quinta-feira, 21 de agosto de 2014

“Dona Iolanda era meu Papai Noel”, lembra antigo morador

Calor humano da fundadora de condomínio ecológico se espraiava para além dos muros da comunidade que Iolanda Catani criou em Taboão da Serra há 50 anos.

Iolanda Catani - Acervo pessoal de Nilton Esteves
Foi meio por acaso que a família Dos Ramos chegou ao Condomínio Rural Jardim Iolanda, em Taboão da Serra, na década de 60. O conjunto habitacional ecológico completou meio século de existência ontem, 20 de agosto.
No ano de 1968, Frederico dos Ramos veio visitar seu amigo proprietário do Boteco do Zé Grande, na margem da Rodovia Régis Bittencourt, na época chamada BR-2, hoje BR-116. Frederico é natural da aldeia Vilarelho da Raia, norte de Portugal, quase fronteira com Espanha. Zé Grande também era da mesma região. José Maria de Melo, o Zé Grande, veio para o Brasil em 1958. Chegou a ter terras no local onde dona Iolanda Catani já idealizava seu conjunto habitacional mergulhado na Mata Atlântica que então cobria boa parte de Taboão da Serra.
Paisagem vista da casa de Carolina dos Ramos
Foto: Nilton Esteves
Ao vender seu lote onde seria o futuro Jardim Iolanda, Zé Grande investiu em um comércio e outros imóveis no outro lado da rodovia. Seu boteco – na verdade um armazém, do tipo a que hoje chamamos mercadinho, e os antigos, venda - tinha de tudo. Todo tipo de comidas e até ferramentas. Enquanto servia os fregueses, Zé Grande sugeriu a Frederico: “Por que é que não compras um terreno lá, ó pá? Aquilo vai ficar muito bonito”. Frederico foi olhar. Dona Iolanda deu-lhe um tipo de alto-lá. “Aqui ainda é propriedade particular. Futuramente será um condomínio”, disse ela. Enfeitiçado pela beleza do lugar, Frederico e seus dois irmãos compraram o lote 42. A princípio construíram uma casa só para finais de semana. Tempos depois a propriedade foi desmembrada. Frederico construiu uma mansão num outro lote do mesmo condomínio. Em 1989, já casado com Maria Carolina dos Ramos, mudou-se do bairro Sumarezinho, na Capital, e fez do Jd Iolanda residência fixa.
Carolina dos Ramos recebe a reportagem - Foto: N. Esteves
Carolina dos Ramos me recebe em sua casa no topo mais alto do condomínio, constantemente banhada de sol. Como toda boa casa portuguesa com certeza o lar é encimado por dois torreões. A moradia imensa está de portas escancaradas quando chego lá acompanhado pelo síndico Nilton Esteves. Pensei estarem abertas porque a dona já nos esperava. Mas não. “Nunca fecho as portas daqui, pois é totalmente seguro”, conta Carolina. O portão elétrico desistiu de funcionar por desuso. Assim como o alarme nem alerta mais nada por quedar-se esquecido.
Carol no seu ateliê de pintura - Foto: Nilton Esteves
Em incerta feita um casal visitante de alguém no condomínio adentrou a propriedade de Carolina. “Eu estava varrendo aqui a porta de casa, e perguntei o que eles queriam. Disseram que estavam apenas passeando e vieram conhecer a igreja”, sorri Carolina. A entrada da mansão tem um hall abobadado, decorado por arte sacra, entre elas uma Nossa Senhora da Conceição. Outro quadro, uma Madonna, é obra da própria Carolina.
Carolina é artista plástica. Sua técnica mais frequente é massa colorida de acrílico sobre tela. A pintura pula para fora da moldura. 
Obras de Carolina Ramos - Foto: Nilton Esteves
“Adotei esta técnica pois eu tinha uma amiga cega, a Luzia, a quem chamávamos Nenê. Ela se queixava de a sua cegueira impedi-la ver meus quadros. Daí passei a fazer esta pintura tátil, para Nenê sentir o quadro com as mãos”, diz a artista.

Sinal dos tempos
Até 1994 o Condomínio Iolanda vivia em clima de verdadeira comunidade rural incrustada no subúrbio da suburbana Taboão da Serra. Com o Plano Real [reforma econômica implantada pelo ex-presidente FHC] muitos proprietários desdobraram seus imóveis. Ficou caro manter as despesas sem os juros que auferiam na ciranda financeira. O número de casas saltou de 92 para 120 moradias.
Detalhe de pintura que pula da tela - Foto: Nilton Esteves
Os novos proprietários já não vinham com a filosofia de vida dos antigos habitantes da área, que prezavam acima de tudo a amizade e a harmonia entre vizinhos.
Carolina é uma das que estranharam os hábitos refratários dos novos moradores. “Aqui sempre vivemos em comunhão. E quem chegou depois não incorporava nossa concepção de morar”, conta. 
Quem conviveu com a afetividade da vizinhança original do Jd Iolanda, jamais esquece. “Tenho uma filha que mora na França, e ela veio de lá exclusivamente para casar-se aqui em casa, pois tem laços profundos com o que viveu aqui na infância e adolescência”, relata Carol (pelo apelido aqui usado você nota que já me sinto amigo antigo da moradora).
Com o passar dos tempos os novos vizinhos já mostram sinais de adequação ao espírito amistoso implantado por Iolanda Catani.
“Às vezes algumas pessoas estranham o meu jeito de tratar os outros. Alguns podem até pensar que estou precisando de tratamento por eu ser assim tão empolgada e expansiva”, brinca Carol. Aí é que se enganam. Eles (os arredios) é quem precisam tratamento. Carolina dos Ramos é psicanalista com consultório na Avenida Faria Lima, em Pinheiros.
José Melo - Foto: David da Silva
A concórdia entre os moradores do paraíso habitacional criado por Iolanda Catani não se fechava nos muros do empreendimento. 
Moradores do entorno do condomínio costumavam vez ou outra passear pela propriedade de natureza exuberante e até nadar na piscina da casa de dona Iolanda. “Todos os anos, até meus 14 anos de idade, dona Iolanda sempre mandava presentes de Natal para mim”, lembra José Antonio Coelho de Melo, 49 anos, nascido na localidade vizinha ao Jd Iolanda. Ele é filho do Zé Grande do início desta história.

Na próxima postagem, entrevista com o engenheiro agrônomo Cláudio Catani Beretta, filho de dona Iolanda.

