sexta-feira, 29 de março de 2019

O indigenista que incitou a construção do CEMUR

Foto: Eduardo Toledo

Aniversariante do ano.
 Inaugurado em 1979, CEMUR vai completar 40 anos em 23 de novembro


David da Silva

Na manhã de uma 5ª-feira, 2 de dezembro de 1976, em Taboão da Serra um Volkswagen intercepta outro da mesma marca. Os motoristas descem dos carros, e vão conversar na calçada em frente à Escola Estadual Wandick de Freitas. Quem olhasse de longe podia imaginar briga de trânsito. “O Armando Andrade estava recém-eleito prefeito, ia assumir o cargo dali a alguns dias, e me parou para fazer um convite”, explica Antonio Carlos Fenólio, um dos protagonistas daquele papo na beira da rua.
Fenólio lembra com detalhes cromáticos o episódio. “O Armando tinha um fuscão cor de abóbora, e o meu era um fuscão azul. Ele emparelhou comigo, fez sinal para eu encostar, e ali mesmo, na calçada, perguntou se eu aceitava colaborar com o governo dele na Educação e Cultura”, relata o mestre, na época diretor da E.E. Aracy de Abreu Pestana.

O grande cacique branco

Para fazer boa estreia na administração municipal, Fenólio buscou conselho com seu pai, que já tinha experiência política em Espírito Santo do Pinhal (SP) - o prédio da Câmara de Vereadores daquela cidade leva o nome dele. O velho sugeriu um seminário sobre as vertentes da cultura brasileira. Fenólio convidou o sertanista Orlando Villas-Bôas. O homem era um herói nacional. Com seus irmãos Cláudio e Leonardo, desbravou o oeste do Brasil, abriu caminhos que serviram de base para construção de estradas, fundou cidades, fez contato pacífico com tribos indígenas, e idealizou o Parque Xingu, sendo seu primeiro diretor. Os líderes dos povos da floresta o consideravam ‘o grande cacique branco’. O herói aceitou vir a Taboão da Serra para o seminário Formação do Povo Brasileiro que Fenólio ia organizar.
Orlando Villas-Bôas era idolatrado pelos povos da floresta

Mas  Orlando Villas-Bôas tinha um requisito para vir. Contador incomparável de ‘causos’ que viveu em longos anos embrenhado na selva amazônica, ele atraia multidões. “O Orlando ponderou comigo que não fazia palestras para pequenas plateias”, relata Fenólio. “Disse que seria adequado um local para 500 pessoas. Fui atrás deste espaço”.

Corrida contra o relógio

O falecido prefeito Armando Andrade costumava dizer que a construção do CEMUR (Centro Municipal de Recreação e Cultura) foi uma “corrida contra o tempo para cumprir o que eu havia prometido” durante um baile beneficente realizado fora do município em 1978.
Mas faltava ainda um ano para o ex-prefeito fazer essa promessa, e Fenólio tinha pressa em encontrar o lugar para Orlando Villas-Bôas falar. “Fui com o José Carlos, do Departamento de Engenharia da prefeitura, ver se o pátio da Escola Estadual Alípio comportaria as 500 pessoas, mas os cálculos mostraram que não”.
Frustrado o plano de ter o grande sertanista entre nós, ficou patente que o município não podia mais esperar. Foi o que impulsionou o então prefeito a pegar o microfone durante o baile no extinto Club Solar dos Amigos.  “Eu assumi naquele momento, publicamente, o compromisso de que no ano seguinte essa falta de local apropriado estaria corrigida”, escreveu em uma crônica publicada no site O Taboanense.
Na seta, área desapropriada para construir o CEMUR. Foto 2: Etapa final da obra em outubro de 1979.

Erguido em frente à praça principal da cidade, o CEMUR completará 40 anos em 23 de novembro. No seu palco já se apresentaram figuras míticas da cultura brasileira como o dramaturgo Plínio Marcos e o compositor Belchior.
“Quando o CEMUR ficou pronto não consegui mais Orlando Villas-Bôas, pois era muito requisitado para palestras no Brasil e no exterior. Mas se já havia na época intenção de levantar o Cemur, o Orlando foi a gota d’água, o acelerador que coroou a ideia”, aponta Fenólio.
Fenólio, 73 anos, foi vereador por 3 mandatos e secretário da Educação e Cultura de Taboão da Serra - Foto: David da Silva, 20.dez.2018

terça-feira, 19 de março de 2019

Terceiro livro de Luan Luando é 100% dedicado às pipas

Luan Luando reflete lições de vida nos poemas sobre sua infância debaixo de um céu recheado de pipas
Foto: David da Silva, 08.dez.2017


David da Silva

Nas publicações anteriores de Luan Luando, as pipas dividiram páginas com poesias sobre outros assuntos. Já o inédito Tá na Mão é totalmente temático. Com o novo livro, Luan fecha a trilogia iniciada em 2011 com Manda Busca, seguida de Rélo (2017). A obra será lançada provavelmente no segundo semestre de 2019.
Os títulos da trilogia referem as três mais importantes manobras na arte de empinar pipas – ‘manda busca’ é quando a pessoa põe sua pipa no encalço de outra; ‘rélo’ é o ato de fazer a linha de uma pipa roçar na linha da outra cortando-a ou enlaçando-a, concluindo com a posse do objeto perseguido (‘tá na mão’).
De ascendência baiana, filho da doméstica Aureni de Jesus e do alfaiate José Felício, o menino nasceu em Osasco e cresceu no Jardim São Judas, zona periférica no sudoeste da Região Metropolitana de São Paulo onde Taboão da Serra faz limite com Embu das Artes.
Luan passou toda sua infância “de cara pra cima atento na imensidão”, como diz em seu poema “Dente por dente, presa por presa”. A pipa é a primeira professora de meteorologia da criançada ensinando-lhes os recados das nuvens, e as direções dos ventos.
Afora o aspecto puramente lúdico, a pipa é uma metáfora da resistência cultural deste poeta nascido em 13 de maio de 1988.
E ninguém nasce em 13 de maio impunemente.
Do universo das pipas, Luan Luando extrai lições sobre o lugar onde se criou, a família (vide a pungente poesia “Papagaio de meu pai”), os amigos, o choque social e econômico que marca a fase de crescimento dos jovens dos subúrbios (como exposto no poema “Pipa à prova d’água”), o conhecimento amoroso (como nos versos onde o garoto se depara com “a destemida e misteriosa pipeira”), e uma visão filosófica da existência (refletida na poesia “O roubo dos cascos”).

