sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A mordida cine-poética de Eduardo Sterzi em Taboão da Serra

Eduardo Sterzi - Fotos: David da Silva
Oficina de Cinema criou curta-metragem inspirado em poema do autor gaúcho radicado em São Paulo

Ainda menino, já revelava talento precoce para os dois ofícios que abraçaria. Jornalista e autor de cinco livros de poemas e ensaios literários, Eduardo Sterzi, 41 anos, tem dois pós-doutorados em literatura, um no Brasil, outro na Itália. É professor de Literatura na UNICAMP. Domina os idiomas inglês, italiano, alemão, português, e espanhol. Seu primeiro livro conquistou o Prêmio Açorianos de Literatura na categoria Autor-Revelação em Poesia. Seu segundo livro de poesias foi o segundo colocado da sua categoria no Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional de 2010. Essa a grandeza do poeta que artistas de Taboão da Serra tiveram o desafio de converter em filme seu poema “Cuidado Ao Cão”.
“Na verdade acho que eu sempre escrevi. Foi a única coisa que pensei em ser na vida. Desde meus 8 a 9 anos de idade comecei a criar historinhas, pegar cadernos e montá-los em forma de livrinhos. Já ali pelo segundo ano de escola, estava criando. No terceiro ano do ensino fundamental comecei também a montar jornaizinhos impressos em mimeógrafo”, disse o autor na visita que fez a Taboão da Serra para conhecer a equipe criadora do curta-metragem O Cão que Morde Dentro, inspirado em uma poesia de seu livro Aleijão, lançado em 2009 pela editora 7 Letras.
Filmagem no Parque Rizzo, Embu das Artes

A Oficina de Cinema em Taboão da Serra foi desenvolvida entre os meses de abril a novembro. A proposta do projeto Cine(Poe)mas é transformar poesia em linguagem audiovisual. O projeto contemplou 32 cidades da Grande São Paulo. Foram selecionados 16 poemas de autores brasileiros vivos. Cada poema foi distribuído para duas cidades, o que gerou duas releituras distintas.
O poema de Eduardo Sterzi foi retrabalhado pelas oficinas de cinema das cidades de Taboão da Serra e Ferraz de Vasconcelos.
As filmagens do núcleo taboanense foram realizadas no próprio município e em Embu das Artes.

Generoso e acessível, Eduardo Sterzi fornece a chave para decifrar o poema escolhido para ser transformado em curto filme:
“Em 1999 eu tinha passado mais de um mês fora. Viajei aos Estados Unidos para me aperfeiçoar no idioma inglês. Quando voltei na casa da minha mãe, fui dar comida para o cachorro chamado Willy, da raça rottweiller, e ele me estranhou. Deu uma mordida. Não para machucar. Apenas porque não tinha me reconhecido. Mas por se tratar de um rottweiller o trauma foi grande. Acho que isto foi o que me mobilizou, e veio o poema”.


A inteligência poética é enfatizada na troca das preposições.
“O poema é justamente esta ambiguidade. Eu não digo ‘cuidado com o cão’. Digo: ‘cuidado ao cão’. Tem uma carga simbólica aí. Cuidar bem do cachorro que toma conta da casa, mas também cuidar do cão que a gente tem dentro. Não é anular o bicho que todos temos dentro de nós. É saber lidar com ele. Se anulamos o bicho, também matamos uma parte da gente.”
Filmagens no Teatro Clariô, Taboão da Serra
Pego o livro de onde foi extraída a poesia para a Oficina de Cinema. Já na capa, o estranhamento. É uma foto que o próprio Eduardo Sterzi fez. Mostra o fragmento de algo medonho. Dentes quebrados e maxilar num esgar de fúria. Um buraco (abismo) onde deveria haver olho.
Neste livro não há lugar para certos tipos de ilusões. São poemas com a rudeza do que nos rodeia nos dias de hoje. Se há riscos imensos nas ruas, a casa também não nos põe menos inseguros. O inimigo pode estar entre as pedras do seu próprio lar.
Filmagem em ruas de Taboão da Serra

O livro foi produzido com a bolsa de criação literária ganha por Sterzi no Programa Petrobras Cultural 2006/2007.

Filho de ex-delegado de polícia que migrou para a advocacia depois de aposentar-se, e de uma professora que deixou a profissão para cuidar dos filhos, Eduardo Sterzi nasceu em Porto Alegre (RS) em 7 de junho de 1973 no bairro Petrópolis, bairro onde também morou o escritor Érico Veríssimo.
Entrou para a faculdade de jornalismo aos 17 anos de idade.
É autor de Prosa (poesia, 2001), Por que ler Dante (ensaio, 2008), A prova dos nove (ensaio, 2008) e Aleijão (poesia, 2009), além de ter organizado o livro Do céu do futuro: cinco ensaios sobre Augusto de Campos (2006). Também escreveu a peça teatral Cavalo Sopa Martelo, em 2011.
“Estou escrevendo agora um livro chamado Fim das Obras. Ainda não tenho editora para este livro que deve sair no ano que vem ou em 2016", informa o autor.
Eduardo Sterzi mora em São Paulo desde o ano 2001.
E já que estamos falando de cinema, que subam os créditos:
O poeta Sterzi e Manoel Ribeiro (da Poiesis) com parte da equipe da Oficina de Cinema em Taboão da Serra. Foto: David da Silva
Alunos do curso de produção e filmagem: Maira Galvão, Jackelyne Meira Ferreira, Ronaldo Antonio Jr, Carlão Ilustrador, Michele Rodrigues, Adriano Costa, Bruno Vieira, Ricardo Freitas Harry, Beatriz Barbosa e Lívia Andrade.

Atores convidados: Clayton Novais, Zulhie Vieira, Valter Costa, Vinicius Santos, Aparecido Silva Junior, José Walter Costa, Joelma Sales, João Oliva, Angela Maria, Fernanda Cândido Garcia, Washington Gabriel, Felipe Pereira Santos, Arthur Braga, Lu Rodarte, Adelmo Rosa Fernandes, Zé D’Lucena, alunos do curso de teatro pela prefeitura do Taboão da Serra e alunos da Escola Estadual Domingos Mignoni.

