terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Artista de Taboão da Serra é indicada ao prêmio de Melhor Atriz em SP

Naruna Costa concorre ao Troféu APCA 2017. Foto: Raíssa Corso
David da Silva

Pelo seu desempenho na peça Antígona, de Sófocles, a atriz e diretora teatral Naruna Costa está indicada ao Prêmio de Melhor Atriz pela Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA). Cofundadora do Grupo de Teatro Clariô, em Taboão da Serra, Naruna também traz no currículo atividades de cantora e compositora. Os críticos teatrais da APCA estiveram reunidos na noite de ontem, 2ª-feira 4 de dezembro, para definir os indicados ao prêmio. A premiação é entregue há 61 anos. Os nomes dos vencedores serão definidos na próxima 2ª-feira, dia 11.
Dirigida por Moacir Chaves, Naruna Costa levou ao palco a personagem criada pelo grego Sófocles por volta do ano 442 a.C., ao lado de Pascoal da Conceição e Celso Frateschi, que assina a versão deste drama com cenários e figurinos de Sylvia Moreira. A peça esteve em cartaz de agosto a outubro deste ano.
Naruna na personagem Antígona - Foto: Gisela Schlogel

Teoria e prática

Nascida e criada no bairro Freitas Júnior, periferia de Taboão da Serra, Naruna, 34 anos, deu os primeiros passos na carreira por meio da União Teatral Taboão, criada em 1997 e dirigida por Amaury Alvarez, onde atuou em peças como A Torre em Concurso, entre outras.
A trajetória artística de Naruna Costa se espraia pelo teatro, cinema, televisão, shows musicais, além de discos próprios (Grupo Clarianas) e participações especiais em discos de artistas como Marcelo Pretto, Virgínia Rosa e o rapper Criolo.
Na TV Globo Naruna trabalhou em 2011 no seriado Força Tarefa como a personagem Sargento Lidiane; também em 2011 na novela Insensato Coração (personagem Renata); em 2010 na novela Tempos Modernos (personagem Dodô).
Naruna em frente ao Teatro Clariô, criado em 2002
Na TV Bandeirantes Naruna foi Suzi na novela Dance Dance Dance em 2007/2008. Na TV Brasil foi apresentadora em 2014 da série Resistir é Preciso, e do festival de vídeo Tela Digital, no período 2009/2011.
Na TV Cultura a atriz taboanense atuou no programa Senta que lá vem comédia em 2005, participou do programa Telecurso TEC em 2007, trabalhou no programa Profissão Professor (2009) e naquele mesmo ano em Tudo o que é sólido pode derreter.
No cinema Naruna Costa trabalhou em importantes produções como o filme Hoje eu quero voltar sozinho, que representou o Brasil no Oscar/2014.
A lista de atividades teatrais de Naruna é extensa: Peso, direção de Tica Lemos; Desde que o Samba é Samba, dir. Izabel Setti; Lesão Cerebral, dir. Silvana Garcia; Ricardo III, dir. Celso Frateschi; As Bruxas de Salém, dir. Bete Dorgan; A Árvore dos Mamulengos, dir. Wil Damas; Hospital da Gente, dir. Mário Pazini; Urubu come carniça e voa, dir. Mário Pazini.
Em 2015 além de interpretar uma das personagens, Naruna foi também diretora da peça Severina – da morte à vida, de Wil Damas (o espetáculo de criação coletiva do Grupo Clariô foi inspirado na obra de João Cabral de Melo Neto).
Foto: Raíssa Corso
Em 2016 Naruna Costa brilhou no teatro do SESC-Pinheiros fazendo o papel de Elza Soares no musical Garrincha, com direção do norte-americano Robert Wilson.
Já perto do fim do texto você deve estar perguntando o que a palavra “teoria” tá fazendo no subtítulo lá em cima. É que além do imenso potencial nos palcos e perante as câmeras, Naruna tem grande capacidade de teorização. Vê só o que ela declarou à Revista Baiacu:

"Cultura é necessidade básica, é fundamental. Igual saúde, moradia, educação. E isso é tão básico porque é ter história. Não tem como apagar o que você é pra ficar lá trabalhando numa indústria, que você trabalha pra ter dinheiro, pra pagar conta e não ter dinheiro, e assim vai. E a sua história vai sendo apagada. Quem reconstrói essa história? Os artistas. E também quem vai falar da beleza das coisas? [Quem vai contar sobre] aquele pôr do sol que eu vi no rio Madeira, em Rondônia?"

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A Vingança da Locomotiva, ou: Por que Barra Longa não tem estação de trem

A antiga estação ferroviária Crasto, em Barra Longa, construída em 1929 e desativada em 1980. Patrimônio histórico está abandonado. Foto: Eduardo Lanna
David da Silva

