terça-feira, 24 de março de 2009

O boêmio que ficou na placa

Para Marcos Assunção

Se estivesse vivo no próximo sábado 28 de março, o compositor Adelino Moreira completaria 91 anos. Eu e meu amigo-irmão Aloísio Nogueira Alves estivemos com ele por duas vezes um ano antes de sua morte. Adelino foi o autor dos maiores sucessos do cantor Nelson Gonçalves.

Aloísio e eu fomos à casa de Adelino pela primeira vez em abril de 2001. Quem nos descobriu o endereço e nos levou até ele, foi o ex-médico do trabalho da Prefeitura de Taboão da Serra, doutor Luiz César. Adelino morava na Estrada do Monteiro, nº 738, em Campo Grande, um bairro imenso (297 mil habitantes) a cerca de 60 km do centro do Rio de Janeiro. A segunda entrevista com ele, fizemos em 26 de julho de 2001.

Na segunda visita, Adelino nos comoveu: “Olha aqui, David e Aloísio. Muita gente gosta de mim por todo o Brasil. Mas ninguém demonstrou isto mais do que vocês dois”. Desnecessário contar-lhes os dois grandes almoços com que o artista nos recebeu; todos conhecem a hospitalidade e o prazer lusitano em comer bem. Meu coração marginal disparou ainda mais quando fui informado que a cadeira onde eu estava sentado para entrevistá-lo, era a mesma usada por Dilermando Reis nas serestas para Juscelino Kubitschek, que ia muito à casa de Adelino.

Começando pelo fim

A Volta do Boêmio é uma das canções mais famosas do Brasil. Difícil a roda de boemia onde ela passe batido. O que poucos sabem é que este samba-canção foi inspirado em outro do próprio Adelino Moreira. Quem adquiriu a gravação da entrevista, sabe da emoção do compositor quando ele me contou esta história.

Até 1952 Adelino Moreira e Nelson Gonçalves não se conheciam. Certa noite, Adelino tirava um cochilo numa esteira na sua sala de estar, quando sua esposa dona Arzina lhe chamou a atenção: “Escuta a voz bonita deste moço cantando no rádio”. Era Nelson em “Nem que ela venha coberta de ouro / Eu não a quero mais...”.

Aquela voz mexeu com Adelino. “Preciso mostrar minhas músicas a ele. Mas, como chegar até ele?”, inquietava-se diariamente.

Todas as tardes, Adelino fechava sua fábrica de cordões folhados a ouro, e seguia de trem para os bares do centro do Rio onde artistas se encontravam. Nessas viagens de Campo Grande ao centro boêmio, Adelino tinha como companhia o repórter-fotográfico Sebastião Santana. Mostrou a ele sua canção Última Seresta. “Dá esta música pro Nelson Gonçalves gravar!”, foi a reação imediata do fotógrafo. “Como? Se o homem já é famoso e eu nem sei como chegar até ele!!!”, disse o aflito Adelino. Por ser amigo de Lourdinha Bittencourt, mulher de Nelson na época, o repórter arranjou o encontro. “Se o Nelson gravar esta música, eu te dou a parceria”, disse por gratidão prévia Adelino ao jornalista.

“O Nelson cantava na Rádio Nacional”, contou Adelino. “A Lourdinha me mostrou o lugar onde eu devia esperar por ele, num sábado às 4 horas da tarde. Cantei Última Seresta pra ela; ela se emocionou e me disse: ‘Dá essa música pro meu Nelson’. Daí eu subi a escada do prédio da rádio. No meio do caminho vem descendo um homem; perguntei: ‘O senhor é o Nelson Gonçalves?’ ‘ Sou sim, por que? Quem é você?’ Ele falava assim, meio abrutalhado, mas a Lourdinha já tinha falado de mim, e ele me mandou subir ao bar da emissora e esperá-lo. Eu fiquei ali, pensando, olhando por uma janela que dava para o mar... O Nelson não veio me atender logo, não. Mas eu sentia que aquele dia era meu. Aquela era a minha estrela. Deus guarda um dia especial para cada um de seus filhos. E aquele era o meu dia”, revelou com os olhos rasos d’água.

