quinta-feira, 21 de junho de 2018

Julia Ferreira reconquista espaço da Bossa Nova em SP

Bourbon Street é a próxima parada da cantora que já se apresentou no Beco das Garrafas e no Bar Brahma. Foto: David da Silva - 04.jun.2018
David da Silva

“São Paulo foi a primeira cidade a aderir e importar grandes nomes da Bossa Nova”. A afirmação é de uma autoridade eclesiástica no assunto. O musicólogo Zuza Homem de Mello aponta a capital paulista como o primeiro lugar onde compositores bossa-novistas conheceram a consagração longe das praias cariocas. O show coletivo no Carneggie Hall de Nova York na noite de 21 de novembro de 1962 foi sofrível – a ponto de a revista The New Yorker escrever “Bossa, go home” (Bossa Nova, volte para casa). Foi aqui em SP onde Tom Jobim deu o primeiro grande espetáculo da sua vida em solo brasileiro. Baden Powell optou por SP para fazer seu show na volta ao Brasil depois de anos morando em Paris. A noite paulistana foi o ambiente de trabalho eleito por Johnny Alf, que se mudou do Rio para cá em 1955, três anos antes da data considerada oficial da Bossa Nova.
É o peso dessas referências que passa pela voz de uma artista paulista de 22 anos de idade no projeto que homenageia os 60 anos de criação da Bossa Nova. A cantora Julia Ferreira se apresentou em 28 de abril último no legendário Beco das Garrafas, berço do movimento no Rio. Em 4 de junho a apresentação foi no histórico Bar Brahma, em SP.

Como e quando Julia e Oscar passaram a trabalhar juntos, já contei aqui
No Beco das Garrafas c/ Rubens Barbosa (baixo) e Rick Siqueira (bateria)
“Nossa próxima apresentação será no Bourbon Street aqui de SP, e depois faremos uma temporada na Casa Natura Musical, também aqui na capital”, antecipa o guitarrista Oscar González, criador do projeto e diretor musical dos espetáculos onde Julia Ferreira se firma como uma sólida promessa de vida nos corações de quem anseia pela boa música de Jobim, Menescal, Carlos Lyra, Marcos Valle, Djalma Ferreira, e outros gênios da Bossa Nova.

Carioca da gema, cidadã paulistana
Com a certidão de nascimento carimbada no Rio, a Bossa Nova tornou-se em pouquíssimo tempo cidadã da “terra da garoa”. A tal ponto que a Rádio Eldorado, emissora paulista fundada em 1958 (ano da gravação de “Chega de Saudade”) tinha como prefixo musical “Bim Bom”, composta pelo mesmo João Gilberto que eternizou a composição de Jobim e Vinícius de Moraes.
Se o precursor Johnny Alf já tinha trazido seu piano para SP três anos antes da eclosão do movimento, em 1962 e 1963 foi a vez de as cantoras Alaíde Costa e Claudette Soares trocarem Copacabana pela Praça Roosevelt. Nessa praça, em 1959 o pianista e cantor Dick Farney já tinha aberto um bar (o Farney’s, depois comprado por Djalma Ferreira tornando-se Djalma’s, e hoje, na posse de Esdras Vassalo (Doca) se chama “Pinga, Papo e Petiscos”). Foi neste histórico número 118 da Praça Roosevelt que Elis Regina cantou pela primeira vez em SP, no dia 5 de agosto de 1964.
Naquele mesmo ano de 1964, no dia 26 de outubro, Tom Jobim se apresentou pela primeira vez ao vivo para os paulistas, no show O Remédio é Bossa, na platéia repleta de 1.530 lugares do teatro Paramount.
Foto: David da Silva
Túmulo do samba?
O jornalista Ruy Castro diz que “mudar-se para SP foi a solução mais confortável encontrada pela Bossa Nova para fazer de conta que não estava saindo de casa”. No auge bossa-novístico, a capital paulista tinha 27 importantes casas noturnas dedicadas a este estilo musical.
Foi numa dessas casas, a boate Cave na Rua da Consolação, que Vinícius de Moraes ficou muito puto com um grupinho de burgueses bêbados que falando alto atrapalhavam o som de Johnny Alf. “Meu irmãozinho, pegue a sua malinha e se mande para o Rio, porque São Paulo é o túmulo do samba”, aconselhou o poeta ao pianista. Claro que era um exagero, e Johnny Alf morou em SP até falecer.
Foi também na boate Cave onde Baden Powell tocou pela primeira vez no Brasil após sua volta de Paris. Ele lotou aquela casa durante um mês acompanhado pelo Jongo Trio.
Por falar em trio, foi na Baiúca, na mesma Rua da Consolação, que em 1964 nasceu o Zimbo Trio, um dos grupos mais representativos da música instrumental brasileira.

É no solo fértil destes acontecimentos, que a voz de Julia Ferreira e a guitarra de Oscar González resgatam a paisagem sonora que São Paulo nunca mereceu ter perdido.
Show no Bar Brahma c/ Billy Magno (piano e sax), Rick Siqueira (bateria) e Jorginho Silva (contrabaixo). 
Foto: David da Silva - 04.jun.2018

segunda-feira, 7 de maio de 2018

O morto no banco dos réus

Fotomontagem sobre certidão disponível no site do Tribunal de Justiça de São Paulo
David da Silva

