terça-feira, 16 de setembro de 2014

Cinquentão, Jardim Iolanda “dá à luz” 650 novas árvores

Foto: Nilton Esteves - 23.ago.2014
Na porta de entrada da casa do Nilton, no canto esquerdo externo tem um termômetro, um barômetro e outro ômetro do qual só lembro o sobrenome. Do teto da varanda despencam mini flores sapatinho-de-judia. Em cachos encachoeirados. Moldura perfeita pra deixar beija-flor endoidecido e fotografar rostos queridos.
Antes da reportagem, o almoço. Uma bacalhoada magnífica brota das mãos mágicas de dona Magnólia, que reina no fogão da família Esteves há 13 anos. Reflito: “o Nilton é tão apaixonado pela Natureza, que o destino lhe providenciou uma cozinheira com nome de planta”.
Nilton Benedito Esteves é há 12 anos síndico do Condomínio Rural Jardim Iolanda, em Taboão da Serra. O conjunto habitacional completou 50 anos de fundação no último 20 de agosto. É um remanescente da Mata Atlântica no município. E razão de viver do síndico.
Carolina Ramos e jornalista Sandra Pereira
“Como nosso síndico, o Nilton é um fator de garantia de que minha casa não vai se desvalorizar”, diz a psicanalista Carolina dos Ramos, moradora fixa do lugar desde julho de 1989 – a família, no entanto, é proprietária no condomínio desde a década de 1960, quando o lugar era usado por alguns apenas para lazer. Hoje todos os 120 imóveis do condomínio são habitados.
Prova da abnegação do síndico pela preservação da cobertura vegetal do condomínio, foi o plantio de 400 mudas de árvores pelo DEAEE (Departamento Estadual de Águas e Energia Elétrica) em substituição às 10 espécies nativas arrancadas para abrir caminho à canalização do córrego que corta o Jardim Iolanda.
Mudas em crescimento - Foto: Nilton Esteves
O condomínio replantou por conta própria mais 250 mudas no trecho canalizado. Todos os dias, antes de iniciar sua rotina de trabalho, o síndico Nilton dedica longos minutos a contemplar o crescimento das 650 mudas de ipês-amarelos, paus-ferro, patas-de-vaca e sibipirunas.
O resultado desta dedicação é convertido em números nas eleições do condomínio. Em outubro de 2013 Nilton Esteves foi reeleito com 53 votos dentre as 65 pessoas que compareceram ao pleito – o condomínio tem 120 eleitores, e o voto é aberto, declarado em viva voz.

Rígido no desempenho da função de protetor de uma área de quase 500 mil metros quadrados - pra ser exato: 477.965,00 m² -, e lutador encarniçado pela construção dos viadutos para retornos na BR-116 na altura do Km 276 e no Shopping Taboão, o síndico, todavia, é gentil no trato com as pessoas. E apaixonado por sua câmera fotográfica. Gasta horas a fio clicando o nascer e o pôr do Sol. E emenda noite adentro retratando a Lua. Fixa seu foco na exuberância da mata que reveste o condomínio e seus animaizinhos silvestres. Capaz de se emocionar diante de uma amoreira se abrindo em frutos. “Hoje voltei aos meus 8 anos de idade, quando apanhava a fruta no pé, e saboreava amoras, carambolas, jabuticabas, mangas, pitangas, nêsperas, etc... Tudo tem sabor de infância”, me escreveu ele no Facebook no entardecer sentimental do último dia 5 de setembro.
O desvelo pelo seu passado é marca registrada do síndico Nilton. Sempre saudoso dos tempos de moleque em que assistia Tarzan, Homem de Virgínia, Dólar Furado, Perdido nas Estrelas, Zorro, Túnel do Tempo, e outros seriados que marcaram a adolescência da televisão brasileira.
Nilton Esteves
Com a infância vivida no Sítio Tanquinho, em Dois Córregos, interior de São Paulo, o síndico Nilton conserva a hospitalidade típica das pessoas ligadas à terra.  Que gosta de receber gente em casa. E de brindá-las com comidas especiais. Chegou até a inventar a Salada Tropical Nilton. Cada visita vira um retrato na parede apinhada de fotos das pessoas que lhe falam ao coração. Órfão quando sua mãe estava com 44 anos, Nilton estampa no fundo da parede da sala de estar um pôster dela. Linda feito uma Rita Hayworth.

Para manter o Jardim Iolanda na forma com que foi planejado pela sua fundadora, Nilton Esteves comanda um pequeno exército de seis porteiros, quatro jardineiros, um encarregado, uma faxineira e patrulhas de seguranças armados.

A devoção do síndico pela fundadora do condomínio é quase diariamente revivida em sua página no Facebook. Emoldurados na parede da sala de visitas do Nilton, vários cartazes de espetáculos que Iolanda Catani lhe trazia de presente nas suas viagens à Europa. Outra demonstração de afeto do síndico por dona Iolanda é o vídeo que ele gravou num crepúsculo solar há 30 anos – e que compartilha com amigos numa deferência quase religiosa. Na gravação, Iolanda Catani, que era cantora lírica, entoa a Ave Maria de Gounod e Johann Sebastian Bach (assista aqui)