Na semana em que circulei por Barra Longa, na Zona da Mata em Minas Gerais no final de outubro último, perguntei a moradores antigos por que todas as três estações de trem que existiram naquele município ficavam tão longe do centro da cidade. Ninguém ali soube me explicar o porquê. O mistério só foi esclarecido quando, de volta à minha casa em Taboão da Serra (SP) assisti ao vídeo “Memórias de Dona Lilá”, depoimento da senhora Maria Auxiliadora de Freitas Mucci, a Lilá, nascida em Barra Longa e falecida em 2014 aos 95 anos. Dona Lilá é mãe do cantor, violonista e compositor João Bosco (autor de Papel Machê, Mestre-Sala dos Mares, etc.).
Em seu vídeo de recordações, dona Lilá conta que quando surgiu a proposta de levar a estrada de ferro passando pela sede administrativa de Barra Longa, um líder político local (popularmente chamado ‘coronel’) se opôs. “Um deles falou: ‘não, Barra Longa não pode deixar passar trem de ferro. Vai trazer bandido, vai trazer muita coisa ruim pra cá. Não pode, não!’”, narra dona Lilá. “Então a linha do trem foi para Felipe dos Santos [distrito a 18 km longe do centro]”, conta. Se o ‘coronel’ quis preservar seu paraíso, a vida dos estudantes virou um inferno. “Para irmos ao colégio em Mariana [na época a cidade mais próxima com ensino de segundo grau] tínhamos de sair do centro de Barra Longa em lombo de cavalo ou em carro de boi, e pegar o trem na estação Felipe dos Santos”, registrou a antiga moradora.
Restos mortais da ferrovia em Barra Longa, no distrito de Felipe dos Santos. A estação foi destruída, roubadas até as pedras da plataforma onde o trem estacionava.
Foto: Milton Brigolini Neme

O ‘donos do pedaço’ e o caminho de ferro

A ferrovia que passava por Barra Longa ligando Ouro Preto a Mariana e Ponte Nova começou a ser construída em 1887 e foi concluída em 1926. Esta linha de trem cortava o extremo sul do município de Barra Longa, próximo ao limite com o município Acaiaca.
Se chegou-se a cogitar o traçado ferroviário tangenciando o núcleo urbano de Barra Longa, quem teve influência política suficiente para empurrar o trem para os confins do município?
No vídeo de dona Lilá não é citado o nome do ‘coronel’ que interferiu no projeto da linha férrea. Isto me obrigou a um mergulho na história antiga de Barra Longa, à procura de quem detinha o mando naquelas paragens nos anos 1880.
A história registra que em 1886 Dom Pedro II e sua imperatriz Tereza Cristina estiveram em Ponte Nova, para inaugurar uma estação de trem. Esta estação integrava o ramal que vinha do Rio de Janeiro a Ponte Nova. Enquanto isto Ouro Preto e Mariana seguiam isolados, sem estrada de ferro para Ponte Nova e dali fazer a conexão com a ferrovia para a capital do Brasil.
No dia em que o casal real esteve em Ponte Nova, foi oferecido a eles um banquete na fazenda do médico José Mariano Duarte Lanna. A família Lanna era tradicional liderança econômica e política de Barra Longa, dona da maior fazenda daquele município. A visita do Imperador à propriedade de um membro da família Lanna revela a força e o prestígio deste clã naqueles tempos.
As três estações de trem em Barra Longa ficavam a quase 20 km de distância do centro urbano, por determinação de forças políticas do município na virada do século 19

As três estações

Em Barra Longa existiram três paradas de trem. As estações Cônego Luiz Vieira e Felipe dos Santos foram inauguradas em 28 de agosto de 1926. Três anos depois, em 5 de agosto de 1929 foi inaugurada a estação Crasto. A estação Felipe dos Santos foi destroçada. As outras duas estão hoje em ruínas. Os trilhos de ferro foram roubados. A estação Crasto agora fica em propriedade particular, e o fazendeiro usa a instalação como depósito de milho.
As estações ferroviárias de Barra Longa foram fechadas em 1980. Mas o trem continuava a passar, indo direto de Ponte Nova a Acaiaca. Esta linha funcionou até 1982. Um trem misto com passageiros e cargas saía diariamente de Ponte Nova às 14h30 e chegava a Miguel Burnier (à frente de Ouro Preto) às 22h19. Na volta, o trem saía de Burnier às 4h da madrugada, chegando a Ponte Nova às 11h50. Eram sete horas e 50 minutos para transcorrer a distância de 144 quilômetros.
Ruínas da estação de trem Cônego Luiz Vieira, em Barra Longa
Foto: Fábio Libânio

A vingança da locomotiva

Voltemos ao personagem do início da nossa narrativa. Dona Lilá conta que o fazendeiro que proibiu a ferrovia de passar pela sede administrativa de Barra Longa, foi num certo dia passear ou resolver negócios em Ponte Nova. O carro do fazendeiro ficou entalado nos trilhos ao cruzar uma passagem de nível. “Com o carro preso nos trilhos, veio um trem e passou por cima dele. Sim senhor. Foi assim”.
Mapa ilustrativo da distância de 18 km que moradores tinham de percorrer a cavalo ou carro de boi do centro de Barra Longa até a estação ferroviária

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Rota de fuga: Barra Longa quer estrada para escapar da Samarco

Entrada de Barra Longa ficou tomada pela lama em 2015. Ponte Quindumba é o único acesso pavimentado para o centro da cidade. Foto: David da Silva – 21.out.2017
David da Silva

O prefeito Fernando José Carneiro Magalhães, que na época administrava Barra Longa, conversava numa boa com Antonio Alcides, secretário de Administração e Meio Ambiente, na porta do Bar do Nô às nove e meia da noite de 5 de novembro de 2015. O papo tranquilo foi interrompido por um taxista esbaforido que perguntou se estavam sabendo do estouro de uma barragem em Mariana, a 60 km dali. Ninguém no bar tinha assistido ao Jornal Nacional. “Ninguém ligou pra mim, nem da Samarco nem da prefeitura de Mariana”, disse o prefeito. O comandante do destacamento local da PM, sargento Brandão, que passava ali na frente do boteco, também acalmou a todos: não tinha recebido nenhum alerta dos bombeiros. Horas depois um tsunami de lama com mais de 3 metros de altura invadiu a praça principal da cidade.
Não teve para onde correr. A entrada da zona urbana é um gargalo, com a Ponte Quindumba muito estreita - um veículo por vez. Barra Longa ficou ilhada.