Nos últimos sete dias as redes sociais viraram palco de linchamento moral contra Ricardo de Oliveira Galvão Pinheiro, 39 anos, morto na 3ª-feira passada agarrado à parede do prédio abandonado onde morava há quatro anos. Devido a duas tatuagens que trazia no peito com desenhos de palhaços, o homem está sendo postumamente apontado por milhões de internautas como “matador de policiais”.
Na consulta que fiz ao Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, não existe processo criminal contra ele.
No nome de Ricardo aparecem apenas uma ação de despejo por falta de pagamento de aluguel em 2013, e uma execução fiscal movida pela Prefeitura de São Paulo em 2011. A dívida com a prefeitura vem da microempresa de revenda de eletrônicos que Ricardo tinha em seu nome com o CNPJ 11.290.308/0001-35, estabelecida na Travessa Julio Tupy, 45, casa 1-B, Vila Nancy, zona leste de São Paulo.
Parte da equipe de ajudantes de caminhão que era coordenada por Ricardo "Tatuage",
na Rua Tiers, nº 282, bairro do Brás
Depois que se tornou morador em situação de rua, Ricardo trabalhou como eletricista, entregador, lustrador e lavador de carro. Na Justiça do Trabalho constam dois processos (de 2015 e 2016) que moveu contra seus empregadores, o último deles uma pizzaria na Rua Conselheiro Nébias, nº 1251, bairro Campos Elíseos, região central de São Paulo.
Depósito de mercadorias onde Ricardo trabalhava no Shopping Porto Brás, no setor leste da cidade de São Paulo. Foto: Rauan Costa Neto
Atualmente, Ricardo coordenava uma turma de 30 ajudantes de caminhão a serviço de comerciantes do Brás, e também fazia bicos na Rua 25 de Março.
“Eu conhecia ele porque a gente trabalhava junto. Fazia carga e descarga de contêiner com coisas da China, bolsa, brinquedo, essas coisas”, conta Rauan Costa Neto. “Segunda-feira mesmo a gente descarregou um caminhão na 25 de Março”, conta Rauan sobre o dia anterior à morte do colega.


Comentário no Instagran
A farra e os fake-news


Em 25 de setembro de 2015 Ricardo postou no instagram foto sua com uma sacola contendo dinheiro. A imagem desencadeou uma tonelada de comentários acusando-o de pertencer ao PCC, que o dinheiro era da venda de drogas, que era Ricardo quem fazia o recolhe do dinheiro extorquido dos moradores da ocupação, e que ele teria voltado ao prédio em chamas não para salvar vidas, mas para retirar as sacolas de dinheiro.

Sobre isto Rauan afirma que a foto foi uma farra; encheram a sacola com papéis e puseram dinheiro por cima. Aquela quantia, segundo Rauan, provinha da venda de uma moto de Ricardo.
Ricardo estava a poucos metros e poucos segundos para ser salvo. No topo do prédio verde, o bombeiro o aguardava quando o edifício desmoronou. Imagem: Abiatar Arruda | TV Globo

Corpo e honra aos pedaços

No filme The Lost Honor of Christopher Jefferies um advogado diz: “As coisas de que uma pessoa pode se livrar por parecer normal”. O filme é sobre um fato ocorrido em 2011 na Inglaterra, e a pessoa ofendida recebeu uma fortuna de indenização dos seus caluniadores. Ricardo não terá a mesma sorte.
Seu corpo despedaçado foi encontrado graças a Vasty, uma cadela de 5 anos da raça pastor belga, do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo. O animal farejou carne humana entre os destroços ao meio dia da 5ª-feira, 3 de maio.
Na 6ª-feira por volta das 14h a equipe de resgate encontrou uma das pernas separada do corpo. Mais adiante, o tórax esmigalhado, os braços arrancados do tronco. Mas não acharam a cabeça.
O corpo decapitado saiu do IML às 11h do sábado, 5 de maio, para o Cemitério da Vila Formosa, aonde chegou às 12h30. Depois de um velório tão curto quanto constrangedor, os restos mortais parciais de Ricardo foram sepultados às 13h30.
Somente no cair da tarde de domingo, às 17h do sombrio 6 de maio, os bombeiros localizaram as arcadas dentárias e um pedaço do rosto de Ricardo.
Ricardo "Tatuage" em 28.mar.2015 - Foto: Plinio Hokama Angeli | Folha de SP
O fato de Ricardo ostentar uma aparência diferente o transformou em alvo fácil para toneladas de julgamentos atrozes. 
Nos dias de hoje com a velocidade eletrônica das trocas de insultos, basta um pequeno estopim para desencadear opiniões impiedosas.  No meu perfil do Facebook, até as 15h19 (momento desta postagem) recebi 36.881 comentários, milhares deles atribuindo a este sofredor uma vida de crimes.
Mas também tive 53.369 compartilhamentos favoráveis ao rapaz imolado.
Se diante uma tragédia desta dimensão as pessoas ainda se colocam “contra” ou “a favor” das vítimas, é sinal que não foi apenas o prédio que desmoronou. Nossa sociedade desabou junto.
Funeral de Ricardo no Cemitério Vila Formosa, cinco dias após a sua morte. Foto: Rauan C. Neto

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Bossa Nova recria força na voz de Julia Ferreira

Júlia Ferreira e Oscar Gonzalez trazem de volta o estilo de cantar e viver das décadas do nascimento e expansão da bossa nova. Foto: David da Silva - 21.abr.2018


