quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Teatro Encena estreia “A Escada”, e sairá em turnê pelo interior de SP

Espetáculo teve plateia sempre lotada na pré-temporada. É necessário fazer reservas.
Foto: Rogério Gonzaga
Quase dá agonia na gente ao ver, nos 95 minutos da peça, o casal de velhinhos subir e descer tantas vezes a escada implacável.
Walter Lins (Francisco) e Zulhie Vieira (Noêmia)
Foto: Orlando Júnior
Eu disse quase.
Mal entramos na sala de espetáculos, o olhar se extasia. 
O cenário literalmente sobe pelas paredes.
A Companhia de Teatro Encena estreia neste sábado, 13 de fevereiro, o espetáculo “A Escada”, do dramaturgo paulista Jorge Andrade. 
A peça já teve uma pré-temporada em novembro último. Sempre com plateia lotada. 
Você não conseguirá assistir se não fizer reserva. 
As sessões acontecerão todos os sábados de fevereiro, e aos sábados e domingos de março e abril.
Diógenes Peixoto (Vicente) e Maira Galvão (Maria Clara)
Além das apresentações na própria sede, a trupe fará turnê por seis cidades do Estado de São Paulo - Barretos, Sertãozinho, Assis, Itapevi, São Roque e Pindamonhangaba.

Isolados de si
O público não percebe a princípio porque o casal de idosos ficou sem teto. Antenor (Orias Elias) e Amélia (Sylvia Malena) vivem de favor nas casas dos quatro filhos. Um mês no apartamento de cada um. Moram todos no mesmo prédio. Entre eles, a escada. Que os desune.
O velho Antenor desperta nos espectadores afeto e antipatia. Dá palpite em tudo. Ofende a todos. É elitista, intriguento. Uma espécie de inferno ambulante.
Jacintho Camarotto (Sérgio) e Vera Barretto (Helena)
Foto: Orlando Júnior
Os filhos tentam manter o velho trancado em casa. Mas como disse o poeta Manoel de Barros, “liberdade caça jeito”. Antenor escapa sempre. Faz fiado nas banquinhas de frutas do bairro. Chega a expulsar pessoas das calçadas das ruas que ele diz que foram (e voltarão a ser) suas.
O velho birrento carrega pra todo canto um documento. Diz ser a prova da herança de sua mulher Amélia, neta de antigos fazendeiros do bairro paulistano do Brás, onde a história se desenrola.

Curiosamente o próprio autor Jorge Andrade foi casado com Helena de Almeida Prado, neta de antigos donos de vastas porções de terras no Brás. 
Orias Elias (Antenor) e Sylvia Malena (Amélia)
Foto: Rogério Gonzaga
Assim como Antenor na ficção, na vida real o avô de Helena lutou por 30 anos na justiça para tentar reaver as propriedades de seus ancestrais.

Os modos e manias terríveis de Antenor despertam tal exasperação, que uma personagem desfere a palavra cruel: “Odeio velhos. Não são vivos nem mortos”.
Mas é impossível não se enternecer quando, no patamar onde a escada se divide em duas, Antenor diz à sua velha Amélia: “É muito difícil morrer. Podia ser tão mais rápido. Tenho a impressão de ter passado a vida morrendo”.

Preconceitos para todos os desgostos
Pense numa espécie de preconceito. 
Qualquer um. 
Discriminação contra idosos, discriminação racial, social, sexual. O ofício secreto do veneno corroendo o amor entre marido e mulher. 
Está tudo lá, no texto.
A língua impiedosa de Antenor cavou a infelicidade de sua neta Lourdes (Paloma de Oliveira). A moça não pôde casar só porque seu pretendente era italiano. 
Babi Soares (Zilda) e Paloma Oliveira (Lourdes)
Foto: Rogério Gonzaga
A outra neta, a fogosa Zilda (Babi Soares) também não escapa à violência verbal do velho. O namorado dela é negro (“O avô dele foi escravo de quem?”, açoita Antenor).
Nem o pobrezinho do porteiro do prédio se salva das preocupações presunçosas do idoso irreverente – “Você é filho de qual família? Você não tem sobrenome? Quem foram seus avós?”.
Uma praga, esse Antenor.
Mas de novo o contraponto se impõe. Os velhos são tratados como trastes. Sem direito a dormir na mesma cama por mais de 30 dias. Nenhum dos filhos pergunta com sinceridade, frente a frente, o que seus pais julgam ser melhor para eles mesmos. Tudo é tramado à meia boca, diálogos enviesados.
O único lugar onde Antenor e Amélia conseguem conversar a sós é na escada. Resta somente ali um pouco da privacidade perdida.
Mas, os velhos pelo menos têm o passado a que se apegar. Os filhos, nem isso. São desgarrados das raízes familiares. Órfãos de um tempo presente pleno de incertezas.
Nada muito diferente do momento vivido pela sociedade brasileira nos dias de hoje.

Cativando plateias
Fundada em 1997, a Cia de Teatro Encena vê a cada dia se avolumar o número de pedidos de reservas para seus espetáculos.
Na divulgação de “A Escada”, a trupe gerou um marketing de guerrilha. Nos teasers comandados por Walter Lins, ator e co-diretor da peça, a curiosidade do público é aguçada com detalhes de cada personagem.