É para evitar surpresas como esta que o povo de Barra Longa quer a pavimentação de uma estrada rural de 27 km com saída para o município vizinho Ponte Nova. A única via asfaltada de acesso a Barra Longa dá de cara com o trajeto que a lamaceira percorreu naquela trágica quinta-feira. Se a Barragem de Germano também se romper, Barra Longa ficará isolada no lamaçal.

Dois meses depois do estouro da Barragem do Fundão, que despejou 62 bilhões de m³ de lama com rejeitos de minérios pela região, os barra-longuenses passaram por outro sufoco. Em 27 de janeiro de 2016 soou na mina da Samarco o alerta de que o remanescente de lama vazou. Era alarme falso. Mas o susto é bom professor. A Samarco apresentou um Plano de Emergência, onde constava o asfaltamento da via rural de 27 km de acesso à cidade vizinha.
Via rural de Barra Longa a Ponte Nova

Em novembro de 2016 a Samarco realizou um simulado de plano de fuga em caso de novo rompimento de barragem. Mas o asfalto da via rural foi retirado da proposta de reparações da mineradora para com suas vítimas.
“Faz sentido um Plano de Fuga que desconsidera que os moradores ficarão isolados caso a barragem estoure? Curiosamente, depois que levantamos esta questão após a primeira simulação, este assunto desapareceu”, denuncia o cantor e compositor Fafá da Barra, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) em Barra Longa.
O tema é um dos assuntos discutidos nas reuniões da Comissão de Atingidos e Atingidas organizadas pelo MAB com a presença do Ministério Público Federal (MPF).
O compositor resume bem o sentimento dos habitantes locais na atualidade: “Essa lama foi um monstro que a gente não sabia onde estava escondido. A gente não tinha noção do perigo que é uma barragem de minério em cima de nós”
A estreitíssima Ponte Quindumba é a única entrada com asfalto para a zona urbana de Barra Longa

Lenda do Caboclo D’Água foi engolida pela lama da Samarco

Depois do lamaçal da Samarco em Barra Longa, todos os dias Seu Felipe vai até a beira do rio para ver se seu amigo esquisito reaparece. Foto: David da Silva – 19.out.2017
David da Silva

Pensei que ao chegar em Barra Longa eu fosse recebido pelo Caboclo D’Água logo na entrada da cidade. Mas só fui encontrá-lo quatro dias depois, na beira do Rio do Carmo. Principal personagem do folclore barra-longuense, ele ganhou um monumento no portal do perímetro urbano do município. Mas o pedestal com sua estátua está vazio. A escultura sofreu rachaduras, e aguarda restauração. O guardião da tradição do Caboclo D’Água em Barra Longa é o senhor Antonio Felipe de Rezende, de 89 anos, a única pessoa que já ‘conversou’ com a mítica figura.
Estátua do Caboclo baseada em retratos falados
Foto: Maria Paola de Salvo
Caboclo D’Água é um elemento da identidade cultural típica dos povos ribeirinhos. Funciona como um disciplinador de comportamentos. Para evitar que seus filhos morram afogados, pais e mães põem medo na cabeça das crianças: “Se você for nadar, o caboclo vai te puxar pro fundo do rio”.
O retrato falado do Caboclo D’Água em Barra Longa foi desenhado com base em relatos colhidos pelo chargista e ilustrador Deivison Silvestre. A representação gráfica serviu de modelo para o artista plástico Ayrton Pyrtz fazer a estátua do caboclo com dois metros de altura.
Não foi tarefa fácil materializar em obra de arte uma aparição descrita em diferentes versões como um ser coberto de escamas com pelos, e aparência híbrida de anfíbio parecido com ave e jeito de macaco com cara de dinossauro.
Quem já escutou o som emitido pelo bicho, diz que é parecido ao barulho de helicóptero misturado com rugidos de tigres dentro de uma caverna.
Se algumas pessoas juram ter visto o Caboclo D’Água, Seu Antonio Felipe garante que este ser sobrenatural só aparece para ele: “O caboclo me jurou de pé junto que nunca vai deixar ninguém ver ele. Só eu. Se alguém disser por ai que também viu o Caboclo D’água pode ter certeza que não é o verdadeiro”.

Antonio Felipe, 89 anos, único em Barra Longa 
que já ‘conversou’ com o Caboclo D’Água
Foto: David da Silva – 19.out.2017
Amizade esquisita