Cláudio Catani e eu - Foto: Nilton Esteves
Escoltado gentilmente por Nilton Esteves fui conhecer a casa onde viveu dona Iolanda. O local é identificado por uma placa onde se lê Olimpo. Todas as ruas do condomínio têm nomes de musas da mitologia grega.
Somos recebidos pelo engenheiro-agrônomo Cláudio Catani Beretta, filho de Iolanda. O sobrenome Catani da mãe é originário de Florença, e o Beretta do pai, vem de Milão.
Cláudio Catani Beretta se formou engenheiro-agrônomo no mesmo ano em que seus pais fundaram o condomínio. Ele me mostra na biblioteca dos seus genitores uma raridade. O Dizionario Storico Mitologico em vários volumes que sua mãe sempre consultava, e de onde saíram os nomes das ruas para o Jardim Iolanda. A obra foi publicada em 1828.
Toda a sala de visita dos pioneiros é decorada por obras de arte de Gino Catani, avô de Cláudio, e outros quadros de seu bisavô, do qual infelizmente não conseguimos descobrir o nome.
Gino Catani - Foto: Nilton Esteves
Gino Catani nasceu no ano 1879 em Florença, Itália. Veio para o Brasil com apenas 14 anos. Em 1908 voltou à Itália para se especializar em pinturas decorativas. Quando retornou ao Brasil em 1909, trabalhou na decoração da Igreja de Santa Cecília juntamente com Benedito Calixto. É também de Gino Catani a decoração da Igreja Santa Ifigênia pela mesma época, ambas na cidade de São Paulo. Em 1913 Gino decorou a capela da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Também executou pinturas e murais em residências particulares, e desenvolveu intensa produção artística em desenhos e telas. Gino Catani faleceu em 1944, 20 anos antes de sua filha fundar o Condomínio Rural em Taboão da Serra.
Vejo na estante de dona Iolanda Catani três artesanatos de corujas. Esta ave é símbolo deste blog bar & lanches taboão. Fiquei feliz de encontrar nossa mascote na prateleira da casa da pioneira.

Formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, em Araraquara, Cláudio exerceu por 35 anos a profissão. Manteve várias parcerias com seu pai em fazendas pelo interior do estado de São Paulo.
Fiel ao seu ofício, Cláudio critica a forma como as autoridades ambientais tratam hoje a compensação na derrubada de árvores. “Se uma pessoa desmata aqui no Condomínio Iolanda, o replantio de árvores deve ser feito exclusivamente aqui dentro. E não como fazem hoje, em que o desmatador pode fazer a compensação vegetal em outro local”, adverte.

De sua mãe Cláudio guarda uma lembrança bem humorada. “Certa vez ela foi cantar uma peça lírica, e a personagem que ela fazia morria no final. Mas eu reparei que minha mãe se levantou antes de baixar a cortina no final do espetáculo. Fui fazer uma espécie de crítica a ela, e recebi de resposta: ‘Se eu não tivesse pulado antes de descer a cortina você seria um menino órfão, agora. Aquele cortinado estava caindo com todo o peso em cima de mim’ “.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O balde gelado e o “rei” da Imprensa no Brasil

Cena 01 – Jornalista brasileiro sofre um acidente vascular cerebral (AVC), e fica com o corpo totalmente paralisado. Mas a mente continua ativa. Ele se comunica com o mundo exterior pelo método desenvolvido por sua enfermeira, para a qual “dita” textos, piscando os olhos quando ela lhe aponta letras do alfabeto em uma placa.

Cena 02 – Jornalista francês sofre um AVC, e permanece consciente embora não possa mover os músculos do corpo. Uma enfermeira copia para o papel a biografia do enfermo, pelo método desenvolvido pela fonoaudióloga do paciente, que pisca toda vez que lhe indicam determinadas letras do alfabeto em uma placa.

A cena um aconteceu em fevereiro de 1960, no Rio de Janeiro. A de número dois foi no nordeste da França em dezembro de 1995. Lembrei destes dois fatos e sua extraordinária coincidência quando rolou a onda do “balde gelado”, para estimular doações à cura da síndrome degenerativa de células nervosas. Na qual os doentes também ficam enterrados vivos dentro de seus próprios corpos.
Porém deixei pra publicar somente hoje, por ser Dia Nacional da Imprensa Brasileira. Mudaram a data em 1999 para 1º de junho. Mas a maioria de nós mantém o costume anterior. E para mim, setembro diz mais perto ao coração. É o meu mês.
Não posso afirmar que a fonoaudióloga francesa Henriette Durand tenha plagiado em 1995 o sistema criado pela enfermeira pernambucana Emilia Araúna 35 anos antes. Afinal, coincidências acontecem. Todavia, tá aí uma semelhança digna de ser desvendada.
Enfermeira Claude copia a biografia 
que Jean “escreveu” piscando o olho

O francês Jean-Dominique Bauby era famoso editor-chefe da revista de modas Elle. Já tinha passagens brilhantes pelas revistas Quotidien de Paris e Paris Match. No dia 8 de dezembro de 1995 o AVC pôs fim à sua carreira. Estava com 43 anos. A fono Henriette notou que embora o jornalista não conseguisse falar nem mexer braços ou pernas, movia a pálpebra esquerda. Montou numa placa o alfabeto. Quando apontava a letra certa, Jean piscava. A enfermeira Claude Mendibil ficou encarregada de copiar letra por letra as palavras com a qual o jornalista contou sua história de vida. O livro ficou pronto em 1997. Jean morreu 10 dias depois do lançamento. O assunto virou filme célebre em 2007 – com o mesmo título do livro: O Escafandro e a Borboleta. Premiado em Cannes e indicado ao Oscar.
Aqui no Brasil, só no ano que vem ficará pronto o filme Chatô – O Rei do Brasil, dirigido por Guilherme Fontes. Que luta pelo projeto desde 1995, mesmo ano em que começou a saga de Jean-Dominique como sepultado vivo debaixo da própria pele.