David da Silva

“É tão difícil que dá até gosto a gente aprender”. Essa a reação da cantora Julia Ferreira, 22 anos, ao ser introduzida no universo da bossa nova pelo guitarrista Oscar Gonzalez. Além de instrumentista Gonzalez, 50 anos de idade e 35 de músico profissional, é produtor de espetáculos, arranjador, dono de estúdio de gravação e autor do projeto Bossa Nova 60 Anos. Ambos moram em Taboão da Serra onde iniciaram o estudo da música, ele aos 14 e ela aos 13 de idade. A bossa nova é o traço de união entre estes dois artistas de diferentes gerações que embarcam logo mais às 23h30 de hoje para o Rio de Janeiro, para uma apresentação na casa de espetáculos onde Elis Regina saltou para o estrelato na MPB. O show no legendário Beco das Garrafas será no próximo sábado.
Oscar Gonzalez. Foto: David da Silva - 21.abr.2018
O projeto de Oscar Gonzalez em louvor ao estilo musical criado por Tom Jobim e João Gilberto demorou a se concretizar. Se no teatro há a peça Seis Personagens à procura de um Autor, no caso de Gonzalez era um projeto à procura de uma voz. “Há três anos pensei nesta homenagem à bossa nova, que agora em 2018 completa 60 anos de criação. Fiz testes com várias cantoras, mas nenhuma delas se encaixava no que eu queria. Até que me lembrei de uma garota que eu tinha conhecido tempos atrás aqui mesmo no meu estúdio, e fui atrás dela. Demorei dois anos para encontrá-la, pois eu não sabia que ela tinha ido morar em Portugal”, relata Oscar.

Reviravoltas da vida

Por estar sem seu automóvel na noite daquela 4ª-feira 18 de outubro de 2017, Oscar foi a um caixa eletrônico no bairro Jardim Helena, cerca de 600 metros de onde mora. “Como ele não tem hábito de pegar ônibus, teve de retirar dinheiro para pagar a passagem”, conta Julia Ferreira, que na ocasião não tinha a menor ideia de que Oscar estivesse à sua procura.
“Morei em Portugal por nove meses com o ex-namorado, mas a relação acabou, e voltei muito mal para o Brasil”, relembra Julia. Vítima da depressão e síndrome do pânico, a garota se enfurnou na casa da mãe. “Não teria a menor chance de o Oscar me encontrar na rua ou qualquer outro lugar, pois eu não tinha coragem de sair. Cheguei a pensar em suicídio. Mas naquela noite de 4ª-feira meu pai insistiu pra eu ir a um concerto da Associação Músicos do Futuro na Câmara [Municipal de Taboão da Serra] que fica a poucos metros da casa da minha mãe. E mesmo assim se meu pai não me levasse de carro eu não teria ido”, diz.

Foi justamente do carro do pai que Julia desceu para dar de cara com Oscar. “Saí do caixa eletrônico e fui para o ponto de ônibus, quando aquele carro parou bem na minha frente”, lembra o guitarrista.
Julia já tinha estudado piano por cinco anos na Associação Músicos do Futuro antes de ir morar com o ex-companheiro. Mas não conhecia a bossa nova. “O Oscar me falou do projeto, eu disse pra ele que eu não tinha noção deste estilo de música, mas aceitei o desafio”, recorda.

A primeira canção que Oscar mostrou para Julia foi Atrás da Porta. A letra de Chico Buarque para esta melodia de Francis Hime fala de um amor despedaçado. “Aquela música era exatamente o que eu estava passando. Pensei: ‘vou depositar toda a minha tristeza nesta interpretação’. E daí em diante o Oscar foi me passando mais músicas”, diz a garota com a felicidade de o projeto musical e a sua existência se engrenarem abrindo nova promessa de vida para o seu coração.

Caminhos cruzados

A experiência infeliz no relacionamento forjou em Julia a capacidade de entender as mensagens das canções do amor demais. E a longa vivência de Oscar com a música desde a infância o ensinou a crer em predestinação sonora.
“Eu nasci em Santiago do Chile, onde meu pai engenheiro ouvia muita música boa”, conta Oscar, “e quando eu era bem criança ouvi no rádio Toquinho e Vinícius com Maria Creuza cantarem Você Abusou [composição da dupla Antonio Carlos e Jocafi]. Foi meu primeiro contato com a língua portuguesa, e em 1975 quando eu estava com 7 a 8 anos minha família mudou para o Brasil”.

Em 1984 Oscar morava na Rua Ernesto Capelari, próximo ao Largo do Taboão, onde conheceu os músicos Mário Garcia e Wally Garcia. Ali iniciava sua trajetória por palcos e estúdios de gravação. Mário Garcia era diretor musical da dupla que Oscar conheceu por meio da rádio chilena. “Na primeira vez que acompanhei o Mário e o Wally num estúdio, o Antonio Carlos e Jocafi por coincidência estavam fazendo uma regravação justamente da música Você Abusou que eu tinha conhecido quando criança. Tive de ir pro corredor chorar de tanta emoção”, rememora.
Julia: reconciliada com a Música
Foto: David da Silva - 21.abr.2018

A entrada da música na vida de Julia Ferreira se deu de maneira peculiar. “Eu era muito rebelde na adolescência, dava muito trabalho pros meus pais. Daí uma pessoa do Conselho Tutelar sugeriu que eu fosse para a Associação Músicos do Futuro”, lembra a moça rindo.
Durante os anos em que ficou afastada da música trabalhando em shopping, estudando Arquitetura, ou se virando em Lisboa como assistente de pasteleira-chefe, a moça só pensava se a vida ainda lhe daria a chance de um caminho de volta para a Música.
“Quando fui na casa do meu pai buscar os livros e cadernos de ensino musical que eu tinha deixado há tanto tempo, fiquei olhando para aquele material didático dentro do elevador, e chorando muito”, diz a cantora.

No período de outubro a dezembro do ano passado, instruída por Oscar Gonzalez a cantora se isolou do mundo. “Deixei de ouvir rádio, assistir TV, e me dediquei totalmente pra bossa nova”, conta. Em dezembro passaram a gravar os ensaios. Em 27 de janeiro de 2018 Oscar e Julia fizeram a primeira apresentação para o público em uma festa de casamento. Em 16 de fevereiro deste ano iniciaram uma temporada de três meses no restaurante brasileiro Escondidinho, em Embu das Artes.