Pipas de guerra e de Arte

A pipa já nasceu briguenta.
Em Palmares, feitas de palha e palito, as pipas eram o sistema de alarme dos sentinelas avançados da Serra da Barriga. Na China de 1200 anos antes de Cristo, feitas de seda e bambu, conforme suas cores e padrões de desenho, e pelos seus movimentos no ar, as pipas transmitiam mensagens militares nos campos de batalha.
Satélites e drones não conseguem aposentar as pipas. Elas são usadas hoje em dia pelos jovens da Faixa de Gaza. Com artefatos incendiários amarrados na rabiola, as pipas palestinas são um tormento para soldados israelenses, sempre ocupados em apagar o fogo que elas ateiam nos matos e até nas lavouras do território inimigo.
Jovens palestinos na Faixa de Gaza lançam pipas incendiárias. Foto: Khalil Hamra, jun.2018
Mas as pipas não são apenas artefatos indomáveis de arsenais aéreos. Pipa é também fonte de inspiração de grandes mestres. Manuel Bandeira compôs “Canção da Pipa”. Carlos Drummond de Andrade disse em versos que bom “é sentir individualmente a pipa dando ao céu o recado da gente”. Cândido Portinari dedicou uma série inteira a esta temática. Seu quadro “Meninos Soltando Pipas”, pintado em 1941, foi leiloado em Nova York por 1,4 milhão de dólares em maio de 2013.
Na Ciência a pipa também tem sua tribuna de honra como mãe do para-raios. Assim, um dos primeiros heróis de Luan Luando foi Benjamin Franklin “o homem que empinava pipas no meio do temporal, tentando pescar raios”.

A nação chamada infância
O escritor Mia Couto define que “a infância não tem outra nação, se vive ali sempre”.
O céu cravejado de pipas tem seu próprio dialeto, seu código de condutas, e só é acessível a quem não tenha a alma presa pelos carretéis do sistema. Qualquer sistema. Em qualquer ponto do planeta.
Menina empina pipa em Jaisalmer, a “cidade dourada”, próximo à fronteira da índia com Paquistão

Trechos de Tá na Mão, livro de poemas inéditos de Luan Luando
“A chuva traz a majestade do tempo
Que atrasa o movimento dos ponteiros dos relógios nas paredes
confinando pipeiros nas quarentenas dos lares.”
“Pipeiro e seus guias
Estaciona suas latas nas guias das ruas
Linhas emboladas no chão do asfalto
desenham ciclo de círculos infinitos”
“...as pessoas vivem como pipas
enroscadas em bancos, cruzes e antenas parabólicas”

quinta-feira, 14 de março de 2019

Nova HQ de Gau Effe tem medicina high tech, cabala e aventura

Gau Effe dá aulas na Prefeitura de Taboão da Serra. É instrutor de artes visuais, professor de histórias em quadrinhos, ilustrador, cenógrafo, quadrinhista e caricaturista.


David da Silva
                              
Parece ficção, mas está mais perto do que você pensa.
Mini máquinas de tamanhos imperceptíveis a olho nu viajam pelo interior do corpo humano transportando medicamentos, e aplicam o remédio diretamente na célula doente. Pequeninos robôs, seis vezes menores que um glóbulo vermelho, realizam manobras complexas e ‘consertam’ o que está ‘quebrado’ dentro da pessoa.
Esta possibilidade referida pela primeira vez pelo cientista Kim Eric Drexler em 1981, é o tema da nova história em quadrinhos de Gau Effe, que criou o enredo, fez a colorização e assina o roteiro, com desenhos de Daniel Oliveira.
Trecho de NanoStein, que traz a nanomedicina para o universo das histórias em quadrinhos
Eric Drexler tem a primazia de referir engenharia molecular no extremo do invisível aplicada à medicina, mas cabe a Richard Feynman a glória de ter falado pela primeira vez em nanotecnologia em dezembro de 1959.
O termo nanotecnologia vem do grego nánnos, que significa anão. Pra te dar uma ideia de o quanto é diminuta a proporção à qual estou me referindo, um nanómetro é cerca de 1000 vezes menor que a espessura de um fio de cabelo humano. A este nível, consegue-se manipular moléculas, átomos e elétrons.
E é isto o que o personagem cientista Álvaro Mendes de Souza faz no corpo do seu filho Ícaro na HQ inédita que Gau Effe batizou de NanoStein, uma trama bem sacada que faz grandes feitos científicos entrarem em conflito com intriga internacional, fanatismo religioso, organizações criminosas, mitologia grega, política e cabala.
Quando você pegar NanoStein para ler, esteja (ou pelo menos imagine-se) em boa forma física. A história não te dá trégua do primeiro ao último quadrinho.