Ficha Técnica
O Cão Que Morde Dentro – curta-metragem baseado em poema de Eduardo Sterzi
Projeto Cine(Poe)mas – Curador: Roberto Zular
Coordenador em Taboão da Serra: José Maria de Lucena
Direção: Maira Galvão, Jackelyne Meira Ferreira e Ronaldo Antonio Jr. (assistente)
Produção Executiva: Michele Rodrigues
Produção: Maira Galvão, Jack Meira Ferreira, Bruno Vieira, Ronaldo Antonio Jr. e Dani Smith
Direção de Fotografia: Dani Smith
Assistentes de Fotografia: Maira Galvão e Jackelyne Meira Ferreira
Still: Carlão Ilustrador
Áudio: Homero B.S. Filho
Assistentes de Áudio: Jackelyne Meira Ferreira e Ronaldo Antonio Jr.
Trilha sonora: Maira Galvão, Jackelyne Meira Ferreira e Adriano Costa; orientador: Thiago Cury
Preparadoras de elenco: Maira Galvão e Dani Smith
Maquiagem: Jackelyne Meira Ferreira
Figurino: Jackelyne Meira Ferreira e Maira Galvão
Edição: Pedro Carvalho, Maira Galvão, Ronaldo Antonio Jr, Carlão Ilustrador, Adriano Costa, Livia Andrade e Ricardo Freitas Harry

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Taboão da Serra ainda exporta ladrões de Rolex - IV

Antes que você diga que estou louco repetindo manchete velha (em fevereiro passado fiz outra matéria com este mesmo título), prest’enção no detalhe da chamada. Esta aqui é a Parte Quatro de um longo acompanhamento que faço desde o ano 2007 sobre ladrões de Taboão da Serra especialistas em roubar relógios importados.
Quadrilha de Taboão da Serra estava "fazendo a festa"
em Belo Horizonte (MG). Foto: Divulgação
Foram presos horas atrás, na tarde desta segunda-feira, 15 de dezembro, três bandidos moradores de Taboão da Serra roubando na capital de Minas Gerais.
A quadrilha agia no setor centro-sul de Belo Horizonte. A especialidade do bando são relógios da marca Rolex. Um dos assaltantes apontou o revólver para subtrair o relógio de um motorista parado no cruzamento das avenidas Barão Homem de Melo com Raja Gabaglia. O criminoso fugiu em alta velocidade. Mas a vítima percebeu que o motoqueiro-ladrão estava sendo escoltado por um veículo Santa Fé, e conseguiu anotar a placa. A Rotam (Rondas Táticas Metropolitanas) esquadrinharam a região, e encontraram o carro do bando com dois ocupantes no bairro Estoril. O ladrão motorista estava com o relógio roubado no braço.
No hotel onde o grupo estava hospedado foram encontrados sete relógios Rolex, além de um revólver e dinheiro.
Segundo o tenente PM Josemir Rocha de Andrade, “a estratégia dos bandidos era sempre a mesma. Os indivíduos que estão no carro ficam dando voltas pelos bairros até identificar os motoristas ou passageiros com os relógios. Depois, acionam o motociclista que está próximo e este realiza o roubo. O relógio é repassado depois do trajeto para o chefe da corja que está no veículo”.
A identidade dos presos não foi divulgada para não atrapalhar as investigações. A polícia agora quer localizar e prender quem comprava os Rolex roubados pela quadrilha taboanense.

Ladrão tipo exportação
A matéria a que me referi na primeira linha desta postagem, foi publicada aqui no começo do ano. No dia 26 de fevereiro último um homem foi preso em Sorocaba (SP), a 95 quilômetros da capital. Seu nome também foi mantido em sigilo. Sim, ele também é morador de Taboão da Serra. E sim, também é graduado no roubo de Rolex.
Sempre trepado em sua moto o ladrão agia preferencialmente nas imediações de centros de compras. Ele confessou ter efetuado sete assaltos a motoristas que portavam os relógios importados.
O sujeito com identidade preservada informou aos policiais que um Rolex custa em torno de R$ 30 mil a R$ 40 mil; ele os vende ao receptador por R$ 6 mil cada um.
Caprichoso, o ladrão taboanense montou sua base (residência) no Alto da Boa Vista, bairro nobre, onde fica inclusive a prefeitura de Sorocaba. No esconderijo dele foram recuperados cinco relógios Rolex, revólver e alta soma em dinheiro.
Modesto, o meliante admitiu que recebeu um bom treinamento para reconhecer de longe relógios Rolex.
Outro ladrão residente em Taboão da Serra também se deu mal na capital mineira no final do ano passado. Amanhã, 16 de dezembro, vai fazer exatamente um ano que a PM de Belo Horizonte prendeu o baiano Manuel Raimundo de Abreu Costa, 37 anos. Igualmente perito na arte de roubar Rolex, Manuel, no entanto, cometeu um grande vacilo.
Ele saía todo dia para assaltar dirigindo um carro importado da marca Volkswagen Tinguan, avaliado em R$ 100 mil. A polícia não teve trabalho nenhum para chegar até Manuel. O carrão importado dele aparecia em todos os vídeos nos locais dos assaltos. Todas as investidas eram escoltadas por comparsas em motocicletas.
No hotel onde a quadrilha se amoitava foram encontrados vários documentos de carros e motos. A defesa do preso alega que ele atua no ramo de compra e venda de veículos importados.

Falei pra você que desde 2007 Taboão da Serra é conhecida como “a capital brasileira do Rolex”.
Em 3 de novembro de 2007 foram presos em Curitiba (PR) Alex Rodrigues Osmundo, vulgo Lecão, de 27 anos, e Altair Rogério Ribeiro, 35 anos. A casa deles caiu quando roubaram relógios das marcas Rolex e Cartier de um médico e uma advogada na capital paranaense. Os dois informaram ser moradores de Taboão da Serra.
Naquele mesmo ano de 2007 o caso com maior repercussão foi a “Operação Hora Certa”, montada pela Delegacia Seccional de Taboão da Serra – relembre aqui

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Desenhista de Taboão da Serra lança HQ em Sampa, sábado

