesmo no meu estúdio, e fui atrás dela. Demorei dois anos para encontrá-la, pois eu não sabia que ela tinha ido morar em Portugal”, relata Oscar.

Reviravoltas da vida

Por estar sem seu automóvel na noite daquela 4ª-feira 18 de outubro de 2017, Oscar foi a um caixa eletrônico no bairro Jardim Helena, cerca de 600 metros de onde mora. “Como ele não tem hábito de pegar ônibus, teve de retirar dinheiro para pagar a passagem”, conta Julia Ferreira, que na ocasião não tinha a menor ideia de que Oscar estivesse à sua procura.
“Morei em Portugal por nove meses com o ex-namorado, mas a relação acabou, e voltei muito mal para o Brasil”, relembra Julia. Vítima da depressão e síndrome do pânico, a garota se enfurnou na casa da mãe. “Não teria a menor chance de o Oscar me encontrar na rua ou qualquer outro lugar, pois eu não tinha coragem de sair. Cheguei a pensar em suicídio. Mas naquela noite de 4ª-feira meu pai insistiu pra eu ir a um concerto da Associação Músicos do Futuro na Câmara [Municipal de Taboão da Serra] que fica a poucos metros da casa da minha mãe. E mesmo assim se meu pai não me levasse de carro eu não teria ido”, diz.

Foi justamente do carro do pai que Julia desceu para dar de cara com Oscar. “Saí do caixa eletrônico e fui para o ponto de ônibus, quando aquele carro parou bem na minha frente”, lembra o guitarrista.
Julia já tinha estudado piano por cinco anos na Associação Músicos do Futuro antes de ir morar com o ex-companheiro. Mas não conhecia a bossa nova. “O Oscar me falou do projeto, eu disse pra ele que eu não tinha noção deste estilo de música, mas aceitei o desafio”, recorda.

A primeira canção que Oscar mostrou para Julia foi Atrás da Porta. A letra de Chico Buarque para esta melodia de Francis Hime fala de um amor despedaçado. “Aquela música era exatamente o que eu estava passando. Pensei: ‘vou depositar toda a minha tristeza nesta interpretação’. E daí em diante o Oscar foi me passando mais músicas”, diz a garota com a felicidade de o projeto musical e a sua existência se engrenarem abrindo nova promessa de vida para o seu coração.

Caminhos cruzados

A experiência infeliz no relacionamento forjou em Julia a capacidade de entender as mensagens das canções do amor demais. E a longa vivência de Oscar com a música desde a infância o ensinou a crer em predestinação sonora.
“Eu nasci em Santiago do Chile, onde meu pai engenheiro ouvia muita música boa”, conta Oscar, “e quando eu era bem criança ouvi no rádio Toquinho e Vinícius com Maria Creuza cantarem Você Abusou [composição da dupla Antonio Carlos e Jocafi]. Foi meu primeiro contato com a língua portuguesa, e em 1975 quando eu estava com 7 a 8 anos minha família mudou para o Brasil”.

Em 1984 Oscar morava na Rua Ernesto Capelari, próximo ao Largo do Taboão, onde conheceu os músicos Mário Garcia e Wally Garcia. Ali iniciava sua trajetória por palcos e estúdios de gravação. Mário Garcia era diretor musical da dupla que Oscar conheceu por meio da rádio chilena. “Na primeira vez que acompanhei o Mário e o Wally num estúdio, o Antonio Carlos e Jocafi por coincidência estavam fazendo uma regravação justamente da música Você Abusou que eu tinha conhecido quando criança. Tive de ir pro corredor chorar de tanta emoção”, rememora.
Julia: reconciliada com a Música
Foto: David da Silva - 21.abr.2018

A entrada da música na vida de Julia Ferreira se deu de maneira peculiar. “Eu era muito rebelde na adolescência, dava muito trabalho pros meus pais. Daí uma pessoa do Conselho Tutelar sugeriu que eu fosse para a Associação Músicos do Futuro”, lembra a moça rindo.
Durante os anos em que ficou afastada da música trabalhando em shopping, estudando Arquitetura, ou se virando em Lisboa como assistente de pasteleira-chefe, a moça só pensava se a vida ainda lhe daria a chance de um caminho de volta para a Música.
“Quando fui na casa do meu pai buscar os livros e cadernos de ensino musical que eu tinha deixado há tanto tempo, fiquei olhando para aquele material didático dentro do elevador, e chorando muito”, diz a cantora.