ELENCO em ordem alfabética

Cláudio Bovo fala do seu personagem Juca:

Babi Soares fala da sua personagem Zilda:

Diógenes Peixoto fala do seu personagem Vicente:

Jacintho Camarotto fala do seu personagem Sérgio:

Maira Galvão fala da sua personagem Maria Clara:

Orias Elias fala do seu personagem Antenor:

Paloma de Oliveira fala da sua personagem Lourdes:

Sabinna Di Colluccy fala da sua personagem Lavínia:

Sylvia Malena fala da sua personagem Amélia:

Vera Barretto fala da sua personagem Helena Fausta:

Zulhie Vieira fala da sua personagem Noêmia:

(Parece que aqui se confirmou o velho ditado: “Casa de ferreiro, espeto de pau”. Não encontramos o teaser com o ator Walter Lins falando do seu personagem Francisco. A providenciar)

Serviço:
Espaço Cultural Encena
Quando: 13, 20 e 27 de fevereiro (sábado) às 20h30. Em março e abril, de 5/03 a 17/04, aos sábados às 20h30, e domingos às 19h.
Rua Sargento Estanislau Custódio, 130, Jd. Jussara-Butantã / SP
Quanto: Grátis, com contribuição espontânea
Capacidade: 70 lugares
Duração: 95 minutos
Classificação: 10 anos
Informações: 98336-0546 (Tim) e 2867-4746
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Ficha Técnica
Texto: Jorge Andrade
Direção: Orias Elias
Co-direção: Walter Lins
Iluminação: Vagner Pereira
Musica original: Gustavo Barcamor
Cenário: Orias Elias e Jones Cortez
Figurinos e maquiagem: Walter Lins
Produção: Cia de Teatro Encena

Apoio Institucional: PROAC - Programa de Ação Cultural da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo -  Edital 2015 - Montagem
Elenco fará turnê pelo interior paulista, percorrendo seis cidades. Foto: Divulgação

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Teatro Tesol abre vagas para curso de férias

Daniel Diez - Foto: Jean Grimard
Com 39 anos de atividades em Taboão da Serra, o TESOL (Teatro de Expressão Sol) está com inscrições abertas para o curso de férias. Não há limite de idade. As vagas são para turma de 20 pessoas.
Segundo o diretor Daniel Diez, o curso tem por objetivo “desenvolver a capacidade de expressão por meio de exercícios lúdicos envolvendo corpo, voz, imaginação criativa a fim de ampliar o potencial de comunicação, rompendo as barreiras da inibição, olhando e ouvindo a si próprio e ao outro”.
O curso é indicado para alunos de todos os níveis de ensino, assim como para líderes e gerentes que pretendem buscar uma mudança em suas vidas.
O curso terá a duração de três meses. As aulas acontecerão às terças ou quintas-feiras, no horário das 19h30 às 21h30.
A taxa de matrícula é de R$ 30,00, e as mensalidades também serão de R$ 30,00.

Experiência

Pelo Teatro TESOL já passaram artistas de várias gerações. Um deles foi o renomado ator e diretor Mário Pazini, que interpretou Jesus por vários anos na Paixão de Cristo em Taboão da Serra.
O fundador do TESOL, Daniel Diez, de 80 anos, iniciou no teatro no Peru, onde nasceu. No Brasil Daniel Diez atuou em 1965 na montagem original do espetáculo “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto com músicas de Chico Buarque, sob a direção de Silney Siqueira.
Daniel Diez estudou na Escola de Arte Dramática Alfredo Mesquita, frequentou o Curso de Artes Cênicas da FAAP, e o Centro de Estudo Macunaíma.

Inscrições:
TESOL - TEATRO DE EXPRESSÃO SOL
Rua José Nunes de Oliveira, 73
Bairro Pazini – Taboão da Serra
Fones: 4786-3697 e 97564-4403

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Silvio Modesto e o ultimo show do Cartola

O barbeiro Edgar e o dono do bar Carioca conversam com o sambista Silvio Modesto.
Foto: David da Silva - 28.nov.2015
Passei um sábado com S maiúsculo. S de samba. S de Silvio Modesto.
Convoquei o sambista Silvio Modesto para um bate-papo no Bar do Carioca, na Praça Luis Gonzaga, ao lado do Poupatempo/Pirajuçara. Ele não sabia (e só tá sabendo agora) por que foi convidado pra aquela conversa no amanhecer do último sábado, dia 28. É porque hoje se completam exatos 35 anos do falecimento do compositor Cartola. E eu tinha de reverenciar Cartola na manhã desta segunda-feira. E, enquanto escrevia mentalmente esta homenagem com a antecedência de um sábado, tinha de pegar na mão do homem que marcou o ritmo para Cartola cantar no último show gravado em disco na sua vida.
Silvio Modesto teve a glória de estar no palco com Cartola na sua última apresentação ao vivo. O imortal autor de As Rosas não Falam, de O Mundo é um Moinho, e outras canções que atravessaram gerações, teve seu derradeiro registro sonoro perante uma platéia em 30 de dezembro de 1978, dois anos antes de falecer. Ele morreu em 30 de novembro de 1980, vítima de câncer.

