sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O dia em que Taboão da Serra desonrou o herói Friedenreich

Fora dos campos de futebol Arthur Friedenreich também guerreou na revolução dos paulistas contra a Ditadura Vargas, em 1932

Friedenreich ganhou o primeiro título internacional da Seleção Brasileira
Foto: Internet
Em uma data qualquer entre 1963 e 1969, o legendário jogador de futebol Arthur Friedenreich saiu do bairro Pinheiros, onde morava na Capital, e tomou o rumo de Taboão da Serra, na Grande São Paulo.
Nos três dias e noites seguintes ele não voltou a cruzar o portão de sua casa na Rua Cunha Gago, 678.
Desde que se aposentou em março de 1963, Friedenreich, então com 71 anos, costumava sumir de casa. A arteriosclerose lhe corroia a memória. Os parentes iam resgatá-lo nos lugares mais improváveis. Um de seus hábitos rotineiros era embarcar para a cidade de Santos. Ia e voltava na mesma poltrona, sem descer do ônibus. Talvez tivesse vaga lembrança dos tempos em que ia à Baixada enfrentar o Santos FC e outros times do litoral paulista.
Noutra ocasião foi encontrado zanzando em um campo de futebol de São Caetano do Sul, na região do ABC.
Até que uma crise de esquecimento o fez vir bater perna nas redondezas do Largo do Taboão...

Primeiro ídolo do povo
Arthur Friedenreich havia parado de jogar bola em 1936, aos 43 anos. Foi o primeiro fenômeno popular do futebol brasileiro.
Filho de um engenheiro alemão com uma professora mulata brasileira, Friedenreich nasceu no centro de São Paulo, na Rua do Trinfo quase esquina com a Rua Vitória. E sua vida foi justamente uma sequência de triunfos e vitórias.
Fried abriu caminho para a profissionalização 
do futebol brasileiro. Foto: Internet
Marcou 595 gols em 605 jogos. Campeão paulista por sete vezes, ele integrou a primeira formação da Seleção Brasileira. Uruguaios e argentinos o respeitavam e o temiam, dando-lhe o apelido glorioso de “El Tigre”.
Ao pendurar as chuteiras Friedenreich trabalhou mais 28 anos como propagandista da fábrica de bebidas Antarctica.
Esses pensamentos embalavam sua velhice esquecida na casa antiga perto do Largo de Pinheiros.
Quem sabe para aplacar a tristeza, Friedenreich, a quem carinhosamente chamavam de Fried, resolveu num certo dia entrar num ônibus com o sugestivo letreiro “Taboão da Serra”.
Tres dias depois foi liberto da cadeia da Delegacia de Polícia local. A ocorrência gerou grande revolta pelo delegado ter mantido em cela comum um idoso doente, herói do esporte do Brasil e do mundo.
Antonio Pires, vizinho e amigo de Fried veio buscá-lo em Taboão da Serra, e desabafou: “O delegado sabia quem ele [Arthur Friendenreich] era. Sabia quem ele foi. Por que fez isso? Esse homem não merece ser delegado. Será que não reconhece que El Tigre merecia ser tratado como um rei?”.

Friedenreich faleceu aos 77 anos, às 10h30 de 6 de setembro de 1969.

3 comentários:

Anônimo disse...

Por essas e outras, meu caro jornalista, é que se diz aqui e alhures, que "brasileiro tem memória curta". Parabéns pela lembrança de um ídolo pois eles o "alimento" da nossa alma.

Professor Fenólio disse...

Vibrei com a história do Friedenreich. Morei numa "república" na Cunha Gago. No outro quarteirão ficava a casa do craque e no portão de ferro havia um brasão com as letras "AF". Eu zoava meus amigos, dizendo que a casa era de meu pai Antonio Fenólio. Imagine só... um Fenólio ter casa em Pinheiros, só se fosse em Pinhal...
Agradeço seus votos.......de boas festas. Em 2013 estarei atento como sempre na fértil aprendizagem com seus escritos.

w.raeder disse...

Esse texto me emocionou. Parabéns, David!