A intimidade do Seu Antonio Felipe com o Caboclo D’Água remonta aos seus tempos de criança: “Uma vez quando eu era pequeno, na beira do Rio do Carmo, lá pras bandas da fazenda do meu pai, eu vi uma coisa pequena descendo rio abaixo, bem rapidinho, na correnteza. Perguntei pro meu pai o que era, e ele disse: ‘é o dedo do Caboclo D’Água’ [para não ser visto, o caboclo vai sempre por debaixo da água, só com um dedo pra fora]. Desse dia em diante o Caboclo D’Água não me deu mais sossego”, diz com resignação risonha.
Antonio Felipe completou 89 anos no último dia 1º de outubro. Nasceu na localidade Floresta, distrito de Barra Longa. Nestes quase 90 anos nunca pôs os pés fora do município.
Eu encontrei o veterano contador de ‘causos’ na margem do Rio do Carmo no dia 19 do mês passado. Todos os dias Seu Antonio Felipe vai até a beira do rio por volta do meio-dia – é a hora em que o Caboclo D’Água gosta de aparecer.
O folclórico personagem tem temperamento difícil, diz o narrador: “Mas com o tempo ele foi acostumando comigo, tomando confiança. Se mostrando aos poucos. Hoje somos meio amigos. Amizade esquisita, mas é amizade. Vive me vigiando por aí, fazendo eu passar um aperto danado. Vira e mexe aparece. Tem hora que tá brabo, tem hora que tá bonzinho”.
O sol quente de Barra Longa nos empurra para a sombra, mas Seu Antonio Felipe não perde o fio da história: “Ele é meio estranho. Uma coisa misturada de gente com assombração. Não dá pra dizer direito como ele é. Nem a cor. Parece cor de burro fugido. É grande, meio magro, desengonçado”.
O velho narrador relembra dos seus tempos no garimpo
Foto: David da Silva
O olhar saudoso de Antonio Felipe se espicha para o meio do rio: “Essa praça aqui onde a gente está era a ‘prainha’. O povo tirava muito ouro aí do rio”. Pergunto se a exclusividade que o Caboclo D’Água lhe dá nas aparições é boa ou ruim: “Muita gente caçoa da história. O caboclo gosta de me ver passar por mentiroso”.
A lamaceira da Samarco que detonou Barra Longa mexeu com os brios do Caboclo D’Água: “Esses tempos atrás ele tava meio nervoso”, conta Seu Felipe. “Veio com um jeito todo estranho, querendo explicar alguma coisa. Mas eu não tava entendendo nada. Ficou nervoso e me atacou”.
O velho levanta a barra da calça e me mostra a cicatriz: “O Caboclo me deu uma mordida na perna que custou muitos dias pra curar”. Por causa da mudança agressiva de temperamento do seu estranho amigo, Seu Felipe treinou um cachorro para caçá-lo: “Depois da lama o Caboclo tá demorando pra aparecer”.

A família por testemunha

Atualmente a professora de artes visuais Simone Maria da Silva, 40 anos, é uma das maiores vítimas da lama que atacou Barra Longa. Mas antes de a Samarco tornar sua vida em um inferno, no ano 2011 Simone gravou um depoimento sobre sua experiência pessoal com o Caboclo D’Água (assista ao vídeo no final da postagem):
"Muita gente diz que isto é conto de pescador, que é lenda. Mas é realidade. Eu morava na Rua 1º de Janeiro, e lá em casa o banheiro era do lado de fora. Eu estava tomando banho quando começou um assovio de arrepiar o corpo. Um assovio que não tem explicação. Não existe assovio igual àquele. Põe medo na gente quando a gente ouve. Daí meu pai disse: ‘Ô, minha filha, sai do banheiro porque o Caboclo D’Água tá na beira do rio’. De tanto medo, eu fiquei paralisada. Meu pai teve de entrar no banheiro e me carregar pra dentro de casa. Em casa [naquela hora] estavam eu, meu pai, minha mãe que hoje é falecida, meu irmão, e minha tia Cristina. Meu pai ligou o carro, virou [o veículo com os faróis acesos] para o lado do rio, e iluminou. O bicho tem a estatura de um homem, é encurvado assim [para a frente] tem uns pelos marrom-escuro. Na hora que meu pai conseguiu clarear [com o farol do carro] o Caboclo D’Água pulou no rio. Quando ele pulou a água abriu toda e fez um barulho como se um elefante tivesse pulado nela. Misericórdia! Só Jesus mesmo. É uma coisa que não tem explicação. Meu pai teve que comprar outra casa porque não tive mais coragem de morar lá”.
Barra Longa hoje vive o temor popular que o Caboclo D’Água tenha morrido no lamaçal que a Samarco despejou na cidade.
Mas dias depois do meu encontro com Seu Felipe, tomando uma pinga na bodega ao lado da Ponte Quindumba um cidadão me falou: “No dia da lama passou aí no meio do rio uma touceira de bambus. A touceira sozinha. Foi até lá em cima na Capela Velha. Depois a touceira voltou, desceu o rio”.
Com marcas da lama da Samarco, monumento ao personagem-símbolo da cidade precisa de restauração
Foto: David da Silva - 21.out.2017


Eu vi o Caboclo D'Água


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Depois da avalanche de lama, onda de assaltos impactou Barra Longa

Banco do Brasil vai fechar sua agência em Barra Longa no próximo dia 20 de novembro. Também vítima de assalto, Correios ameaça sair da cidade.
Foto: David da Silva – 18.out.2017
David da Silva

Número de habitantes em queda, e números da violência em alta. Esta a equação incômoda que torna ainda mais incerto o futuro próximo de Barra Longa, município da Zona da Mata no Estado de Minas Gerais. Se os índices do IBGE e os da Segurança Pública seguem rotas opostas, para os jovens do lugar o caminho é um só: ir embora.
A avalanche de lama com rejeitos de minérios que a Samarco despejou em Barra Longa em novembro de 2015, trouxe em seu rastro um crescimento no número de assaltos naquele rincão. Na zona rural de Barra Longa, onde mora 62% da população, a vida segue bucólica. Mas, na área urbana de apenas 2 mil habitantes a violência provocou a saída da sua única agência bancária. No próximo dia 20 o Banco do Brasil fecha as portas em Barra Longa.
Um população flutuante, com cerca de 1.000 operários da Samarco que trabalham nas obras de recuperação, esquentou o comércio local. Os ladrões vão atrás desta novidade.