Cartola foi consagrado como autor a partir de 1929, quando “vendeu” seu primeiro samba, gravado por Francisco Alves, “o cantor das multidões”. Na década de 1960, depois de anos no ostracismo em que até o imaginaram morto, Cartola foi “ressuscitado” pelo jornalista Sérgio Porto (o Stanislaw Ponte Preta) e pela cantora Nara Leão. Em 1976, veio a primeira grande vendagem de uma composição de Cartola, na voz de Beth Carvalho.

Recorte de matéria que fiz sobre
Silvio, 12 anos atrás
Silvio Modesto
Se escondi do Silvio Modesto no sábado o porquê da sua convocação ao pé do balcão, ele, todavia não deixou de me surpreender. E ele sempre me surpreende. Anos atrás, fui à sua casa cumprimentá-lo por um aniversário. Ele foi até seus arquivos, e de lá sacou um gravadorzinho com que eu o havia presenteado há mais de década.
No sábado passado, Silvio trazia no bolso o recorte de uma matéria que fiz sobre ele em 2003.
Nossa conversa, escoltada pelo barbeiro Edgar e o dono do bar Carioca, rendeu até o meio da tarde. Além de excelente ritmista e compositor respeitado, Silvio é um grande enfeitiçador de público. Um contador de causos à altura da sua vasta biografia.
Depois do abraço da nossa despedida, e antes de tomarmos a saideira, beijei a mão do Silvio. Ele ficou meio assim... Mas fui-me embora sem lhe dar explicação. Agora ele sabe. Beijei a mão que tocou percussão para Cartola cantar no derradeiro show da sua passagem pela terra.

No disco acompanhado por Evandro e seu Regional (grupo onde Silvio Modesto foi ritmista por 17 anos) Cartola canta como uma entidade. 
Silvio Modesto (à esq.) com colegas músicos que
acompanharam Cartola em 1978
É arrepiante a formosura das suas modulações vocais. A dicção perfeita de Cartola é um encanto à parte, tal o seu apuro em escandir as sílabas. Os arranjos musicais feitos com singela sofisticação, mostram que os acompanhantes tiveram a correta leitura de um homem que estava prestes a cumprir sua missão na forma humana.

As pessoas na plateia, e os músicos no palco, viveram com Cartola naquela noite uma experiência que não se explica com meras palavras.
Gravado em 30/12/1978
Local: Ópera Cabaré – São Paulo (SP)
Voz: Cartola
Bandolim: Evandro do Bandolim
Violão 7 cordas: José Pinheiro
Cavaquinho: Lúcio França
Percussão: Silvio Modesto e José Reli (Zequinha)

00:00 - Alvorada (Carlos Cachaça/Cartola/Hermínio Bello de Carvalho)
03:46 - O mundo é um moinho (Cartola)
07:57 - Sim (Cartola/Oswaldo Martins)
11:46 - Acontece (Cartola)
14:46 - Amor proibido (Cartola)
18:59 - As rosas não falam (Cartola)
22:37 - Verde que te quero rosa (Cartola/Dalmo Castelo)
25:28 - Peito vazio (Cartola/Elton Medeiros)
28:55 - Alegria (Cartola/Gradim)
31:14 - Inverno do meu tempo (Cartola/Roberto Nascimento)
34:18 - O sol nascerá (Cartola/Elton Medeiros)

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A ligação entre Taboão da Serra e o filme concorrente ao Oscar/2016

Edna da Silva, inspiradora do filme
Longa-metragem Que Horas Ela Volta? terá duas apresentações na próxima 3ª-feira no Sesc Campo Limpo

Nenhuma cena do filme Que Horas Ela Volta? foi gravada em Taboão da Serra.
Mas é nesta cidade, no bairro Jardim Sílvio Sampaio, onde mora Zeni Maria de Jesus, 67 anos, em quem foi baseada a personagem Val, interpretada por Regina Casé. Dirigido por Anna Muylaert, o longa-metragem representa o Brasil na disputa por uma vaga ao Oscar 2016.
Se no cinema a dona Zeni é a Val, na vida real a personagem Jéssica é Edna da Silva, 47 anos, filha de dona Zeni.
Sucesso de público, Que Horas Ela Volta? já encostou no meio milhão de espectadores. Até a manhã de ontem, 5ª-feira, o filme havia sido assistido por 498.653 pessoas.
Na próxima 3ª-feira dia 24, o filme será exibido em dois horários no SESC Campo Limpo. 
É a segunda presença deste filme na região. No último 4 de novembro, a diretora Anna Muylaert veio ao bairro Campo Limpo exibir o filme e debater com integrantes da ONG Escola de Notícias, no CITA (Centro Integrado de Todas as Artes).
A inspiração para o filme veio da experiência de vida de Edna da Silva. 
Anna Muylaert (a 2ª agachada da esq. p/ a dir.) em
debate sobre o filme no Campo Limpo, dia 4/11.
“Eu trabalhei muitos anos na casa da Anna [diretora do filme]. Fui babá dos filhos dela”, explica Edna. “Eu contava minhas coisas pra Anna, e ela ficava indignada de eu ter sido arrancada quando ainda era um bebê de perto da minha mãe. Fiquei sem ver minha mãe até meus 17 anos; meu pai me proibia de procurá-la, pois tinha raiva por ela ter se separado dele. A Anna sempre me dizia: ‘Um dia vou fazer um filme contando a tua história’”.