Na apresentação deste final de semana Julia Ferreira e Oscar Gonzalez terão o acompanhamento de Rick Siqueira (bateria) e Rubens Barbosa (contrabaixo).
Para contratar shows:
(11) 94181-4169

terça-feira, 27 de março de 2018

Pesquisadores italianos descobrem o que Jesus jantou na Última Ceia

Orias Elias (Jesus) e Thânia Rocha (Maria) protagonizam a Paixão de Cristo | Taboão da Serra, no próximo 30 de março, Sexta-Feira Santa. 
Foto: Rogério Gonzaga

David da Silva

No espetáculo teatral ao ar livre da próxima 6ª-feira, em frente ao Parque das Hortênsias, o público vai ouvir o personagem central dizer: “Tenho desejado comer com vocês essa Páscoa, porque não comerei outra antes da Páscoa perfeita”. É o ator Orias Elias quem dá vida a Jesus neste ano. A Encenação da Paixão de Cristo é uma tradição que se repete ininterruptamente há 62 anos em Taboão da Serra. A cena da Santa Ceia transpõe para o palco o ambiente imaginado por Leonardo da Vinci na sua famosa tela pintada entre 1495 e 1498. O pintor estava errado.
Esta e outras descobertas estão no livro Gerusalemme: L’Ultima Cena (ainda não traduzido para o português) escrito a quatro mãos pela egiptóloga Marta Berogno e o arqueólogo Generoso Urciuoli.

No chão

Mergulhados em versículos da Bíblia, escritos judaicos, antigas obras romanas e escavações arqueológicas, a dupla de pesquisadores trouxe à tona uma tese robusta. “Naquele tempo na Palestina, a comida era colocada em mesas baixas e os convidados comiam sentados em almofadas no chão e tapetes reclinados”, afirma Urciuoli, especialista em história do cristianismo primitivo.
Reconstituição da última ceia numa versão mais adequada aos hábitos e mobiliário da Palestina de 2.000 anos atrás

Arqueologia da comida

O que Cristo comeu antes de ser preso? A Bíblia relata em minúcias o que aqueles 13 homens conversaram durante o jantar. Mas não especifica o que foi servido na refeição.
A egiptóloga e seu colega arqueólogo foram atrás de pistas em obras de arte, em dados históricos e até pinturas em catacumbas do século 3. Com isso, foram capazes de detalhar alimentos e hábitos alimentares da Palestina na época de Cristo.
Há de se considerar que o mestre e seus 12 discípulos eram todos judeus. Estavam submetidos às leis religiosas dietéticas conhecidas como kashrut, que determina quais alimentos podem ou não podem ser consumidos, e como devem ser preparados.

Feijão com cordeiro assado

Cholent é um tipo de feijoada judaica;
receita no comentário

Os estudos revelaram que o cardápio da última refeição de Cristo com seus companheiros teve pão sem fermento, vinho, um típico molho de peixe romano conhecido por tzir, carne de cordeiro, cholent (ensopado de feijão cozido a fogo lento), azeitonas com hissopo (planta da família da hortelã), ervas amargas com pistache, e charosset (um doce com maçãs e/ou tâmaras amassadas ou picadas e misturadas com vinho, nozes, cravo e canela - veja a receita no comentário).
“As ervas amargas e o charosset são pratos típicos da Páscoa judaica; o cholent era comido nas festas, e o hissopo era consumido cotidianamente”, diz Urciuoli, dono do blog Archeoricette (arqueologia de receitas) sobre comida ancestral.
O hissopo que os judeus comiam no dia-a-dia é muito comum naquela região, e conforme 1 Reis 4:33 “brota nos muros” e também nas fendas das rochas.

Outra cena da Paixão de Cristo onde aparecem comes e bebes é o banquete do aniversário de Herodes. Ele era um admirador confesso da cultura e dos refinamentos da Grécia e Roma. E isto feria a sensibilidade religiosa dos hebreus, que o odiavam.
A comilança no Palácio de Herodes refletia a influência da culinária romana na Galileia.
Mas isto é assunto para outra postagem, ou para outra refeição, se você assim preferir.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Uma noite no Palácio de Herodes

Sheila Peralles comanda as dançarinas na cena do Palácio de Herodes. Veja sinopse biográfica da artista no comentário desta postagem. Foto: Adelita Chohfi

David da Silva

Na noite da próxima 6ª-feira, na 62ª Encenação da Paixão de Cristo, o público de Taboão da Serra vai rever o polêmico episódio onde Salomé dança para Herodes, e pede que ele corte a cabeça de João Batista. A cena do Palácio de Herodes tem a coreografia de Sheila Peralles. Mas, qual a localização exata do palácio onde ocorreu o crime? Em qual data isso teria acontecido?
O historiador Flavius Josephus conta no livro 18, capítulo 5 da sua obra Antiguidades Judaicas que o pregador João Batista foi preso na fortaleza de Maqueronte, e ali foi executado. Escavações comandadas pelo arqueólogo húngaro Gyözö Vörös e divulgadas em setembro de 2016 confirmam – foi neste lugar onde Salomé dançou para o seu padrasto.
A fortaleza Maqueronte ficava na Jordânia, província também controlada por Herodes Ântipas, governador da Galileia. As ruínas encontradas indicam que Ântipas tinha preferência em morar naquele local por questões estratégicas. Além de mais luxuoso, era muito mais seguro do que o seu castelo na capital Tiberíades.
A fortaleza Maqueronte era vital para a defesa, pois dela se podia ver toda a região controlada por Ântipas até as cercanias de Jerusalém. Qualquer exército que quisesse se aproximar da cidade pelo lado oeste, teria de passar por Maqueronte.
Vista aérea com Jerusalém em 1º plano e Maqueronte ao fundo (no círculo)