Paciente se queixa de atendimento no Hospital São Paulo

Natasha Marques / Divulgação
A atriz Natasha Marques, 21 anos, internada desde o dia 6 de abril quando sofreu grave atropelamento na zona leste da cidade de São Paulo, foi transferida há três dias para o Hospital São Paulo, vinda do Hospital Vila Alpina onde recebeu os primeiros socorros e as cirurgias iniciais.
Acostumada com a equipe que a assistiu nos momentos mais críticos de sua recuperação no Hospital Vila Alpina (“médicos que estavam me tratando como se eu fosse um familiar deles, pessoas de empatia”, registra a paciente) Natasha divulgou às 2h35 da madrugada de hoje um desabafo-denúncia pelo Facebook.
Segundo a artista, a relação de remédios que vinha tomando no hospital anterior não está sendo seguida no Hospital São Paulo. “A enfermeira me disse que o médico [daqui] tem que autorizar. Mas eu já tenho prescrição [médica]. Uma lista enorme com antibióticos, antiinflamatórios e psicotrópicos autorizados”, escreve na sua página da rede social.
Por padecer de muita insônia, a paciente se queixa da falta de carta do médico local para autorizar psicotrópicos que a auxiliem a dormir. Ela informa só ter recebido amitriptilina.
O que mais inquieta Natasha Marques foi não ter tomado o anticoagulante. “Como estou de cama há muito tempo, meu sangue pode coagular por falta de circulação”, relata.
A paciente reclama que lhe teria sido servida uma dieta enteral (alimentação por sonda) vencida.
Coroando o quadro de tormentos da artista hospitalizada, há um quadro alérgico não diagnosticado. “Estou com uma alergia que ninguém sabe de nada. Meu rosto está cada vez mais inchado”.
O Hospital São Paulo já foi alvo de denúncia por parte da Rede Globo na edição do telejornal Bom Dia São Paulo do último dia 29 de janeiro – aqui
A respeito de sua recuperação no período em que esteve no Hospital Vila Alpina, leia o que a própria Natasha escreveu aqui
Sobre o acidente gravíssimo que a garota sofreu, leia aqui aqui

terça-feira, 19 de agosto de 2014

É de Taboão motorista que matou idoso na USP

Motorista tentou fugir após atropelar 5 pessoas,
matando uma delas. Foto: Marco Ambrósio / Estadão
O pedreiro Luis Antonio Conceição Machado, 43 anos, que matou atropelado um idoso e feriu outras quatro pessoas dentro do campus da USP na manhã de sábado, 16 de agosto, responderá processo por homicídio doloso (com intenção de matar). A decisão da Justiça foi divulgada no início da noite de ontem, 2ª-feira, dia 18.
O pedreiro, que reside na periferia de Taboão da Serra, dirigia seu Toyota Corolla às 9h da manhã nas vias internas da Universidade de São Paulo (USP) quando atropelou pedestres na via pública, subiu na calçada atingindo mais pessoas, e bateu em uma árvore. Ele tentou fugir do local, e ao dar ré no veículo atropelou outro transeunte. Frequentadores do campus impediram a fuga do condutor. Atingido pelo carro, o maratonista Álvaro Teno, 67 anos, não resistiu aos ferimentos e faleceu momentos depois do acidente.
O teste de bafômetro indicou que Luis Antonio estava com 0,54 decigramas de álcool, acima do limite permitido. Preso em flagrante pelo cabo Jefferson Dias, o motorista alegou que havia cochilado ao volante.
Inicialmente a Polícia Civil instruiu a ocorrência como homicídio culposo (sem intenção). A Promotoria pediu a reclassificação do crime, mas o juiz de plantão negou, estipulando uma fiança de R$ 55 mil para Luis Antonio não ser preso. A juíza Aparecida Angélica Correia decidiu em contrário, e o pedreiro segue preso no Cadeião de Pinheiros.

Em contato telefônico com a imprensa, a esposa do motorista, que se identificou apenas como Fátima, disse que o advogado a orientou a não declarar se Luis Antonio tem o hábito de dirigir sob efeito de álcool. Eles são casados há 20 anos, e têm dois filhos adolescentes. Segundo Fátima, seu marido “está passando por transtornos psicológicos no momento”. O automóvel Corolla de cor prata, ano de fabricação 2004, é financiado.

domingo, 17 de agosto de 2014

Condomínio ecológico faz 50 anos em Taboão da Serra

Dados históricos desta postagem gentilmente fornecidos por Nilton Esteves, síndico do Condomínio Rural Jardim Iolanda.
Condomínio é localizado no limite entre os municípios de Taboão da Serra e Embu das Artes.


Nunca perguntei ao administrador Nilton Esteves se ele gosta da música em que Jorge Benjor faz tributo subliminar ao Tim Maia. Mas toda vez que ouço a frase “Eu vou chamar o síndico!”, o nome de Nilton me assoma à memória. Ele é o mais determinado líder de conjunto habitacional de que se tem notícia na cidade de Taboão da Serra. Não é para menos. É guardião de um paraíso ecológico. O Condomínio Rural Jardim Iolanda é dos últimos remanescentes de Mata Atlântica da região sudoeste da Grande São Paulo. O empreendimento completará meio século de existência na próxima 4ª-feira, 20 de agosto.
No decorrer desta semana, o blog vai publicar depoimentos de pessoas que detêm laços de família ou antiga relação de vizinhança com a idealizadora deste que é pioneiro em condomínio horizontal mergulhado na mata nativa da região.
O núcleo de moradores foi criado pela cantora lírica Iolanda Catani, falecida há nove anos. A propriedade foi adquirida na década de 1950, quando apenas uma elite intelectualizada racionava em termos de preservação da natureza.
Iolanda e seu marido César Francisco Beretta costumavam cruzar Taboão da Serra rumo ao sítio Morro do Vento, em Embu. Ali o casal se desestressava da vida urbana praticando horticultura, viticultura, criação de porcos, aviário e gado leiteiro. Na época Embu e Taboão nem eram municípios. A visão de uma vasta área delicadamente emoldurada por um córrego no ainda distrito de Taboão da Serra atraiu a atenção de “dona Iolanda”, como é lembrada e venerada até hoje. A compra da propriedade de 477.965m² foi sacramentada em 12 de maio de 1954 no 3º Tabelião de São Paulo.  Dez anos depois, o imóvel foi transformado em Condomínio Rural. Hoje conta com 100 residências distribuídas em 120 glebas. Nenhum lote pode ter menos de 1.500 m².
O empreendimento foi concebido no clima de amor e harmonia que unia o casal. César Francisco, engenheiro civil, planejou todo o arruamento do local que leva o nome de sua esposa.
Dona Iolanda Catani em fotos do acervo pessoal de Nilton Esteves
Iolanda Catani arregimentou moradores para o seu projeto junto ao meio artístico com que tinha contato na sua atividade de cantora no Theatro Municipal de São Paulo. Entre os ex-moradores mais festejados pela mídia, estão os artistas plásticos Arcangelo Ianelli e Emanoel de Araújo, ex-diretor da Pinacoteca de São Paulo e criador do Museu Afro-Brasileiro.
Como toda pessoa amante da alta cultura, Iolanda era helenista. As alamedas e praças do condomínio são batizadas com nomes de musas da Mitologia Grega.
O DNA de artista de Iolanda foi herdado do sangue de seu pai, Gino Catani, pintor de murais da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, e das igrejas Santa Cecília e Santa Efigênia, ambas igualmente na capital paulista.
O amor à natureza de Iolanda foi transmitido geneticamente ao seu filho Cláudio, hoje com 74 anos e residindo no mesmo local idealizado por seus pais. Ele formou-se engenheiro agrônomo no ano em que César e Iolanda formalizaram a criação do condomínio rural taboanense, em 1964.
A longevidade é outra marca de família. Dona Iolanda viveu 94 anos – sua partida se deu em 2 de janeiro de 2005. Sua mãe, Virgínia, faleceu em 1988 aos 103 anos de idade.