“Vem me buscar, mãe”

Na manhã de uma 2ª-feira em julho de 1985, o telefone toca na casa de número 84 da Rua Samuel Wainer, Jardim Silvio Sampaio, Taboão da Serra. Do outro lado da linha, de um telefone público em Salvador, capital da Bahia, o choro de uma menina desesperada de saudades: “Mãe, vem me buscar; quero ir morar com a senhora”.
Regina Casé faz a personagem Val,
inspirada em dona Zeni, moradora
de Taboão da Serra
Edna tinha um ano de idade quando seus pais se separaram. “Minha mãe veio para São Paulo trabalhar de doméstica, na intenção de voltar e me levar com ela quando se estabilizasse no emprego”, conta. Edna ficou aos cuidados da avó Conceição, mãe de seu pai, já falecida.
O pai, o mascate Arlindo José da Silva, falecido há 15 anos, nunca permitia o contato de mãe e filha. “Era a vingança dele, por conta de ter sido largado por ela. Cresci dizendo a mim mesma: ‘Quando eu ficar maior de idade, vou embora pra junto de minha mãe’. Eu sempre olhava para os retratos dela, sonhando com ela. Quando ela me mandava presentes, por várias vezes meu pai bloqueava. Aconteceu de minha mãe me mandar um brinco, ele pegar primeiro e esconder. Uma coisa de louco”.
Durante toda a adolescência, a garota não pôde sequer ter seus documentos pessoais. “Meu pai escondia minha certidão de nascimento pra eu não tirar RG e carteira de trabalho. Era o jeito dele me manter presa naquela cidade, em Vitória da Conquista sem poder vir para São Paulo atrás da minha mãe”.

Criança cuidando de crianças

Aos 11 anos Edna arranjou emprego de babá.”A gente morava num sítio, longe. Então fui para a cidade trabalhar. Foi meu primeiro ganha-pão. Queria juntar dinheiro para morar com minha mãe. Com aquela idade de 11 anos eu cuidava de três crianças. Não sei quem tomava conta de quem (risos) – a Juliana tinha 7 anos, Pedrinho com 4 anos, e Geórgenes, com um aninho. Trabalhei naquela casa por dois anos e pouco”.
Aos 14-15 anos, Edna teve proposta para trabalhar na capital. “Em Vitória da Conquista, minha tia trabalhava na casa de uma família, onde havia três jovens na faixa dos 14 aos 18 anos que estavam indo estudar em Salvador. A patroa da minha tia precisava de uma pessoa para fazer serviços de casa, cozinhar, lavar roupa, limpar a casa dos três filhos lá na capital. Eu escutei a conversa e me interessei. Pensei: ‘Ôpa! Em Salvador já estou mais próxima de São Paulo, mais perto da minha mãe!’. Minha tia não concordou, porque eu era menor de idade, não tinha nenhum documento, e ela não podia assumir a responsabilidade. Mas eu fiz tanto a cabeça dela, que ela chamou meu pai pra conversar. Sei lá o que meu pai imaginou. Talvez ele tenha pensado que eu indo para Salvador, fosse esquecer o desejo de procurar minha mãe. Mesmo assim, ele não deu a certidão de nascimento na minha mão. Entregou para a minha patroa e ainda recomendou: ‘Não deixa a Edna pegar esse documento de jeito nenhum!’”.

Edna só conheceu a mãe aos 17 anos
Conexão mãe-filha

Em Salvador, por intermédio de parentes, Edna conseguiu o endereço da mãe em Taboão da Serra. Começaram a trocar cartas.
Mas a saudade não cabia nos envelopes do Correio. “A vontade de ver minha mãe era cada vez maior. Daí descobri que ela tinha colocado telefone em casa. Consegui o número com minhas primas”.
A saudade transbordou.
“Saí para a rua, desesperada, segurando na mão o pedaço de papel com o número do telefone. Comprei muitas fichas telefônicas. Nossa, não gosto de me lembrar dessa parte... Muito triste.
Tava me sentindo sozinha num mundão desconhecido, horrível”, narra Edna, e prossegue:
“Grudei no telefone: ‘Mãe. Estou de malas prontas. Vem me buscar agora’.  Lembro que eu chorava muito. Minha mãe também chorava muito.  Ela falou: ‘Calma, calma. Fica tranquila que eu vou te buscar’. Voltei no trabalho, arrumei minhas coisas, não recebi salário, não recebi nada. Só falei pro pessoal da casa: ‘Estou indo embora’. E todo mundo: ‘Mas você não pode. Você é menor de idade. Nem tem documentos!’. Mas eu insisti em ir embora. Eu estava tão louca...”
No final do dia seguinte, uma das filhas da patroa levou Edna à rodoviária. A garota já tinha traçado seu plano de fuga:
“Como eu não conhecia nada em Salvador, resolvi ir para a rodoviária de Vitória da Conquista, que eu já conhecia. E lá eu encontraria minha mãe, que no mesmo dia em que eu liguei, saiu de São Paulo para se encontrar comigo.  Ajustamos os tempos de viagem de cada uma, para dar certo o encontro na rodoviária”.
Edna saiu de Salvador às 22h da 3ª-feira. Sua mãe havia partido de São Paulo às 11h do mesmo dia, com previsão de chegar a Vitória da Conquista às 11h do dia seguinte.
“Cheguei em Vitória da Conquista bem cedo. Não me lembro a hora. Mas fiquei plantada na estação até minha mãe chegar. Quando nos encontramos, foi muito emocionante. Reconheci minha mãe pelas fotos que eu tinha dela”, relembra.
Para se refazer da maratona da viagem e das emoções, dona Zeni propôs à filha descansarem até o dia seguinte. “Me desesperei: ‘Quero ir embora agora! Quero ir embora agora mesmo!’”.
Certamente a menina tinha medo que seu pai descobrisse o encontro das duas. E botasse a perder um projeto acalentado por 16 anos longe dos carinhos da mãe. “Viemos para São Paulo naquela mesma hora. Foi só o tempo de o carro com que minha mãe tinha ido para a Bahia ir na garagem fazer a limpeza, e voltamos no mesmo ônibus”.