Bruno Hamzagic com o prêmio máximo do Salão
de Humor de Piracicaba em 2012. Foto: Divulgação
Que o desenhista Bruno e eu nos conhecemos desde 1998, já contei aqui. Mas hoje ficou reafirmada a certeza que o grande caricaturista Bruno Hamzagic guarda com certa ternura aquele velho tempo. Quando ele recebeu a primeira grana de sua vida com o trabalho de artista. E ficou na minha frente com cara de bobo, segurando o cheque. E rindo. Pois antes de fazer as ilustrações para o jornal que eu editava na época, o Bruno tentou ganhar uns trocados pintando faixas. Até daria certo, não fosse um pequeno entrave. Detalhista e caprichoso ao extremo, ele demorou três dias para entregar a faixa que em geral é pintada em uma ou duas horas. O negócio era mesmo se debruçar na prancheta e botar no papel seu talento caudaloso.
Amanhã, sábado 13 de dezembro, Bruno Hamzagic põe no mercado uma nova faceta de sua capacidade criadora. O primeiro volume das tirinhas Goiabada e Queijo Branco virá ao mundo na Feira de Quadrinhos Independentes, na zona norte de São Paulo (detalhes abaixo).
O casal-personagem
do livro de tirinhas
Quando dei a notícia do lançamento de seu livro no meu perfil do Facebook, Bruno retribuiu com uma generosidade que me faz compartir com os frequentadores desse blog-boteco:
“David! Suas palavras sempre me deixam sem palavras! Fiquei parado emocionado e lembrando daquele tempo! Saudades! Tudo o que acabo te escrevendo se torna pequeno frente ao que sinto. Realmente aquele primeiro salário parecia surreal, mas estava alí acontecendo e sempre fico renovando as memórias daquela época que só depois de viver nos damos conta de quão legal era!”

O início da carreira de desenhista de Bruno Hamzagic correu perigos de desvio da rota.
Apaixonado por trompete, chegou a integrar a banda sinfônica do maestro Edison Ferreira, criador da Associação Músicos do Futuro.
Para se sustentar, submeteu-se a serviço burocrático no INSS, e depois passou tempos fazendo cópias de mapas na Prefeitura de Taboão da Serra. O jornalzinho formato tablóide da associação dos funcionários municipais taboanenses, lhe deu asas. Primeiro colocado no Mapa Cultural Paulista deu o impulso que o levaria ao lugar de grande vencedor do cobiçado Salão Internacional de Humor de Piracicaba em 2012.
José Saramago, por Bruno Hamzagic
Hoje Hamzagic é um nome aplaudido nas artes gráficas do mundo todo.
Suas caricaturas campeãs remetem à técnica de desconstrução de figuras humanas celebrizada por Picasso. E mergulham os olhos do público no ambiente surreal consagrado por Salvador Dali.
Por isto pego de um artista espanhol um dos elogios mais entusiasmados sobre o taboanense ilustre: “O grande Bruno Hamzagic é um caricaturista genial, que ultrapassa os limites da caricatura convencional, levando-nos a extremos surrealistas. Tem uma qualidade excelente nas quais suas imagens não apenas impactam, mas também assombram e deleitam, mesmo pessoas sem grande conhecimento de artes plásticas. Revolucionário e maravilhoso em sua execução tanto técnica como na grande perspicácia e ideia do conceito em si”, escreve o desenhista Goyo Velas, de Santa Cruz do Tenerife, nas Ilhas Canárias, Espanha.
Bruno mistura técnicas de duas e três dimensões (2D e 3D). Esmiúça cada um dos traços dos personagens. Funde detalhes humanos com objetos. Está consolidado como artista de expressividade inconfundível.

Sobre as tirinhas que o artista trará à luz neste sábado, passo a palavra ao próprio autor: “Goiabada e Queijo Branco é uma tira permeada com humor leve, satirizando democraticamente o dia-a-dia de um casal jovem no mundo contemporâneo. Dois “trintões”, estão casados há mais de cinco anos e ambos, na medida do possível, possuem estabilidade profissional e financeira. Em cada sequência são abordados pormenores de situações da rotina matrimonial e individual, sendo desde o fato de desligar o despertador de manhã, achar um caminho no GPS, resolver um problema com a operadora de televisão por assinatura, até o simples fato de conseguir usar o banheiro. Longe de serem “Romeu & Julieta”, afinal nenhum dos dois é maníaco suicida. Sempre acabam no caminho do escárnio mais do que do romance, num amor bem humorado”, explica Bruno Hamzagic.
O artista revela que a publicação dessas tirinhas é algo que alucina sua vida “desde 2008, quando ainda eram rabiscos despretensiosos”.

Nascido de uma holandesa e com sobrenome iuguslavo, Bruno pode ser descrito com uma só palavra: gargalhada. Rí de tudo, e de toda e qualquer coisa ou pessoa. As gargalhadas do Bruno ficam gravadas definitivamente nos salões da memória de quem tenha a bênção de cruzar o seu caminho.

As tirinhas Goiabada e Queijo Branco já têm seu site oficial e também  

Serviço
Sessões de autógrafos do livro Goiabada e Queijo Branco, de Bruno Hamzagic
Feira de Quadrinhos independentes, pequenas editoras, publicações alternativas e Lançamentos
Sábado e Domingo, 13 e 14 de dezembro, das 10h às 18h.
BIBLIOTECA DE SÃO PAULO/ BSP
Parque da Juventude
Av. Cruzeiro do Sul, 2.630, Santana, São Paulo/SP
(ao lado da Estação Carandiru do Metrô)
Tel.: 11 2089 0800