Filosofia de morar
A criação do Condomínio Rural Jardim Iolanda não foi apenas uma sacada imobiliária de sua idealizadora. Havia toda uma concepção filosófica envolvendo o projeto. Para Iolanda Catani, “
uma das falhas mais lamentáveis dos empreendimentos que fracassam, deriva unicamente da incapacidade de seus dirigentes para estabelecer e conservar amizades”, registrou em reunião condominial de 11 de março de 1967.

O apego à natureza não é sinônimo de fechar-se no pequeno paraíso que rodeia seus moradores. Nilton Esteves mantém luta sem quartel pela construção de uma segunda alça de viaduto, para saída no sentido sul dos veículos de freqüentadores do Shopping Taboão. Denunciou o shopping em 14 de abril de 2012 na Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão. A medida vai suavizar o impacto do trânsito gerado pelo centro de compras no seu entorno. A obra deverá ser entregue em 2015. A criação de um retorno sobre a BR-116 na altura do quilômetro 277 é outra obstinação do síndico. Atualmente o condomínio protagoniza uma pendência jurídica com a concessionária da Rodovia Régis Bittencourt, devido à desapropriação de parte de sua área para construção de uma via marginal à pista. A gestora pediu suspensão do processo por 40 dias, e a Justiça acatou. “Só o deposito judiciário [em favor] do Jardim Iolanda é de R$ 568.332,00. Alguma coisa está acontecendo nos bastidores da Autopista. Tentei acordo de todas as formas. Não quiseram. Só restou recorrer aos Tribunais, e assim continuaremos fazendo”, garante Nilton, que entre uma demanda e outra ocupa seus olhos em fotografar os presentes que a Natureza oferece diariamente ao Jardim Iolanda.
Foto: Nilton Esteves - 28.nov.2012
Foto: Nilton Esteves - 19.set.2013
Foto: Nilton Esteves - 18.dez.2012
Foto: Nilton Esteves - 10.mar.2013
Foto: Nilton Esteves - 04.dez.2012
Foto: Nilton Esteves - 06.set.2013
Foto: Nilton Esteves - 19.mar.2013
Foto: Nilton Esteves - 19.mar.2013

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

"Estou em metamorfose", informa Natasha Marques

Natasha em Eros Despedaçado
Foto: José Walter Costa
A atriz Natasha Marques, 21 anos, prossegue sua firme recuperação do acidente que sofreu no último dia 6 de abril.
Sobre o acidente que já noticiamos na data, não vou falar agora.  
Por obrigação jornalística, e somente por isto, disponibilizo o link para quem está entrando no blog agora, aqui

A artista envia hoje um relato da sua determinação em superar o episódio. 

Os que vivemos no lado da luz sabemos do quanto o Bem é capaz.

Naty, como a chamamos os amigos, iniciou sua vida teatral em Taboão da Serra aos nove anos de idade. 
Sempre teve forte atuação em vários núcleos da Encenação da Paixão de Cristo na cidade. 
Teve papel destacado em 2010; em 2011 interpretou a personagem Cláudia, mulher de Pilatos; fez a Salomé, em 2013, e faria novamente Cláudia em 2014, quando foi interrompida pelo acidente.
Além de atriz vigorosa, Natasha é maquiadora (foi responsável pela caracterização do elenco em 2013) e especializada em pirofagia.

Segue o recado da artista:

Natasha Marques
Assim que entrei na sala de cirurgia, como sempre o Médico dos médicos já estava lá, à minha espera. Então vi o anestesista. Ele disse: “Oi, Natasha! Sabe quanto você está pesando? 43 quilos”. ( sim, realmente eu havia perdido 20 quilos). Ele prosseguiu: “OK. Vou começar. Você vai sentir uma tonturinha...”. E injetou fentanil através do cateter venoso central instalado no meu pescoço. A sedação era tão forte que eu sentia o poder de cada gota se espalhando pelo meu sangue. Senti de leve aquela delícia do sedativo. Ele injetou mais, porque meu corpo já pedia doses maiores. Aí a tontura aumentou, e vi o relógio da parede sair do lugar. Os médicos e enfermeiros pra lá e pra cá. Meus olhos se fecharam sozinhos, como se as pálpebras estivessem pesando uma tonelada

E foi assim, nas várias vezes em que entrei naquele centro cirúrgico. É um lugar muito tenso. A sensação de estar lá é estranha. A cada três dias eu trocava de curativo lá no Centro Cirúrgico. Para o Governo, cada curativo (a vácuo) custa por volta de R$ 3 mil reais. É uma despesa e tanto. Eu não teria como bancar meu tratamento. O SUS [Sistema Único de Saúde] até que está suprindo bem as minhas necessidades. Serei transferida dia 18 [deste mês de agosto] para o Hospital São Paulo, onde farei cirurgias e reconstruções. O grande problema de ter sofrido este acidente foi ficar de cama. Como tive fraturas no quadril, tive de colocar pinos. Então, eu mal podia me mexer. Acontece que tive de ficar muito tempo acamada, resultando em perda das forças e dos músculos. Fiquei muito fraca. Então, vou encarar muita fisioterapia, para reaprender a ficar de pé e andar. Estou começando do zero.

Recomeçar do zero, como eu sempre digo, é algo só para os fortes. Mas muitas pessoas, inclusive daqui do hospital, estão me dando forças para continuar. Pois sempre achei que sozinhos iremos mais devagar. Mas, apesar de ter um milhão torcendo por mim e me encorajando, eu sou humana. Eu sou humana e choro. Só quem sabe da minha dor é DEUS e meu travesseiro. O estado depressivo se instala  às vezes. E isso faz com que eu me sinta muito sozinha, sem poder dividir minha dor com alguém. 