A vida na tela

Por pouco tempo Edna ficou na casa da mãe em Taboão da Serra. Dona Zeni havia se casado de novo, três filhos com o segundo marido. “Vieram os atritos com meus irmãos. Rolou muitos ciúmes, eles não me aceitavam”.
O primeiro emprego de Edna em São Paulo foi de copeira na casa do fotógrafo Thomaz Farkas, dono da rede de lojas Fotoptica.
Mesmo na função de copeira por mais de três anos, o DNA de babá falava mais alto na vida de Edna. “Quando iam crianças na casa do seu Thomaz, eu esquecia que era copeira. Fazia muita confusão. Me envolvia com as crianças. Um dia ele me disse: ‘Ô, meu bem. Você não acha que está na profissão errada? Você adora crianças. Tem de ser babá’”.
Edna seguiu o conselho do patrão, empregou-se na casa de outra família como babá por quatro anos e meio. Até que descobriu que o serviço de diarista rendia mais. E foi trabalhar na casa de Anna Muylaert, que já conhecia por ser frequentadora da família Farkas.
 “Na Anna foi muito engraçado”, Edna se diverte com a lembrança. “Outra história bacana. Ela me contratou como diarista. Só que eu não limpava nada (risos). Brincava o dia inteiro com o José, filho dela na época com um ano e dois meses de vida. Um dia a Anna me chamou para conversar. Pensei: ‘Êita, vai me mandar embora...’  Ela me disse já que eu não estava limpando nada na casa, se eu queria cuidar do José. ‘Você não limpa nada aqui. Fica o tempo todo brincando!’. (risos) Mas eu ganhava muita grana como diarista. Tinha clientes para todos os dias da semana; trabalhava até aos sábados. Se ficasse como empregada mensalista, perderia dinheiro. A Anna resolveu me pagar salário mensal igual ao valor que eu ganhava como diarista. Depois do José, nasceu o Joaquim, e trabalhei na casa da Anna por 5 anos, de 1990 a 1994”.
Diretora de fotografia Barbara Alvarez
durante filmagens do longa em Embu das Artes
Por todo este período Anna dizia para Edna: “Um dia eu vou escrever a tua história”.

Pelo mundo afora, Que Horas Ela Volta? leva o título de The Second Mother.
Edna ainda trabalha como “segunda mãe” em casa de família. Mas fez curso de cabeleireira e breve vai montar seu salão no Jardim Nossa Senhora de Fátima, Embu das Artes, onde mora desde o início da década de 1990.
Sua casa e seu bairro foram o cenário para as ações gravadas na periferia.

Serviço:
Dia 24 de novembro (3ª-feira)
Às 18h e às 20h
Exibição do filme
QUE HORAS ELA VOLTA?
(114 minutos)
Entrada grátis
SESC Campo Limpo
Rua Nossa Senhora do Bom Conselho, 120
Ao lado da Estação Metrô Campo Limpo e do Shopping Campo Limpo

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sábado, 14 de novembro de 2015

Matança em Mariana – os alertas do poeta Drummond

Não foi apenas o laudo técnico emitido em outubro de 2013, exatos dois anos antes da catástrofe.
Carlos Drummond de Andrade (31.out.1902 - 17.ago.1987)
Também foram ignorados os sucessivos alertas do poeta Carlos Drummond de Andrade sobre a prática predatória das companhias exploradoras de minérios nas entranhas do Estado de Minas Gerais.
Dois dias antes de falecer, o poeta disse ao repórter Luiz Fernando Emediato: “Minas foi um lugar especial. Hoje não é” (entrevista publicada em 15 de agosto de 1987 no jornal O Estado de São Paulo).
Em 1939, quatro anos depois de se mudar de Minas para o Rio de Janeiro, Drummond escrevia em uma de suas mais importantes obras: 
“De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço: 
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil”
Pelotas de ferro extraídas do lugar da catástrofe
e expunha a simbiose entre as pessoas e o ferro arrancado do subsolo de sua terra natal: 
“Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. 
Noventa por cento de ferro nas calçadas. 
Oitenta por cento de ferro nas almas” 
(Confidência do Itabirano)