Sustos e lembranças

Durante a última semana de outubro fiquei em Barra Longa na “Pousada da Selma”. É a dona da pousada quem conta: “Aqui já tivemos agências do Banco Nacional, do banco Minas Caixa e do Banco do Brasil. Todas as pessoas de Acaiaca e de Diogo de Vasconcelos [municípios vizinhos] vinham movimentar suas contas aqui em Barra Longa. Os outros bancos já foram embora, e agora vamos perder o Banco do Brasil”, lamenta Selma Sampaio de Freitas, de 78 anos.
O primeiro susto do pós-lama veio em 5 de maio de 2016, exatamente seis meses depois que a cidade acordou apavorada com a montanha de lixo da Samarco em sua praça central. Os caixas eletrônicos do Banco do Brasil foram explodidos. Na ocasião os ladrões não conseguiram levar o dinheiro, pois a explosão foi insuficiente para arrebentar o cofre.
Pelo que veremos a seguir, tudo leva a crer que os bandidos juraram vingança.

O mês de julho de 2017 colocou Barra Longa definitivamente no mapa da insegurança mineira. No dia 6 daquele mês, a agência do Correios foi assaltada às 8h da manhã.
Dois dias depois, na madrugada de 8 de julho dona Selma Freitas estranhou a movimentação na praça da Matriz. “Eram muitas motos, uma quantidade enorme de motos. Até que uma caminhonete parou e desceu um homem com fuzil. Eu vi uma moça correndo na direção oposta dos ladrões, mas nunca fiquei sabendo quem era ela”, relata. A quadrilha fez reféns os boêmios de um boteco acordado até àquela hora, 3h30 da madrugada, bem em frente à agência do Banco do Brasil.
Consumado o assalto, a pacata Barra Longa virou cena de cinema. “Nunca vi uma coisa daquela”, recorda Selma Freitas. “Os ladrões ficaram aqui na praça Matriz em frente da igreja, empinando as motos, comemorando. Depois foram para outra pracinha mais abaixo,  girando com motos e carros, atirando para cima”. Antes de ir embora com a grana, os ladrões se divertiram dando tiros em transformadores elétricos, deixando a cidade às escuras.
No dia 14 daquele mesmo mês de julho um bando encapuzado roubou um supermercado local às 8h da manhã, levando grande soma em dinheiro e mercadorias.

She’s living home

A população de Barra Longa diminui ano a ano. Se em 2010 o Censo do IBGE apontou 7.553 habitantes, em 2016 o número de moradores caiu para 6.143. Neste ano de 2017, a estimativa reduziu para 5.624 pessoas – destas, apenas 38% moram na região urbana.

A falta de ensino de curso superior e empregos mais rentáveis, provoca evasão da juventude barra-longuense. “Quando atingem a idade de trabalhar, eles [os jovens] são obrigados a abandonar as famílias para buscar emprego em outras cidades. É um problema antigo”, se conforma o prefeito Elísio Barreto (PMDB).

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Para devolver máquina de lavar, Samarco forçou idosa a provar que não pode torcer roupas

A mineradora tentou ainda enganar dona Cenita com uma máquina de capacidade menor
David da Silva

Dona Cenita e seu Chiquinho mal tiveram tempo de agarrar rapidamente os patos e as galinhas e o cachorro e correr com eles para a parte alta do quintal quando a lama chegou. Mas carregar no braço máquina de lavar roupas é impossível para uma senhora de 69 anos com osteoporose e um senhor de 71 anos com sequelas de um derrame cerebral.
Dois anos atrás, na madrugada de 6 de novembro, o motorista de caminhão aposentado Francisco Marcelino Romualdo e sua esposa Teófila Siqueira Pereira Romualdo, a Cenita, não acharam que o lamaçal fosse chegar na casa onde moram há 30 anos no bairro Morro Vermelho, em Barra Longa (MG). “A maior enchente aqui foi em 1996, mas só chegou perto da primeira coluna da casa”, relata Chiquinho. Dona Cenita não esconde a emoção ao lembrar: “Estava a maior confusão na rua, gente gritando, carro, buzina. Naquela hora Chiquinho já estava dormindo e eu, rezando”. Às 3h25 a lama entrou com seu cortejo de destruição em Barra Longa.
No bairro Morro Vermelho 20 casas foram desocupadas por medida de segurança e três, condenadas. Cenita e Chiquinho tiveram de se mudar da sua residência de cinco cômodos para uma casa alugada pela Samarco. Problema maior era lavar roupas. A máquina de lavar foi detonada pela lamaceira.
Dona Cenita não viu outro jeito senão cobrar da Samarco o prejuízo que a mineradora lhe causou.
Chiquinho mostra o quintal destroçado pela lama
Fotos: Thiago Alves

Sem força pra torcer roupas

No ano 2000 dona Cenita descobriu que sofre de osteoporose. Em 2006 Chiquinho teve um AVC (acidente vascular cerebral) e ficou com dificuldades de mexer o braço esquerdo. Não bastassem essas mazelas na vida dos dois, a Samarco enviou uma assistente social à casa deles com uma missão perversa. “A assistente falou que a Samarco mandou eu provar que não tenho força nos braços para torcer as roupas na mão. Caso contrário a empresa não ia autorizar comprar máquina nova pra mim”, conta a moradora.
Humilhada a provar sua doença nos ossos, Cenita pediu laudo médico e entregou à assistente social. “Quando foi no dia 17 de dezembro [mais de um mês depois de perder a lavadora para a lama], a Samarco me mandou outra máquina. Mas eu não aceitei”, diz a dona-de-casa. A máquina de lavar de Cenita era de 15 quilos, e a mineradora queria lhe entregar uma máquina com capacidade para oito quilos.
O caso foi parar no Movimento dos Atingidos por Barragens e virou notícia de jornal. Um dia depois a Samarco mandou entregar a nova lavadora de roupas. “Eu achei até estranho eles trazer a máquina em plena nove horas da noite”, diz com fina ironia e emenda outra bronca:
"Não é igualzinha à antiga porque o bojo da minha era de inox. A que mandaram é bojo de plástico. Falaram que não estavam encontrando a de inox...”.

