quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Cachaça + coca-cola + guerra + cinema = Samba

Correm duas lendas etílicas sobre a origem da mistura de cachaça com coca-cola. Uma, credita aos cariocas a invenção. Outra, aponta como autores do birináite os soldados da Base Aérea dos Estados Unidos em Natal (RN) durante a Segunda Guerra Mundial. Me fio mais na versão potiguar. Mas não nego o batismo do nome do aperitivo aos filhos da Mui Leal e Heróica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Explique-se, primeiro, o que faziam os sobrinhos do Tio Sam na capital do Rio Grande do Norte. A culpa é do Getúlio Vargas. Sacana como sempre, o gaúcho-presidente fazia média com os dois lados em Guerra: dizia apoiar os Aliados liderados pelos EUA, mas não deixou de mandar cartão de feliz aniversário ao monstro Adolf Hitler em abril de 1941.
Os gringos ficaram putos. Cogitaram invadir o nordeste brasileiro com 100 mil soldados desembarcando em Natal, Recife, Belém e Salvador. Mas se contiveram: mandaram para Natal cerca de 15 mil soldados da 4ª Frota Naval e da 16ª Esquadrilha da Força Aérea norte-americana. Foi o maior quartel dos EUA fora do seu território na época. A quantidade de milicos era a metade da população de Natal. As potiguarzinhas endoidaram. Os rapazes nativos, enciumados e impotentes, viam os militares norte-americanos beliscarem o melhor da carne humana da cidade.
O furdunço dos mariners e pilotos da USAF em Natal foi tremendo. Até o ator Humphrey Bogart e Duke Ellington com sua orquestra passaram por lá. Um panorama da época é mostrado com bom humor no filme For All, de Luís Carlos Lacerda e Buza Ferraz.
No final de um dia duro no quartel, os rapazes logicamente ansiavam por um trago. Mas o whisky estava escasso devido à Guerra. Todavia, a cachaça rolava abundante. Só que os yankees não aguentavam o repuxo da pinga pura direto no bucho. O jeito era diluir a manguaça na coca-cola, e botar uns gelinhos pra suavizar.
Entre uma e outra pinga com coca-cola, os rapazes do presidente Roosevelt mandaram 15 submarinos alemães e um italiano pro fundo do mar da costa brasileira.
Por esta mesma época (1943) estreou com estrondo no Rio de Janeiro o filme Samba em Berlim. O musical satirizava a Segunda Guerra, principalmente a figura de Hitler. Uma das marchinhas do filme dizia que, se os brasileiros desembarcassem em Berlim e a disputa fosse com samba no pé, a peleja estava ganha pra nós. O sucesso do filme foi garantido pelas presenças de astros do humor nacional como Grande Othelo, Brandão Filho e Dercy Gonçalves – esta em sua estréia no cinema.
Foi desta fusão da presença militar no nosso Nordeste, e do sucesso de uma chanchada no Sul, que a cachaça com coca-cola ganhou nome e disseminação pelo Brasil.


No Samba em Berlim com Saliva de Cobra (clique acima pra ouvir) João Bosco e Aldir Blanc brincam com a questão militar, o namoro e o Samba servido no copo. A música incidental é Stars and Stripes Forever, marcha oficial dos EUA composta por John Phillip Souza.
Quase que eu chamei o Sapaim
Tamanha a rebordosa
A overdose de veneno de cobra que a morena
Quando é Pomba-Gira põe na prosa
Congelar e derreter,
Sentir firmeza em cena
Se nessa fera um bicheiro leva fé,
Não entra em cana,
Pomba que entorta sacana
Na Sexta Frota
Até Popeye roda a baiana

Gente, a minha história foi assim:
Sou verde e rosa
E fui bebemorar num botequim
A gloriosa
E lá no bar foi se encostando em mim,
Tão sestrosa
Rolinha e pomba de arrupiar,
Cascavel em pé de manacá
Minha timidez sumiu de mim,
Cantarolei: "Ôôô Rosa!"
Aí eu virei a dose
E era veneno que a morena
Salivou no meu copo sem pena
Me abalou, tentei sambar
- Cadê firmeza em cena?
Me deu um sono... e um suor...
E eu, machão, fiz um berreiro
E hoje ex-viril-fuzileiro
Larguei a farda
E sou cambono em seu terreiro

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