Minério e destruição

Era pelas páginas do jornal O Cometa Itabirano que Carlos Drummond despejava suas mais lancinantes preocupações com o destino de sua terra escalavrada. Em 1984 ele publicou no jornal da cidade de Itabira, onde nasceu:
Estátua de Drummond em Itabira (MG). Ao fundo, as
montanhas arranhadas pela exploração do ferro.
“O maior trem do mundo
Puxado por cinco locomotivas a óleo diesel
Engatadas geminadas desembestadas
Leva meu tempo, minha infância, minha vida
Triturada em 163 vagões de minério e destruição”
Em dezembro do ano anterior, Drummond já tinha enviado ao Cometa Itabirano sua poesia mais profética sobre a exploração e a espoliação  pela companhia Vale do Rio Doce (veja abaixo à direita a folha original datilografada pelo próprio Drummond).
Publicado na ed. nº 58 do jornal
O Cometa Itabirano, dez/1983

Lira Itabirana
I
O Rio? É doce.
A Vale? Amarga.
Ai, antes fosse
Mais leve a carga.

II
Entre estatais
E multinacionais,
Quantos ais!

III
A dívida interna.
A dívida externa
A dívida eterna.

IV
Quantas toneladas exportamos
De ferro?
Quantas lágrimas disfarçamos
Sem berro?

Oito anos antes da publicação do poema acima, Drummond já avisava às futuras gerações:  
“Essa serra tem dono (...) 
Cassetetes e revólveres me barram a subida 
Não mais a natureza a governa (...) 
proibido viver a selvagem intimidade destas pedras
que se vão desfazendo em forma de dinheiro.”
(Triste Horizonte, publicado em 14 de agosto de 1976).

Cidade-monstro
Drummond vaticinou um futuro sombrio para a
sua terra natal, espoliada pelas mineradoras

No dia 13 de maio de 1984, em depoimento ao programa Diálogo, da extinta TV Manchete, Drummond desabafou:
“[Minha cidade de Itabira está] hoje transformada pela Cia. Vale Rio Doce. Acho que é uma cidade “meio-monstro”, né? Ela tinha 4 mil habitantes, agora tem mais de 100 mil, sendo que dez mil estão desempregados. À espera de que a Companhia Vale Rio Doce dê a eles um trabalho qualquer. Está se retirando de Itabira, transferindo-se para Carajás [no Estado do Pará] e vai fazer a mesma coisa que fez no interior de Minas. Vai despojar a terra de sua riqueza e vai exportar isso. Nem sequer aquilo beneficia o Brasil. Beneficia a empresa! E, depois, abandona aqueles buracos!”
Vilarejo de Bento Rodrigues, 
destruído para todo o sempre

Materialização da metáfora

“Mar de lama” é expressão criada em 1954 pelo jornalista e político Carlos Lacerda sobre a corrupção que assola o país. Os 62 milhões de metros cúbicos de lama e água despejados pelo rompimento das barragens Fundão e Santarém transbordam os limites dessa metáfora.
O crime ambiental cometido pela mineradora Vale e sua sócia australiana matou o Rio Doce. E com ele o ecossistema dos 40 municípios banhados por este rio – 29 cidades em Minas Gerais e 11 cidades no Estado do Espírito Santo. O lodaçal assassino está chegando ao litoral capixaba, levando desolação a 60 km por hora.
Tão terrível quanto a agressão à natureza, foi o comportamento da classe política. O governador de Minas provou ser lacaio da empresa. A entrevista coletiva oficial não se deu no Palácio do Governo; ocorreu no escritório da multinacional. A presidente da República demorou sete longos dias para fazer breve sobrevoo na área devastada. Aplicou uma multinha de R$ 250 milhões. A própria Vale estima que vá gastar R$ 2 bilhões em medidas mitigadoras da matança humana e do meio ambiente. A multa governamental é, portanto, de míseros 25% sobre o estrago causado. Uma ação entre amigos.
A omissão da presidência do Brasil não ficou sozinha na parada. O senador mineiro, principal adversário do governo nas últimas eleições presidenciais, também não pôs o pé na lama. Limitou-se a balir: “Não é hora de apontar culpados”...

Em 1973 Drummond publicou o poema A Montanha Pulverizada. Nele o autor revela a angústia de ver as montanhas de Minas Gerais “britadas em bilhões de lascas deslizando em correia transportadora”.
Três anos depois o poeta romperia definitivamente com a capital do lugar onde nasceu:
“Porque não vais a Belo Horizonte? a saudade cicia
e continua branda: Volta lá.
Anda!Volta lá, volta já.
E eu respondo, carrancudo: Não.
Não voltarei para ver o que não merece ser visto...”
Mar de lama liberado pelas barragens da Cia. Vale é o maior crime ambiental da história do Brasil

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Áustria, pátria mãe de monstros

Bastou ao médico Albert Reiter bater os olhos na jovem Kerstin para cismar: “Tem coisa errada aqui”. A moça de apenas 19 anos tinha a pele totalmente enrugada, sem vigor algum. As gengivas sem dentes sangravam. Os olhos não suportavam luz – puseram-lhe óculos de sol para aliviar a dor nas vistas.
Kerstin foi internada em 19 de abril de 2008 com crise renal aguda, e induzida ao coma artificial. “Quero falar com a mãe dessa garota”, disse o doutor Reiter. Havia naquela paciente algum mistério além da falência dos rins.
Em 26 de abril, um sábado depois da internação, Elisabeth Fritzl, mãe de Kerstin, foi detida na porta do hospital quando ia visitar a filha pela primeira vez. O que ela contou contristou o mundo.
Elisabeth aos 18 anos, quando foi
presa no porão da casa pelo pai