Brigas novas e antigas
                                          
Não foi a primeira vez que esse casal de idosos teve de brigar por seus direitos. Quando se aposentou em outubro de 1996 como funcionário da Prefeitura de Barra Longa, Chiquinho teve somados seu tempo de servidor público municipal, e o tempo em que trabalhou na roça.
Só que no ano seguinte o prefeito de Barra Longa cancelou a aposentadoria de Chiquinho, alegando que não deveriam ter sido contados o tempo de serviço na prefeitura junto com o tempo de trabalhador rural. Chiquinho entrou na Justiça, e ganhou a causa.
Mesmo assim, a sentença favorável só saiu em 2009.

Samarco ofereceu indenização de R$ 0,33 a agricultor atingido pela lama

Lama engoliu casas e propriedades agrícolas em Gesteira, distrito de Barra Longa (MG).
Na foto abaixo à direita, casa erguida em pilares contra enchentes teve lama na altura das janelas. 

Foto: David da Silva - 17.out.2017
David da Silva

Uma das táticas da mineradora Samarco para negociar com atingidos pela lama em Barra Longa (MG) era conversar com cada família isoladamente, evitando negociações coletivas. Foi o caso de um agricultor de 69 anos, morador do distrito Gesteira Velho, a 15 km do centro daquela cidade. Sua propriedade de 1.000 m² foi completamente coberta pela lama na madrugada de 6 de novembro de 2015. A lama com rejeitos de minérios provinha da Barragem de Fundão que estourou no dia anterior, a 60 km de distância. O lamaçal chegou a oito metros de altura em Gesteira.
Para pagar os prejuízos das vítimas, foi criado o Programa de Indenização Mediada. “O problema é que cada família preenchia sozinha, sem nenhum acompanhamento técnico, um formulário enviado pela Samarco com perguntas complexas”, aponta Thiago Alves, do Movimento dos Atingidos por Barragens. Além de não contar com ajuda de pessoas mais esclarecidas quando preenchiam os formulários, as vítimas também tinham de ir sozinhas ao escritório da Samarco em Barra Longa.
Escritório da Samarco em Barra Longa. O nome
"Fundação Renova" é fachada para negociar com vítimas
Foto: David da Silva - 21.out.2017

Arapuca

Com o caderno de respostas na mão, o casal de idosos foi à Samarco. “Levaram a gente de carro até lá”, conta a mulher de 64 anos. Os técnicos da mineradora entregaram a eles uma folha com proposta de valores a serem pagos tanto pelo terreno quanto pela plantação perdida.
A Samarco é controlada pela BHP Billiton, maior mineradora do mundo. Mesmo assim ofereceram uma indenização miserável. “Queriam pagar 33 centavos para cada touceira de cana que eu perdi. E os pés de mandioca queriam pagar só R$ 1,19 (um real e dezenove centavos) cada pé. Minhas canas davam 3 metros de altura. E um pé de mandioca não dá só um quilo. Tem deles que dá 20 kg”, critica o agricultor.
Em resumo, tudo somado, pela plantação perdida de mandioca, cana, mamão, laranja, tangerina, limão, feijão, e milho, incluindo o valor do terreno a Samarco ofereceu menos de 8 mil reais.
O casal mora em Gesteira há 45 anos. “Nada do que a gente planta é para vender. É consumo nosso”, afirma.
O mais grave da proposta indecente fica para o fim. Caso aceitasse o acordo, o casal de idosos ficaria sem a terra onde vivem há quase meio século.
A proposta para os atingidos de Gesteira Velho é ter suas casas reconstruídas em outro terreno, próximo ao rio Gualaxo do Norte onde sempre viveram.

O reassentamento destas vítimas está previsto apenas para o final de 2019.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Gualaxo do Norte: o rio que mal nasce, começa a morrer

Com 60 quilômetros de comprimento, este rio está morto em 48 quilômetros da sua extensão
Rio Gualaxo do Norte já sofria degradação causada pela mineração e venenos agrícolas. Suas águas hoje contêm substâncias prejudiciais à vida dos peixes e dos humanos. A flora subaquática está totalmente destruída.  
Foto: David da Silva – 20.out.2017

David da Silva

Contar a história da cidade de Barra Longa (MG) é contar a história dos seus rios. Se hoje sua base econômica é a pecuária leiteira, foi o garimpo do ouro que atraiu as primeiras pessoas para a região onde o Rio do Carmo se encontra com o rio Gualaxo do Norte. 
O próprio nome do município vem deste fenômeno geográfico. As águas do Carmo ‘caminham’ juntas sem se misturar com as do Gualaxo por um trecho muito longo – vem daí: Barra Longa.
O Gualaxo foi a viatura líquida que primeiro recebeu a lama com rejeitos de minérios despejada pela Samarco no dia 5 de novembro de 2015. O impacto foi tão forte que ao cair no leito deste rio a lama alcançou 15 metros de altura, e subiu seis quilômetros na contracorrente.
Nos trechos mais estreitos do rio, o lamaçal atingiu 40 metros de altura; nos lugares mais planos, se esparramou por um quilômetro de largura. O mar de lama demorou 12 horas para ir da Barragem de Fundão até Barra Longa, cerca de 60 quilômetros de distância.
A Samarco não enviou nenhuma mensagem aos barra-longuenses avisando-lhes que a marcha fúnebre da lama avançava sobre o município.
As águas limpas do Rio do Carmo (à esquerda na foto) 
‘lutaram’ com a lama  trazida pelo rio Gualaxo do Norte. 
A imundície venceu.
Foto: Gustavo Basso – 07.nov.2016
Ao desembocar no Rio do Carmo, o Gualaxo do Norte empurrou a carga lamacenta rio acima. “Quando o Gualaxo despejou a lama aqui, a lamaceira foi tão brava que ela subiu dois quilômetros até o lugar chamado Capela Velha, e a água ficou represada mais uns três quilômetros aí pra cima”, relembra o taxista Darci Humberto de Castro, de 54 anos, natural de Barra Longa.
A região de Barra Longa mais devastada pela lama transportada pelo Gualaxo do Norte foi a zona rural Gesteira Velho. Durante todo o tempo em que circulei por este distrito a 15 km do centro, só vi funcionários da Samarco fazendo reparos em fazendas de grandes proprietários. Os agricultores humildes do Gesteira Velho esperam até hoje a indenização por perderem suas plantações e suas poucas cabeças de gado. Moram em casas de parentes ou de aluguel pago pela mineradora. O reassentamento total dessas famílias desabrigadas só vai acontecer em 2019.