O paraibano Assis Chateaubriand, apelidado Chatô, foi o homem mais poderoso do jornalismo brasileiro. Dono da rede Diários Associados – jornais, revistas e emissoras de rádio e TV. Aos 78 anos um AVC jogou Chatô em cima de uma cama, completamente mudo e imóvel.
Emilia escreveu seu livro estimulada pelo 
cineasta Walter Lima Jr. que 
a entrevistou em 1996 para um documentário
O telefone tocou para a enfermeira Emilia Belchior Araúna na noite de 28 de fevereiro de 1960, em pleno plantão durante o Carnaval. Ela ficaria responsável pela higiene pessoal do paciente Chateubriand, por trocar o soro que o alimentava, e mudar a posição do corpo a cada três horas para evitar as escaras.
Emilia, então com 22 anos, vinda um ano antes de Caruaru (PE) tinha deixado na terra natal os pais e nove irmãos – seis homens e três mulheres. 
Notou que o doente, apesar de absolutamente inválido, lhe dirigia um olhar expressivo. 
Ela resolveu tentar um contato.
“O senhor está me ouvindo? Entende o que estou dizendo? Se estiver entendendo, feche os dois olhos”. Chatô apertou os olhos com força. Ela pegou duas folhas de papel. Escreveu em uma a letra A; na outra, a B. O doente deu mostras que sabia o que Emilia pretendia. A moça saiu em disparada para o almoxarifado da clínica. Voltou com cartolinas, e grafou nelas o abecedário, colando-as com esparadrapo na parede em frente à cama do doente. “O senhor vai piscar toda vez que eu colocar a régua em cima da letra que o senhor quer”.
Como jornalista hábil no manejo das palavras, Chatô recorreu logo a uma figura de linguagem na primeira manifestação do que lhe ia na mente aprisionada pelo corpo inerte:
- Já entendi tudo. O edifício pegou fogo, só sobrou a biblioteca.

Emilia hoje com 76 anos, autografando o 
livro que publicou em 2009
Emilia tinha experiência em lidar com gente em dificuldade de expressão. Ela alfabetizou sozinha a irmã caçula, Idalina, surda-muda de nascença.

Sete meses depois de estar aos cuidados de Emilia, em setembro de 1960 Chatô informou a ela: “Vou voltar a escrever meus textos”. E “ditou” com os olhos um artigo de 928 palavras.

Tempos depois foi desenvolvida uma máquina de escrever elétrica especial, onde Chatô “milhografava” seus editoriais. Ele já conseguia uma débil movimentação com o braço sustentado por roldanas. Mas a sua fala não passava de grunhidos desesperados, que somente Emilia conseguia decifrar. E assim foi em todos os dias, até a sua morte em 1968, aos 86 anos.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O Sequestro do Sambista (e o que é que 7 de Setembro tem a ver com isto?)

“Este samba é do grande Silvio Modesto”. Also sprach Zarathustra. Mas sai pra lá com Nietzsche. Porque quem falou aquela frase foi a cantora Beth Carvalho. E eu deixei pra lá o desfile de 7 de setembro para me encontrar com um dos ícones da verdadeira identidade da Pátria.
Tô aqui batucando esta crônica no teclado da memória. Na porta do bar do Carioca. Aquele mesmo na frente de onde passa a moça que gosta das fotos dos cachos de uvas.
Agora vejo de esguelha um carro envelopado de politiquices. O coração bombeia tristeza pro olhar.
Antes de se despedir do boteco após breve encontro, o sambista Silvio Modesto adverte brincalhão: “Olha que não foi bem um sequestro, viu?”. Digo pra ele ficar sossegado com a metáfora. E vai embora. Com o estômago parecendo um aquário. Tomou caldo de peixe até umas horas.
Vou te contar.
Silvio Modesto
Em 1991 Beth Carvalho gravou um samba do Silvio Modesto. E quis conhecer o autor. Silvio refugava. Os amigos faziam pressão, e Silvio nem...
O disco havia sido gravado ao vivo no dia 10 de dezembro de 1991, no Sesc-Pompeia. Nos 73 minutos de duração do álbum, o nome de Silvio Modesto foi o único citado pela cantora na abertura das músicas. E isto numa coletânea de compositores da envergadura de Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini, Eduardo Gudin...
“Vamos marcar uma hora pra você falar com a Beth. Ela faz questão de te conhecer”, repetiam a todo instante. Silvio fugia.
O disco Beth Carvalho Canta o Samba de São Paulo foi um projeto especial da gravadora Velas, de propriedade de Ivan Lins e Victor Martins. “Este disco foi comercializado primeiramente no Japão. Só foi lançado aqui no Brasil em 1993”, conta Silvio.
Com aquela única música incluída no disco (na faixa 13) Silvio Modesto “tirou o pé da lama”. Já contei pra vocês de outras fases brabas na vida do Silvio. Sempre às voltas com a dureza, a pindaíba, o sem-nenhum no bolso. O que ganhava, torrava. Mas, para cada ocaso, um acaso. Venturoso. 
Foi assim na década de 1970 quando se encontrou com o amigo Jangada na Praça da Sé. E este estava acompanhado por nada menos que Plínio Marcos. O encontro salvou Silvio da miséria. Estava na pior. Vendendo bilhetes da Loteria Federal, “naquela de jogar a sorte grande no pé do otário e dizer que foi o destino”, como disse Plínio Marcos. “Trabalhei muitos anos com carteira registrada como ator pelo Sesi, atuando em peças do Plínio Marcos”, recorda Modesto agradecido. “Foi a primeira vez na vida que tive uma conta em banco, e voltei a almoçar e jantar no mesmo dia depois de muitos anos”.
Foi desse mesmo jeito em 1982 quando Benito di Paula gravou o samba Doce Bahia, que Silvio havia composto por acaso, mas que coube direitinho naquilo que Benito queria para coroar seu 15º LP. E as panelas da casa do Silvio Modesto deixaram de ficar com a boca pra baixo após larga temporada em que o fogão da cozinha não era aceso. A mulher até pensou que fosse um assalto a pacoteira de dinheiro com que Silvio voltou pra casa ao receber o direito autoral da gravadora de Benito. “Com aquela dinheirama dei entrada na minha casa”, diz o sambista sobre a residência onde mora até hoje no limite entre Taboão da Serra e Embu das Artes.
Foi assim também em 1986 quando Bezerra da Silva gravou um samba seu. “Eu já estava perdendo o imóvel, de tantas prestações atrasadas. Com a grana que recebi pela gravação do Bezerra da Silva botei minha vida em ordem”, relembra Modesto.
O valor que recebeu em 1991 pela gravação de Beth Carvalho foi outra fábula. “Quase nem cabia no meu bolso de tantos dólares que me pagaram”, relata o compositor de Meu Lirismo, que tanto encantou a cantora carioca.
Mas você deve estar se perguntando por que Silvio Modesto, natural do Rio de Janeiro, foi incluído num disco só com sambas feitos por gente nascida em São Paulo. Acontece que ele é considerado o mais completo sambista carioca paulista. Pois foi aqui que a carreira artística de Silvio deslanchou, e onde venceu mais de 20 concursos de samba-enredo.
Para comemorar com os sambistas paulistas seu disco, Beth Carvalho fez questão especial que Silvio Modesto estivesse na plateia. “Não vou lá, não”, dizia ele a cada vez que entravam no assunto.
Foi aí que um desses amigos concordou com Silvio Modesto para não ir ao encontro da intéprete no show-celebração. “Esse amigo me chamou pra ir dar umas voltas com ele de carro”, conta Modesto. “Quando estávamos ali pelas bandas do Pacaembu, meu amigo entrou numa tremenda duma mansão. Cheia de quartos e corredores que não acabava mais. Ele disse pra eu esperar ali um pouquinho, que ele já voltava”, lembra Silvio. “Só que a casa estava vazia, e eu fiquei lá dentro sozinho. A mansão toda trancada”.
Foi só perto da hora do início do espetáculo da Beth Carvalho que o amigo foi retirá-lo da mansão onde o sambista ficou “cativo”, para pô-lo diretamente na poltrona perante a consagrada Madrinha do Samba.

