sexta-feira, 24 de abril de 2009

A nossa Volta por Cima

Recorte da minha reportagem com Paulo Vanzolini
Foto: Aloisio Nogueira Alves - 
Num dia qualquer de abril do ano 2000 cheguei pro Aloísio Nogueira Alves e disparei na lata, na bucha, sem chance: “Marca uma data com o Paulo Vanzolini que vamos fazer uma matéria com ele. Ele vai fazer 76 anos em 25 de abril; vamos publicar uma homenagem pra ele no jornal do fundo de previdência da Prefeitura de Taboão da Serra”. 
“Cê é doido? Vou achar o cara aonde?” reagiu Aloisio, que cuidou (e cuida) do agendamento das minhas melhores entrevistas.
A primeira data marcada por Vanzolini foi cancelada quando estávamos no meio do caminho para encontrá-lo. Já no final da Avenida Elizeu de Almeida o fone celular do Aloisio chamou. "Doutor Paulo desmarcou a entrevista. Avisaremos vocês sobre uma outra data", foi a mensagem medonha. Bateu o desespero. "O homem nunca mais vai ligar pra gente. Acabou. Não tem mais entrevista", lamentamos feito dois desolados Jeremias urbanos. E afogamos a decepção no Bar do Tio Carlinhos, na região do Pazzini. Dias depois Regina, secretária de Vanzolini, remarcou o compromisso.
A entrevista estava marcada para 17h30, mas às 16h já estávamos em frente ao Museu de Zoologia, na Avenida Nazaré, ao lado do Museu do Ipiranga. Um prédio que impõe respeito, construído na década de 1890. Ali Vanzolini começou a trabalhar em 1946. Ele dirigiu aquele órgão de 1962 a 1993. E mais ainda: foi o próprio Vanzolini quem organizou o museu, elevou sua coleção de répteis de 1.200 para mais de 230 mil exemplares, e montou a biblioteca do lugar com o dinheiro ganho com o samba Volta por Cima. Mesmo depois de aposentado, Vanzolini ia ao Museu de Zoologia das 9h às 19h – e assinava o ponto todos os dias!

Foto: Silvio Tanaka
Uma para abrir os caminhos
Ficamos sinceramente intimidados diante do prédio centenário. “E se este homem desmarcar de novo?”, pensávamos – mas nenhum tinha coragem de dizer ao outro. Sempre resoluto, Aloisio decretou: "Vamos beber uma pinga alí no boteco da encruzilhada. Pra gente se acalmar, e pra abrir os nossos caminhos". O garçom veio com dois copos americanos com Velho Barreiro até a borda. Estranhamos tanta generosidade. Notamos que o copa era nordestino. E no caixa uma coreana se esgoelava na língua latida pelo facínora Kim Jong-il – estava explicado!
"Viemos para a entrevista com doutor Paulo Vanzolini", nos anunciamos às 17h10. Vocês deviam ver com que cara de misericórdia os porteiros nos olharam. “Quem marcou a entrevista pra vocês? De que jornal vocês são? Tem certeza que foi marcado mesmo?” disparavam os vigias numa sequencia angustiante de dúvidas e desestímulos. Toda a manguaça que tomamos para criar coragem se evaporou. Aloisio foi lá pra fora, olhos vermelhos rasos d'água, balbuciando alguma prece, alguma praga.
O vigia de interfone na mão me olhava com piedosa ironia: “A secretária dele já foi embora...”
Puxamos papo. “Trabalha muito tempo aqui, conterrâneo?” “Tão reformando tudo aqui, hein?” Nestas conversinhas bestas de "cerca-lourenço" quebramos o gelo dos porteiros. Daí veio a porrada mais medonha: “Doutor Vanzolini ainda tá lá em cima, mas não quer atender o interfone...” O outro vigia cavou mais fundo o buraco do tormento: “Semana passada o Alberto Gaspar, da TV Globo, ficou aqui embaixo esperando. Quando deu 11 horas da noite, fomos ver por que o doutor não mandava o rapaz subir. Vimos que ele tinha ido embora pelos fundos do prédio, e deixou o repórter da Globo aqui feito besta...”
Outro vigia que havia simpatizado conosco teve a idéia: "Vocês vêm comigo no elevador, mas fiquem no corredor enquanto eu digo a ele que vocês chegaram. Quando ele mandar vocês subirem, vocês já vão estar lá em cima, morou? Se não, ele pode desistir do encontro enquanto vocês esperam o elevador". 