Embarcação pirata de garimpo presa pela PM 
em Barra Longa no mês de fevereiro de 2017. 
A garimpagem do ouro envenena o curso d’água 
com mercúrio e arsênico que contaminam 
as pessoas. Foto: Polícia Militar/MG
Envenenado no berço

Uma das maiores autoridades científicas sobre o rio Gualaxo do Norte, a professora Adivane Costa ensina que antes mesmo do desastre-crime da Samarco, este rio já era um cadáver.
Seus estudos detectaram altos índices de amina, substância cancerígena usada no beneficiamento do ferro. Também encontrou na água do Gualaxo substâncias que diminuem o nível de oxigênio e impede a existência de peixes.
"A soda cáustica, a amida e a amina são solúveis na água; nenhuma barragem consegue contê-los", explica Adivane.

Condenado ao nascer

Ao sair da sua nascente, o rio Gualaxo do Norte não demora mais do que 500 metros para entrar na mina Timbopeba. Percorre seis quilômetros dentro da mina que funciona dia e noite. Dali são mais seis quilômetros até o local onde recebeu toda a imundícia dos 62 bilhões de metros cúbicos de lama com lixo da mineração. O pouco que ainda há de vida no Gualaxo está aprisionado nestes 12 quilômetros.
Relatórios sobre a atual condição do Gualaxo do Norte citam que ele está com produtos químicos prejudiciais tanto aos peixes quanto aos humanos.
A pesquisadora Flora Juncá faz um prognóstico sombrio: “Há indícios de que pessoas estão sendo contaminadas. O problema da contaminação por metais é que a maioria das pessoas só vai ter sintomas daqui a 15, 20 anos”.

Quando o corpo humano acumula muitos metais, pode gerar mal de Parkinson, úlceras, câncer de pulmão. O chumbo fica retido nas articulações, podendo causar paralisia. Outros metais encontrados no rio Gualaxo do Norte podem prejudicar o sistema digestivo, e causar danos ao sistema nervoso.
A lama da Samarco terminou de matar o pouco de vida que ainda resistia no rio Gualaxo do Norte. 
Foto: Dante Pavan

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Crônicas do Lamaçal: Barra Longa é logo ali

Na 5ª-feira passada, 19 de outubro, funcionários e maquinário da Samarco na praça principal de Barra Longa. Os efeitos do lamaçal que encobriu a cidade ainda impactam a população. As indenizações por danos ainda estão em andamento. Foto: David da Silva
Lama atingiu 3m de altura. Foto: Arquivo
David da Silva

Cheguei à cidade de Barra
Longa, em Minas Gerais, 32 horas depois de ter saído de Taboão da Serra (SP). Não há ônibus direto de São Paulo para lá. Vai-se primeiro a Ponte Nova (12 horas de percurso) de onde sai um ônibus para Acaiaca, e em seguida outro, para o destino final. Tive de ficar uma noite inteira e metade de um dia em Ponte Nova à espera do coletivo para concluir a viagem.
As 12 horas que demorei no trajeto de SP a Ponte Nova, foi o mesmo tempo que a lama da mineradora Samarco levou para ir da barragem que estourou até Barra Longa. Com a diferença que alguém sabia que eu estava indo. Já a lama chegou a Barra Longa sem a Samarco avisar ninguém naquela cidade.
Permaneci cinco dias em Barra Longa, da 3ª-feira 17 de outubro até o sábado seguinte. Dois anos depois de ser atingida pelo lamaçal que escapou da barragem de Fundão em 2015, a tragédia ainda é visível na localidade. Barra Longa foi a única cidade com seu centro urbano atingido pelos detritos da Samarco Mineração S/A. Foi o maior desastre ambiental da história do Brasil, e a maior desgraça da mineração mundial nos últimos 100 anos.
No caule das árvores o cal branco tenta esconder a altura que a lama alcançou.
Foto: David da Silva - 17.out.2017