Dimensões extraordinárias

A descoberta mais importante da equipe de Gyözö Vörös naquele sítio arqueológico foi um monumental mikve, recinto ritualístico para banhos de purificação.  Encontraram paredes maciças intactas com 9,2 m de altura do balneário usado por Herodes e sua família. É a primeira vez desde a antiguidade que se chega ao cálculo real das dimensões extraordinárias daquela edificação.
Simulação do balneário real em Maqueronte
As escavadeiras também encontraram uma enorme cisterna com 18 metros de profundidade. Em pleno deserto do Mar Morto, a cisterna regava os jardins da fortaleza e os banhos de estilo romano. A análise arqueológica mostrou que a cisterna permaneceu em uso durante todo o período herodiano.
Ântipas herdou palácio/fortaleza Maqueronte do seu pai rei Herodes, o Grande. Embora Ântipas fosse apenas um governador, exigia que seus súditos o chamassem de rei.
Herodes, o pai, havia acrescentado instalações de luxo à fortaleza, incluindo pátio com jardins, banho em estilo romano, um peristilo (pátio rodeado por colunas) e um triclínio (salão de jantar). A dança de Salomé deve ter acontecido em um destes dois ambientes, durante o banquete de aniversário.
Um dos espaços palacianos onde Salomé dançou para Herodes
O palácio/fortaleza foi destruído no ano 71 d.C. pela 10ª Legião Romana comandada por Lucilius Bassus. As escavações recentes encontraram nas paredes desmoronadas quatro mísseis balísticos romanos, e dois cilindros de colunas maciços bombardeados.

Quero agora

Outra evidência de que Salomé e seu padrasto estavam em Maqueronte quando mataram João Batista, é o fato de a garota ter dito “quero agora a cabeça dele”. A distância de ida e volta da casa oficial em Tiberíades até Maqueronte é de 350 quilômetros. Jerusalém é ainda mais longe: 600 quilômetros de ida e volta. Demoraria semanas até ter seu pedido atendido, caso não estivessem no mesmo local onde Batista estava preso.
Alguns estudos indicam que João Batista foi preso na localidade de Pereia no 6º mês do ano 26 d.C., e mantido no cárcere por 10 meses até a execução. Já para a morte de Cristo, as datas mais aceites são 7 de abril de 30 d.C. e 3 de abril de 33 d.C. Uma diferença de quatro a sete anos entre um episódio e outro.
Reconstituição da fortaleza/palácio de Maqueronte, na costa leste do Mar Morto, a 24 quilômetros da foz do Rio Jordão onde João Batista atuava



quinta-feira, 22 de março de 2018

Futebol de várzea homenageia Zé do Gás em Taboão da Serra, dia 25

Foto: Álbum de família
David da Silva

“Ele tinha uma impulsão magnífica, cobrindo muito bem a zaga”. Foi com essa fama que José Sinopoli, o Zé do Gás, deixou seu nome gravado na história do futebol amador. Um dos melhores quarto-zagueiros dos anos 60 na várzea paulistana, Zé do Gás, falecido em junho do ano passado, será homenageado neste domingo, 25 de março, na finalíssima da 7ª Copa Verão Master de Futebol em Taboão da Serra.
Em seus 77 anos de vida, Zé do Gás passou a maior parte do tempo trabalhando por conta própria. “Mas meu pai nunca foi dono de depósito de gás”, diz Adriana Sinopoli, rindo de uma notícia errada divulgada no falecimento. “Ele comercializou bichinhos de pelúcia por vários anos quando era solteiro, vendeu uva na rua (o bordão era: “Olha as uvas do Marengo!”) e teve empresa de serviços de limpeza até se aposentar em 2013”, conta a filha.
O apelido veio da época em que José Sinopoli, aos 18 de idade, trabalhou no escritório da distribuidora Gasbrás.
Uma insuficiência renal no dia 27 de junho de 2017 pôs fim a uma existência iniciada em 29 de janeiro de 1940 no bairro paulistano do Bixiga.
Quando José estava com 10 a 11 anos, a família Sinopoli mudou-se para a Vila Madalena. Ali o rapaz passou toda a sua infância e juventude, até casar-se aos 33 anos de idade com Áurea, moça também criada naquele bairro.
Na segunda metade da década de 1970, Zé do Gás veio morar em Taboão da Serra, onde tornou-se dirigente do Sossego FC, time fundado em 1989 por Ricardo Piñero, o Doriana, e Aliberto, o Libão, e que Zé do Gás presidiu desde 1996 até a sua morte.
O meia-esquerda Dorinho e Zé do Gás, quarto-zagueiro, em 1962
Camisa do Leão do Morro com as marcas
do tempo
Época mágica

“Eu, Zé do Gás, fico grato em ver que esta época tão mágica ainda está viva”. Com essas palavras o lendário quarto-zagueiro agradeceu quando foi procurado por um documentarista em 2012, para relembrar fatos e coisas do Leão do Morro, time onde ele eternizou seu nome.
O Leão do Morro foi uma referência numa época e numa região recheada de outras referências como Serepi (Sociedade Esportiva Recreativa Pinheirense), e o “Brasil” que jogava no terreno onde hoje é o Shopping Center Eldorado. Pelos lados da Vila Madalena e Vila Beatriz reinavam, além do Leão do Morro, o Sete de Setembro e o Primeiro de Maio (que nasceu com o nome Esporte Clube União Operária).
Os campos de terra eram na Rua Jericó, onde há hoje a E.E. Maximiliano e o Fórum de Pinheiros, e na esquina da rua Natingui, onde hoje é o conjunto habitacional do BNH.
Zé do Gás e o seu Leão do Morro foram campeões da várzea em 1962 contra o Botafogo da Vila Carrão, um verdadeiro duelo leste-oeste no Torneio dos Clubes Unidos promovido pelo extinto jornal Última Hora.
Adriana com uma relíquia do pai. 
Foto: David da Silva
No mesmo torneio, em 1964 o Leão foi vice-campeão.
Em 1969 o Leão do Morro voltou a ser campeão, vencendo por 3x2 o Brasil de Pinheiros. A partida foi transmitida pela Rede Globo.
Apesar da distância do tempo, nos encontros de velhos ex-boleiros no bar Calçadão da Vila, na rua Wisard, ainda ecoam por entre as conversas os nomes de craques com quem Zé do Gás compartilhou as glórias como: Dorinho, Miura, Carminho, Elinho, Zé Negão, Sabiá, Delem, Roberto, Palito, Zinho, Mingo, Paulinho, Café, Didi, Abilio, Casado, o técnico Bonecão e o diretor Álvaro barbeiro.