Meu Lirismo (Silvio Modesto)

Eu agradeço ao Criador
por ter me dado
Os simples momentos
em que falam sobre mim
Tenho mil razões pra festejar
Eu sou a brisa que, no ar
Me leva ao som dos clarins
E assim
Canto o lirismo popular
Enquanto puder cantar
E o povo gostar de mim

Cantar, cantei
Fortemente consegui
Ter amor pra dividir
Ser radiante a triunfar
Andar, andei
E nas andanças que eu fiz
Defendendo esse país
Pela cultura popular
Baldo : Surdo; Edmilson Capelupi : Violão 7 Cordas; Fiapo : Repique de Mão; Jorginho Cebion : Tantã; Niltinho : Cavaquinho; Osvaldinho da Cuíca : Percussão; Paulão 7 Cordas : Violão; Toninho Pinheiro  : Bateria - Arranjador: Paulão 7 Cordas.

A versão do próprio compositor:

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Gaspar Z’África: do rap de rua para as estantes dos livros

Gaspar Z'África. Foto: Sílvio Novelli
O rosto do rapper Gaspar me lembra a feição de Fabiano (pele avermelhada, olhos claros, barba e cabelos ruivos) personagem de Graciliano Ramos no romance Vidas Secas. Nascido na zona sul paulistana, na região limite entre o bairro Campo Limpo e o município de Taboão da Serra, Gaspar gosta da comparação nordestina: “Sou filho de potiguar, comedor de camarão”, diz referindo-se ao pai natural de São Miguel, no Rio Grande do Norte.
Também zela pela africanidade que não traz na aparência: “Sou um quilombola branco de olhos claros”, diz. Em 1995 ele criou com colegas de infância o grupo Z’África Brasil (o Z em apóstrofo é homenagem a Zumbi dos Palmares) um dos maiores expoentes do rap nacional.
Perguntado seu nome de batismo e idade atual, o rapper rapa fora: “Não falo meu nome verdadeiro nem minha idade pra ninguém. Só digo que sou Gaspar Z’África, e minha identidade artística é datada de 29 de fevereiro de 1985”. Mas o Google “cagueta” para o repórter que ele nasceu Wagner de Oliveira, e está com 36 anos.
Autógrafo do livro para bar & lanches taboão
Foto: David da Silva - 14.jul.2014
Gaspar acaba de lançar seu primeiro livro e o primeiro CD-solo de sua carreira. O apelido remete ao tom de sua pele. “Por ser muito branquelo, os moleques da escola me colocavam todo tipo de apelido relacionado à minha cor”, conta. A brancura extrema lhe valeu virar "xará" do “fantasminha camarada” dos desenhos animados.