Tributos explícitos e sutis

Quem bolou o primeiro filme de ficção-científica onde máquinas quase invisíveis de tão pequenas realizam cirurgias dentro do corpo humano foi Otto Klement, que assinou com Jerome Bixby o roteiro de Fantastic Voyage lançado em 1966.
Muitas pessoas atribuem erroneamente Viagem Fantástica a Isaac Asimov. Mas o livro dele foi apenas uma peça promocional escrita por encomenda da produção do filme.
Gau Effe deu à sua nova HQ o título NanoStein pela simbiose da alta tecnologia em escala liliputiana com o clássico Frankenstein, de Mary Shelley, publicado em 1817 e considerado a primeira obra de ficção-científica na literatura universal.
Se na história criada por Mary Shelley o doutor Victor Frankenstein tem como objetivo narcisista a sua consagração como cientista, o personagem idealizado por Gau Effe é movido pelo amor. Frustrado por não conseguir salvar a vida da esposa, o doutor Álvaro Mendes de Souza busca na nanomedicina a cura do filho.
O desafio das novas tecnologias aplicadas à medicina é um elemento de tensão no enredo de NanoStein
O fascínio por Feynman fica patente quando conversamos com Gau Effe.
Quando o entrevistei em sua casa no bairro Parque Albina, em Taboão da Serra, não falamos de Feynman nada além da sua vida em laboratório. Mas este homem incomum no mundo da Ciência também teve uma vida privada bastante peculiar. Richard Feynman integrou a equipe do Projeto Manhattan, que criou a bomba atômica lançada sobre Hiroshima e Nagasaki na 2ª Guerra Mundial. No início dos anos 50 deu aulas no Brasil, e desfilava no bloco carnavalesco “Os Farsantes de Copacabana”. Gostava de fazer batucada na frigideira e de tocar cuíca (diz a lenda que a cuíca causou seu divórcio com a primeira esposa). Mulherengo, todas as noites o doutor Feynman se embrenhava pelos botecos onde garotas faziam strip-tease. Mas durante o dia o renomado cientista não se envolvia com prostitutas. Dedicava-se a assediar as esposas dos seus alunos.
Trecho da HQ inédita NanoStein com roteiro de Gau Effe e desenho de Daniel Oliveira



Peripécias de um desenhador

Modesto como todo bom artista, Gau Effe é instrutor de artes visuais, professor de histórias em quadrinhos, ilustrador, cenógrafo, quadrinhista e caricaturista. Mas na hora de dizer qual a profissão, suaviza o traço: “Sou um desenhador”, diz e enfatiza que qualquer pessoa pode aprender a desenhar.
Eis aqui outro traço de união entre Feynman e Gau Effe – Feynman também gostava de desenhar. Dizia o Nobel da Física: “Eu queria muito aprender a desenhar por uma razão que guardava para mim mesmo. Queria transmitir a emoção que sinto diante da beleza do mundo. É um sentimento de espanto, de admiração científica, que eu senti que poderia ser comunicado através de um desenho para alguém que também sentisse essa emoção”, declarou o cientista. Feynman assinava suas obras de arte sob o pseudônimo de Ofey.
Por sua vida venturosa, o doutor Richard Feynman teve sua biografia transformada em história em quadrinhos com roteiro de Jim Ottaviani e desenhos de Leland Myrick. Até onde sei, este livro ainda não foi traduzido para o português.

Voltemos a Gau Effe.
Foto: David da Silva
Nascido na capital da Bahia, filho de uma sergipana, aos 3 anos foi morar com a mãe no Rio de Janeiro, depois veio para São Paulo onde se formou. No RG ele é Carlos Alberto Ferreira. Dá aulas de HQ desde 1984. O apelido Gau é coisa do tempo da adolescência.
As HQs entraram na vida de Gau Effe ainda na sua fase do Rio. “Lembro do Flecha Ligeira, do Kid Colt, do Zorro. Na época a gente chamava essas revistas de gibis”.
Heróis com superpoderes chegaram aos olhos de Gau Effe por volta de 1964-65 na tela da TV de um boteco carioca, onde pela primeira vez viu Nacional Kid.
Trecho da história em quadrinhos inédita de Gau Effe, que mescla medicina de ponta com grandes intrigas internacionais
Aos 22 anos de idade Gau Effe entrou no Iadê - Instituto de Arte e Decoração, onde o desenho ganhou a queda-de-braço com o teatro. Gau fez parte do Grupo de Teatro Vivará, fundado em 1978 por alunos do Iadê. Vem daí sua vertente de compositor de músicas teatrais e cenógrafo.
O entrosamento definitivo com o lápis veio do convívio intensificado com artistas paulistanos do traço. “Naquela ocasião descobri a revista Heavy Metal, que me levou à original Metal Hurlant, revista francesa de gênios como Moebius, Enki Bilal, Druillet, Rich Corben, Sergio Macedo, entre outros, que fizeram minha cabeça e me instigou a desenhar quadrinhos”, relata.
Gau Effe fez oficinas de HQs na extinta Associação de Artistas Gráficos e Fotógrafos de São Paulo (Agraf), e cursou Caricatura e Animação na FAAP com Rodolfo Cittadino em 1980-81.
Quando decidiu publicar seus quadrinhos, já ministrava oficinas no SESC e estava enturmado com profissionais consagrados como JAL, Gualberto, Franco, Worney, Laerte.
Desde janeiro de 2009 Gau Effe é professor de Desenho e HQ na Prefeitura de Taboão da Serra.
NanoStein será lançado com 68 páginas. Quem der apoio cultural ao projeto terá o nome impresso no livro

quarta-feira, 6 de março de 2019

Tula Pilar tem sua história preservada em arquivo mundial no Polo Norte

Biografia da poetisa está conservada em um cofre no fundo de uma montanha gelada no Círculo Polar Ártico