domingo, 30 de novembro de 2014

Grafiteiro de Taboão da Serra participou do maior festival 3D nos EUA

Gláucio Santos nos Estados Unidos.
Foto: Bazou Garcia
Exatos dois anos atrás contei aqui no blog algumas peripécias do grafiteiro Gláucio Oliveira Santos. Ele começou nesta arte justamente num concurso de graffiti que criei em Taboão da Serra no ano 2000. Pois Gláucio continua “aprontando” das suas.
Neste mês de novembro o grafiteiro taboanense foi aos Estados Unidos participar do Sarasota Chalk Festival, realizado na cidade de Venice, no estado norte-americano da Flórida. O evento reuniu mais de 50 artistas de 15 países. Trata-se de desenhos tridimensionais em tamanhos gigantescos pintados diretamente no asfalto do estacionamento do aeroporto municipal e do Centro Cultural de Venice.  A proeza artística entrou para o livro de recordes Guinnes World.
“Fui eu quem introduziu a pintura anamórfica na arte de rua do Brasil”, garante Gláucio. Ele aprendeu esta técnica com Julian Beever, quando o artista inglês esteve em Curitiba (PR) em 2008. A pintura anamórfica cria uma ilusão de ótica em três dimensões (3D) quando a imagem é vista a partir de determinado ângulo.
Morador "entra" na pintura de Gláucio. Foto: Thiago Neme
Outro pioneirismo de Gláucio Santos foi pintar a primeira praça em 3D do Brasil. Antecipando-se ao clima da Copa do Mundo 2014, em maio deste ano Gláucio decorou a Praça Célio Malta, Jd Clementino, Taboão da Serra, com temas esportivos. A praça fica na Rua Tsuruki Tsuno, travessa da Estrada Kizaemon Takeuti, na altura da Escola Estadual Laurita Ortega Mari, atrás da qual está localizada a pintura interativa. As pessoas podem “entrar” no desenho e tirar fotos que dão a impressão nítida de estarem de fato batendo uma bola com o craque Garrincha.
Acima e abaixo, etapas do trabalho no festival dos EUA,
até a pintura poder receber visitantes. Fotos: Divulgação
O plano de Gláucio Santos é transformar a imagem dos moradores do Jd Clementino em obra de arte.
“Por enquanto só tem gente famosa no desenho. A ideia é retratar a comunidade na parede. É trazer a comunidade para dentro do cenário. Fazer com que eles sejam representados. Porque eles, os moradores, são famosos também”, afirma o grafiteiro.
Nascido no bairro paulistano do Jabaquara, Gláucio Santos criou-se em Taboão da Serra desde um ano de idade. 
Em 6 de janeiro completou 43 anos. Antes de ser grafiteiro dedicava-se à Educação Física e ao fisioculturismo, ganhando a vida como personal trainer
O bom condicionamento físico ajuda no seu ofício de artista, pois há trabalhos que cobram esforço quando pintados por vários dias agachado, ou escalando grandes alturas, conforme o serviço exija.

A pintura em 3D na art paviment (pintura sobre o leito das ruas) foi inventada em 1984 pelo norte-americano Kurt Wenner.
O festival  Art Paviment 3D de Venice foi criado em 2010.
Foi a primeira vez que Gláucio participou desta grande festa mundial. “Concluímos tudo em seis dias, eu e o Fabio Gonçalves. Agradecimento especial ao Senhor Bom Deus, e a todas as pessoas que nos ajudaram para que isto acontecesse. Queremos voltar ao festival em 2015”, conta o artista.

Recentemente Gláucio Santos foi convidado a ser colunista da revista de arte Bora Pintar.
Assista o vídeo onde o grafiteiro Fábio registra a emoção de ver o trabalho da parceria tendo reconhecimento internacional aqui

Leia mais sobre Gláucio Santos aqui aqui

Atriz Natasha Marques reinicia atividade de maquiadora

"Todos os dias procuro me mexer", diz
Natasha. Foto: Facebook - 30.nov.2014
Este sábado, dia 29 de novembro, começou com temperatura amena e céu nublado.
Mas no círculo de amizades de Natasha Marques, os corações estavam ensolarados.
A atriz, que se recupera de um acidente, publicou em sua página no Facebook às 6h32 da manhã de ontem:
“Desde o dia 7 de abril até o dia de ontem eu não sabia o que era sustentar o peso do meu próprio corpo.
Ficar de pé sozinha...  Já é uma grande vitória pra mim.
Deus nunca falha. Deus está dentro do meu ser, mais vivo do que nunca, e meu sobrenome é força de vontade.
Devagar eu chego lá, sem medo!”

A artista atravessa a fase de cicatrização dos procedimentos cirúrgicos pelos quais tem passado nos últimos sete meses. Sua próxima operação plástica deverá ocorrer em cerca de quatro meses.
“Estou fazendo muita fisioterapia sozinha, com muita força de vontade. Todos os dias procuro me mexer”, conta Natasha.

Natasha se maquiando para encenar a Paixão de Cristo/2013
Afastada dos palcos, a atriz de 21 anos de idade que iniciou carreira aos nove, se concentra atualmente na sua segunda maior aptidão – a maquiagem. “Eu entrei no mundo da maquiagem um pouco depois de entrar no mundo do teatro. Eu tinha mania de comer os batons da minha mãe. Quando fiquei adolescente comecei a maquiar as amigas. Então fui à busca do que despertou uma paixão em mim. Me tornei maquiadora profissional”, relata Natasha, ressaltando que seus mestres nesta arte foram Gil Oliveira, Ivon Mendes e Daniel de Paula.
A atriz tem especializações em três diferentes áreas da maquiagem. E quer estudar novos aperfeiçoamentos. " O segredo é nunca achar que você sabe tudo. E sim buscar novos caminhos e formas. Se atualizando e melhorando sempre. É por aí que eu vou".
A novidade é que agora Natasha se dedica a dar aulas de maquiagem.
Maquiagem de Natasha Marques - Divulgação
“Ensinar é algo novo para mim. Mas maquiar é algo que fui desenvolvendo sempre. Procuro me arriscar e espero ajudar de verdade as meninas que estão estudando maquiagem comigo. Para que elas se sintam mais elegantes, bonitas, glamourosas e confiantes”, diz a nova mestra do make-up.
Os cursos podem ser online ou presenciais. “A pessoa pode vir na minha casa uma vez por semana e fazer aula de quantas horas for necessário”, explica Natasha.
Todos os cursos são contemplados com certificados de conclusão. 
No curso online há um sorteio semanal para a melhor maquiagem. “Sempre sorteio bons produtos pras minhas alunas. Afinal é uma forma de incentivá-las a praticar, já que é online e não estou vendo”, diz.
Tanto no presencial quanto no curso online há uma apostila criada pela própria professora. “Coloquei na apostila assuntos que julgo serem essenciais para um iniciante”, garante.
Antes de se acidentar, Natasha Marques, que é formada por escola autorizada em maquiagem, trabalhava diretamente com clientes, tanto pra teatro, books , desfiles de carnaval e moda, quanto para algo mais básico como casamentos e festas.

Com Caroline Rocino, funcionária do hospital onde se trata
Quando alguém se espanta pelo fato de ela ter sofrido acidente tão preocupante, e em poucos meses voltar à ativa, a garota é taxativa : “Se me perguntam: ‘Mas você não tá doente?’, respondo: Não estou doente. Estou em fase de recuperação de um acidente. Há dias em que estou com mais dor? Sim. Mas isso não impede que eu seja a mesma Natasha de antes. Aquela que corre atrás, faz de tudo, se vira, e gosta da correria. Sou uma pessoa agitada, e essas aulas de maquiagem são uma maneira de não ficar parada. Ocupar a mente. Está me fazendo bem. Então, o que eu posso fazer, eu tento fazer. Minha cabeça tá boa. Então, por que não trabalhá-la?”.