Foto: Arquivo - Novembro de 2015
Daqui a 11 dias vai completar 24 meses que o centro de Barra Longa foi coberto por uma lameira que em certas partes do município chegou a oito metros de altura. Ainda há casas para reformar ou reconstruir devido ao abalo que sofreram pela força da lama. Dos 62 bilhões de m³ de lama vazados, uma quantidade incalculável deste material percorreu os 60 km que separam Barra Longa da barragem de Fundão. No caminho da destruição, a lama com rejeitos de minério dizimou propriedades agrícolas, engoliu casas, matou pessoas e causou dano aos rios e à floresta.
Dona Geralda contempla o monte de lama tóxica transferida para os
fundos de sua residência. Foto: Movimento Atingidos por Barragens
A praça central de Barra Longa foi devastada por mais de meio milhão de metros cúbicos de lama com rejeitos de minério. Grande parte desta lamaceira tóxica foi criminosamente removida da região da cidade onde moram famílias de melhor poder aquisitivo, para a comunidade Volta da Capela, de moradores de baixa renda.
Na comunidade de Gesteira Velho, distrito a 15 km do centro de Barra Longa, nenhuma das famílias foi indenizada até hoje pela perda de suas casas, de seus gados e plantações. A reconstrução da capela local, que é patrimônio cultural nacional, está com as obras paralisadas. As crianças foram transferidas para uma escola feita com paredes de PVC (plástico!).
Força da lama carregou o teto da escola em Gesteira Velho. A laje não foi encontrada. Na parede da capela, a marca da altura da lama. Foto: David da Silva - 20.out.2017
Lama impregnada no caule mostra a altura que a 
torrente de rejeitos atingiu na zona rural de Barra Longa 
às margens do rio Gualaxo. Foto: David da Silva - 20.out.2017
Além dos danos materiais, o lamaçal da Samarco arrastou para Barra Longa doenças respiratórias devido à poeira originada da lama depois de seca, inflamações de olhos, infecções de pele, 3.000% de aumento nos casos de dengue, além de transtornos mentais e transtornos de comportamento.
A violência urbana em Barra Longa também cresceu. No próximo 20 de novembro a agência do Banco do Brasil vai embora da cidade depois de sofrer três assaltos, dois deles no primeiro semestre de 2017. A agência do Correios, também assaltada em julho deste ano, promete seguir o mesmo caminho.
Igreja Matriz de São José de Barra Longa, construída em 1774
Foto: David da Silva - 18.out.2017

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Sarau em Taboão da Serra abre hoje Feira Literária da Zona Sul paulistana

A Feira Literária da Zona Sul é uma continuação do trabalho iniciado no bar onde nasceu o Sarau do Binho. Na imagem, artistas dançam ao relento na noite em que o boteco morreu. 
Foto: David da Silva – 16.jan.2012
Por David da Silva

Se for medir no mapa, serão centenas de quilômetros quadrados de área de abrangência da 3ª edição da FELIZS (Feira Literária da Zona Sul) que acontece desde hoje, 11 de setembro, até o próximo dia 23. O evento tem sarau poético-musical de abertura na noite desta 2ª-feira no Teatro Clariô, em Taboão da Serra, mas as atividades já estão rolando desde as 10h30 - programação completa no final da postagem. 
O bar do Binho no seu auge, em 2009
Foto: Fábio Braga – 30.nov.2009
As ações da feira estão mais concentradas no eixo da estrada que limita o distrito Campo Limpo, zona sul paulistana, com o município de Taboão da Serra. Mas os tentáculos da FELIZS se estendem até a região de Guarapiranga, a 13 quilômetros de distância do epicentro do evento.

Influência positiva

Iniciativas como a FELIZS (acrônimo que sintetiza a busca do bem-estar e contentamento preconizado pela psicóloga Diane Padial, idealizadora da jornada literária) são importantes dentro do novo conceito de influência e intercâmbio entre os povos. O soft power (poder brando, suave) não leva em conta o poderio econômico e militar de uma nação, mas sim sua capacidade de convencimento pela via pacífica. De 2015, quando a FELIZS foi criada, até este ano, o Brasil perdeu seis posições no ranking internacional do soft power (despencamos do 23º para o 29º lugar). Estamos à frente apenas da Turquia dominada pelo tirano Erdogan.
É preciso resgatar a boa imagem brasileira no sentido de influenciar pessoas pelo poder da criação. A FELIZS é uma amostra de como colocar ações propositivas positivas ao alcance da população, mesmo os residentes nos rincões mais humildes da Grande São Paulo.

Identidade

O mote da FELIZS 2017 é “Onde habita a poesia?”. No ano passado o evento homenageou Raquel Trindade; neste ano homenageia Renato Palmares, residente do bairro Jd Olinda e frequentador assíduo do Sarau do Binho.
Robinson Padial, o Binho, criador do sarau, conta que neste ano será lançado oficialmente o selo literário Sarau do Binho, que na verdade já tem cinco títulos publicados. Nesta 3ª FELIZS em parceria com o Ciclo Contínuo Editorial, haverá o lançamento do livro "Mitos sobre semeaduras e colheitas", primeira obra publicada de Renato Palmares.

Território poético

O boteco do Binho, berço do sarau no distrito do Campo Limpo, funcionou até o ano 2011, quando foi fechado. Mas a atividade cultural não se deteve ante as portas-de-aço arriadas. Faz hoje uma itinerância literária por toda a capital, litoral e interior de São Paulo. O único ponto fixo atual é o Teatro Clariô, em Taboão da Serra, onde o sarau acontece todas as segundas-feiras de cada mês.
Dentro do território de Taboão da Serra, além do sarau oficial de abertura logo mais às 21h no Clariô, a FELIZS 2017 terá atividade na Escola Estadual Francisco D’Amico.
No seu ano inaugural em 2015 a FELIZS contou com 20 editoras independentes. No ano passado, foram 47 editoras e 43 autores independentes.
A participação do público desde a criação da feira vem crescendo. Na primeira edição compareceram cerca de 3 mil pessoas. No ano passado, os organizadores calcularam 6 mil participantes; para este ano, esperam atrair 10 mil pessoas.
FELIZS – Feira Literária da Zona Sul
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