Lançado pela editora Nova Espiral, O Brasil é um Quilombo é uma continuidade da trincheira que Gaspar e seus companheiros do Z’África abriram 19 anos atrás. “Todo meu trabalho, inclusive este livro, traz uma visão realista da periferia das grandes cidades brasileiras. Nossos quilombos urbanos”, explica o autor. Não à toa, o primeiro álbum do grupo chamou-se Antigamente Quilombos, hoje Periferia, gravado em 2002.
O grande diferencial do Z’África Brasil em relação aos seus congêneres é a brasilidade. “A gente não fica só na africanidade, nem estamos presos ao universo da periferia. Somos guerreiros cósmicos”, autodefine-se. “Queremos explorar todos os gostos do povo. Do rap ao repente, temos liberdade de usar o canto falado. Somos como os cantadores de embolada, mas usamos a caixa e o bumbo da nossa forma, misturando rap paulistano com samba, maracatu e forró”, afirma Gaspar, sem deixar de dar o crédito ao rapper Zulu Z’África, colega fundador do grupo: “Foi do Zulu a sacada de abrasileirar o rap. Por intermédio dele nós encontramos a nossa identidade musical”.
Essa qualidade a mais valeu ao Z’África uma turnê pela Itália nas regiões de Verona e Bolonha, com cerca de 30 shows pelo norte daquele país em 1999. Também já estiveram por três vezes na França - em 2002, 2003 e 2007, onde foi gravado o terceiro CD da banda.
Com Alessandro Buzo, da TV Globo
Foto: Marilda Borges
A malícia e a sabedoria das ruas são o guia para o artista se virar em qualquer canto do planeta: “Se você me jogar na África, vou usar o lado africano que o Brasil me deu. Se você me jogar na Europa, vou usar meu lado europeu”, ginga Gaspar.
O respeito do artista pelas raízes afro-nordestinas é patente já no título do disco de estreia individual: Rapsicordélico. Na faixa de trabalho do CD, lançado em 24 de agosto no Auditório Ibirapuera, está sampleada uma fala do legendário Patativa do Assaré, poeta popular e improvisador do sertão do Ceará, com um refrão que Gaspar foi buscar com o mestre de jongo Totonho de Tamandaré, na cidade de Guaratinguetá, interior de São Paulo.
Não foi a primeira vez de Gaspar no palco do Ibirapuera. Esteve lá em novembro de 2013 apresentando-se com a Orquestra Brasileira do Auditório na comemoração do centenário do poeta Vinícius de Moraes, para quem escreveu:
“Neste rap tem samba que samba no sapatinho
Vai de Cartola, Candeia, a Zeca Pagodinho
Nelson Cavaquinho ao som do tamborim
Arlindo Cruz em Noite Ilustrada com Tom Jobim
De onde vem este samba quebrando as condutas?
É o samba do Pixinguinha e Os Oito Batutas
Seja quem for, pode chapar o DOPS e sua tropa
O Simonal com a Seleção vai ser o artilheiro da Copa
Dos Carnavais, dos sambas geniais
Adoniram Barbosa, Toquinho e Vinícius de Moraes
Encontro de gerações igual nunca se viu
Esta é uma homenagem ao branco mais preto do Brasil”
Com infância e juventude passadas nas duas margens do córrego Pirajuçara, ora na área dos jardins Mitsutani e Maria Sampaio na capital paulista, ora no Jardim Leme em Taboão da Serra, Gaspar Z’África tinha mesmo de ser poeta. Cursou o ensino fundamental em uma escola com nome de Fagundes Varella. E concluiu o ensino médio no colégio a poucos metros de onde germinou, anos depois, o Sarau do Binho.
Na contra-capa do livro, o poeta Sérgio Vaz define Gaspar como “um poeta simples, de palavras afiadas, doces e sinceras, ora estrala como um chicote, ora nos adoça os olhos”. Para o poeta Vaz, seu colega Gaspar “não nos oferece apenas um livro, mas tudo aquilo que não cabe no seu coração”.

Como todo moleque nascido e criado na periferia, Gaspar (à semelhança de um samba do João Nogueira) se agarrou na bola e pensou ser um dia um craque da pelota ao se tornar rapaz. “Comecei na escolinha de futebol da Portuguesinha dos Oliveiras, em Taboão da Serra. Primeiro jogava no ataque, depois descobri que era zagueiro. Joguei por sete anos no Pequeninos do Jockey. Na sequencia joguei por seis meses na Portuguesa de Desportos. Fiz testes em tudo que é clube que você possa imaginar. Até meus 13, 14, 15 anos sonhava ser jogador profissional”.
Mas a família teve de se mudar para o Ceará, e o futebol foi uma vontade que ficou pra trás.
No nordeste o garoto entrou de cabeça nos ritmos do lugar. “Quando voltei do Ceará para São Paulo, eu disse pra mim mesmo: 'já era o futebol. Vou fazer essa parada aí de música' ”, relata.

Lançamento do CD no Auditório Ibirapuera | Reprodução
O código genético musical de Gaspar fermentou no fole da sanfona de seu pai Zé Altimar. “Meu pai foi sanfoneiro famoso aqui na região. Pode perguntar pros antigos que todo mundo conhece ele”, historia o filho que hoje tem orgulho de ser igual seu pai.
“Eu pegava os forrós do Trio Nordestino e acelerava (canta um trecho do baião Chinelo de Rosinha, do compositor Bosquinho de Alcantil: ‘É o chinelo, é o chinelo dela / A sola do chinelo dela que é danado pra chiar’). Minha primeira formação musical foi essa e o samba de raiz, Bezerra da Silva, Fundo de Quintal”.
O rap entrou pra valer em sua vida por volta de 1992 a 1993, quando assistiu pela primeira vez um show do Racionais MCs na antiga chácara onde hoje está o CEU Campo Limpo. “Mas eu já vinha prestando atenção n’Os Metralhas. Foi deles o primeiro rap que decorei (canta: “Já tive uma vida diferente da sua / já tive mordomia, mas hoje durmo nas ruas...”).  Daí pensei: 'Porra, eu sei fazer essa parada!' ”.
Foto: Conexão Cultural SP

Gaspar pede licença para atender a uns garotos que vieram convidá-lo para uma apresentação na escola deles. Geralmente nas fotos Gaspar, a exemplo de outros rappers, aparece de semblante fechado, marrento. Mas pessoalmente é muito cordial, bem atencioso mesmo com as pessoas. Traço típico da solidariedade dos habitantes periféricos. Que a despeito de tantas mazelas, não descuidam de uma certa afetividade regida pela necessidade de se protegerem mutuamente.
Como Gaspar diz na página 56 do seu livro:
“De solidão nóis num sofre”.
"Acreditar num sonho é poder cantar e conhecer cada canto da terra, e ver os griots, os pajés, ouvir suas histórias contadas de gerações passadas de pai pra filho" (Gaspar)

Acompanhe Gaspar Z’África no facebook

Setembro celebra Villani-Côrtes, no Sesc

Villani-Côrtes no CEU Campo Limpo em 11.nov.2011,
homenageado pela ONG Músicos do Futuro.
Foto: David da Silva
Edmundo Villani-Côrtes já é nome conhecido dos freqüentadores do nosso blog. Esteve por aqui em novembro de 2011, três dias depois de completar 81 anos.
Na ocasião, foi homenageado pela Associação Músicos do Futuro, de Taboão da Serra.
Agora Villani-Côrtes volta ao nosso balcão imaginário 35 dias antes de festejar 84 anos de vida. É que ele será celebrado durante todo este mês de setembro no Sesc Vila Mariana, em uma série de cinco concertos com suas composições. A “Primavera Villani” vai desabrochar nesta sexta-feira, 5 de setembro, e se estende por todos os próximos quatro sábados.
A festança musical é uma ideia da produtora Jeanne de Castro, concretizada pelo Sesc São Paulo. Com direção geral de Abigail Wimer, também já conhecida do público taboanense pela direção do musical Homem de La Mancha, que arrastou multidões ao teatro Cemur, em novembro do ano passado.