David da Silva

Agora a poetisa Tula Pilar tem dois endereços. O primeiro, é a residência dela aqui em Taboão da Serra. O segundo, é o arquipélago de Svalbard, no Mar da Noruega, onde desde o último dia 21 de fevereiro a sua história de vida está depositada em um cofre à prova de desastres, a mais de 100 metros de profundidade, em uma extinta mina de carvão.
Svalbard é a última cidade do planeta para quem navega em direção ao Polo Norte. Passou dali, são só geleiras. É a região do imperecível permafrost – o gelo que nunca derrete. A biografia de Tula Pilar foi parar lá pela parceria do Arquivo Mundial do Ártico com o Museu da Pessoa, que transferiu para aquela instituição 100 horas de gravações da sua coleção “Memórias de Brasileiros e Brasileiras”.
O Museu da Pessoa no Brasil tem mais de 20 mil histórias de vidas gravadas. Mas, para integrar o acervo do arquivo global precisou selecionar os relatos de apenas 300 pessoas. Tula Pilar foi uma das escolhidas.
O Arquivo Mundial do Ártico foi fundado em março de 2017 graças à associação da PIQL, empresa de ponta em preservação de arquivos, e a mineradora Store Norske Spitsbergen Kulkompani, empresa estatal pertencente ao Governo da Noruega.
Os relatos pessoais estão armazenados em uma região a salvo de terremotos e bombardeios em caso de guerra. Nem mesmo os hackers conseguirão profanar este depósito de dados, pois o local não está conectado à internet. As informações ali estocadas podem durar por mais de 500 anos.

No cocuruto do planeta

Na seta vermelha, a ilha onde está o Arquivo Mundial do Ártico

A “casa” onde as memórias da Pilar estão “morando” foi descoberta pelos vikings em 1194.
O arquipélago Svalbard está a 560 km da costa da Noruega e a 1.300 km do coração do Polo Norte.
Em 1899 foram descobertas grandes jazidas de carvão na ilha. O americano que explorava essa riqueza mineral, e levou as primeiras pessoas a morar lá, foi à falência em 1916, devido à Primeira Guerra Mundial. O governo norueguês comprou o negócio, e até hoje é dono de tudo por lá.
A biografia de Tula Pilar está acondicionada em uma instalação vizinha ao Silo Global de Sementes, que guarda quatro milhões e meio de espécies de sementes de quase todas as espécies vegetais do planeta.


Na foto abaixo, a porta da mina nº 3, aberta em 1984 e desativada quando a extração do carvão terminou. O local foi recondicionado para receber os arquivos de documentos, obras de arte e depoimentos humanos.
A mina nº 3 restaurada virou o Arquivo Mundial do Ártico


Pilar e o urso polar

Segundo o Gabinete Central de Estatísticas da Noruega hoje Svalbard tem 2.310 habitantes, sendo 1.239 homens e 1.071 mulheres.
Na região daquele arquipélago vivem 975 ursos polares, disse o relatório de pesquisadores noruegueses em dezembro de 2015. Isso dá uma média de um urso para cada três moradores da ilha.
Até placas de trânsito alertam para a presença de ursos em toda parte de Svalbard. Exemplo da eficácia do alerta é o ocorrido em 3 de junho do ano passado.

Às 7h30 daquele domingo a polícia de Svalbard recebeu um chamado. Havia um urso polar dentro de um dos hotéis.
Foto: Hilde Kristin Røsvik
A jornalista Hilde Kristin Røsvik chegou ao local antes da polícia, e a situação foi considerada segura. “Estamos acostumados com isso por aqui, por isso os funcionários andam sempre com rifles por aí”, relata a repórter. Quando os policiais chegaram de helicóptero, com o barulho o urso saiu pela janela, deixando uma bagunça feliz na despensa do hotel.
Em 2014 outro urso entrou no bar do Hotel Tulipan, no mesmo vilarejo.
Mas o último caso de pessoa morta por urso em Svalbard foi em 1995.

Se um dia Pilar for a Svalbard, vai dar muita risada ouvindo causos de ursos, e contando suas muitas histórias vividas nas quebradas do mundaréu.
Tula Pilar no Boteco Fecha-Nunca - Foto: David da Silva, 23.jun.2015


terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Há 92 anos, uma história de sangue na beira de um riacho


Para Augusto Cerqueira, livreiro
David da Silva

Exatamente em um dia 26 de fevereiro, 92 anos atrás, era publicada a 1ª versão do conto Homem da Esquina Rosada, o mais famoso texto de ficção do Jorge Luis Borges (voltei a Buenos Aires só para comprar os dois volumes com suas Obras Completas, e fiz questão de adquiri-las das mãos de um vetusto livreiro na legendária Feira de San Telmo).
Borges não entrega facilmente o período histórico nem o local preciso onde o Homem da Esquina Rosada se passa. Situa o caso pelos lados do riacho Maldonado (“de águas torrentosas e sofridas”, como diz o conto), numa fase imprecisa em que a periferia de Buenos Aires era apenas um amontoado de ruas barrentas e homens sanguinários. 
Trecho do Arroyo (riacho) Maldonado, em 1895. Na beira deste córrego o escritor Borges fez acontecer sua mais famosa ficção
Com humor transbordante ele deu a receita: “Prefiro situar meus contos em tempos remotos e em lugares um pouco indeterminados. Porque se não imediatamente os leitores vão descobrir erros”. E completa de forma ainda mais divertida: “Se não descobrirem erros logo na primeira leitura, vão procurar, e procurando, vão achar”.
O duelo (não realizado) entre os dois valentões da história é contado quando as águas do córrego Maldonado ainda corriam soltas, e a gente pode se atrever a imaginar que foi por volta de 1895.
Outra dica de data é o personagem violinista cego que, com a chegada da polícia, começa a tocar “umas habaneras que já não se ouvem mais”; ou seja, o tango já imperava, mas ainda era mal visto pela sociedade; era música circunscrita aos ambientes do submundo.