No período de outubro a dezembro do ano passado, instruída por Oscar Gonzalez a cantora se isolou do mundo. “Deixei de ouvir rádio, assistir TV, e me dediquei totalmente pra bossa nova”, conta. Em dezembro passaram a gravar os ensaios. Em 27 de janeiro de 2018 Oscar e Julia fizeram a primeira apresentação para o público em uma festa de casamento. Em 16 de fevereiro deste ano iniciaram uma temporada de três meses no restaurante brasileiro Escondidinho, em Embu das Artes.

Na apresentação deste final de semana Julia Ferreira e Oscar Gonzalez terão o acompanhamento de Rick Siqueira (bateria) e Rubens Barbosa (contrabaixo).
Para contratar shows:
(11) 94181-4169

terça-feira, 27 de março de 2018

Pesquisadores italianos descobrem o que Jesus jantou na Última Ceia

Orias Elias (Jesus) e Thânia Rocha (Maria) protagonizam a Paixão de Cristo | Taboão da Serra, no próximo 30 de março, Sexta-Feira Santa. 
Foto: Rogério Gonzaga

David da Silva

No espetáculo teatral ao ar livre da próxima 6ª-feira, em frente ao Parque das Hortênsias, o público vai ouvir o personagem central dizer: “Tenho desejado comer com vocês essa Páscoa, porque não comerei outra antes da Páscoa perfeita”. É o ator Orias Elias quem dá vida a Jesus neste ano. A Encenação da Paixão de Cristo é uma tradição que se repete ininterruptamente há 62 anos em Taboão da Serra. A cena da Santa Ceia transpõe para o palco o ambiente imaginado por Leonardo da Vinci na sua famosa tela pintada entre 1495 e 1498. O pintor estava errado.
Esta e outras descobertas estão no livro Gerusalemme: L’Ultima Cena (ainda não traduzido para o português) escrito a quatro mãos pela egiptóloga Marta Berogno e o arqueólogo Generoso Urciuoli.

No chão

Mergulhados em versículos da Bíblia, escritos judaicos, antigas obras romanas e escavações arqueológicas, a dupla de pesquisadores trouxe à tona uma tese robusta. “Naquele tempo na Palestina, a comida era colocada em mesas baixas e os convidados comiam sentados em almofadas no chão e tapetes reclinados”, afirma Urciuoli, especialista em história do cristianismo primitivo.
Reconstituição da última ceia numa versão mais adequada aos hábitos e mobiliário da Palestina de 2.000 anos atrás

Arqueologia da comida

O que Cristo comeu antes de ser preso? A Bíblia relata em minúcias o que aqueles 13 homens conversaram durante o jantar. Mas não especifica o que foi servido na refeição.
A egiptóloga e seu colega arqueólogo foram atrás de pistas em obras de arte, em dados históricos e até pinturas em catacumbas do século 3. Com isso, foram capazes de detalhar alimentos e hábitos alimentares da Palestina na época de Cristo.
Há de se considerar que o mestre e seus 12 discípulos eram todos judeus. Estavam submetidos às leis religiosas dietéticas conhecidas como kashrut, que determina quais alimentos podem ou não podem ser consumidos, e como devem ser preparados.

Feijão com cordeiro assado

Cholent é um tipo de feijoada judaica;
receita no comentário

Os estudos revelaram que o cardápio da última refeição de Cristo com seus companheiros teve pão sem fermento, vinho, um típico molho de peixe romano conhecido por tzir, carne de cordeiro, cholent (ensopado de feijão cozido a fogo lento), azeitonas com hissopo (planta da família da hortelã), ervas amargas com pistache, e charosset (um doce com maçãs e/ou tâmaras amassadas ou picadas e misturadas com vinho, nozes, cravo e canela - veja a receita no comentário).
“As ervas amargas e o charosset são pratos típicos da Páscoa judaica; o cholent era comido nas festas, e o hissopo era consumido cotidianamente”, diz Urciuoli, dono do blog Archeoricette (arqueologia de receitas) sobre comida ancestral.
O hissopo que os judeus comiam no dia-a-dia é muito comum naquela região, e conforme 1 Reis 4:33 “brota nos muros” e também nas fendas das rochas.

Outra cena da Paixão de Cristo onde aparecem comes e bebes é o banquete do aniversário de Herodes. Ele era um admirador confesso da cultura e dos refinamentos da Grécia e Roma. E isto feria a sensibilidade religiosa dos hebreus, que o odiavam.
A comilança no Palácio de Herodes refletia a influência da culinária romana na Galileia.
Mas isto é assunto para outra postagem, ou para outra refeição, se você assim preferir.