Enquanto manipula os apetrechos de pintura, Natasha vai maquinando novos planos. Quer compartilhar suas experiências após o acidente com um livro que talvez receba o título de Cronos e Narciso. E também pratica artesanato.
Como não gosta de televisão, se agarra ao notebook e às guloseimas. “Fico comendo”, diz divertida. “Fico na internet quase o dia todo, vendo somente coisas que me interessam”.
Se o baixo-astral tenta achar uma brecha em sua determinação, Natasha  tem a munição certa: “E tenho uma arma infalível. Meu sorriso não tem jeito. Ninguém derruba”.
Ator Max Neto maquiado por Natasha Marques. O impacto
da primeira grande maquiagem. Foto: Divulgação

A primeira grande experiência da moça na maquiagem artística foi na Encenação da Paixão de Cristo em 2013. [O espetáculo existe em Taboão da Serra há 58 anos]. “No ano passado maquiei o ator Max Neto, que interpretava um dos demônios que tentavam Jesus. Quando fiz a maquiagem do rosto deu uma vontade imensa de pintar o corpo. E comecei a pintar e quando vi, estava perfeito pra mim! Fiquei um tempão olhando pra ele assim...”, relembra.
A direção do espetáculo solicitou a Natasha Marques que o personagem tivesse uma maquiagem que lhe desse uma aparência de sem vida. “Eu como maquiadora obedeci a regra, porém coloquei meu toque ali. Pensei em tudo... na cena... nos movimentos dos bailarinos... nas cores que cabiam naqueles personagens. E quando vi o Max atuando, percebi que ele aparecia diante de Jesus de braços abertos... Como se o diabo já mostrasse pra Jesus como seria sua trajetória. Uma cena rica de significados. Então enlouqueci nas ideias. Enquanto eu maquiava ele, as ideias fluíram. Taquei sangue na minha mão e passei no peito dele.  Ficou uma imagem como se alguém tivesse passado a mão nele pedindo socorro. Utilizei material de maquiagem importado, da minha marca favorita, Catharine Hill, pela qual sou apaixonada. Eu fiz questão do material. O responsável pelos gastos da Encenação queria que eu comprasse qualquer coisa . Eu disse: ‘Não uso não uso porcaria’ (risos). Mas isso não quer dizer q eu só use marcas famosas. Que fique claro. Conheço produtos bons e baratos também. Mas para aquele espetáculo eu precisava de maquilagem com durabilidade...  Cores intensas! No dia da apresentação ele estava incrível. Com o corpo pintado e tudo. E nesse momento em que ele abria os braços dava pra ver as chagas que fiz em suas mãos. Fiquei demais!!!”, vibra com a lembrança.

Marqueteira que só ela, Natasha não deixa a entrevista acabar sem fazer – com todo direito – sua própria propaganda: “Coloca na reportagem o link da minha página pro pessoal curtir”.
Tá feito. Curtam aqui

As aulas online acontecem em grupo fechado no Facebook.
Fone para contato e inscrições: (11) 95827-7414
Leia o que já foi publicado sobre a atriz aqui

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Uma noite no topo do trompete

Na fileira à minha frente, na segunda poltrona da esquerda, o gigante Fernando Dissenha, trompete solo da OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo).
No palco, um dos maiores trompetistas da atualidade, o norte-americano Allen Vizzutti. Consagrado mundialmente, o artista já deu shows em mais de 60 países, e tocou em mais de 150 trilhas de filmes campeões de bilheteria como De Volta para o Futuro, Rocky II, Poltergeist II, Star Trek, etc.
A terceira noite da segunda edição do Jazz Trumpet Festival começou com uma bela homenagem a Dorival Auriani, o Buda, que no último dia 15 de janeiro completou 85 anos de idade. Comovido, o veterano trompetista que começou a tocar aos 7 anos, agradeceu em lágrimas a reverência.
“Logo que pensamos em criar esse festival em 2013, eu recorri ao maestro Edison Ferreira, coordenador musical da Faculdade Cantareira, e ele prontamente me atendeu”, conta Marcos Braga, um dos organizadores do evento. “Conheci o maestro Edison quando eu ainda era adolescente, e trabalhava como vendedor em uma loja de instrumentos onde ele era freguês. Durante um ano e meio freqüentei a Associação Músicos do Futuro, criada por ele em Taboão da Serra”, relembra Braga.
A Faculdade Cantareira, por intermédio de Edison Ferreira, cede suas instalações para os quatro dias e quatro noites de masterclasses e concertos com os maiores trompetistas do gênero popular no Brasil e no mundo. No Jazz Trumpet do ano passado o convidado de honra foi o japonês Eric Miyashiro. Nesta edição 2014 o festival deu um bom passo à frente com a conquista do patrocínio da Yamaha Musical.
As marcas Weril e Adams montaram showroom na duração do festival que se encerra na noite desta quinta-feira. Enquanto músicos se desmanchavam de prazer no test drive do trompete de última geração da Adams, o empresário Leonardo contava passagens deliciosas de suas viagens pela Europa, inclusive sobre o dia e lugar onde resolveu batizar sua empresa com o nome Philharmonie.
Antes de subirmos para o auditório, na cantina lotada da faculdade o diretor de marketing Roberto Pinto contou à reportagem que entre as 109 escolas superiores de música autorizadas no Brasil, a Cantareira está no ranking das melhores.

