quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Crônicas do Lamaçal: Barra Longa é logo ali

Na 5ª-feira passada, 19 de outubro, funcionários e maquinário da Samarco na praça principal de Barra Longa. Os efeitos do lamaçal que encobriu a cidade ainda impactam a população. As indenizações por danos ainda estão em andamento. Foto: David da Silva
Lama atingiu 3m de altura. Foto: Arquivo
David da Silva

Cheguei à cidade de Barra
Longa, em Minas Gerais, 32 horas depois de ter saído de Taboão da Serra (SP). Não há ônibus direto de São Paulo para lá. Vai-se primeiro a Ponte Nova (12 horas de percurso) de onde sai um ônibus para Acaiaca, e em seguida outro, para o destino final. Tive de ficar uma noite inteira e metade de um dia em Ponte Nova à espera do coletivo para concluir a viagem.
As 12 horas que demorei no trajeto de SP a Ponte Nova, foi o mesmo tempo que a lama da mineradora Samarco levou para ir da barragem que estourou até Barra Longa. Com a diferença que alguém sabia que eu estava indo. Já a lama chegou a Barra Longa sem a Samarco avisar ninguém naquela cidade.
Permaneci cinco dias em Barra Longa, da 3ª-feira 17 de outubro até o sábado seguinte. Dois anos depois de ser atingida pelo lamaçal que escapou da barragem de Fundão em 2015, a tragédia ainda é visível na localidade. Barra Longa foi a única cidade com seu centro urbano atingido pelos detritos da Samarco Mineração S/A. Foi o maior desastre ambiental da história do Brasil, e a maior desgraça da mineração mundial nos últimos 100 anos.
No caule das árvores o cal branco tenta esconder a altura que a lama alcançou.
Foto: David da Silva - 17.out.2017

Foto: Arquivo - Novembro de 2015
Daqui a 11 dias vai completar 24 meses que o centro de Barra Longa foi coberto por uma lameira que em certas partes do município chegou a oito metros de altura. Ainda há casas para reformar ou reconstruir devido ao abalo que sofreram pela força da lama. Dos 62 bilhões de m³ de lama vazados, uma quantidade incalculável deste material percorreu os 60 km que separam Barra Longa da barragem de Fundão. No caminho da destruição, a lama com rejeitos de minério dizimou propriedades agrícolas, engoliu casas, matou pessoas e causou dano aos rios e à floresta.
Dona Geralda contempla o monte de lama tóxica transferida para os
fundos de sua residência. Foto: Movimento Atingidos por Barragens
A praça central de Barra Longa foi devastada por mais de meio milhão de metros cúbicos de lama com rejeitos de minério. Grande parte desta lamaceira tóxica foi criminosamente removida da região da cidade onde moram famílias de melhor poder aquisitivo, para a comunidade Volta da Capela, de moradores de baixa renda.
Na comunidade de Gesteira Velho, distrito a 15 km do centro de Barra Longa, nenhuma das famílias foi indenizada até hoje pela perda de suas casas, de seus gados e plantações. A reconstrução da capela local, que é patrimônio cultural nacional, está com as obras paralisadas. As crianças foram transferidas para uma escola feita com paredes de PVC (plástico!).
Força da lama carregou o teto da escola em Gesteira Velho. A laje não foi encontrada. Na parede da capela, a marca da altura da lama. Foto: David da Silva - 20.out.2017
Lama impregnada no caule mostra a altura que a 
torrente de rejeitos atingiu na zona rural de Barra Longa 
às margens do rio Gualaxo. Foto: David da Silva - 20.out.2017
Além dos danos materiais, o lamaçal da Samarco arrastou para Barra Longa doenças respiratórias devido à poeira originada da lama depois de seca, inflamações de olhos, infecções de pele, 3.000% de aumento nos casos de dengue, além de transtornos mentais e transtornos de comportamento.
A violência urbana em Barra Longa também cresceu. No próximo 20 de novembro a agência do Banco do Brasil vai embora da cidade depois de sofrer três assaltos, dois deles no primeiro semestre de 2017. A agência do Correios, também assaltada em julho deste ano, promete seguir o mesmo caminho.
Igreja Matriz de São José de Barra Longa, construída em 1774
Foto: David da Silva - 18.out.2017

2 comentários:

GEOGRAFIA ÍNTIMA disse...

Grato e parabéns pelo trabalho.

Suzi disse...

Estou lendo com atraso a todas as matérias. Dá uma tristeza danada. Estivemos nesta região há alguns anos, porque meu tio mora em Ponte Nova, e fico pensando em como tudo mudou por lá.