Escrever sobre Villani-Côrtes significa acelerar o teclado do computador pra dar conta de tudo o que este homem fez e faz sempre, a toda hora. É músico desde os 8 anos de idade, e já pegando o fósforo para acender 84 velinhas não dá descanso para a partitura musical.
Gravou em torno de 50 CDs no Brasil e no exterior. Ganhou muitos prêmios, entre eles quatro troféus da Associação Paulista dos Críticos de Arte em 1990, 1995, 1998 e 2007. Em 2011 recebeu o Prêmio Carlos Gomes “pela excepcional carreira de compositor”.

Pianista e regente com título de Doutor em Música, compôs cerca de 300 obras clássicas, e fez quase 2.000 arranjos musicais para a extinta TV Tupi, para o SBT e a Rede Globo. Tocou com nomes consagrados da antiga MPB como Maysa e Altemar Dutra, acompanhando os dois em turnês no exterior. Foi pianista do sexteto do programa de Jô Soares no SBT, na época chamado Jô Onze e Meia.

Foto: Arquivo pessoal
A família Villani-Côrtes era abastada em Juiz de Fora (MG), cidade onde ele nasceu. Mas a fortuna não esperou o menino Edmundo chegar. “Não peguei a fase boa da minha família”, conta. O pai adoeceu gravemente e as finanças definharam junto com a saúde do velho. Edmundo aprendeu cavaquinho ainda de calças curtas, observando o irmão tocar violão. Depois o pai conseguiu comprar-lhe um piano usado.
A primeira “platéia” de Edmundo foram uns insetos que “moravam” no instrumento bichado. “Quando eu começava a tocar, os bichos saiam de dentro das teclas pra me ouvir”, recorda brincalhão.

Uma das marcas da produção de Edmundo Villani-Côrtes é a afetuosidade. Alguns dos músicos que vão tocar na “Primavera Villani” têm músicas dedicadas a eles pelo compositor.
Ele diz que compõe com simplicidade e despretensão. “Primeiro me vem a vontade de transmitir alguma coisa. Trabalho na busca desta mensagem interior, e só depois vou pensar em como transformar isto em música”.

Os filhos seguem os passos do pai. Ed Côrtes é saxofonista, gaitista e clarinetista. Faz trilhas sonoras para cinema e TV. Em filmes nacionais compôs para Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, e Abril Despedaçado, de Walter Salles Junior. Em Hollywood escreveu trilhas para Senhor das Armas, A Estranha Perfeita, e O Amor nos Tempos do Cólera. Na música popular, Ed Côrtes fez arranjos para a banda Skank (Partida de Futebol) e para o J. Quest.
A filha Gê Côrtes, também conhecida por Gê Mineira, foi solista por mais de 10 anos na Orquestra Jazz Sinfônica. Está há 14 anos todos os sábados, madrugada adentro no programa Altas Horas, contrabaixista da banda com o mesmo nome da atração da TV Globo.
Foto: Daniela Toviansky
Junto com os dois filhos e a esposa Efigênia, cantora lírica com quem é casado desde 1959, Edmundo Villani-Côrtes irá ao palco em 20 de setembro. Dia do meu aniversário. 
Como diria o rapper Gaspar, do Z’África Brasil: “Ó, que presente!”

Avisei pra você no início deste texto que Villani-Côrtes não dá sossego... 
Agora que a gente pensa que ele está descansado, esperando sossegado as noites de setembro em que será louvado... que nada! Foi ele próprio quem definiu as composições a serem executadas. 
E escolheu a dedo os músicos que vão tocar nas cinco noites.
Vam’bora descansar, seo Villani? 
Ele manda esperar mais um pouquinho. Está revisando nota por nota e uma a uma todas as páginas das partituras das mais de 40 obras que irão ao palco.

Primavera Villani
Noite de abertura – 5 de setembro, às 21h
TEATRO (608 lugares)
Ingressos: R$ 12,00 (inteira) | R$ 6,00 (meia) | R$2,40 (comerciários)
Demais concertos – dias 6, 13, 20 e 27 de setembro, às 18h30
AUDITÓRIO (131 lugares)
Entrada franca
SESC VILA MARIANA
Rua Pelotas, 141, Vila Mariana, tel. (11) 5080-3000

Sexta-feira 5 de Setembro, 21 horas | Teatro
Orquestra Filarmônica de São Caetano do Sul
Regência: Geraldo Olivieri
Solistas: Toninho Carrasqueira e Karin Fernandes
·         Abertura Djopoi (ano da composição: 1993)
·         Baião (1978)
·         Concerto para flauta e orquestra (2000)
1. Gingado | 2. Moderato | 3. Allegro
solista: Toninho Carrasqueira, flauta
Obra dedicada a Augusto de Castro Côrtes, pai do compositor. 1ª audição em Londres, com a Orquestra do Covent Garden e o flautista Marcelo Barbosa, na St. John's Cathedral, em concerto comemorativo dos 500 anos do descobrimento do Brasil.

Concerto Nº 3 para piano e orquestra (1991)
1. Impressões do terrestre convívio
2. Os ascendentes caminhos do espírito
3. Alegre encontro da eterna morada
solista:  Karin Fernandes, piano
1ª audição em 1991 no Festival de Campo de Jordão, com Edmundo Villani-Côrtes como solista.

Sábado, 6 de Setembro, 18:30 horas | Auditório
Grupo Aum
Arlete Tironi Gordilho, piano; Liliana Bertolini, flauta; Hélcio de Latorre, flauta e flautim; Gilson Barbosa, oboé e corne inglês; Clóvis Camargo, contrabaixo, e Nath Calan, vibrafone e percussão
·         Pequena fantasia de Jó
·         Os Borulóides
·         Opus 2004
·         Frevo paulista
Obras escritas entre 1990 e 2003, para formações diversas. Todas elas gravadas pelo Grupo Aum.