A alma da Áustria caiu de bruços.
Durante 24 anos Elisabeth foi trancafiada no porão de sua casa pelo próprio pai, o engenheiro elétrico Josef Fritzl. Por duas décadas e meia, Elisabeth não viu mais a cor do dia. Nos primeiros nove meses foi mantida algemada. Depois ficou presa com correias que lhe limitavam os movimentos. À medida que as forças da garota iam sendo minadas, seu pai lhe concedia pequenas regalias... O velho Fritzl, com 73 anos quando o caso foi descoberto, descia rotineiramente ao porão para estuprar a adolescente, com 18 anos na data do encarceramento.
Plantou sete filhos na barriga da filha. Um deles, Michael gêmeo de Alexander, morreu com três dias, por problemas graves de respiração. O pai-avô queimou o corpinho do filho-neto em um fogão de lenha.
Foi a terrível lembrança do episódio medonho, que levou Elisabeth ao desespero de implorar ao pai para levar Kerstin ao médico, quando a filha caiu desmaiada no cubículo onde viviam. Não queria para a mocinha o mesmo triste fim do pequenino Michael.
Dos seis filhos sobreviventes que teve com a própria filha, três crianças o velho Fritz levou para morar com ele e a esposa “lá em cima”, na casa. As outras três, ficaram no calabouço com a mãe. Quando viram a luz do sol pela primeira vez, além de Kerstin com 19, Stefan estava com 18 anos, e Felix, 5.

Duas faces

Os brasileiros pouco sabemos de Áustria. País rico; quase nunca em manchetes de jornais.
Se tem austríacos em Taboão da Serra, não sei. Mas sei que tem um taboanense na Áustria – o jogador de vôlei Gabriel Soares, nascido e criado na região do Pirajuçara.
A Áustria tem a grande faceta de ocupar espaços superlativos no noticiário. Ou coisa muito boa, ou muito ruim. Pátria mãe de monstros sagrados da Cultura como os músicos Mozart e Gustav Mahler; gênios da Ciência como Sigmund Freud.
E monstros-monstros como Hitler, que dispensa apresentações. E o facínora Josef Fritzl, que apodrece na prisão perpétua por incesto, estupro, coerção, cárcere privado, escravidão e homicídio negligente do bebê Michael.
Polícia da Áustria tolhe refugiados na fronteira com a Hungria
Semana passada a Áustria ocupou o topo das páginas por querer conter o fluxo de refugiados fugidos da miséria de países como Síria, Afeganistão, Macedônia, etc. Foram taxados de “desumanos” pelos vizinhos alemães. Austríacos e alemães se embirram uns com os outros, igual brasileiros e argentinos.
A BBC de Londres me informa que a capital austríaca Viena foi eleita em 2015 pelo sexto ano consecutivo a mais alta qualidade de vida do planeta.
Enquanto pessoas iam aos melhores restaurantes e teatros do mundo em Viena, a uma hora e meia dali, na cidade de Amstetten (distante 111km) Elisabeth e seus filhos padeciam a mais monstruosa violência nas mãos de quem devia proteger-lhes.
Duas faces muito díspares de uma nação capaz de encantar e estarrecer.
Porta de concreto com 300kg
na entrada do porão

O monstro de Amstetten

“Me ajude aqui com esta porta, Elisabeth!”. Foi nesta cilada do pai que Elisabeth Fritzl caiu no dia 28 de agosto de 1984. Quando ela passou pelo acesso ao porão, o velho Fritzl dopou com éter a garota, na época com 18 anos. Elisabeth só cruzaria aquela porta de volta aos 42 anos de idade. Um quarto de século de pesadelos na masmorra imunda.
Para despistar os vizinhos, a polícia e a esposa, Josef Fritzl obrigou Elisabeth a escrever uma carta. “Escreva aí para mim e para sua mãe que você fugiu de casa, para seguir uma seita religiosa”, ordenou o monstro.
Das seis vezes que engravidou a própria filha, Fritzl a obrigou escrever cartas após três partos. Na carta a moça pedia que os pais assumissem as crianças porque ela não teria condições de criá-las. Quando o crime foi revelado, moravam “lá em cima” com Josef e sua esposa Rosemarie os filhos-netos Lisa, 15 anos, Monika, 14, e Alexander, 12.
Os irmãos “de cima” ficaram com sentimento de culpa, quando souberam que usufruíram de tudo na infância, enquanto seus irmãozinhos viviam um calvário no subterrâneo da casa.
Corredor entre a "cozinha" e o "quarto"
As crianças “de baixo” tiveram dificuldade de se adaptar à vida ao ar livre. O jovem Stefan tinha dificuldades para andar. Nos seus primeiros 18 anos de vida, o rapaz de 1,73m vivia confinado no porão com o teto de apenas 1,70m de altura. O garotinho Felix passou muito tempo acariciando o gramado do jardim; sensação diferente para as mãozinhas que jamais haviam tocado algo da natureza. Outras vezes as crianças criadas debaixo da terra ficavam abismadas só de ver uma nuvem passar no céu.