Daí, fico sem fazer nada. Não quero ler, escrever, nem  comer, nada... Apenas fico chorando.
[Fico lembrando] O meu sangue derramado naquele asfalto.
Mas aos poucos vai passando.
Meus pais, meus amigos, e meu noivo, são pessoas que estão me ajudando muito. Sei que com eles posso dividir a minha dor psíquica. Porque ficar entre 4 paredes, sentindo dores constantes,  durante 4 meses,  é muito sofrimento.  Às vezes meu pai chora na minha frente... E acabo dizendo a ele: “Você tem de ser mais forte do que eu!". Acho que é um momento de união. Todos torcendo pro mesmo time. Faz bem pra alma encorajar os outros e ter o apoio recíproco.

Às vezes paro pra pensar e imagino como será daqui pra frente. E aí dá vontade de acelerar uns dois anos da minha vida. Só pra não sofrer nesta longa recuperação. Penso e imagino como será que está o Everton meu noivo. Como ele fica quando vai dormir e se lembra daquele acidente... Minha mãe e meu pai, como que eles ficam em casa? Deve estar um vazio tão grande... uma familia desestruturada... Todos sofrendo.
E o futuro lindo que eu tinha pela frente como artista.
Eu mesma sinto falta de mim, lá fora...
É como se eu estivesse passando pelo processo de metamorfose.
Estou escondida e presa dentro de mim.
Mas tenho fé que vou criar asas e voar.
Liberdade, pra mim, é tudo que eu preciso pra ser feliz

Não vejo a hora de sair daqui dessas quatro paredes enlouquecedoras.
Desejo o mais simples. O mais banal...
Coisas que você faz todos os dias mas não percebe a importância.
Poder andar, tomar banho de chuveiro sozinha...
Já até me imagino vestindo o jeans e a camiseta pra sair com meu amor... passando o batom vermelho nos lábios, os cabelos soltos e hidratados para caminharmos de mãos dadas... fazer coisas rotineiras como trabalhar, estudar...
Nunca dei valor a essas coisas. E hoje peço a Deus paciência e força.
Porque sei que vou precisar...
Anseio muito a hora de o médico entrar aqui e dizer: "Você está de alta, pode ir pra casa!"

Sei que quando eu sair daqui vou contar minha história, de alguma forma... Talvez no palco - que é a minha paixão - talvez num livro...
Mas vou contar.
Eu preciso mostrar o que passei para que possa servir como exemplo de superação.
Porque eu sei que vou superar.
Acho que este acidente me ensinou muitas coisas.
Principalmente  ter Fé e valorização da vida. Pois a vida é tão preciosa que é pra ser vivida com alegria.
Se eu já era feliz, imagine quando eu sair daqui.
A minha vida, daqui pra frente, quero que seja bem vivida.
Que as solas da minha vida fiquem gastas.
E que ainda assim eu possa viver. Viver, sonhar, realizar, crescer e viver.
Viver gostosamente!
Foto: Arquivo pessoal da atriz, maquiadora, pirofagista e produtora cultural Natasha Marques

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Caravana teatraliza origem dos saraus na periferia

Cena de Nasce um Sarau na Biblioteca Mário Schenberg.
Foto: David da Silva - 02.ago.2014
Acontece nesta 5ª-feira, 14 de agosto, a terceira incursão do Sarau Poético a Plenos Pulmões em bibliotecas públicas na cidade de São Paulo. Todos os saraus são precedidos por uma tragicomédia juvenil. A peça é uma metalinguagem sobre a origem do movimento de declamação de poesias dentro de bares na Capital e na Grande São Paulo.
A razão pela qual três anos atrás o poeta Zé Carlos Batalhafam instalou seu sarau poético numa lanchonete na zona leste de São Paulo, foi a mesma falta de espaço cultural que há 12 anos, em outubro de 2001, forçou os poetas Marco Pezão e Sérgio Vaz a ocuparem com versos um boteco no extremo oposto da região metropolitana, em Taboão da Serra, a sudoeste da Capital. É esta realidade que o grupo teatral Na Ponta do Lápis faz rir e refletir com o espetáculo Nasce
Participação do poeta Batalhafam em sarau na
Biblioteca Milton Santos. Foto: David da Silva
um Sarau: Clariô no Verso
.
Na trama escrita por Marco Pezão, um rapaz conhece um sarau de poesias, e quer montar um idêntico no botequim do bairro onde mora. A ideia do sarau se desenvolve em meio a dramas suburbanos como violência doméstica e uma guerra entre traficantes que, se estourar, colocará em risco a tão sonhada inauguração do sarau (veja galeria de imagens e o elenco completo aqui)
A primeira apresentação desta série ocorreu em 26 de julho último na Vila Aricanduva, zona leste paulistana, na Biblioteca Municipal Milton Santos, seguida da Lapa, zona oeste, em 2 de agosto na Biblioteca Municipal Mário Schenberg. A desta 5ª-feira é na zona norte, bairro do Limão.
Livia Domingues. Foto: David da Silva - 26.jul.2014
Além da semelhança nas histórias de vida dos poetas Pezão e Batalhafam, o sarau na Vila Aricanduva trouxe outra feliz coincidência. A bibliotecária-coordenadora Lívia Domingues nasceu e se criou na região limite entre o bairro Campo Limpo e o município de Taboão da Serra. Com exceção de dois integrantes, todos os demais membros do sarau itinerante A Plenos Pulmões e do grupo teatral são desta mesma área onde ela viveu toda a sua infância e adolescência. Lívia é uma mulher encantadora, totalmente entusiasmada em incentivar nas pessoas o hábito da leitura. Nos próximos dias 16 e 30 sua biblioteca terá a sequência do programa Poesia nos Varais, onde crianças abrem contato com o universo poético, brincando com palavras e rimas que ficarão penduradas num lindo varal cheio de versos para outras crianças lerem. E no dia 29 terá de volta o Sarau A Plenos Pulmões.
Henriqueta Marques. Foto: David da Silva - 02.ago.2014
No sarau no bairro da Lapa, outro traço de união com a região de Campo Limpo/Taboão. A coordenadora Henriqueta Marques conheceu o Sarau do Binho, citado na peça como fonte de nspiração, em outra biblioteca municipal no bairro Umarizal, onde sua colega Lívia nasceu. Henriqueta é outra atentada. Mantém as portas da Biblioteca Mário Schenberg abertas até em finais de semana, seja para encontros literários, colecionadores de histórias em quadrinhos, ou fanáticos pelo seriado Jornada nas Estrelas.

A caravana sarausista do coletivo A Plenos Pulmões com o grupo Na Ponta do Lápis integra o Projeto Veia e Ventania do Sistema Municipal de Bibliotecas, órgão da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo.

