sábado, 29 de março de 2008

No ventre do mar do Japão

Esta moça saindo do Oceano Pacífico arrastando atrás de si enorme feixe de algas, é o que os japoneses chamam de ama ( 海女 ) – mergulhadoras de águas profundas, que enfrentam o mar bravio à cata de moluscos e vegetação marinha comestível.
A modernidade praticamente eliminou as valentes desafiadoras do mar do Japão. Hoje há poucas delas em atividade limitada, quando não usadas como mera atração turística. E até com sua imagem deturpada para o comércio sexual.
Daquelas mulheres incomuns, que arrancavam do ventre do oceano o sustento de suas famílias, restaram algumas gravuras do século 18, e os registros de um fotógrafo entre 1920 e meados da década de 1960.

Com diploma de advogado recém formado, em 1920 o jovem Yoshiyuki Iwase estava de volta à sua pequenina cidade de Onjuku, na costa leste do Japão. Estava tudo certo para ele assumir o comando da destilaria de saquê da família.
Mas alguém lhe deu uma máquina fotográfica. Ele focou seus olhos no mar.
No violento e gelado litoral japonês, suas lentes captaram figuras graciosas, que submetiam seus corpos sinuosos às chicotadas das ondas. Depois de um tempo engolidas pelas águas, as mulheres emergiam trazendo nas mãos variadas espécies de bichos e plantas.
Por quase dois mil anos, foram as mergulhadoras seminuas quem colheram as algas que enrolavam as tekkas da culinária japonesa.
As amas só podiam mergulhar por mais ou menos uns 80 dias por ano, devido à ferocidade das ondas. E principalmente pelo frio; ali a temperatura da água é de 10 graus. Elas mergulhavam com os seios expostos, e com uma leve roupa de baixo, para ter mais liberdade de movimentos. O corpo feminino resiste bem às temperaturas baixas, pois retém mais gordura.

O mergulho, apenas com a máscara para os olhos e sem barbatanas nos pés, era rápido e certeiro. As amas desciam a 20m a uma velocidade de aproximadamente 60cm por segundo. Seus potentes pulmões retinham o ar por volta de 80-85 segundos. Imagine-se rodeado por agressivas correntezas, com os olhos arregalados para enxergar sua presa no fundo da água; os pulmões queimando, e você tem de usar uma ferramenta como alavanca, para desgrudar os moluscos que se grudam desesperadamente nas pedras.
Segundo a norte-americana Bethany Grenald, doutora em antropologia da universidade de Michigan (EUA) apesar da dureza daquela rotina, as amas gostavam de seu trabalho. Com ele – pelo menos no período de maio a setembro, quando o mar lhes permitia mergulhar - aquelas mulheres ficavam livres do machismo da família tradicional japonesa. A antropóloga passou um ano e meio, entre 1997 e 1998, estudando as amas e mergulhando com elas. (No rodapé da página, clique no marcador Artigos-Ensaios para ler uma matéria especial de Bethany sobre sua tese de doutorado).
Após uns 60 ou 80 mergulhos por dia, as amas estavam exaustas. Mas não voltavam para casa. Ficavam em cabanas à beira-mar, onde se aqueciam, descansavam e se reabasteciam para novos embates com o mar. Se voltassem logo para casa, não teriam o sossego que seus corpos requeriam.
As casas das amas eram sempre melhores que as demais da aldeia. Uma das mergulhadoras pesquisadas por Bethany, falava de seu orgulho por ter pagado seu divórcio com o dinheiro de sua luta. Nos bons tempos da atividade, uma ama poderia ganhar até US$ 500 por dia!


O fotógrafo Yoshiyuki Iwase morreu em 2001, aos 97 anos.

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