Nos ocultamos entre uns andaimes da obra de reforma, até que o vigia voltou com um sorriso cúmplice no canto da boca.
Segundos depois entrávamos no gabinete de Paulo Vanzolini. Um salão de quase 50 metros quadrados, pé-direito de mais ou menos 6m de altura, decorado de vitrais com desenhos de bichos.
Paulo Vanzolini sentado em uma mesa em formato de "U". Entupida de livros. Das paredes imensas não se via um mílimeto. Livros, livros, livros.
O cientista-sambista estava de cabeça curvada sobre a papelada, fazendo alguma operação na sua calculadora.
"Doutor Paulo, boa tarde!", foi o que conseguí balbuciar depois de alguns segundos de agonia.
"Vocês estão 10 minutos adiantados" resmungou Vanzolini sem levantar os olhos da mesa.
Aloisio e Paulo Vanzolini - Foto: David da Silva

A sala entupida de livros sinalizava o colossal trabalho acadêmico do homem que ensinou o povo dizer “levanta, sacode a poeira, e dá a volta por cima”. 
Não bastava o susto do primeiro cancelamento da entrevista...
Pontualmente às 17h30, Paulo Vanzolini deixou a caneta de lado:
"Pois não!" – o tom de voz já era outro; saia de cena o cientista severo – quem nos acolhia agora era o sambista.
Vanzolini fez e serviu café para todos. Repassamos detalhes da sua longa ronda entre a Ciência e a boemia. “O samba Ronda eu fiz quando prestava serviço militar. Eu era da Polícia do Exército. Fazia a ronda pela região do baixo meretrício na Avenida São João, Bom Retiro... Cansei de ver mulher chegar na porta do boteco, espichar o olho lá pra dentro, procurando alguém, e ir embora. Esta imagem ficou na minha cabeça e daí inventei a história”. Estes e outros casos publicamos no Jornal do Fasprev (fundo de previdência dos funcionários da Prefeitura de Taboão da Serra).
Na hora de ir embora, o grande brinde por tanto esforço:
"Para ir a Taboão da Serra voces passam por Pinheiros, certo? Então, me dêem uma carona até a casa da minha irmã."
Tivemos a honra de conduzir o gênio até uma rua próxima à ponte Eusébio Matoso, onde mora uma de suas irmãs.
"Qualquer dia vou levar vocês no Bar (falou o nome dum boteco famoso), pra gente tomar cachaça e continuar a entrevista", disse Vanzolini.

Durante muitos anos Aloísio se recusou a vender o carro no qual havia conduzido Paulo Vanzolini.
No caminho entre o seu trabalho e a casa da irmã, Vanzolini pediu para passarmos em sua residência,  no bairro Cambuci. E veio o trajeto todo cantarolando com o  Aloísio a música "Vendedor de Caranguejo", do compositor baiano Gordurinha ("Caranguejo uçá / Olha o gordo guaiamun / Quem quiser comprar eu vendo / Cada corda de dez, eu dou mais um...").
"Como é que eu posso vender esse carro onde andou o Paulo Vanzolini? E o hômi até cantou comigo aí dentro!". Era esta a cantilena que Aloísio me dizia toda vez que o velho automóvel Gol dava sinal de fadiga.
Enquanto trazíamos o compositor até seu destino, eu vinha murmurando uma prece para que aquele caminho não se acabasse. Para que se alongasse nossa permanência junto ao mestre dos sambas e das serpentes. Foi neste trajeto que Vanzolini nos expôs algumas das suas opiniões pessoais sobre o então presidente da República  ("FHC é um sujeito muito vaidoso") e sobre aquela que meses depois se elegeria prefeita de São Paulo  ("A Marta [Suplicy] é de família paulistana tradicional"), e deixou a frase solta no ar.
Quando passamos em frente ao Instituto Biológico, Vanzolini nos disse que costumava andar de bicicleta naquela região quando menino. "Até que um dia estiquei as pedaladas e fui até o Instituto Butantã. Aquele passeio mudou a minha vida".
Não tenho mais em papel um exemplar do jornal onde Aloísio e eu publicamos a entrevista com o sambista-cientista. E nem precisa. Há coisas que ficam impressas na alma da gente.

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