Para contratar o espetáculo Nasce um Sarau: (11) 98712-1919 c/ David da Silva ou (11) 98539-7061 c/ Marco Pezão

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A gaúcha gauche chamada Anjo

Marie Ange Bordas. Foto: René Cabrales - 2011 
Dá impressão que o sobrenome dela é nome artístico de afirmação ideológica. Afinal, todo o trabalho da fotógrafa Marie Ange Bordas é voltado para pessoas que vivem à margem da sociedade, nas beiras do mundo.
Mas o nome de família vem de Bordeaux, onde seu avô negociava uvas no sudoeste da França. Gaúcha de Porto Alegre onde nasceu em 1970 e de onde foi embora aos 16 anos, Marie Ange, apesar do nomezinho angelical, nunca foi de beatitudes. Aos 25 anos de idade já tinha morado na Austrália, na França, Porto Alegre, São Paulo, Nova York... É como se ela quando ainda menina também tivesse ouvido o mesmo anjo torto que soprou no ouvido de Drummond: “Vai, Carlos, ser gauche na vida”.
Logo mais, em novembro, será lançado em livro o resultado do trabalho de Marie Ange Bordas com crianças da tribo kaxinawá, no Acre, e da comunidade Mondongo, no Pará. No projeto Tecendo Saberes, a criança indígena aprende a ler e a escrever a partir da sua própria realidade. Uma criança da cidade pode entender “A”, de amor, “B”, de bola, “C” de casa, etc.  Mas lá, no coração da Amazônia de selvas e rios, casa é oca. Melhor ensiná-las com “A” de ashu e
Marie Ange em seu trabalho como educadora em comunidades nativas. Foto: Andrés Velez
atsa (tipos de árvores), “B” de bote, “C” de carapanã (espécie de mosquito) e assim vai. Você que conhece o método Paulo Freire deve estar lendo isto com meneios de satisfação na cabeça.
As próprias crianças recolheram lendas, receitas de comidas e brincadeiras a serem reunidas em almanaques sobre o lugar onde vivem. “Já o alfabeto é um capítulo feito por crianças para crianças. Elas é que criam novo jeito de aprender”, explica Marie Ange.
A atividade prodigiosa de Marie no Norte do Brasil é dose tripla do que ela já realizou com êxito aqui no Sudeste e também no Nordeste. Em fevereiro de 2012 ela lançou o Manual da Criança Caiçara. “A ideia nasceu do meu convívio com uma comunidade de Iguape, litoral sul de São Paulo. Foram dois anos de labuta no Ponto de Cultura Caiçara da Barra do Ribeira”, conta a artista e educadora. O projeto recebeu o Prêmio Interações Estéticas da Funarte/Minc.
Antes disto, lançou em 2010 Histórias da Cazumbinha, realizado com a comunidade quilombola do Rio das Rãs, no sertão da Bahia.

Lugar nenhum
Teu encanto pelo o que esta mulher fez e faz em comunidades invisíveis brasileiras vai virar adoração agora.
Leitora na infância de As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, e de Júlio Cortázar na adolescência, Marie defende que não pode faltar na estante de uma criança livros que a façam viajar e abram caminhos para outros mundos e culturas.
No ano 2000 ela começou a retratar a realidade em campos de exilados na África (do Sul, Etiópia e Quênia), e entre refugiados do que sobrou no Sri Lanka quando um tsunami destroçou a Ásia em 2004.
Cena do vídeo (Des)Apegos, de Marie Ange Bordas - Áustria, 2002
Jornalista, Marie largou a profissão. “Como repórter eu só posso contar o que vejo. Já como artista eu posso interferir para mudar o que vejo”, filosofa com a convicção de Mestra em imagem e som pela ECA/USP (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo) e se autodefine como “jornalista por formação, artista por quereres e educadora por convicção”. “Eu acredito na criação visual (fotografia/desenho) como ferramenta poderosa de construção de identidades individuais e comunitárias”, garante. A artista se coloca como uma ponte entre as diferentes condições culturais e de vida. Ela que viaja por vontade própria, se angustia pelas pessoas que são forçadas a viver de um canto para outro, sem ter onde nem com o que se identificar.
Um dos trabalhos de Marie Ange Bordas que mais me marcaram foi o de outubro de 2002 com a comunidade kurda na periferia de Paris. Há mais de 100 mil kurdos na capital francesa, vindos da Turquia. Acantonam-se na maioria pelo trecho do 10º arrondissement (distrito). Marie ficou três semanas por lá. Nas imagens que capturou mesclou poemas do turco Nazim Hikmet (mártir da repressão). O resultado foi impresso em toalhas de mesa de papel para restaurantes, e em cartazes lambe-lambes colados pelas ruas.

Desde 2007 Marie Ange tem ficado um pouco mais no Brasil. Mas pensa que ela deu ao seu corpo ágil o merecido descanso e conforto que pode ter aqui na São Paulo onde mora hoje?
Qual o que...
Tá lá, no meio do mato. Ensinando crianças índias a contar a história dos seus povos.
Marie Ange com o músico Arrigo Barnabé. Foto: Júlio de Paula - 2011

sábado, 9 de agosto de 2014

O casal que a enchente bebeu

Foto: Rogério Gonzaga
Existiu mesmo a noivinha que todos os sábados vem toda contente até o número 130 da Rua Sargento Estanislau Custódio, no limite de Taboão da Serra com São Paulo. O imóvel hoje propriedade do Teatro Encena era de um casal que teve seus sonhos engolidos pelas enchentes.
Ironicamente colado ao Jardim Celeste, o bairro foi um inferno líquido para o marido desenhista de molduras e a esposa dentista que pensaram um dia poder ser felizes naquele lugar. A história dessas vidas submersas é o eixo da tragicomédia em cartaz desde o dia 2 de agosto, sempre com platéia cheia. É necessário fazer reservas. O espetáculo começa no meio da rua com a cena de um casamento, e termina debaixo duma tempestade torrencial.
Quando foi comprar a casa para instalar seu teatro, o ator e diretor Orias Elias fez igual ao escafandrista da canção de Chico Buarque. Explorou “seus quartos, suas coisas, sua alma, desvãos”. Nas paredes do imóvel, Orias Elias pôde “ler” a evolução da degradação do matrimônio. Aponta bem acima da cabeça. “Ali havia marcas da altura das águas. Coisas que a enchente atacou e que o proprietário desistiu de recuperar. Coisas que ele sequer lavou”. Nas sobras de tudo que um dia chamaram de um lar, o artista encontrou vestígios da felicidade extinta.
“Quando eu vim pra cá, descobri velhas fotos de um tempo em que eles eram felizes. Pequenas coisas dessa relação. De um tempo em que existia o amor, a harmonia. Que existia o sonho. Esse casal vivia dentro de uma felicidade. Até que as enchentes vieram e destruíram toda a base de vida deles”, conta Orias.
Em meio ao seu relato, o ator e diretor teatral desenha no ar os lugares onde havia divisões dos cômodos da residência e do ambiente de trabalho do casal. “Ali em cima ficavam os motores da cadeira odontológica. Lá atrás o marido desenhava e fabricava suas próprias molduras para quadros”.
Impelido pelas lembranças, Orias Elias se levanta do sofá. A mulher não suportou ter sua vida encharcada pelas imundícies que a enchente arrastava para dentro da casa. “Ela abandonou tudo. E ele ficou aqui no meio dessa desolação, numa total solidão. A mulher criou um outro mundo para ela. Comprou um apartamentinho, montou outro consultório. Lá longe. No alto do morro do bairro Monte Kemel. Ele não reagiu. Ela subiu; ele ficou aqui enfiado no buraco. A vida dele entrou num processo de decadência”.
A casa desolada virou até ponto de venda de drogas, prossegue Orias. “Quando fomos assinar a escritura do imóvel, eles ainda tinham a comunhão de bens. Na época da venda da casa ela já era uma senhora, uma matrona. E ele um homem muito decadente. E eu vi o confronto entre os dois. Era uma tristeza no olhar dela, quando ela chegou e perguntou: ‘Como é que você está, Genésio?’ Ele também olhou pra ela com uma tristeza...  Eu percebi naquele momento o fim daquele sonho que um dia eles tiveram juntos. E isto foi destruído”.
Enquanto desfia a desventura do casal diluído pelas inundações, Orias Elias segura uma caneca. Mas não bebe. Isto me lembrou uns versos do poeta Miró: “Sangra a periferia bem de manhãzinha. E o café esfria de tanta dor”.