Feitiço de band leader
Assistir a uma apresentação de Allen Vizzutti encanta os ouvidos e fascina os olhos. Dentro de sua camisa amarela Vizzutti extrai do trompete um pouco mais do que o instrumento pode render. Se entrega a cada música com o empenho de um trabalhador braçal. Meneia o corpo, marca o compasso com as mãos quando está livre do bocal, e chega mesmo a dar um ou outro breve grito quando o saxofonista da Speakin’Jazz, que o acompanha, dá estocadas no ar com notas ácidas.
Desafia os colegas de palco para virem à frente do palco, chamando pra briga, num alegre desafio de improvisos. Ele próprio lança seu instrumento para o alto quando satisfeito com alguma peripécia sua, depois de ter feito os pistos de seu trompete vibrarem em escalas inimagináveis.
Se os ouvidos da platéia são totalmente requisitados pela técnica faiscante de Vizzutti, os olhares não têm outra alternativa a não ser ficarem grudados na figura fantástica do músico. Pura veneração.
Top de lista no seu ofício, Allan Vizzutti, no entanto, não se faz de bam-bam-bam com os colegas que o escoltam na eletrizante aventura até o cume do jazz. Comanda todo o espetáculo com a maciez de um gerador elétrico, bem lubrificado.
Dois pensamentos me tocam ao ouvir Vizzutti em Georgia on my mind. Nove entre 10 pessoas atribuem essa música a Ray Charles, quando na verdade Ray só a gravou em setembro de 1960, trinta anos depois de composta. De autoria de Hoagy Carmichael com letra de Stuart Gorrell, já foi feita com jeitão de obra eterna, pois na primeira estrofe refere-se a sí própria como "uma velha e doce canção". O outro pensamento que me acorre perante o tom melífluo que Allen imprime em seu trompete neste número é que, se todo o árabe tem obrigação de ir a Meca pelo menos uma vez na vida, cada cidadão ocidental deveria ter o direito de ir a New Orleans ao menos uma noite na vida para ouvir clássicos do jazz como este. 
Interessante notar que durante a execução de Night in Tunisia, de Dizzy Gillespie, a maestria de Allen Vizzutti se mostrou generosa com Marcos Braga, chamado a um duelo de trompetes. Num determinado momento, quando Braga se volta para trás, olhando alguém ou alguma coisa na orquestra, Vizzutti o puxa pelo ombro enquanto desfere acordes alucinantes. Faz Marcos Braga voltar-se para a frente, como quem diz: “Mantenha o foco, my friend”.
Bonito também foi saber que no seu masterclass pela manhã, Allen Vizzutti elencou as coisas que julga mais importante na carreira de um músico. No que pode ser chamado "Os 5 Mandamentos de Vizzutti", ser um bom músico é o menos importante. Em primeiro lugar, diz Allen, você deve cercar-se de bons amigos e ser bom com cada um deles. Caso contrário, por melhor que você seja com seu instrumento, ninguém vai te dar oportunidades para tocar.
Araken (Yamaha Musical), maestro Edison, Rafael Dias,
Allen Vizzutti, Leandro Lima, Eliezer e Roberto Sales
Fiel ao seu sangue latino, Vizzutti ainda divertiu os expectadores “contando um caso” através do tubo do trompete, com direito a ilustrar as frases meio faladas/tocadas com largos gestos de mão, bem à moda italiana.
No corredor de saída, trocando impressões com companheiros de trabalho, o trompetista Walmir Gil comenta: “Não sei do que é feita a boca do Allen Vizzutti, mas de carne não deve ser”, brinca.
O público ovacionou em pé a hipnótica apresentação de Allen Vizzutti. Devíamos ter aplaudido ajoelhados.

Louvável pela iniciativa de criar o primeiro evento do Brasil voltado para o trompete popular, a organização todavia cometeu, ao menos na noite de ontem que a reportagem acompanhou, um pecado capital. Não havia no fundo do palco as logomarcas do patrocinador e da instituição que está acolhendo o festival.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Com repertório eclético, Músicos do Futuro brilham no Recital 2014

Homenageado do ano foi o compositor Julio Cesar de Figueiredo    
Orquestra Experimental Músicos do Futuro. Regência: maestro Edison Ferreira.
Foto: David da Silva - 23.nov.2014
O recital de final de ano da Associação Músicos do Futuro ofereceu uma gama variada de estilos musicais para o público que lotou o teatro do Centro de Ensino Unificado (CEU) Campo Limpo no último domingo, 23 de novembro. A programação teve música erudita, trilhas sonoras de filmes, chorinho, baião, maracatu, baladas românticas, cantiga africana e até canções populares catalãs.
Foto: David da Silva
O ponto alto do evento foi a homenagem ao compositor e arranjador Julio Cesar de Figueiredo, nome de destaque no cenário da MPB e da música sinfônica brasileira.
Houve ainda uma emocionante reverência ao maestro Edison Ferreira, que fundou a Associação Músicos do Futuro há exatos 18 anos. A entidade começou em 1996 com apenas 5 alunos que aprendiam música no apertado vestiário de uma escola estadual no Parque Marabá, Taboão da Serra. Hoje a entidade tem 716 alunos, no convênio mantido com a Prefeitura de Taboão da Serra. Nestes 18 anos, mais de 4.600 crianças e jovens já passaram pela associação, com vários deles tendo atingido nível médio e avançado em formação musical. Os números são sonoros: 83 destes ex-alunos estão atualmente muito bem empregados em orquestras sinfônicas espalhadas pelo Brasil, em bandas sinfônicas e bandas de shows; 18 destes alunos se graduaram em música como bacharel; outros três ex-alunos cursam nível superior em música na Universidade de São Paulo e na Faculdade Cantareira, e há outros dois ex-alunos fazendo Mestrado em Música na USP e na Universidade Federal da Paraíba.
Foto: David da Silva
Foto: David da Silva
O homenageado Julio Cesar de Figueiredo (foto à esquerda) é um gigante no seu ofício. É o principal arranjador musical da Banda Sinfônica Jovem do Estado de São Paulo. Começou a estudar violino com apenas sete anos de idade; aos nove anos passou a estudar contrabaixo acústico. Em 1966 iniciou no piano. Estudou composição e regência com o legendário Camargo Guarnieri.
No campo da Música Popular Brasileira, Julio Cesar de Figueiredo tem seu nome ligado a grandes astros como Dick Farney, Alaíde Costa, Nana Caymmi, Beth Carvalho, Nara Leão e muitos outros. Além de compositor, arranjador e produtor de discos, também compôs trilhas sonoras para comerciais de rádio e televisão.
É mestre em várias áreas musicais na Faculdade Cantareira, na Escola de Música do Estado de São Paulo, e na Universidade Livre de Música Tom Jobim.