De bem com a vida

Mesmo em seus momentos mais reservados, Zé do Gás não tinha baixo astral. “Ele ficava lá na dele, curtindo os discos antigos”, relata Adriana. 
O gosto pelos sambas do João Nogueira ficou patenteado em uma carta, verdadeiro réquiem que Zé do Gás escreveu na madrugada em que seu ídolo morreu (veja reprodução nesta página).
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Todos os anos, em uma celebração à vida, ele se reunia com a equipe médica do Hospital São Paulo que lhe fez o transplante de fígado em 2002, após três anos na fila de espera.
Dos colegas de campo mais antigos, Zé do Gás manteve uma amizade praticamente de vida inteira com o meia-esquerda Dorinho. Quando jovens, atuavam pelo mesmo time Leão do Morro, e também viajavam muito vendendo bichinhos de pelúcia. Mais velhos, moraram na mesma cidade de Taboão da Serra.
Em dezembro de 2005 Dorinho telefonou para Áurea, esposa do amigo Zé do Gás: “Oi Aurinha, estou ligando pra desejar Feliz Natal, porque no ano que vem não sei se vou estar aqui”. Quando dona Áurea respondeu que ninguém sabe, Dorinho foi enfático: “Eu sei que não estarei”. De fato, Theodoro Júdica Junior, o Dorinho, faleceu em 26 de dezembro de 2006, dois dias antes de completar 66 anos.
Raphael herdou o gosto musical do pai.
Foto: reprodução de jornal
O fato de Dorinho chamar dona Áurea de “Aurinha”, lembra o hábito de Zé do Gás tratar a família por hipocorísticos – a esposa era “Lalinha”, a filha: “Cuca”, e o filho Raphael: “Amigão”.
Como bom descendente de italianos, Zé do Gás era bom de garfo e cheio de jargões. Seus pratos prediletos eram dobradinha, leitão à pururuca e quibe cru. Suas conversas eram recheadas de expressões como “na encolha”, “na miúda”, “cheio de fita”, “cheio de história”, “papo furado”, “quás-quás-quás”, "pororóóó...", e o seu infalível “tá por fora!!!”.

Exaltação da várzea

Jogadores de futebol amador são heróis do subúrbio. É praxe dos varzeanos exaltarem seus antepassados. 
Prefeito Fernando Fernandes e Zé do Gás
em julho de 2014. Foto: M. Pezão
Na rodada final da 7ª Copa Verão os times finalistas entrarão em campo vestindo uma camiseta-tributo com a face de Zé do Gás sobre a farda. 
A copa, que está na sua sétima edição, é organizada pela Liga Esportiva Joga Senhor com apoio da Prefeitura de Taboão da Serra.
A finalíssima terá caráter intermunicipal, e vai ser disputada pelo Fortaleza (Taboão da Serra) e o Santa Emília (Embu das Artes), os dois com as defesas menos vazadas da copa, com 7 e 8 gols respectivamente. A competição tem até o momento na artilharia Rivelino (13 gols) e Mauro César (7 gols) ambos do Santa Emília. O terceiro artilheiro (6 gols) é Junior César, do Fortaleza. O jogo começa às 9h30 precedido pela disputa do 3º lugar (Grêmio Marabá x AAPP, às 7h30) no campo do Jardim Guaciara, na Estrada das Olarias, 519.
Zé do Gás citado como Gasbrás em notícia da época de ouro do Leão do Morro,
na década de 1960

sexta-feira, 16 de março de 2018

Evilásio e Aprígio estão com bens bloqueados pela Justiça por improbidade administrativa

A 7ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo decidiu bloquear os bens materiais do ex-prefeito Evilásio e do ex-vereador Aprígio, porque os dois cometeram improbidade (desonestidade) administrativa no parcelamento de solo onde foram construídos um centro empresarial e sete edifícios para habitação. A decisão foi unânime no último dia 5 de março com votos favoráveis dos desembargadores Luiz Sérgio Fernandes de Souza, Moacir Peres e o relator Magalhães Coelho em sessão presidida pelo desembargador Coimbra Schmidt. Os membros do Tribunal entendem que o ato de Evilásio e Aprígio causou danos à municipalidade, e possibilitou enriquecimento ilícito.
Por lei, o empreendimento realizado em 2008 no Jardim Maria Rosa pela cooperativa comandada por Aprígio, deveria reservar áreas para a construção de órgãos públicos, vias públicas e área verde. Para escapar da obrigação de destinar terrenos para equipamentos destinados à população, Aprígio e Evilásio classificaram como “desdobro” o que na realidade foi um loteamento.
Na área do empreendimento foi erguido um prédio comercial com mais de 75 lojas, hotel executivo, escritórios, padaria de luxo, consultórios, restaurante, supermercado, e mais sete edifícios com 728 apartamentos residenciais.