A Áustria ficou tanto mais chocada com o fato, por não ter sido a primeira vez que uma moça austríaca passou muitos anos sequestrada.
Dois anos antes da descoberta do cárcere privado de Elisabeth, a jovem Natascha Kampusch conseguiu fugir do seu raptor em agosto de 2006. Ela estava presa há oito anos por um desequilibrado desde março de 1998 numa periferia de Viena. Ele raptou a menina quando ela tinha apenas 10 anos e caminhava para a escola.

Difícil recomeço

Fritzl em férias
na Tailândia
O mais difícil para Elisabeth foi admitir que sua mãe não sabia de nada naqueles longos 24 anos. Que dona Rosemarie também fora vítima. Quando a polícia estourou o cárcere doméstico debaixo dos seus próprios pés, a senhora Rosemarie costumava descer ao local. E ali ficava por muitas horas. Chorando sem parar. Olhando as paredes que por uma eternidade mantiveram sua filha e netos sepultados vivos.
O velho Fritz tinha o hábito de desligar as luzes do tugúrio quando queria impor terror na filha e nas crianças.
Por duas vezes deixou Elisabeth trancada no porão, e foi tirar férias de quatro semanas na Tailândia.
Banheiro do cárcere onde Elisabeth ficou
24 anos sem ver a luz do sol
Elisabeth só aceitou contar tudo para a polícia, quando garantiram que ela nunca mais teria de ver o pai.

O médico Albert Reiter não se conformava em não ouvir da própria mãe o por quê do estado deplorável da garota Kerstin. Pediu à polícia da Áustria que enviasse comunicados por todo o país, pedindo para Elisabeth fazer contato. O senhor Fritz garantia que a filha jamais iria abandonar a seita que abraçara.
Foi aí que a casa do velho sacana começou a desabar.

A polícia iniciou uma investigação detalhada em todas as seitas instaladas no país. Nenhuma condizia à que o velho dizia ser a opção da filha.
Os investigadores montaram campana para vigiar os passos de Fritzl. Em algum momento depois do dia 19 de abril quando Kerstin foi internada, Fritzl permitiu que Elisabeth saísse do porão. Até montou o álibi que a filha tinha finalmente atendido ao apelo dos médicos para ver Kerstin.
A polícia desta feita estava mais atenta. E prendeu o monstro naquele sábado 26 de abril.    

Compensações

Como pedido de desculpas pelo sofrimento que passou nos 24 anos de confinamento, a Áustria pagou uma quantia milionária para Elisabeth, além de uma pensão mensal. A mulher e seus filhos vivem em uma aldeia em algum lugar não revelado, no interior da Áustria.
A privacidade de Elisabeth é religiosamente resguardada. Quando algum repórter se aproxima da casa toda colorida de dois andares onde ela vive com os filhos, a comunidade se mobiliza. E bota a imprensa pra correr. Elisabeth vive hoje um romance com um de seus guardas costas. O governo deu a ela o direito de andar sempre escoltada por agentes de segurança.
Para apagar os anos de privações, Elisabeth gosta muito de ir às compras. Tirou carteira de motorista, e tem compulsão por tomar banhos – cerca de 10 banhos por dia. Como se ainda trouxesse na pele o cheiro nojento do porão úmido e sempre exalando podridões.
Editoras propuseram milhões para Elisabeth contar seu drama em livro. Mas ela recusou todas as ofertas. Dedicou-se a reconstruir sua vida e de seus filhos, longe dos sensacionalismos.

Casa dos horrores

O governo confiscou todos os bens do velho Fritzl. Além do grande prédio onde morava, ele tinha vários imóveis alugados.
A residência da Rua Ybbsstrasse, número 40, foi posta à venda. Mas ninguém se interessou em comprar a casa dos horrores. De nada adiantou as autoridades mandarem entupir de concreto o porão onde Elisabeth e as crianças foram supliciadas. Ninguém quer saber daquela construção impregnada de tristezas.
Uma das prováveis utilizações do imóvel macabro, será como abrigo temporário para famílias de refugiados que cruzam a Áustria em busca de vida nova na Alemanha.
Josef hoje aos 80 anos

Segundo a polícia apurou, o velho Fritzl começou a construir a prisão de Elisabeth em 1981 – quando a menina tinha 15 anos.
Desde os 11 anos de Elisabeth o pai abusava dela sexualmente.
No período do julgamento, Fritzl mandava cartas para a filha perdoá-lo, pedindo compreensão e ... dinheiro!
Josef é hoje o encarcerado de número 4546765 no Presídio Stein, de segurança máxima. Só vai sair de trás das grades dentro do caixão.

Vizinhança surda?
Casa da família Fritzl

Até hoje paira dúvida se a vizinhança não sabia o que se passava por baixo do assoalho da casa da família Fritzl.
Os jornalistas Bojan Pancevski e Stefanie Marsch acham que os vizinhos se omitiram.

No livro The Crimes of Josef Fritzl: Uncovering the Truth (Os Crimes de Josef Fritzl: Descobrindo a Verdade) os autores defendem que era possível, sim, os vizinhos ouvirem os gritos, batidas nas paredes, gemidos, algazarra de crianças e outros sons vindos do porão onde Fritzl sufocava suas vítimas. Os repórteres requisitaram os serviços de um engenheiro de som para validar a tese. O porão não tinha isolamento acústico.