“Essa é a quinta edição do nosso Recital de Final de Ano em que são homenageados grandes nomes da música. Já foram enaltecidos o dr. Paulo Meinberg (fundador da Faculdade Cantareira), o compositor Antonio Ribeiro, o maestro-arranjador-compositor Edmundo Villani-Côrtes, e a violinista Elisa Fukuda”, relaciona o maestro Edison Ferreira, ele próprio muito comovido, levado às lágrimas pela louvação que a associação lhe pregou de surpresa.
Maestro Edison Ferreira e Julio Figueiredo
Foto: David da Silva - 23.nov.2014
A respeito do trabalho do maestro Edison Ferreira na educação musical mesclado com o resgate social das potencialidades da juventude, Julio Cesar Figueiredo disse:
“Mais ou menos oito anos atrás, conheci o maestro Edison Ferreira. Desde então venho acompanhando o trabalho dele na Associação Músicos do Futuro. A luta dele é uma luta solitária. Porque na verdade, me parece que quando você quer fazer trapaças, sempre encontra pessoas que te acompanham. Agora se você quer ajudar, parece que ninguém te apóia. Então ele tem que lutar, lutar, lutar, para manter uma associação. Ao contrário do que acontece neste país. Ou seja. As pessoas fazem as coisas em benefício próprio. E veja: ele corre pra cá, corre pra lá, faz de tudo – como se diz na linguagem popular: faz das tripas coração – para poder fazer um bem para a comunidade. Especialmente àquelas pessoas mais carentes. Isto, no que nós estamos vivendo hoje, que a gente tanto ouve no noticiário, isto é um oásis. Porque a gente só vê acontecer o contrário. É isto que eu tenho a falar desse sujeito que é um grande cara.  Eu apoio a Associação Músicos do Futuro porque nós precisamos até de muito mais associações como esta, pra gente começar a mudar o nosso país”.
Alunos, familiares e funcionários homenageiam maestro Edison. Foto: David da Silva
Recentemente a Associação Músicos do Futuro recebeu o apoio do compositor popular Leandro Lehart.
A campanha Eu Apoio visa num futuro próximo conquistar uma sede própria para a Associação.
Músicos do Futuro dirigidos pelo maestro Edison irão tocar no próximo dia 2 de dezembro na inauguração do prédio próprio da Câmara Municipal de Taboão da Serra. No dia 7 de dezembro haverá um recital especial com almoço na sede da entidade (veja o anúncio no topo desta página). Ainda em dezembro a Associação Músicos do Futuro estará presente com seu coral e quarteto de cordas no Natal Iluminado, na Praça Nicola Vivilechio.

A programação completa do que foi executado no Recital 2014 dos Músicos do Futuro está aqui













Orquestra Experimental Músicos do Futuro. Regência: maestro Edison Ferreira. trompetes: Rafael Dias, Leandro Lima, Miquéias Leme, Amanda Santos Costa.  flautas: Marcelle Ferreira, Gabrielli Coelho,Arthur Guilherme. violinos: Hágatha Mayumi Kanzawa, Douglas Araujo,Thaina Pinto Rios, Lucas Silva Dantas, Vitória dos santos Marques, Bianca Abigail , Martha Chawana, Nathalia Nacamura, Elisa Gomes, Jhonatas Henrique Amaro, Felipe Carlos de Oliveira. oboé: Erick Felix. clarinetes: Debora Cabral, Renan Vitor. trompas:  Camile Vitoria, Caroline Francisco. tuba:  José Renato. percussão: Juliana Brizzi, Vinicius Pazzini ,Edvan Rodrigues ,Sidney Júlio. violas sinfônicas: Murilo Frias,Gabriel de Mello, Mauro Koite, Allan Henrique Sanches, Matteus Farias. violoncelos: Cassiano Sampaio, Nathalia Bueno, Ester Cabral. contrabaixo: Jorginho Silva

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Moradora de Taboão da Serra é top model na Europa e EUA

Daniela começou a desfilar com 18 anos. Foto: Instagram
Para quem fazia troco no caixa de uma farmácia três anos atrás, a modelo taboanense Daniela Braga deu passos bem largos. E a passada foi longa não apenas pelos seus 1,81m de altura. “Prefiro acreditar que eu estava com as medidas certas, na agência certa, na hora e local certos”, diz. 
No próximo dia 2 de dezembro Daniela vai estrear em Londres, no desfile anual da Victoria’s Secret, onde cintilam as tops mais desejadas do planeta.
Os pais de Daniela são de Minas Gerais, e viveram lá por muitos anos antes de virem morar em Taboão da Serra. O carinho da top model pela cidade é uma constante em todas as suas entrevistas. Primeira vez que a vi numa matéria da TV Band, ela logo frisou de onde vinha e a que veio: “Eu sou paulista mesmo, daqui de Taboão da Serra. Vocês conhecem?”. Foi esta a pergunta que me tirou do cochilo numa dessas altas madrugadas insones da vida. A moça disse que vive hoje em Nova York – e diz Yorrrrke num “érre” bem retorcido, à moda do sotaque herdado dos pais mineiros.

Conexão Taboão / Estados Unidos
Sempre que está de folga entre um desfile e outro, Daniela Braga faz questão de visitar os pais em Taboão da Serra, e reencontrar colegas do antigo emprego na farmácia.
A moça chamava a atenção no caixa da farmácia.
Foto: Divulgação
Por razão de tranqüilidade aos pais da garota, não vou revelar o bairro onde vivem. Mas o sucesso meteórico no mundo fashion não apagou a modelo do coração da sua gente. “Olha a Dani...”, disse uma amiga de infância da artista quando lhe mostrei a foto da ex-vizinha famosa.
No caixa da farmácia era impossível Daniela não ser notada. Seus mais de 1,80m de altura somados aos 62cm de cintura e 86cm de quadril, provavam matematicamente que aquela lindeza não nasceu para ganhar salário mínimo. Junto com as moedas dos trocos, choviam cartões de agências sobre a moça. O assédio surtiu efeito quando Daniela cruzava a fronteira prazerosa dos 18 anos. “Estava fazendo faculdade de Recursos Humanos, mas resolvi ligar para uma daquelas agências”, conta.
Seis meses depois já estava morando nos Estados Unidos. Hoje tem por trás de seus passos marcas famosas como Givenchy, Dior e Balmain. Mas como boa filha de mineiros, a estrela tem os pés no chão: “Nunca se sabe o que vai acontecer na vida de uma modelo. Tenho só 22 anos, e uma carreira inteira pela frente. Mas, se um dia tiver que voltar, eu volto a fazer meu curso de RH”.
Daniela estreia dia 2 de dezembro em Londres.
Foto: Felipe Abe
Quando não está na passarela, ou nas salas de espera de aeroportos, ou em quartos de hotéis, Daniela Braga se larga a dançar. “Parece engraçado, mas curto música sertaneja e hip hop. Parece não ter nada a ver uma com outra, mas é assim que gosto. Misturado”.