Serviço:
“Pirou, Jussara? Pendurar a vovó no banheiro?”, de Gilberto Amêndola. Direção: Orias Elias e Walter Lins. Com: Cadu Camargo, Claudio Bovo, Fernanda Garcia, Flávia D'Álima, Jacintho Camarotto, Orias Elias, Sabinna Di Colluccy, Thânia Rocha, Walter Lins e Zú Vieira
Aos sábados, às 20h30
Classificação: Livre
Duração: 80 minutos
TEATRO ENCENA
Rua Sargento Estanislau Custódio, 130
Fone: 2867-4746
Reserve seu lugar: encena@encena.art.br
Equipe Técnica - Percussão: Jeff Mendes; Operador de Luz, Som e projetor: Vagner Pereira; Iluminação: César Pivetti

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Morador de Campo Limpo vai à TV falar dos seus livros

Zé Sarmento - Foto: Marco Pezão Iadoccico
Autor só aprendeu a ler aos 14 anos,  concluiu o ensino médio depois dos 50 anos, e hoje é graduado em História

Para usar uma memória musical afetiva nordestina, o transcurso do mês de julho para este mês de agosto “ta é danado de bom” para o escritor paraibano Zé Sarmento, morador da região do Campo Limpo, zona sul da cidade de São Paulo. No final do mês passado Sarmento foi destaque em matéria do blog Mural do grupo Folha de São Paulo. Já hoje, terça-feira, 5 de agosto, ele passou a manhã inteira sendo entrevistado pelo telejornal da TV Gazeta. Neste meio tempo, na virada do mês concedeu entrevistas para a Rádio-web Juventude, e ao canal de TV da Câmara Municipal paulistana. Na pauta, seus sete livros lançados, com realce para a trilogia sobre os bairros periféricos Paraisópolis, Jardim Ângela e o Bixiga – este último, apesar de colado à região central, guarda características de sub-habitações típicas dos subúrbios.
Atualmente com 57 anos, José Marques Sarmento nasceu no agreste da Paraíba, numa família de nove filhos homens. Boia-fria até os 19 anos, Zé Sarmento não teve tempo de esperar o seu sertão se cobrir daquela “pelúcia verde e macia” de que fala a escritora Rachel de Queiroz no romance O Quinze.
Em São Paulo fez-se técnico cinematográfico, ofício que exerce até hoje na iluminação de filmes de longa e curta metragens e filmes publicitários.
Trilogia é pauta do Jornal da TV Gazeta
A trilogia de Zé Sarmento mistura realidade e fantasia. “Sou um periférico falando da minha própria periferia, num vôo histórico-ficcional sobre três áreas de São Paulo, isto é: o centro, o intermediário e o fundão”, diz o autor que principiou o trio de livros com Paraisópolis – Caminhos de Vida e Morte, seguido de Bixiga – Um Cortiço dos Infernos e de Ângela: um Jardim no Vermelho.
Como a imensa maioria dos nordestinos de sua geração, Zé Sarmento aprendeu a ler somente aos 14 anos. Hoje é graduado em História, tendo iniciado a conclusão de sua vida escolar só depois dos 50 anos pelo programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Pela vivência sofrida e pelo curso que escolheu, Sarmento quis fixar em livros suas impressões e conhecimentos.
Casado e pai de quatro filhos homens, Zé Sarmento é figurinha carimbada nos saraus literários da periferia. “Onde tiver cultura e arte fervendo, estou dentro”, diverte-se o escritor enquanto divulga sua obra, totalmente publicada com recursos do próprio bolso.

Além da trilogia paulistana, Sarmento tem no mercado editorial os títulos: Um Homem Quase Perfeito; A Revolução dos Corvos; Urbanóides - Um Caos Paulistano; O Sequestro do Negativo Exposto.

sábado, 5 de julho de 2014

Invasão amarela: mercaditos de Buenos Aires

Sim. Você não anda mais que três ou quatro quadras em Buenos Aires sem deparar com um mercado.
Não. Não são daqueles super. Mas, tipo mercadinhos de vila (mercaditos, na linguagem aqui deles). Para compras providenciais.
Por mais que bebas vinho (e como o temos bebido, né Flávia?) não pense estar vendo coisas.
Sim. Todos os mercadinhos portenhos têm um chinês no caixa.
Aqui onde estamos hospedados, então, é uma exuberância. Tem o mercadinho chinês da Rua Charcas esquina com Rua Jorge Luis Borges, e tem o mercadinho chinês da Rua Jorge Luis Borges esquina com Rua Charcas.
Meu amigo proprietário do Daniel’s Bar, na esquina da Rua Charcas com Rua Thames, me ajuda a desvendar o mistério com base numa reportagem do jornal El Clarín (há sempre exemplares deste diário sobre as mesas do seu restaurante. “É o único que não se rendeu ao governo”, me diz).
Estima-se que a cada semana cinco novos mercadinhos chineses são abertos na Argentina. Somam hoje em torno de 10 mil pelo país.
A grande onda de imigração chino-argentina se deu na década de 1990. Era fácil obter documentação – demorava entre 90 a 180 dias. Depois o governo embirrou. O visto de entrada passou a demorar de seis meses a dois anos. A invasão amarela arrefeceu.
Como tudo que é oficial na Argentina cheira a picaretagem, o censo também mente. O levantamento populacional de 2010 alega 8.929 chineses por aqui. Mas eles próprios admitem serem em torno de 100 mil às margens plácidas do Rio da Prata.
Oitenta por cento dos imigrantes chineses na Argentina vêm da província Fujian, no leste da China. O resto é na maioria de Taiwan, já que são vizinhos lá naquela banda onde o Sol espreguiça seus primeiros raios.
A importância dos mercadinhos chineses no cotidiano argentino foi reconhecida pela própria presidente dona Cris Kirchner. O governo federal incluiu os mercaditos no pacto de preços controlados de 122 artigos. Os de maior demanda são: macarrão, arroz, erva-mate, produtos de higiene pessoal e de limpeza doméstica. Sem esquecer o sal e o fernet. Sim, o direito etílico está incluso na cesta básica do governo.

