sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

David: o repórter sem nenhum caráter

Vou dar duas opções pra ver quem você convidaria para sua festa de Fim de Ano.
O primeiro é um repórter de escrita truculenta. Não se envergonha de distorcer e até inventar fatos para tornar a notícia mais atraente, vendável. É colaborador do Esquadrão da Morte, grupo de extermínio formado por policiais à paisana.
O segundo jornalista tem um texto encantador. É batalhador incansável das informações. Além do estilo jornalístico sedutor, é letrista de canções famosas. São dele os versos que você vai cantar à meia-noite deste sábado: “Adeus Ano Velho / Feliz Ano Novo / Que tudo se realize no ano que vai nascer...”

Sua escolha seria fácil, caro leitor, querida leitora. Não fosse o detalhe de as duas pessoas acima serem uma só. Todas essas características tão desiguais estavam concentradas no repórter David Nasser.

***

No meio do empurra-empurra dos policiais para expulsar os camelôs da estação de trem no centro da cidade do Rio de Janeiro, o repórter vacilão acabou levando uns cassetetes na cabeça. O garoto David Nasser, 14 anos, mascateava pentes e giletes ali pela Central do Brasil. Viu o bloco de anotações cair do bolso do jornalista quando este era posto na ambulância.
Ávido por um dinheirinho, o pequenino David levou os papéis para a redação de O Jornal – talvez lhe pagassem boa recompensa... O chefe de reportagem quis saber: “Ó, menino. Você viu tudo? É capaz de contar direitinho o que aconteceu?”. O moleque foi para a máquina de escrever. Surgia ali, em 1931, um dos maiores repórteres de todos os tempos do Brasil.

Filho do casal de imigrantes libaneses Alexandre e Zakia Nasser, David contraiu meningite na infância pobre em Jaú (SP) onde nasceu.
Na segunda fase da sua meninice em São Lourenço (MG) foi charreteiro e entregador de pão para pagar o estudo.
Ao mudar-se para o Rio, a família botou logo o pirralho na rua pra se virar vendendo bugigangas. Até que veio aquela confusão entre os polícias e os ambulantes na ferroviária...

David Nasser
David Nasser usava apenas dois dedos na sua velha máquina de escrever. Aqueles dois dedos provocavam terremotos na sociedade brasileira.
Como sequela da meningite quando criança ficou com o andar esquisito, como estivesse bêbado. Suas mãos tinham movimentos desconexos – derrubava coisas; se sujava todo e emporcalhava tudo em volta quando comia. Enxergava pessimamente mal.
Era um “estivador do noticiário”. Tinha paixão por desencavar assuntos. Disposição assustadora para ir atrás de pautas. Colocou o repórter de rua em posição inalcançável pelo pessoal interno das redações.

Castelar de Carvalho, do jornal A Noite, gostava de dizer:
- Se eu fosse dono desta baiúca (a baiúca era o seu querido jornal) botava esse sujeitinho de 20 anos na balança e pagava o peso dele em ouro. Vale por uma redação inteira e equipada.
O “sujeitinho de 20 anos” era David Nasser, que naquele longínquo 1937 entrava na redação d’A Noite com seu andar de marinheiro alcoolizado, roupa repuxada prum lado, falando mansinho, mas com faíscas de relâmpago chispando no olhar.

Fiel à tradição do xará bíblico, David Nasser tinha um fraco todo especial, todo davidiano pelos vagabundos, pelos andarilhos, pelos humildes.
Dava mais valor à criatividade do que à verdade. Se um fato lhe parecia insuficiente para “vender bem” a notícia, dava livre curso à imaginação. Inventava fontes de informação. Lapidava tão duro cada detalhe fantasioso, que a matéria trazia a mentira solidamente fundida à verdade.
Se o noticiário estava fraco, sem problema.
Criou a personagem Giselle – a Espião Nua que Abalou Paris. Publicava os capítulos no Diário da Noite. As vendas explodiram. Mas o patrão não correspondia ao esforço do repórter-escritor. Então... David Nasser escreveu um capítulo que encerrava com Giselle acuada num beco, com o revólver de um oficial nazista encostado em sua cabeça. “Se você não acertar meus salários atrasados agora, a Giselle aparece morta no capítulo de amanhã”, disse David para o patrão Assis Chateaubriand. Que assinou o cheque rosnando: “Turco miserável... Ah! turco miserável!”
A capacidade criadora não se limitava a personagens de ficção.
Como a reportagem de 6 de maio de 1944: “Morreu Jean Manzon!” gritava a capa da revista O Cruzeiro, onde David “matou” seu fiel parceiro fotógrafo. Ainda dizia o texto que Jean pediu para ser enterrado com a inseparável câmera fotográfica...