No fundão
Na época em que Borges põe Francisco Real e Rosendo Juárez pra se enfrentar, já existia o bar El Preferido, na esquina rosada do bairro Palermo (foto abaixo), onde o escritor viveu sua infância.
Bar centenário, fundado em 1885, perto da casa onde cresceu Jorge Luis Borges, na rua que hoje leva o seu nome.
Foto: David da Silva
Mas ele preferiu empurrar o acontecido mais para o fundo, para as beiradas da então nascente Buenos Aires, lá pra cima da Vila Santa Rita. E em vez de um bar de família, ele coloca os personagens dentro de um puteiro, com muita cachaça, milonga, o mulherio e os palavrões.
Se o conto se passa num trecho inexato entre as atuais Avenida Gaona e Avenida Juan B. Justo, aqui a história ganha um componente de Brasil. A Gaona era o Camino de Gauna no conto, assim como a Juan B. Justo de agora era o ribeirão Maldonado, hoje totalmente canalizado.
As ruas daquela região eram indomáveis, sempre alagadas. No início dos anos 1800, o governo implementou grandes obras de aterramento para submeter as vias públicas à força do progresso. Em 1828 o Brasil estava em guerra contra a Argentina, na disputa pela Cisplatina (Uruguai). Os marinheiros brasileiros feitos prisioneiros no conflito foram colocados em trabalho forçado carregando terra para cobrir os charcos do Caminho de Gauna. É nestas imediações que ficava o “salão da Júlia”, onde acontece o Homem da Esquina Rosada.
Borges situa o conto Esquina Rosada em algum ponto deste quadrilátero da Vila Santa Rita, entre as avenidas Gaona e Juan B. Justo. O "salão da Júlia" ficava na beirada do arroyo Maldonado (hoje Av. Juan B. Justo), pois tudo o que se jogava pela janela dos fundos caia diretamente no córrego.


Bastidores do conto

A versão pioneira de Homem da Esquina Rosada surgiu em 1927 como Notícia Policial, com letras pequeníssimas na coluna central da revista Martin Fierro.
Borges não era um neófito; estava com 28 anos de idade, já tinha quatro livros publicados, dois de poemas e dois de ensaios. Mas nunca tinha escrito ficção.
No ano seguinte Leyenda Policial reaparece ampliado sob o título Hombres pelearan (homens brigaram) que deu origem a Hombre de las orillas (homem da periferia) publicado no jornal Crítica em um sábado 16 de setembro de 1933. Mas ali ele não usa seu nome. Assinou com o pseudônimo Francisco Bustos. Como se estivesse ensaiando o voo mais alto no universo da ficção.
Em 1935 o conto foi publicado na forma definitiva no livro História Universal da Infâmia.
A mitologia suburbana presente neste conto vem das coisas que Borges escutava quando criança. Muito precoce, o moleque escreveu seu primeiro conto aos 9 anos de idade, e com 10 traduziu do inglês para o espanhol O Príncipe Feliz, de Oscar Wilde. Por isto foi com certo desgosto que os pais viram seu menino se interessar mais pelas coisas mundanas da periferia, do que se entregar a temas literários mais “elevados”.

Pé no chão
O garotinho classe média alta sentia atração irrefreável pela realidade proletária que rodeava sua casa paterna. É o próprio Borges quem conta:
“Durante muitos anos acreditei ter sido criado em um subúrbio de Buenos Aires. Mas o certo é que me criei em um jardim, detrás de uma grade com lanças. O bairro Palermo do punhal e do violão ficava pelas esquinas”.
É na busca do que existia no lado de fora da grade com lanças que surge Hombre de la Esquina Rosada.
O responsável pelo ingresso de Borges no mundo da periferia foi seu vizinho Evaristo Carriego, poeta exaltador dos subúrbios morto de tuberculose com apenas 29 anos de idade e um único livro publicado.
Borges é o pioneiro a trazer para a literatura as classes populares do conurbano bonaerense.

Legado de um conto imortal
A grande sacada de Hombre de la Esquina Rosada é a força das imagens que ele imprime em nosso cérebro. Note que o título do conto não tem artigo, igual aos títulos da maioria dos quadros dos grandes pintores.
Em 1962 surgiu uma primeira adaptação do conto para o cinema. O filme dirigido por René Mugica traz Francisco Petrone no papel de Francisco Real, el Corralero; Suzana Campos como a sedutora La Lujanera, e Jacinto Herrera encarnando Rosendo Juárez, el Pegador.
Borges no set de filmagens do seu conto em 1962
Em 1965 Borges se uniu a Astor Piazzola para compor o disco El Tango, tendo em uma das faixas a musicalização da trágica noite no salão da Júlia.
Em 19 de setembro de 1985 veio a público a adaptação do Hombre para história em quadrinhos, com roteiro de José Luis Arévalo e desenhos de Carlos Alberto Magallanes.
Uma das transposições de Hombre para outra forma de arte de que Borges mais gostou, foi um balé. “Quando escrevi este conto eu o fiz com um propósito visual. E pensei que seria curioso aplicar um assunto de periferia a essa técnica que quer que cada coisa ocorra de um modo muito intenso, quer dizer, que todas as coisas ocorram como um balé”, explica o autor. A bailarina Ana Itelman coreografou o conto em 1960.