De repente, alguém lhe bate nas costas. “Mostra a música aí”. “Mas aqui, no meio deste bar lotado?”, intimidou-se Adelino, pois estavam por ali bebericando artistas como Aracy de Almeida, Jorge Goulart, Dircinha e Linda Batista... “E voce queria o quê? Cantar no Scala de Milão? Mostra a música aí, rapaz!”. Quando Adelino terminou de cantar, Nelson estava comovido e pronto pra gravar.

Última Seresta não vingou. Quatro anos depois, Adelino retrabalhou o tema, e mostrou pro Nelson. “Não dá pra gravar isto, não!”, refugou o cantor. “A letra tá muito comprida, ninguém vai decorar. E essa melodia vai ser difícil das pessoas tocarem”. Foi esta a reação do intérprete ao ouvir pela primeira vez A Volta do Boêmio.

Adelino me disse que a recusa de Nelson, além das críticas de caráter técnico, era porque não queria parecer subornado para gravar duas canções de um só autor desconhecido. Pra encerrar a discussão, Nelson disse que precisava ir embora, pois era aniversário de Lourdinha; para comprar-lhe o presente, teria de pegar dinheiro emprestado de um agiota. Quando Adelino lhe deu um cheque de 3 mil contos de réis, o cantor que já havia sido boxeador abriu a guarda.

Eu tenho a teoria que Nelsão ficou reticente com A Volta do Boêmio, porque este samba-canção é uma segunda parte de Última Seresta. Nesta, o boêmio se despede dos amigos, abandona a gandaia e vai dedicar-se à mulher amada. Em A Volta, como o próprio nome revela, o boêmio faz o caminho contrário. Se Última Seresta não tinha feito sucesso, o cantor deve ter pensado que o mesmo aconteceria com a segunda música. Há inclusive trechos inteiros que se repetem nos dois sambas-canção. Vê só:

ÚLTIMA SERESTA

A VOLTA DO BOÊMIO

Digo adeus às serenatas

Aos montes, rios, cascatas

(...)

Adeus, amigos leais

Vá rever os seus rios, seus montes, cascatas

Vá cantar em novas serenatas

E abraçar seus amigos leais

(...)


Felizmente, A Volta do Boêmio vendeu, só em discos de 78 rotações, 62 milhões de cópias. Depois disto, Nelson Gonçalves gravou 332 músicas de Adelino Moreira.

Lembrei-me desta antiga entrevista que fiz, quando vi, na manhã de ontem, a fachada comercial da foto abaixo:

Não sei se o dono da oficina deu-lhe este nome por causa da expressão que se repete nas duas músicas citadas.

Só sei que, se tratando de Adelino Moreira, não foi mera coincidência eu passar por uma loja com nome de Amigos Leais, justamente no início da semana de seu aniversário.

O Aloísio sabe muito bem o que aconteceu comigo na noite que antecedeu a madrugada da morte de Adelino. Mas isto fica pra outra hora.

6 comentários:

Anônimo disse...

Bom dia David, bela matéria, parabéns, isso mostra mais uma vez parte de sua riqueza cultural.

Passo em frente a esta oficina da Foto todos os dias, mais acho que o proprietário nem sabe quem é ou quem foi Nelson Gonçalves, conheço o figura (proprietário).

Abraços

M. A

luiz andre cynbaluk disse...

david que bom ter pessoas como voce
que consegue se lembrar de cantores e compositores como nelsom e adelino moreira sempre que posso acompanho seu blog
parabens

lac

David da Silva disse...

M.A.: Talvez o dono da oficina não a tenha batizado com este nome por conhecer a história. Mas que a música colocou no subconsciente coletivo o conceito de "amigos leais", não temos dúvidas. Você e o Marcão são daqueles a quem posso chamar de amigos leais, mesmo.
Cynbaluk: É uma festa receber leitores iguais a você nesta espelunca virtual. Precisamos marcar urgente uma daquelas nossas serenatas em louvor ao Adelino.

Anônimo disse...
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Anônimo disse...

Se não me engano, esta reportagem saiu no Cidadão. O Nilson me arrumou um jornal que eu dei para meu pai.
Jaime

David da Silva disse...

É isto mesmo, Jaimão. O Latorre teve muito carinho com a formatação da matéria. Imagine que ele exigiu do Flávio diagramação em letra corpo 12 pois segundo ele, idosos com vista fraca tinham o direito de lê-la sem dificuldade. Eu não guardei nenhum exemplar. Mas o Aloisio tem o dele arquivado.
Seja portador do meu abraço ao Dema.