Defesa do interesse público
A Prefeitura de Taboão da Serra move desde 2013 uma Ação Civil Pública contra Aprígio e Evilásio, para reparação do dano causado ao município. Em 2016 o Ministério Público solicitou o bloqueio de bens de Evilásio e Aprígio, juntamente com Marilene Trappel de Lima, Hélio Tristão e George Reis dos Santos, diretores da Cooperativa Vida Nova. “Requeiro seja decretada a indisponibilidade dos bens dos requeridos no montante necessário para integral reparação da lesão ao patrimônio público”, diz o documento assinado pelas promotoras Marianna Moura Gonçalves e Ana Carolina Queiroz Bandeira Lins em agosto de 2016.
O juiz Rafael Rauch, do Fórum de Taboão da Serra, negou o pedido de bloqueio dos bens dos acusados. Mas a prefeitura entrou com recurso no Tribunal de Justiça, e conquistou a liminar.
A diferença entre desdobro e loteamento é simples. No desdobro, os lotes já têm saída para a rua. Quando é preciso abrir uma nova via para acesso aos lotes, fica caracterizado um loteamento. Neste caso, há necessidade do empreendedor destinar área institucional para órgãos municipais (creche, escola, posto de saúde, etc) além da reserva de área verde.
“Tendo em vista os termos da lei, é de se determinar a indisponibilidade dos bens que assegurem o integral ressarcimento do dano”, disse em seu despacho o desembargador Magalhães Coelho, que foi seguido por unanimidade pelos juízes da 7ª Câmara do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.

segunda-feira, 12 de março de 2018

O sofrimento de Sofya

Sofya, 3 anos, não pode brincar na calçada
pois a rua foi contaminada por materiais
tóxicos. Foto: Silmara Filgueiras
David da Silva

Todas as noites a família Silva Marques acorda com os gritos de dor da pequena Sofya. Ela tinha 9 meses de vida quando o lamaçal da mineradora Samarco atingiu o município de Barra Longa, na Zona da Mata em Minas Gerais. A lamaceira não chegou diretamente na casa daquela família em novembro de 2015. Mas o transporte que a prefeitura fez da lama para outros pontos da cidade, e o uso de rejeitos de minério na fabricação do calçamento da rua onde a criança mora, afetou sua saúde causando-lhe insuficiência respiratória, alergia crônica de pele e dores nas pernas.  
Nesta segunda-feira, 12 de março, Sofya e sua mãe Simone Maria estão aqui em São Paulo, para nova bateria de consultas e exames médicos. O laudo do pediatra e alergista Antônio Carlos Pires Maciel, de Minas Gerais, atesta que as doenças da menina são decorrentes da lama que a mineradora deixou escapar.
O mar de lama com mais de 3 metros de altura ficou encalhado na praça principal de Barra Longa. Numa decisão insana, a prefeitura e a mineradora transferiram o imenso lodaçal para o bairro Volta da Capela. Nessa movimentação, a lama que já estava seca provocou uma nuvem de poeira tóxica sobre todo o centro urbano do município.
“A Samarco levou a lama para lugares aonde a tragédia não chegou”, fraseia o poeta e cronista Sérgio Fabio do Carmo, o Sérgio Papagaio, que também é eletricista de autos na Prefeitura de Barra Longa. Na década de 1980 ele morou aqui em Taboão da Serra, no bairro Jardim Myrna.

Transporte criminoso
A avalanche com rejeitos da Samarco Mineradora viajou 70 km pelo leito do Rio Gualaxo do Norte até alcançar Barra Longa, na madrugada de 6 de novembro de 2015. Estagnada na praça central, a carga de 170 mil metros cúbicos de lama contaminada foi transferida para outro local. O vai-e-vem de caminhões e tratores pelas ruas não projetadas para tráfego pesado causou rachaduras nas casas.
A residência de Simone Maria da Silva Marques é hoje uma ameaça viva sobre sua cabeça. A laje está escorada com toras de madeira. “A Defesa Civil da prefeitura alega que não tem competência para me dar um laudo sobre a situação de risco da minha casa”, conta Simone.
Pra piorar, a Rua Santa Terezinha, onde Simone mora, foi calçada com artefatos fabricados com a lama da Samarco.
A pequenina Sofya não pode brincar com coleguinhas na calçada, pois o calçamento está impregnado pelos rejeitos minerais que causaram sua alergia e problemas pulmonares.
Simone relata que o orçamento da família é consumido no tratamento da criança. 
Foto: Guilherme Weimann
Doenças e despesas
Devido à grave alergia, a pele de Sofya descama e arde. A criança é submetida a vários banhos por dia para aliviar as coceiras pelo corpo. Antes da tragédia, a família gastava em torno de R$ 40 por mês na conta de água. Hoje pagam R$ 105,00. O consumo de energia elétrica também explodiu, indo de R$ 80 para cerca de R$ 400,00.
As despesas na farmácia são outro calvário para a família de Sofya. A menina vive à base de corticóides, broncodilatadores e antialérgicos.
A saúde pública em Barra Longa é deficiente, e Simone tem de levar a filha a médicos particulares nas cidades vizinhas. Algumas consultas chegam a R$ 250 e R$ 300.

