segunda-feira, 7 de maio de 2018

O morto no banco dos réus

Fotomontagem sobre certidão disponível no site do Tribunal de Justiça de São Paulo
David da Silva

Nos últimos sete dias as redes sociais viraram palco de linchamento moral contra Ricardo de Oliveira Galvão Pinheiro, 39 anos, morto na 3ª-feira passada agarrado à parede do prédio abandonado onde morava há quatro anos. Devido a duas tatuagens que trazia no peito com desenhos de palhaços, o homem está sendo postumamente apontado por milhões de internautas como “matador de policiais”.
Na consulta que fiz ao Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, não existe processo criminal contra ele.
No nome de Ricardo aparecem apenas uma ação de despejo por falta de pagamento de aluguel em 2013, e uma execução fiscal movida pela Prefeitura de São Paulo em 2011. A dívida com a prefeitura vem da microempresa de revenda de eletrônicos que Ricardo tinha em seu nome com o CNPJ 11.290.308/0001-35, estabelecida na Travessa Julio Tupy, 45, casa 1-B, Vila Nancy, zona leste de São Paulo.
Parte da equipe de ajudantes de caminhão que era coordenada por Ricardo "Tatuage",
na Rua Tiers, nº 282, bairro do Brás
Depois que se tornou morador em situação de rua, Ricardo trabalhou como eletricista, entregador, lustrador e lavador de carro. Na Justiça do Trabalho constam dois processos (de 2015 e 2016) que moveu contra seus empregadores, o último deles uma pizzaria na Rua Conselheiro Nébias, nº 1251, bairro Campos Elíseos, região central de São Paulo.
Depósito de mercadorias onde Ricardo trabalhava no Shopping Porto Brás, no setor leste da cidade de São Paulo. Foto: Rauan Costa Neto
Atualmente, Ricardo coordenava uma turma de 30 ajudantes de caminhão a serviço de comerciantes do Brás, e também fazia bicos na Rua 25 de Março.
“Eu conhecia ele porque a gente trabalhava junto. Fazia carga e descarga de contêiner com coisas da China, bolsa, brinquedo, essas coisas”, conta Rauan Costa Neto. “Segunda-feira mesmo a gente descarregou um caminhão na 25 de Março”, conta Rauan sobre o dia anterior à morte do colega.


Comentário no Instagran
A farra e os fake-news


Em 25 de setembro de 2015 Ricardo postou no instagram foto sua com uma sacola contendo dinheiro. A imagem desencadeou uma tonelada de comentários acusando-o de pertencer ao PCC, que o dinheiro era da venda de drogas, que era Ricardo quem fazia o recolhe do dinheiro extorquido dos moradores da ocupação, e que ele teria voltado ao prédio em chamas não para salvar vidas, mas para retirar as sacolas de dinheiro.

Sobre isto Rauan afirma que a foto foi uma farra; encheram a sacola com papéis e puseram dinheiro por cima. Aquela quantia, segundo Rauan, provinha da venda de uma moto de Ricardo.
Ricardo estava a poucos metros e poucos segundos para ser salvo. No topo do prédio verde, o bombeiro o aguardava quando o edifício desmoronou. Imagem: Abiatar Arruda | TV Globo

Corpo e honra aos pedaços

No filme The Lost Honor of Christopher Jefferies um advogado diz: “As coisas de que uma pessoa pode se livrar por parecer normal”. O filme é sobre um fato ocorrido em 2011 na Inglaterra, e a pessoa ofendida recebeu uma fortuna de indenização dos seus caluniadores. Ricardo não terá a mesma sorte.
Seu corpo despedaçado foi encontrado graças a Vasty, uma cadela de 5 anos da raça pastor belga, do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo. O animal farejou carne humana entre os destroços ao meio dia da 5ª-feira, 3 de maio.
Na 6ª-feira por volta das 14h a equipe de resgate encontrou uma das pernas separada do corpo. Mais adiante, o tórax esmigalhado, os braços arrancados do tronco. Mas não acharam a cabeça.
O corpo decapitado saiu do IML às 11h do sábado, 5 de maio, para o Cemitério da Vila Formosa, aonde chegou às 12h30. Depois de um velório tão curto quanto constrangedor, os restos mortais parciais de Ricardo foram sepultados às 13h30.
Somente no cair da tarde de domingo, às 17h do sombrio 6 de maio, os bombeiros localizaram as arcadas dentárias e um pedaço do rosto de Ricardo.
Ricardo "Tatuage" em 28.mar.2015 - Foto: Plinio Hokama Angeli | Folha de SP
O fato de Ricardo ostentar uma aparência diferente o transformou em alvo fácil para toneladas de julgamentos atrozes. 
Nos dias de hoje com a velocidade eletrônica das trocas de insultos, basta um pequeno estopim para desencadear opiniões impiedosas.  No meu perfil do Facebook, até as 15h19 (momento desta postagem) recebi 36.881 comentários, milhares deles atribuindo a este sofredor uma vida de crimes.
Mas também tive 53.369 compartilhamentos favoráveis ao rapaz imolado.
Se diante uma tragédia desta dimensão as pessoas ainda se colocam “contra” ou “a favor” das vítimas, é sinal que não foi apenas o prédio que desmoronou. Nossa sociedade desabou junto.
Funeral de Ricardo no Cemitério Vila Formosa, cinco dias após a sua morte. Foto: Rauan C. Neto

3 comentários:

Leonice Aparecida Rocha disse...

meus sentimentos de pesar a familia e amigos,que descanse em paz Ricardo.

Anônimo disse...

Vi mts pessoas julgando ele sem ao menos pesquisar a história, bom, ele voltou para salvar pessoas e assim perdeu sua vida junto com mais 5 pessoad, que Deus os receba no céu.

Anônimo disse...

Pode ter sido o que for mas na ultima hora ajudou pessoas a se salvar e o ladrão que também foi morto com Jesus na cruz se arrependeu e foi ressuscitada o junto com Cristo por tanto atire a primeira pedra quem não tem pecado