David Nasser e Jean Manzon trabalharam juntos de 1943 a 1952. A dupla de repórter e fotógrafo mais amada e odiada do País. Ganhavam dinheiro com o que publicavam, e também com o que deixavam de publicar. Qualquer reportagem era “negociável”.
Gente pagava para ser humilhada. Louvado ou esculhambado, importante era ser citado. “Quem não sai na coluna do David Nasser, não existe”, era a lógica perversa dos alpinistas políticos.
Feito a reportagem Barreto Pinto sem máscaras. O deputado era casado com uma mulher rica, e queria popularidade. Contratou Nasser e Manzon para ter sua vida devassada na reportagem. Pagou a matéria a peso de ouro. Com a condição de processar os dois. Jean Manzon convenceu o político a posar sem as calças – só de fraque e cuecas, com a promessa de publicar a foto da cintura para cima. No dia seguinte lá estava o deputado nas bancas de jornais, de cuecão samba-canção. Foi cassado por falta de decoro parlamentar...

David Nasser

Nem tudo eram flores para o repórter sacana. Em 26 de dezembro de 1963, o então deputado Leonel Brizola avistou David Nasser na outra ponta do balcão da Varig, no aeroporto do Galeão, no Rio. Meses antes David havia escrito uma matéria detonando Brizola (vê só o título: A Biografia de um Pulha). O político deu uma porrada na orelha e outra no queixo do repórter, que tombou desmaiado.
Dias depois, ainda dolorido da surra que levou, David publicava nova matéria que iniciava: “Bato o teclado desta máquina com a mão que esbofeteou um canalha pela segunda vez”...

David Nasser morreu de câncer e complicações no pâncreas em 10 de dezembro de 1980, aos 63 anos.
Havia nascido em 1917, no dia 1º de janeiro.
Feliz aniversário, xará!

4 comentários:

David da Silva disse...

O título dessa postagem é uma paródia ao nome do livro de Mário de Andrade, Macunaíma, o herói sem nenhum caráter.

Ana Paula Medeiros disse...

Rapaz, lembro quando esse cara morreu! Eu era uma menininha e meu pai, Super fã desse cara, triste, me contou sua história...
Obrigada por reavivar minhas memorias!

Stocker disse...

Eu tinha 20 anos de idade - em 1980 - quando ele morreu. Lembro que o seu caixão foi coberto com a bandeira do ‘Esquadrão da Morte’ - chamado de ‘Scuderie Le Cocq’. O cara era um cascateiro da melhor marca. Ele publicou em ‘O Cruzeiro’ - com exclusividade - um relato da mulher do líder anticomunista chinês, madame Chiang Kai-shek. O “furo” rendeu uma pomposa venda daquela edição, já que a chinesa não era chegada a dar entrevistas. Como acontecia em todas as matérias bombásticas, seu parceiro em mais este episódio de ‘jornalismo literário’, foi o fotógrafo francês Jean Manzon, que registrou uma foto da “entrevistada” meio que distante. O cara descreveu detalhes do encontro com a personagem, que foi desmentido mais tarde pela própria chinesa, quando se descobriu que até a foto foi falsificada (e não existia o photoshop hein?). Há comentários de que Nasser vestiu um quimono e pousou para a produção da imagem. Era um gênio da imaginação! Entre cerca de 300 composições de canções populares, é, também, o compositor de ‘Nega do Cabelo Duro’. Apesar de ninguém alcançar seu nível de intelecto-imaginário, Nasser não foi o único neste tipo de malandragem na imprensa daqueles anos, sendo que o próprio dono de ‘O Cruzeiro’, o jornalista Assis Chateaubriand, era amante do jornalismo polêmico e sanguinário.

andre luis soares Nasser disse...

esse meu tio avo david era uma figura ! Deus proteja o senhor onde estiver! pena que quando morreu eu tinha apenas 5 anos !