Quando não está balançando diante das caixas de som, ou lendo romances de Sidney Sheldon, a moça gosta de levar sustinhos. “Gosto muito de filmes de terror. Sou muito medrosa, mas adoro filmes de terror”.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Na Lapa, entre cordas e livros

Quatro décadas atrás, biblioteca da Lapa tinha público maior que o atual.
Sistema Municipal de Bibliotecas busca atrair novos frequentadores

Hoje a discoteca municipal funciona
no Centro Cultural São Paulo, no
bairro Vergeiro
Fui lá. Na Lapa. Ontem. Fui porque Henriqueta me disse que queria ver a música escalar as paredes da biblioteca que ela dirige. Fui também porque a Lapa é a Lapa, e pronto. É o bairro seminal na literatura do meu idolatrado escritor e jornalista João Antônio. Foi lá onde ele cursou o ensino médio, e onde ambientou a sua primeira mais famosa obra literária – o conto Malagueta, Perus e Bacanaço.
A Biblioteca Mário Schenberg, a quem o povo chama pelo topônimo Biblioteca da Lapa, dirigida pela Henriqueta Marques, teve papel fundamental na minha adolescência. Eu saia de Taboão da Serra, pegava dois ônibus até a Lapa, só para usufruir de um recurso cultural que apenas aquela biblioteca oferecia.
Na época nem era chamada Biblioteca Mário Schenberg. Tinha outro nome. E eu nem ia lá atrás de livros (isso eu fazia na biblioteca com nome de outro Mário, o Andrade). Ia mesmo era no sexto andar daquele prédio da Rua Catão, onde funcionava a Discoteca Municipal de São Paulo ocupando dois andares. Acoplado à discoteca havia o Arquivo da Palavra, com vozes de pessoas renomadas, e gravações das pronúncias regionais do Brasil inteiro. Uma delícia ouvir aquela variedade louca de sotaques. 
No andar de cima nunca fui, mas sei que lá moravam os livros da biblioteca de música. A mim bastavam as 10 cabines de som do sexto andar e seus milhares de discos.
Em 1982 a discoteca foi transferida para o Centro Cultural São Paulo, no bairro Vergueiro.
Por isso achei divertido quando, na madrugada anterior, Henriqueta me escreveu: “Vou colocar o quarteto de cordas para tocar bem no meio do saguão de entrada. Tô imaginando a música subindo pelo prédio e envolvendo os livros nas estantes!”. A música já subiu aquelas paredes décadas atrás. E morou por 12 anos (1970 a 1982) no alto do velho edifício que no dia 23 de dezembro fará 61 anos de construção.
Vez em sempre Henriqueta me fala que precisa achar a verdadeira vocação daquela biblioteca. “A frequencia de público é baixa. Quero ver isto aqui sempre cheio de gente”, suspira a bibliotecária. Um rápido giro pelo arquivo de jornais antigos me conta que em 1975 a discoteca pública paulistana atendeu 65.811 pessoas. Quase 66 mil pessoas só na discoteca. Cerca de 70 mil consulentes subindo ao sexto andar. Não inclusos os frequentadores da biblioteca tradicional no mesmo prédio.
É este povaréu que Henriqueta quer de volta à sua biblioteca.
Quarteto de cordas Mivos Quartet, dos EUA, na biblioteca da Lapa.
Foto: David da Silva - 05.nov.2014

Ousados e ferozes
Quem foi à Biblioteca Mário Schenberg no início da tarde desta quarta-feira, 5 de novembro, pensando somente em relaxar ao som de violinos calmos, se surpreendeu. O Mivos Quartet, dos Estados Unidos, mescla atrevimento e uma certa fúria no jeito de tocar. É dos mais requisitados na atualidade em todo o mundo. Só de setembro para cá o quarteto de cordas tocou na Itália, Suíça, Alemanha, além dos constantes concertos que faz por toda a América do Norte. A biblioteca da Lapa ofereceu o espetáculo de graça.
Anteontem o grupo tocou na Biblioteca Monteiro Lobato, no centro de Sampa. Amanhã toca na Bahia.
Mariel Roberts (cello) e Olivia de Prato (violino)
Foto: David da Silva - 05.nov.2014
Mivos Quartet se dedica à música clássica moderna. Abriu a apresentação com String Quartet nº 3, de Philip Glass. Antes de cada execução, o músico Victor Lowrie (viola) faz uma breve explanação sobre o que vai ser tocado. Na segunda música, nosso orgulho de ser brasileiro. A composição Corde Vocale é de Felipe Lara, 35 anos, nascido em Sorocaba (SP). Foi para os Estados Unidos em 1999 ao ganhar bolsa de estudos no Berklee College of Music, em Boston. Felipe Lara começou como guitarrista de rock; depois evoluiu para o jazz e a MPB. Hoje se dedica à música clássica de vanguarda. Corde Vocale é o seu primeiro quarteto de cordas, feito em 2005.
Na terceira música, Victor Lowrie explica que Johann Sebastian Bach morreu justamente quando estava compondo os Contrapunctus – o Mivos Quartet executou o de número 9.
A última obra do concerto, de autoria de Taylor Brook, é inspirada em um conto do argentino Jorge Luis Borges. Com o mesmo título da obra referenciada, El Jardin de los Senderos que se Bifurcan (O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam) mostra em seu primeiro movimento a viola fazendo um chamamento, enquanto os outros três instrumentos respondem.
A musicista Olivia de Prato é uma atração dentro da atração. Nos prende a atenção seu modo vigoroso, extravagante e convincente de se agadanhar ao violino. É uma violinista encantadora. Ela nasceu na Áustria, cresceu na Itália, e mora nos Estados Unidos desde 2001.
A violoncelista Mariel Roberts é surpreendente por ser nova na idade, mas com muita maturidade na interpretação extremamente sensível.
O quarteto se completa com o brilhante violino de Joshua Modney.

Enquanto o Mivos Quartet tocava a obra de Taylor Brook, lembrei de uma tirada magnífica do Jorge Luis Borges. Perguntado sobre como achava que seria o Paraíso, respondeu: “Penso que o Paraíso deva ser uma espécie de biblioteca”.

É nesta concepção paradisíaca que a diretora-bibliotecária investe: “Estou ousada, né? Quero saraus de poesia de madrugada nessa biblioteca. E músicas também”.
Joshua Modney (violino) e Victor Lowrie (viola). Foto: David da Silva - 05.nov.2014
Foto: David da Silva - 05.nov.2014
Foto: David da Silva - 05.nov.2014
Foto: David da Silva - 05.nov.2014
Foto: David da Silva - 05.nov.2014