Frases imagéticas
A magia pictórica deste conto emana de frases poderosas, que vamos descobrindo a cada releitura, como se antes não estivessem ali.
Há um parágrafo no conto aonde o narrador vai para fora do salão, decepcionado com o homem a quem até agora considerava um mito. “Fiquei olhando aquelas coisas da vida inteira – céu até dizer chega, o riacho se empelotando solitário lá embaixo, um cavalo dormido, o beco de terra, os fornos das olarias dos tijolos...”
Ao refletir sobre sua condição de humilde morador da periferia, permite-se a autocomiseração: “Pensei que eu era apenas outro matinho daquelas beiras, criado entre flores de brejo e ossadas. (...) Me deu coragem de sentir que não éramos ninguém”.
Mas logo sobrevém a autoestima: “Senti depois que não. Que quanto mais aporrinhado o bairro, maior a obrigação de ser bravo”. Encanta-se com o espetáculo celeste: “Havia estrelas de se ficar tonto olhando-as, umas em cima das outras”. E louva em pensamento a música e o cheiro das madressilvas que o vento traz. “Lá fora estava querendo clarear. Uns postes sobre o morro pareciam soltos, porque os fios fininhos não se deixavam avistar tão cedo”.
A energia imagética do texto explode na caracterização de Rosendo: “Os homens e os cachorros o respeitavam e as mulheres também. Os moços copiávamos até seu jeito de cuspir”.
Outra descrição cirúrgica é a da personagem La Lujanera: “Vê-la não dava sono”.
Nada, porém, é mais contundente do que a definição da figura do provocador Francisco Real, el Corralero: “ ... chamaram à porta com autoridade, uma pancada e uma voz... um silêncio geral, uma peitada poderosa na porta e o homem estava dentro. O homem era parecido com a voz”.
Borges no traço de Iñaki Massini Pontis (2010)

Rosendo redimido
O narrador autodiegético volta pra casa no fim da madrugada com um conceito ruim do seu ex-herói. Ele é mantido sem nome desde o início, mesmo com Borges tendo experimentado nomes variados para os personagens centrais – no manuscrito original (vendido em 1996 por 164.000 dólares) Francisco Real era Francisco Madrano, e Rosendo Juárez era Rosendo Fraga.
Por falar em personagens centrais, é só na última frase do conto que Borges nos deixa saber qual o real papel do narrador anônimo na encrenca toda.
Trinta e cinco anos depois de publicar Hombre de la Esquina Rosada Borges retomou o assunto com História de Rosendo Juárez, integrante do volume O Informe de Brodie (1970).
A história de Rosendo também é ambientada numa quebrada do mundaréu. “Seriam umas 11 da noite; eu tinha entrado no armazém, que agora é um bar”, principia o narrador. Lá num canto do armazém, sentado a uma mesa diante de um copo vazio, um homem faz pssst chamando para conversar. É Rosendo agora que quer contar a sua versão dos fatos.
Córrego Maldonado em 1934, dois quarteirões acima do lugar onde Borges imaginou o conto Homem da Esquina Rosada. Foi nesta água que o personagem Rosendo jogou sua faca pela janela dos fundos do salão da Júlia

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Doutor em hip-hop lança livro em SP, dia 26

Batista Félix é doutor em Antropologia Social. Foto: Reprodução

David da Silva

O antropólogo Batista e eu éramos “ratos” da Biblioteca Mário de Andrade, no centro da cidade de São Paulo. Após o último encontro em 1982, só voltei a vê-lo 25 anos depois em uma palestra no Cemur, espaço de eventos em Taboão da Serra. De lá pra cá, nosso contato só rompe a distância de 2.225 quilômetros na cerveja de fim de ano.
Professor na Universidade Federal de Tocantinópolis, doutor em Antropologia Social e Coordenador do Curso de Ciências Sociais, o meu mano João Batista de Jesus Félix lança na 6ª-feira, 26 de outubro, seu livro Hip-Hop: Cultura e Política no Contexto Paulistano.

Um rapaz desce bufando de raiva a Rua São Vicente, no bairro paulistano do Bexiga. Estamos em julho de 1987. Ao passar pela quadra da Escola de Samba Vai-Vai, o que ecoa na cabeça de João Batista não é o som dos tamborins. Soam-lhe pesadas as palavras do advogado Celso Fontana, no escritório de quem Batista estava minutos atrás. “Pôrra, Batista! Você não tem nenhum curso superior? Assim não dá! Eu achava que você fosse formado”. A decepção do advogado vinha da admiração que nutria pela vasta cultura do rapaz. Velhos amigos, Celso Fontana se prontificou a apresentar Batista para uma vaga na Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo. Mas quando viu o currículo do moço...
Os imensos conhecimentos de história, cinema e filosofia de Batista vinham das suas longas jornadas de leituras na Mário (esta intimidade é concedida a mim e ao meu amigo devido à nossa assiduidade naquele templo do aprendizado autodidata). A biblioteca-símbolo de Sampa fazia a nossa conexão norte-sul. Batista é do Bairro do Limão, e eu, das quebradas do quadrante sudoeste da Grande SP.