Não fosse mi amigo Daniel, pelos chineses daqui eu jamais saberia o que acabo de te contar. Estes imigrantes não dominam o idioma local. Mal balbuciam “si” ou “no”. Foi só depois da minha undécima ida ao mercadito da Rua Borges, que a orientalzinha rabiscou um risinho nos lábios e perguntou: “Quieres bolsa?”.
Com salões de normalmente 200 a 300 metros quadrados, os mercadinhos chineses de Buenos Aires seguem sempre o mesmo desenho. Na parte da frente uma quitanda (verdulería) e na de trás um açougue (carnicería). O setor horti-fruti nunca é do chinês (invariavelmente de bolivianos ou peruanos). E o açougue é sempre de um argentino.
Os mercadistas chineses bonaerenses (donatários do neologismo gentílico argenchinos) chegaram à conclusão que carnes e legumes devem estar nas mãos de quem lhes chama e respeita pelo nome. Se mal aprendem a dizer donde estás corazón, como poderiam decifrar o corte de carne pedido pelo freguês? Mesmo uma brasileira feito você passaria maus bocados na quitanda. Aqui, beterraba é remolacha, mexerica é mandarina, alface é lechuga, cenoura é zanahoria... e por aí vai.
Quando um chinês chega aqui uma família patrícia o adota. Ele começa a trabalhar como repositor, depois assume o caixa e, guardando dinheiro, abre seu próprio negócio.
Agora você vai saber o que a Flávia está fazendo nesta postagem com sua taça sempiternamente cheia de vinho. Nos bares da vida a gente chegou a pagar entre 80 a 120 pesos argentinos por uma garrafa de vinho popular. Nos mercaditos chinos abençoados por Baco a garrafa orbita em bem menos da metade disto.
Na minha primeira manhã no bairro Palermo, a chinesinha do mercadito da Rua Borges quase foi à loucura pra entender que eu queria queijo fatiado. Até que acalorada pelo entendimento me apontou na seção de frios – queso máquina.
Que louco. Parece recheio de sanduíche pra robô...
Buenos Aires, 1º.mai.2014

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Nove dias e oito noites no bairro de Borges

Baixei em Buenos Aires sem reserva onde dormir.
Suzi estranhou eu vir assim de jeito zíngaro.
Mas, meti uma grana no bolso e... “deixa a vida me levar”.
Quis a sorte que eu quedasse hospedado em Palermo.
Foto: David da Silva - 29.abr.2014
Bairro onde o escritor Jorge Luis Borges viveu toda sua infância e metade da juventud.
Minha sina é mãe, e não má-drasta.
Depois da primeira noite portenha dividindo quarto com Helena, o destino decidiu me cambiar pra outra rua. Pra um lugar chamado Borges Design Hostel.
Já te disse. Minha sina é mãe.
O Borges Design Hostel fica perto da casa onde Jorge Luis Borges viveu dos seus dois anos aos 15 anos de idade. O hostel é um casarão de três andares, construído no final da década de 1920. Escadas de madeira maciça, elevador de porta pantográfica. Uma delícia de tradicionalismo incrustado no bairro da vanguarda cultural da capital argentina.
Agradeci. Minha sina não é má-drasta.

Palermo Velho sempre redivivo
Antes d’eu chegar a Buenos Aires, há muito essa cidade já estava aqui dentro de mim.
Muitas vezes fiz a viagem imaginária com Clara no conto Ônibus, do Júlio Cortázar. Cruzava mentalmente toda a cidade, desde a Villa Del Parque até o bairro Retiro.
O bairro Palermo eu conheci ainda moleque pela escrita de Jorge Luis Borges.
É do tamanho da minha cidade. Taboão da Serra tem 22,5 km². Palermo tem 15,9 km². A população taboanense é de 264.352 pessoas. A de Palermo, 225.970.
Situado na zona norte de Buenos Aires, Palermo hoje tem tudo. Aeroporto, zoológico, jardim botânico, planetário, hipódromo, a maioria dos estúdios de canais de televisão, produtoras de cinema. Habitado por artistas e profissionais liberais. Uma espécie de Vila Madalena paulistana em tamanho gigante.
Mas teve uma origem perigosa, boca quente, barra pesada. História contada na ponta das facas. Homens se sangrando a cada esquina. Era bairro tão pobrezinho, habitado por gentes tão baixa renda e tão sem profissão, que o apelidaram “Terra do Fogo”. Comparação maldosa com a região de natureza mais carrasca e mais longínqua da Argentina.
A visão do bar El Preferido de Palermo evoca o conto Homem da Esquina Rosada, de J. L. Borges. Fundado em 1959, o bar e restaurante está entre os 73 mais famosos de Buenos Aires. É reconhecido pela administração municipal como patrimônio histórico da cidade. Foto: David da Silva – 29.abr.2014
Bar-restaurante El Preferido vestido para a noite
Borges ensina nos seus contos e crônicas que Palermo foi em seu berço um local de inquilinatos. Semeado aqui e ali, esparsamente, pelas “cazas-chorizo” (“casas-lingüiça”, com habitações grudadas uma às outras feito gomos).
Borges interrogou em seus textos os mistérios de Palermo. Impossível a gente saber o que foi real ou fantástico. Seus contos são povoados por valentes e brigões. A quem ele chamou “compadritos”.
Usou em suas estórias a linguagem tosca, rústica, palavras dos arrabaldes para desvendar a alma do seu povo. Para construir sua obra, Borges buscava os entardeceres, os subúrbios, a miséria.
O bairro Palermo da infância de Borges era, segundo ele, de “uma pobreza despreocupada”. Os dias escorrendo sempre iguais perante as varandas humildes. Vez ou outra o silêncio quebrado pelo apito de um vendedor de amendoins. Bairro de moral arruinada, esquinas de agressão ou de solidão, com homens se chamando por meio de assobios a fim de se baterem com punhais e logo sumirem pelos becos escuros. “O bairro era uma esquina final”.