Duo Lício Bruno, baixo-barítono  /  Cláudia Marques, piano
·         Rua Aurora (letra de Villani-Côrtes baseada em Mário de Andrade)
·         Confissão (letra de Villani-Côrtes)
·         Se procurar bem (poema de Carlos Drummond de Andrade)
·         Prefiro (letra de Itagyba Kuhlmann)
·         Papagaio azul (letra de Villani-Côrtes)
·         Casulo (letra de Júlio Bellodi)
·         Espelhos (letra de Mônica Côrtes)
·         Canção de Carolina (letra de Júlio Bellodi)
·         Alma Minha (poema de Luís de Camões)
·         Para sempre (letra de Villani-Côrtes)
·         Balada dos 15 minutos (letra de Júlio Bellodi)
·         Sina de Cantador (letra de Júlio Bellodi)
Canções escritas entre 1965 e 2010. Todas elas gravadas pelo duo Lício Bruno e Cláudia Marques no CD "Ê vida, ê voz!", em fase de lançamento.

Sábado, 13 de Setembro, 18:30 horas | Auditório
Antonio Vaz Lemes, piano
·         Poema Brasileiro
·         Valsa das rosas
·         Sonata Nº 1 para piano
1. Lenda  | 2. Cantilena  |  3. Corrupio
Obras respectivamente de 1996, 2013 e 1994.

André Juarez, vibrafone
·         Ritmata para vibrafone solo (1993)

André Juarez, vibrafone  /  Aí Yazaki, piano
·         Concerto para vibrafone e orquestra [redução para vibrafone e piano] (1994)
1. Desafio  | 2. Intermezzo  | 3. Tocata
1ª Audição no Festival de Campos do Jordão de 1996, com André Juarez ao vibrafone e Sinfônica de Campinas regida por Benito Juarez.

Raïff Dantas Barreto, violoncelo
·         À Sombra da Mangabeira (2003)
Obra dedicada a Raïff Dantas Barreto.

Raïff Dantas Barreto, violoncelo /  Antonio Vaz Lemes, piano
·         Ponteio do agreste
·         Sonata para violoncelo e piano
1. Allegro-Cadência-Coda  | 2. Lento  | 3. Vivo
Obras respectivamente de 2010 (dedicada a Raïff Dantas Barreto) e de 1969, esta com 1ª audição em 2004 no Theatro Municipal de São Paulo, por Raïff Dantas Barreto.

Sábado, 20 de Setembro, 18:30 horas | Auditório
Família Villani-Côrtes
Edmundo Villani-Côrtes, piano
·         Prelúdios nºs 3, 5, 9 e 4
·         Choro em forma de rondó
Obras respectivamente de 1949 e de 1957.

Gê Côrtes, contrabaixo
·         Ponteio para contrabaixo (2012)

Edmundo Villani-Côrtes, piano  /  Gê Côrtes, contrabaixo
·         Choron (1994)
Obra dedicada a Gê Côrtes

Edmundo Villani-Côrtes, piano,  /  Ed Côrtes, saxofone  /  Gê Cortes, contrabaixo
·         Choro do João
·         O Gabriel chegou
·         Francisco no choro
·         Acalanto
·         Balada dos 15 minutos
Obras respectivamente de 1995, 1997, 2010, 2013 e 1989.

Efigênia Côrtes, voz  /  Edmundo Villani-Côrtes, piano
·         Confissões  (letra de Laerte Freire)
·         Ária de Roxane (do musical “Cyrano de Bergerac”, letra de Abigail  Wimer)
·         Ária de Ceucy  (da ópera “Poranduba”, libreto de Lúcia Pimentel Góes)
Obras respectivamente de 1992, 2012 e 1997.

Sábado, 27 de Setembro, 18:30 horas | Auditório
Paulo Gori, piano
·         Sonata Nº 2 - A Lenda dos Alatás
·         Ritmata Nº 1
·         Salve, salve Daniel
Obras respectivamente de 1999, 1985 e 2013.

Celina Charlier, flauta  /  Paulo Gori, piano
·         Série Brasileira (1991)
1. Ponteio  | 2. Modinha  | 3. Valsa  |  4. Choro

Celina Charlier, flauta
·         Estudo dos 7 fôlegos (1995)
Obra dedicada a Celina Charlier.

Celina Charlier, flauta  /  Paulo Gori, piano
·         Fantasia Sakura
·         Villani in the Village
·         Arabian Shifting Sands
·         Cinco miniaturas brasileiras
1. Prelúdio|  2. Toada  |  3. Choro|  4. Cantiga de ninar|  5. Baião
As três primeiras obras, respectivamente de 2003, 2006 e 2011, são todas dedicadas a Celina
Charlier. As Cinco Miniaturas são obra de 1978.

Veja a homenagem dos Músicos do Futuro, do maestro Edison Ferreira, na homenagem a Edmundo Villani-Côrtes numa das noites mais queridas da minha vida, em 11 de novembro de 2011:


terça-feira, 2 de setembro de 2014

Talentos de Taboão espalham Arte por 391 km de SP

Apresentação no bairro da Lapa, zona oeste de SP. Foto: David da Silva - 02.ago.2014
Na Vila Aricanduva, zona leste - Foto: Marco Pezão - 29.ago.2014
O grupo teatral Na Ponta do Lápis, de Taboão da Serra, fez todas as aberturas do Sarau Poético A Plenos Pulmões itinerante, no período de 26 de julho a 29 de agosto. A caravana cultural percorreu cinco bibliotecas e um ponto de leitura da Prefeitura de São Paulo cobrindo as zonas leste, oeste e norte. Foram mais de 390 quilômetros de deslocamentos em seis dias – precisamente, 391 km e 800 metros. O circuito integra o programa Literatura Periférica: Veia e Ventania nas bibliotecas públicas da capital paulista. Após cada apresentação da peça Nasce um Sarau: Clariô no Verso, o microfone é aberto para pessoas da plateia participarem com suas leituras de poesias.
Cena da peça no Jd São Mateus, zona leste. 
Foto: Zé Sarmento - 22.ago.2014
A trupe de 14 atores do Na Ponta do Lápis é fruto da oficina de teatro do Espaço Cultural Clariô, o mais premiado em toda a história das artes cênicas de Taboão da Serra. No último 27 de agosto, o Clariô completou nove anos de existência. O texto original da peça é dedicado a Mário Pazini, fundador do Clariô. Este trabalho de revelação de talentos, e o enredo do espetáculo Nasce um Sarau foi pauta do telejornal SPTV, da Rede Globo, na edição de 16 de agosto último.
Na trama escrita por Marco Antonio Iadoccico (Marco Pezão) e dirigida por Naloana Lima, o grupo conta como surgiu o atual movimento de declamação de poemas em bares e botequins.
No Bairro do Limão, zona norte, em 27.ago.2014.
Foto: David da Silva
Esta atividade (que resgata algo análogo ao que ocorreu na cidade de São Paulo na década de 1960 chamada Catequese Poética) começou em Taboão da Serra no ano 2001 por iniciativa dos escritores Marco Pezão e Sérgio Vaz. O fenômeno literário se espalhou por pontos comerciais paulistanos, espraiou-se pela Grande São Paulo, e atingiu várias localidades do Brasil. Em meados de abril e maio deste ano, os saraus paulistas foram convidados de honra da 40ª Feira Internacional do Livro em Buenos Aires, levando para a capital argentina 180 ativistas desta agitação poética.
Acampados pra não perder a hora. Foto: Michele Andrade 
28.ago.2014
Sarau A Plenos Pulmões é sediado na Casa das Rosas, um patrimônio histórico-cultural situado na Avenida Paulista. Organizado por Marco Pezão, este coletivo de artistas e escritores voltará a circular por escolas e bibliotecas da Cidade de São Paulo, em novo contrato a ser firmado com o Sistema Municipal de Bibliotecas, coordenado por Rosa Maria Falzoni. 
“Já temos pessoas interessadas em levar este sarau-espetáculo para suas unidades”, conta Falzoni.
No micro-ônibus a viagem era um sufoco.
Foto: David da Silva

Com a perna no mundo
Nenhum dos deslocamentos do Sarau a Plenos Pulmões com o grupo Na Ponta do Lápis teve menos de 50 quilômetros de distância. Só no bate-e-volta ao Ponto de Leitura do Jardim São Mateus, no extremo da zona leste paulistana, foram 84,8 km. 
A itinerância foi abençoada. Em nenhuma das viagens a trupe enfrentou qualquer tipo de congestionamento. A geralmente conturbada Cidade de São Paulo foi cruzada em tempo recorde nas seis apresentações.
Em duas ocasiões parte das atrizes e dos atores tiveram de pernoitar na casa do poeta Marco Pezão. Tanto para fugir da madrugada violenta, como para não perder a hora da saída (a ida para a Vila Aricanduva, zona leste, no último dia 29, teve início às 5h30 da manhã).
Ônibus grande ajudou no conforto dos 
artistas e na manutenção do cenário 
Foto: Zé Sarmento
A princípio foram fretados micro-ônibus, pagos com recursos próprios. “Mas ninguém guenta tirar do bolso aluguel de ônibus a cada apresentação”, brinca o coordenador jornalista David da Silva. Neste ponto da trajetória entrou o auxílio valioso do vereador taboanense Ronaldo Onishi, que intermediou a condução dos artistas com a viação Transkuba. Os motoristas que serviram a caravana cultural foram Rafael Moraes, Gustavo, Fabio Sousa, André e Roberto Silva.
A cada viagem matinal o ônibus se convertia tanto em oficina de manutenção do cenário, quanto num dormitório sobre rodas.
A performática Elide Nascimento
caracterizada em Fernando Pessoa.
Foto: Zé Sarmento - 22.ago.2014
A Biblioteca Milton Santos, na Av. Aricanduva, contou com duas apresentações – a de estreia e a de encerramento da temporada. No Bairro do Limão, zona norte, a Biblioteca Menotti Del Picchia também teve dupla apresentação.O já citado ponto de leitura do Jardim São Mateus foi antecedido pela Biblioteca Mário Schenberg, na Lapa. “Eu já pedi para a Rosa Falzoni agendar vocês de novo”, avisa a coordenadora Henriqueta Marques.
Na parte das leituras e/ou interpretações de poemas e outros textos, o sarau itinerante contou com as participações de Flávia D’Álima, Marco Pezão, Bispoeta, Elide Nacimento, Zé Sarmento, Otília Pires, e Pedro Lucas.
Flávia D'Álima e Marco Pezão
Foto: Zé Sarmento

Atrizes e atores (ordem alfabética) e personagens:
Angela Miranda (Amanda, em dias alternados))
Carolina Vellasco (Heloísa)
Dora Nascimento (Rosinha, em dias alternados)
Emily Pazini (dona Mirela)
Juliana Paula (Rosinha, em dias alternados)
Leninha Silva (Carla)
Marco Miranda (THC)
Marco Russo (Justino)
Michele Andrade (Laura)
Otília cantou e encantou nos saraus, 
e cuidou da alimentação da trupe
na temporada. Foto: Marco Pezão
Murilo Cóstola (Agenor)
Paloma Xavier (Amanda, em dias alternados)
Rafaela Tamires (Laura, no dia 27.ago)
Vitor D. Diaz (Gil)
Vitor Santana (Carlos)
Tainá Pazini (Mariana)
Taynara Pazini (Larissa)
Ton Moura (Vitão)

Cenografia: Alexandre Souza (João) e Marco Miranda 
Sonoplastia: Rafaela Tamires e Naloana Lima (no dia 27.ago) 
Iluminação: Kenny Rogers
"Quem é da poesia, diz: 'aêêê!!!' ". Foto: David da Silva - 22.ago.2014