“Esfregar na cara”
Sem um puto no bolso, Batista resolveu bater na recepção de um curso pré-vestibular ali mesmo na Rua São Vicente onde descarregava sua bronca numa caminhada estugada. Conquistada a bolsa de estudo, ingressou na turma de agosto. Em dezembro a Fuvest anunciava que Batista fora admitido na USP (Universidade de São Paulo).
Sua aplicação no estudo tinha uma pitada de vingança. “Eu não tinha engolido o desaforo do Celso em não levar meu currículo à prefeitura. Minha intenção era terminar a graduação e esfregar o diploma na cara dele. Hoje sou totalmente grato a ele. Sem a atitude dele eu jamais teria tomado a decisão que mudou profundamente a minha vida”, relata.
No ano 2000 Batista defendeu sua dissertação de mestrado, fruto de 15 anos de pesquisa sobre a construção da identidade negra nos bailes paulistanos. Em 2006 defendeu sua tese de doutorado que agora chega ao grande público no formato físico do livro.
A ladeira onde Batista decidiu mudar o rumo da sua vida. Rua São Vicente - São Paulo/SP

“Operação Salva Batista”
O êxito acadêmico não se deu sem percalços. No último degrau para se tornar doutor, Batista balançou. Seus colegas montaram uma operação de resgate para dar respaldo na redação final da sua tese de doutorado.
Nenhuma narrativa escrita substitui o relato em viva voz do Batista sobre a tal operação de salvamento. Nada supera as modulações da sua voz possante. Nenhum prazer maior do que ouvir sua explanação explodir em gargalhadas de vigor vulcânico. Vê-lo rir remete a um trecho do Henry Miller, onde o autor norte-americano afirma que dos negros provêm “acessos autênticos de riso como nunca se ouviram de gargantas de gente branca. O negro ri tão facilmente quanto respira” (The Rosy Crucifixion – Plexus).

De olho no furacão
Batista teve um estudo seu publicado no Anuário Brasileiro de Segurança Pública, lançado em 30 de agosto deste ano. O autor debruçou-se sobre as estatísticas dos homicídios em Tocantins no período de 2014 a 2017. Constatou que o número de mortes violentas intencionais ali cresceram 12,7% no período. Mortes causadas por intervenções policiais naquele Estado subiram 1.380% nos quatro anos pesquisados. Se entre 2014 e 2017 a polícia de Tocantins matou 74 pessoas, 46 delas ocorreram só em 2017.
Além de professor, Batista é Diretor de Cultura da
Universidade Federal de Tocantins

Suburbano coração
Para o seu mestrado, Batista foi atrás dos sons dos subúrbios. Se embrenhou nos bailes black. Seu périplo pela periferia me lembra Jorge Luis Borges quando moço, onde o escritor argentino revela que “en aquel tiempo, buscaba los atardeceres, los arrabales y la desdicha”.
O doutorado de Batista veio de outro mergulho nas entranhas da metrópole.
Uma das suas conclusões foi que “a aproximação entre o PT (Partido dos Trabalhadores) e o rap [na periferia paulistana] fez com que esses grupos não sentissem a necessidade de criar nenhuma forma de atuação política alternativa”. O movimento hip-hop se sentia protegido pelo partido. Cria que o partido podia resolver todas as paradas. A análise fria de Batista prenunciava uma advertência diante da ingenuidade política do movimento.
Sintomaticamente, na noite de ontem o maior nome do rap nacional falou que o PT perdeu a capacidade de interagir com as periferias. Espetando o polegar no ar, Mano Brown apontou de costas para membros do PT e seus candidatos a presidente e vice: “O pessoal daqui falhou e agora vai pagar o preço. Porque a comunicação é alma, e se não está falando a língua do povo vai perder mesmo, certo?”, questionou o líder dos Racionais MC’s.
O artista se mostrou desiludido com a atuação partidária. “Política não rima, não tem swing, não tem balanço. Não tem nada que me interessa”, depreciou.

NOITE DE AUTÓGRAFOS
Hip-Hop: Cultura e Política no Contexto Paulistano (Editora Appris)
De João Batista de Jesus Felix
26 de outubro de 2018 – sexta-feira, às 19h
Sindicato dos Professores (APEOESP)
Praça da República, 282 – São Paulo/SP

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O grafite guerreiro de Marcelo Molão

Molão com grafite de Sérgio Vaz feito a partir de foto de Ricardo Vaz. Foto: David da Silva
David da Silva

Ligeiro no desenho, lento no futebol. Vem daí o nome de guerra de um dos melhores grafiteiros do Estado de São Paulo. “Eu era bom de bola, mas os moleques diziam que eu era mole, o apelido pegou”, recorda rindo. Marcelo Molão recebeu a reportagem para falar do encontro de grafite que está organizando no Projeto Nós por Nós, a ser realizado em novembro. Também antecipa que seu personagem Pele Vermelha, famoso nos muros das quebradas, vai virar história em quadrinhos. O primeiro volume está em fase de roteirização, em parceria com Stephanie Funny.

 Molão é paulistano da gema. “Poucos têm o privilégio de ser batizado na Catedral da Sé. Eu fui. Meu pai trabalhava perto da Sé, e morava no próprio emprego. Mas ele judiava da minha mãe. Quando eu tinha quatro anos ela largou dele, fomos morar no Real Parque [bairro da zona sul de SP]. Quando fiz 10 anos de idade viemos morar no Jardim do Colégio [subúrbio de Embu das Artes, região sudoeste da Grande São Paulo]”.

Para chegar à casa do artista, o carro sai da Avenida Aymará, sobe serpenteando a Rua Órion, cruza a Triângulo Astral, e desemboca na Rua Eridano, na confluência com a Rua Pégaso, quase esquina com a Rua Centauro, a poucos metros da Rua Ursa Maior. Você já se ligou que as vias públicas do lugar são todas ligadas à astronomia.
Fachada de imóvel no Jd do Colégio. Arte: Molão
Estamos no coração da terra do Pele Vermelha. Aqui Marcelo Molão é onipresente. Seus grafites estão nas fachadas de estabelecimentos comerciais, nos muros das residências, na carenagem de carros e motos, em tatuagens, e principalmente no Boteco do Velho. “Aqui é o meu escritório”, diz divertido ao entrar no bar do Reinaldo.

