segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A grandeza do sambista Modesto

"Ganhei este gravadorzinho do David e já gravei muitos rascunhos de samba nele"
Foto: David da Silva - 03.fev.2013
David da Silva

Todas as manhãs, a janela do quarto do compositor Silvio Modesto se abre para Taboão da Serra. A casa fica em Embu das Artes. Mas os laços mais fortes são com o outro lado da rua que separa os municípios. Silvio inclusive é pai de um vereador de Taboão.

Plínio Marcos escreveu que Silvio Modesto “é o mais completo sambista carioca de São Paulo. Mestre-sala nota dez, compositor inspirado, excelente ritmista, e um dos maiores partideiros do Brasil” (Folha de S.Paulo, 05.dez.1976).

Modesto trabalhou no espetáculo inaugural do Teatro Popular do Sesi em 1977, interpretando na peça O Poeta da Vila e Seus Amores, escrita por Plínio Marcos em homenagem a Noel Rosa. Do mesmo autor, Silvio também atuou em Balbina de Iansã.

Nascido em Brás de Pina e criado no morro do Salgueiro, a década de 1960 tangeu Silvio Modesto para São Paulo.

Teve momentos difíceis e momentos de redenção. Como neste episódio que ele me conta, entre um gole e outro.

“Em 1982 eu andava numa dureza... Lá em casa, as panelas de boca para baixo, e do fogão não subia nenhuma fumaça. Daí, o Bicalho me procurou. Era um policial amigo meu. Disse que ia me levar pro Rio de Janeiro naquela hora, no ato, pra gente negociar um samba meu no disco do Benito di Paula”, relembra.

O disco estava quase completo com sete composições do próprio Benito, uma de Roberto e Erasmo Carlos... mas Benito queria alguma coisa que falasse da Bahia. E Silvio Modesto tinha.

“O Bicalho me levou pro aeroporto, me enfiou num avião da Pan-Air. A gente não podia perder tempo”, relata Modesto, nascido em Brás de Pina e criado no morro do Salgueiro. Mas morando em São Paulo desde o fim da décade de 1960.

Para agilizar a negociação, Bicalho sugeriu a Sílvio que lhe desse a parceria no samba Doce Bahia. “Lógico que eu autorizei. No sufoco que eu tava...”.

Chegados ao Rio, Benito aceitou a música. Modesto e Bicalho foram receber o adiantamento pelos direitos autorais.

“Quando chegamos na minha casa com um pacote de dinheiro, minha mulher deu um pulo. Disse que ia chamar a Polícia, porque não queria dinheiro roubado. O Bicalho mostrou a carteirinha pra ela, disse ‘eu sou policial, e este dinheiro veio da gravadora do disco que o Benito di Paula vai lançar’. A mulher sossegou. E na hora que falei pro Bicalho pegar a parte dele daquela grana, ele simplesmente me disse: ‘é tudo teu’, e não aceitou nenhum centavo”, conta Sílvio com a face banhada em pranto.

Aqueles 3 minutos e 24 segundos de duração do samba Doce Bahia deu uma virada na vida do Sílvio Modesto. Foi com aquela grana que ele comprou a casa que eu citei no início deste texto.

3 comentários:

Matheus Trunk disse...

Prezado David: Sílvio Modesto é um dos principais sambistas de São Paulo e merece maior reconhecimento. Afinal, se o cara foi amigo e parceiro do Plínio, quem somos nós pra discordar? Suas composições são retratos do nosso povo. Excelente post

Unknown disse...

Silvio Modesto é a historia do samba em pessoa, vivo, um dos unicos baluartes dos tempos em que samba era feito no terreiro e não nos camarins das estrelas platinadas, continua a brilhar mesmo esquecido pela midia, um poeta de verdade e um cantor dos velhos tempos , devoz melodiosa e potente ...parabens David..Bagda

Anônimo disse...

Quanta riqueza cultural e quanta história bonita cultivamos em nosso sagrado pedaço de terra, hein! Parabéns, caro amigo David, por registrar esses notáveis acontecimentos de nossa gente, especialmente, do extraordinário SÍLVIO MODESTO...