“É muita infelicidade sua”
Numa das muitas vezes em que Simone Silva foi à multinacional exigir indenização pelas despesas médicas com criança, colocaram em dúvida o suplício de Sofya. “Você tem provas de que a sua filha está doente por causa da lama [da Samarco]?”, questionou Maria Albanita Roberta de Lima, líder dos Programas de Saúde, Proteção Social e Educação da empresa.
Depois de muita luta a Samarco passou a pagar uma consulta e um medicamento quando há maior necessidade. Mas Simone garante que isso não ocorre todo mês e que não é suficiente: "Passamos a ter outros gastos muito maiores, como com a alimentação, pois ela toma remédios muito fortes e precisa comer melhor". O marido, José Márcio Marques, 39 anos, trabalhador em fábrica de rações, e o filho David, 16 anos, também apresentam problemas de saúde após o crime da mineradora.
Quando Simone apresentou receitas dos médicos e resultados de exames, a funcionária da Samarco foi sarcástica: “É muita infelicidade sua que você seja tão atingida”.
Criada na luta: Sofya e sua mãe em manifestação contra os descasos da mineradora Samarco. 
Foto: Matheus Castro – 06.nov.2016

Sangue contaminado
Exame recente de Sofya, agora com 3 anos, mostra que a criança está com elevada concentração de níquel no sangue. A referência é entre 0,12 e 2,9 μg/L (microgramas por litro), mas a menina está com 12,78 μg/L.
As dores lancinantes que Sofya sente nas pernas são um preocupante sinal. Segundo o Instituto Saúde e Sustentabilidade, que realizou um diagnóstico da Saúde em Barra Longa após a tragédia, 24% a 30% da população local se queixa de dores nas pernas. Estas dores são sintoma comum de intoxicação por minérios.
Apesar da via-crucis com a filha, Simone Maria venceu um grande desafio. Ela que era auxiliar de serviços gerais, formou-se em Artes Visuais pela Unifran, e dá aulas em uma escola municipal.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Artista de Taboão da Serra é indicada ao prêmio de Melhor Atriz em SP

Naruna Costa concorre ao Troféu APCA 2017. Foto: Raíssa Corso
David da Silva

Pelo seu desempenho na peça Antígona, de Sófocles, a atriz e diretora teatral Naruna Costa está indicada ao Prêmio de Melhor Atriz pela Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA). Cofundadora do Grupo de Teatro Clariô, em Taboão da Serra, Naruna também traz no currículo atividades de cantora e compositora. Os críticos teatrais da APCA estiveram reunidos na noite de ontem, 2ª-feira 4 de dezembro, para definir os indicados ao prêmio. A premiação é entregue há 61 anos. Os nomes dos vencedores serão definidos na próxima 2ª-feira, dia 11.
Dirigida por Moacir Chaves, Naruna Costa levou ao palco a personagem criada pelo grego Sófocles por volta do ano 442 a.C., ao lado de Pascoal da Conceição e Celso Frateschi, que assina a versão deste drama com cenários e figurinos de Sylvia Moreira. A peça esteve em cartaz de agosto a outubro deste ano.
Naruna na personagem Antígona - Foto: Gisela Schlogel

Teoria e prática

Nascida e criada no bairro Freitas Júnior, periferia de Taboão da Serra, Naruna, 34 anos, deu os primeiros passos na carreira por meio da União Teatral Taboão, criada em 1997 e dirigida por Amaury Alvarez, onde atuou em peças como A Torre em Concurso, entre outras.
A trajetória artística de Naruna Costa se espraia pelo teatro, cinema, televisão, shows musicais, além de discos próprios (Grupo Clarianas) e participações especiais em discos de artistas como Marcelo Pretto, Virgínia Rosa e o rapper Criolo.
Na TV Globo Naruna trabalhou em 2011 no seriado Força Tarefa como a personagem Sargento Lidiane; também em 2011 na novela Insensato Coração (personagem Renata); em 2010 na novela Tempos Modernos (personagem Dodô).
Naruna em frente ao Teatro Clariô, criado em 2002
Na TV Bandeirantes Naruna foi Suzi na novela Dance Dance Dance em 2007/2008. Na TV Brasil foi apresentadora em 2014 da série Resistir é Preciso, e do festival de vídeo Tela Digital, no período 2009/2011.
Na TV Cultura a atriz taboanense atuou no programa Senta que lá vem comédia em 2005, participou do programa Telecurso TEC em 2007, trabalhou no programa Profissão Professor (2009) e naquele mesmo ano em Tudo o que é sólido pode derreter.
No cinema Naruna Costa trabalhou em importantes produções como o filme Hoje eu quero voltar sozinho, que representou o Brasil no Oscar/2014.
A lista de atividades teatrais de Naruna é extensa: Peso, direção de Tica Lemos; Desde que o Samba é Samba, dir. Izabel Setti; Lesão Cerebral, dir. Silvana Garcia; Ricardo III, dir. Celso Frateschi; As Bruxas de Salém, dir. Bete Dorgan; A Árvore dos Mamulengos, dir. Wil Damas; Hospital da Gente, dir. Mário Pazini; Urubu come carniça e voa, dir. Mário Pazini.
Em 2015 além de interpretar uma das personagens, Naruna foi também diretora da peça Severina – da morte à vida, de Wil Damas (o espetáculo de criação coletiva do Grupo Clariô foi inspirado na obra de João Cabral de Melo Neto).
Foto: Raíssa Corso
Em 2016 Naruna Costa brilhou no teatro do SESC-Pinheiros fazendo o papel de Elza Soares no musical Garrincha, com direção do norte-americano Robert Wilson.
Já perto do fim do texto você deve estar perguntando o que a palavra “teoria” tá fazendo no subtítulo lá em cima. É que além do imenso potencial nos palcos e perante as câmeras, Naruna tem grande capacidade de teorização. Vê só o que ela declarou à Revista Baiacu:

"Cultura é necessidade básica, é fundamental. Igual saúde, moradia, educação. E isso é tão básico porque é ter história. Não tem como apagar o que você é pra ficar lá trabalhando numa indústria, que você trabalha pra ter dinheiro, pra pagar conta e não ter dinheiro, e assim vai. E a sua história vai sendo apagada. Quem reconstrói essa história? Os artistas. E também quem vai falar da beleza das coisas? [Quem vai contar sobre] aquele pôr do sol que eu vi no rio Madeira, em Rondônia?"