Menino tem a atenção atraída por grafite no Jardim do Colégio. Foto: David da Silva
Gostos e influências
Molão foi abduzido pelo grafite ainda criança. “Eu me ligava nos desenhos dos muros, pirava com a combinação das cores, e senti que eu também era capaz de fazer aquilo”, relata enquanto sorve goles de cerveja Lokal.
No mundo do grafite sua admiração vai para Gláucio Santos. “Conheci ele na locadora de vídeos onde trabalhei por 13 anos. Gláucio era freguês da loja. É um monstrão no grafite, aprendi muito vendo os seus trampos”.
No universo do cartoon, o ídolo de Molão é Angeli.
No panorama musical, o astro que brilha é Al Green. “O Al Green é a trilha sonora da minha vida inteira”.

Sina de grafiteiro
A devoção de Marcelo Molão à Arte já rendeu fruto. Excelente fruto, por sinal. Seu filho, também chamado Marcelo, mas com nome artístico Mazola, 20 anos, é respeitado na galera da street art. “Minhas filhas também curtem lidar com tintas. Talvez saia mais algum artista lá de casa”, diz nomeando as meninas Isabela, 18, Giovanna, 14, e Luíza, sete anos.

Mazola não esconde o orgulho de o filho ser igual seu pai. “É sempre um grande prazer pintar com meu pai. Sempre quando estamos juntos num trampo são altas zoeiras, risadas, aprendizado, ideias boas que fluem. Às vezes uns desentendimentos, mas acontece nas melhores famílias. Enfim, a saga continua”, escreveu recentemente em sua conta do Facebook.
Mazola e sua arte (Morgan Freeman) na Bienal Internacional de Graffiti em set/2018. Foto: Ranielly Bezerra
Galeria de heróis anônimos
Molão tem grande prazer em desenhar moradores símbolo do seu bairro. As biografias mudas ganham eloqüência nos murais.
Seu Anísio fez 80 anos em 10 de março. Natural de Monteiro (PB). “Faz 30 anos que tô quieto aqui no Jd do Colégio. Trabalhei em parque de diversão e circo. Qualquer lugar do Brasil que você me perguntar, eu já fui. Aprendi tocar sanfona sozinho. Muitas coisas já não lembro. Tem vez que esqueço até do meu nome. Minha cabeça não tá mais funcionando direito”. Arte: Molão. Foto: David da Silva
“Eu sempre quis homenagear o Velho Mancha, morador ancião aqui do bairro. Ele era pintor de paredes. Figura marcante. Ainda bem que ele teve tempo de ver a pintura que fiz dele.”, diz Molão. Mancha faleceu em agosto/2018. Foto: David da Silva

O mundo distópico do Pele Vermelha

O personagem criado por Molão é filho da amargura. “Quando perdi minha família, parei de acreditar em várias coisas. Em 2012 minha mãe morreu de infarto fulminante aos 62 anos. Em 2013 meu irmão Anderson de 26 anos morreu em acidente de automóvel. Daí o Pele Vermelha brotou na minha mente. Eu ainda não sabia que nome ele teria, nem o jeito que era. Mas o tema veio forte”, explica o autor.

O criador e a criatura. Foto: Reprodução | Facebook

Pele Vermelha é uma espécie de alter ego do povo da periferia. “Tem muito Pele Vermelha por aí, viu? Ele é o trabalhador sofrido, que cumpre com as obrigações, acredita nas pessoas. Mas na hora do vamos ver, não consegue nada”.
No gibi, Pele Vermelha já vai estar no último degrau da vida. “Os quadrinhos vão mostrar o Pele com mais ou menos uns 80 anos. Mas ainda estamos desenvolvendo este assunto.  Vamos mostrar ele quando ainda brincava com crianças, tinha esperanças”, diz Molão que na capa da HQ aparece com assinatura espelhada OALOM.
Em novembro de 2017 Marcelo Molão fez a exposição Pele Vermelha na Terra do Cão, na organização não governamental Associação Comitiva Esperança, no Jardim Independência, onde ensina desenho para crianças embuenses.

O encontro de grafiteiros, em data a ser divulgada em breve, vai rolar na Rua Pégaso, nº 164, próximo ao CEU Jardim do Colégio.

Conheça um pouco mais da Arte de Marcelo Molão aqui

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AGRADECIMENTOS

Apesar de as ruas do Jd do Colégio terem nomes de corpos celestes, na hora de eu ir embora a Claro não tinha sinal de internet naquele local. Fui salvo pela gentileza da Irlândia, morena de beleza majestosa, que chamou o Uber para a reportagem.
Foto: Bruna Morgado - 12.out.2018
Fiel escudeira - A técnica em logística Bruna, 26 anos, sempre acompanha os grafiteiros. “Um dia o Molão falou pra mim: ‘Você tá sempre junto com a gente, mas não desenha nada. Tá na hora de você fazer alguma arte sua’. Fui no muro e fiz. Gosto de desenhar gatos”. Fotos: Bruna Morgado (esq) e David da Silva

Reinaldo Silva de Oliveira, 62 anos, natural de Rui Barbosa (BA) mora há 22 anos no Jd do Colégio. Antes do comércio próprio, trabalhou em lanchonete, padaria e lojas de roupas e calçados. Foto: David da Silva