Terra ingrata
Borges recolheu pessoalmente em livros estas histórias até o dia em que a visão o abandonou.
Contou-nos em seus contos que Palermo era um bairro alagadiço. (A rua em que fiquei hospedado na primeira noite, e que está bem aqui à minha frente agora, não por acaso se chama Calle Charcas – Rua Lagoas).
Para construir o bairro, foram trazidas milhares de carroças de terra preta tiradas das propriedades do caudilho Juán Manuel Rosas. O político construiu no bairro sua casa de campo. As obras do aterro duraram dois anos ininterruptos para nivelar e preparar o terreno arenoso, até que o barro e a terra ingrata sucumbiram à vontade de Juán Manuel Rosas.
Assim se deram, no estilo enxuto e elegante de Borges, “as etapas da distraída marcha secular de Buenos Aires sobre o bairro Palermo”.
Enquanto pôde caminhar pela cidade, Borges dizia que mesmo em suas desilusões e sofrimentos, Buenos Aires jamais deixou de consolá-lo com um toque de vida.
Aos 55 anos, a cegueira fechou seu cerco sobre o escritor. Ele conta a sensação deste incômodo acontecimento: “Uma das primeiras cores que se perde é o negro. Perde-se a escuridão e o vermelho também. Vivo no centro de uma indefinida neblina luminosa. Mas não estou nunca na escuridão. Neste momento esta neblina não sei se é azulada, acinzentada ou rosada, mas luminosa. Tive que me acostumar com isto. Fecho os olhos e estou rodeado de luz, mas sem formas. Vejo luzes. Por exemplo, naquela direção, onde está a janela, há uma luz, vejo minha mão. Vejo movimento mas não coisas. Não vejo rostos e letras. É incômodo mas, sendo gradual, não é trágico. A cegueira brusca deve ser terrível. Mas se pouco a pouco as coisas se distanciam, esmaecem… No meu caso, comecei a perder a vista desde o momento em que comecei a enxergar. Tem sido um processo de toda minha vida. Mas a partir de 55 anos, não pude mais ler. Passei a ditar”.
Outro morador famoso do bairro Palermo foi o guerrilheiro Ernesto Guevara. O “Che” viveu com seus pais por certo período na Calle Araoz, 2.180, a sete esquinas daqui onde estou.

Faço estes apontamentos no meu quartel-general, o Daniel’s Bar, na esquina da rua Charcas com rua Thames. Acho que por hoje basta de lembrar o passado heróico do bairro Palermo e seus homens destemidos.
Buenos Aires, 05.mai.2014

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Jussanam: canção de verão ao som do Mediterrâneo

“She may be the song that summer sings”
(Charles Aznavour)


Jussanam canta na praia particular do Hotel
Martinez, em Cannes. Fotos: Bjorn Olsson





Essa postagem sobre a Jussanam não está aqui agora só porque sim.
Nesta ocasião precisa, dois sólidos motivos empurram-me os dedos de volta ao teclado, para contar pra vocês como vai a vida da cantora e atriz brasileira que foi morar na Islândia em 2008, e hoje está radicada no sul da França.
Terminou nesta 5ª-feira, 26 de junho, há poucas horas, a primeira grande temporada francesa de Jussanam Dejah. 
“Estou realizando um grande sonho. Às vezes nem acredito que estou cantando na praia do Martinez em plena Croisette”, me escreveu a cantora dias atrás. Pr’ocê ter uma ideia da importância do lugar, a referida Croisette é a via pública mais charmosa do planeta. Espreguiçando-se ao longo de 2 km na beira do Mar Mediterrâneo, esta estrada é o endereço do badalado Festival de Cinema de Cannes, no Palais des Festivals et des Congrès (Palácio dos Festivais e dos Congressos). A Wikipédia me conta que ali “é uma das áreas mais luxuosas, caras e sofisticadas do mundo”. É a cobiçada C’Ôte d’Azur dos contos de fadas milionários.
É lá onde a carioca Jussanam Dejah está morando desde 8 de julho de 2013, e fez 13 shows nos últimos 15 dias. 
Jussanam com Jean-Yves Mestre (violão) e Max Miguel
Jussanam chegou a este local para participar de um programa de residência artística representando o Brasil e a Islândia, já que tem dupla cidadania. Era para permanecer somente até setembro do ano passado. Mas resolveu ficar.
Nascida no bairro Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, Jussanam deixou na Islândia uma bela história de amor à arte, determinação e solidariedade humana. 
Quem ainda não sabe toda a saga desta morena para ter seu direito respeitado pelo governo islandês, dá uma espiada aqui
E é justamente este o tal segundo sólido motivo a que me referi na abertura da postagem. 
Há exatos dois anos, em junho de 2011 Jussanam teve expedido o seu título de cidadã da Islândia. 
O Parlamento reconheceu-lhe a cidadania “devido as suas qualidades artísticas, sua contribuição para o enriquecimento da vida cultural islandesa, e sua forte ligação com o povo islandês”.
O escritor argentino Jorge Luis Borges disse que felicidade é estar ao lado da mulher amada na Islândia, debaixo do grande dia imóvel, e repartir o momento presente como se reparte a música e o sabor de uma fruta.
Pierre Palvair (violão) e Eric Prive (bateria) com Jussanam acariciada 
pela brisa do mar Mediterrâneo
Um brinde, pois, à Jussanam, por estes dois anos do seu grande triunfo internacional no coração efervescente da gélida Islândia.

Em 13.mar.2008 Jussanam me mandou e-mail, a respeito daquelas suas então ainda poucas semanas na Islândia: “Conheço outros países como Espanha, França, Alemanha, mas ainda não cantei nesses lugares. Acredito que isso não tardará a ocorrer”.
Tardou quase nada. Agora, além de söngkonan da Islândia, ela é também a “chanteuse bresilienne dans la C’Ôte d’Azur”.


A SAGA EUROPÉIA DE JUSSANAM
·         Fevereiro de 2008 – muda-se para Reykjavik, capital da Islândia
·         2009 – lança seu primeiro CD “Ela é Carioca”, na Islândia
·         2009/2010 – primeiras turnês pela Suécia
·         2011 – obtém o título de Cidadã da Islândia
·         2012 – excursiona por 5 países do Norte da Europa patrocinada pelo Fundo de Cultura Nórdica
·         Novembro de 2012 – lança seu segundo CD “Rio/Reykjavik”, na Islândia
·         Julho de 2013 – muda-se para o sul da França
·         De 12 a 26 de junho de 2014 – primeira grande temporada na França, contratada pelo hotel 5 estrelas Grand Hyatt Hotel Martinez
Jussanam com Jean-Yves Mestre (violão) e Nicolas Castagnola (bateria) na Place Lisnard, cidade de Vallauris, convidada pela organização da tradicional Fete de La Poterie – 10.ago.2013