segunda-feira, 11 de maio de 2009

Trupe leva História do Brasil à rua

Fotos: David da Silva

Foi apresentado pela primeira ao público no último sábado, o espetáculo Brasil, quem foi que te pariu?, concepção coletiva da Trupe Artemanha.

Foram 18 meses de trabalho até a montagem oferecida ao respeitável público na Praça do Campo Limpo na tarde de 9 de maio. Esta é a primeira apresentação de rua deste grupo teatral de investigação urbana criado em 1996.

O fio condutor da peça são índios escravizados por portugueses, e que ocupam a praça para acertar as contas com seus opressores, e contar a História do Brasil “do nosso jeito”.


A vertigem do tempo

Sintonizada com a realidade, a comédia já começa dando porrada nos escândalos que brotam de Brasília e emporcalham todo o território brasileiro. As mazelas nacionais são personificadas na figura monstrenga de um senador da República.

Acomodada sobre colchonetes ao redor dos atores, a platéia é enfeitiçada com uma visão escrachada da formação do País. Antes que o povo ache muito engraçado o que é despejado hoje pelo noticiário político, o diretor Luciano Santiago arremete o público a cinco séculos atrás, onde nossa zorra começou.

A Trupe Artemanha não economiza recursos técnicos para manter o público aceso. A direção musical de Fábio Pinheiro canta a gênese e as dores do povo brasileiro por meio do samba-enredo, a embolada, e outros ritmos nacionais adornados pela brejeirice do cavaquinho, da sanfona e o violão. A percussão dirigida por Márcio Monjolo suplanta com maestria o entorno barulhento de onde a peça acontece. O entusiasmo e categoria com que os atores batucam é um espetáculo dentro do espetáculo. Sugiro que se ainda não o fizeram, gravem num CD esta trilha sonora que me remete às maravilhas musicais do extinto Teatro de Arena.


Caldeirão cultural

Escorada no talento desabrochante e no vigor físico de seus jovens artistas, a Trupe Artemanha despeja no meio da praça um verdadeiro caldeirão de referências culturais. Lá estão presentes as boas e velhas pantomimas - com a inevitável exploração do gosto infantil pela escatologia -, as acrobacias do telecatch (luta-livre) e todo um repertório de recursos bebidos diretamente nos heróis pioneiros da Comedia Dell’Arte.

A ironia com que é desmontada a história oficial imposta pelos brancos, desemboca nos dias atuais no final da peça. No “Júri Popular” onde um bandeirante responde pelos seus crimes contra povos nativos, a acusação é feita na língua dos índios, assim como fez a advogada Joênia, que discursou no seu idioma wapichana no Supremo Tribunal Federal.

Devidamente “condenado” pelos abusos históricos, o bandeirante também é usado pela trupe para sacanear a banalização judicial das cestas-básicas nas sentenças alternativas.

Para conhecer o elenco e corpo técnico completo da peça, além de outras artes e manhas desta trupe, clique aqui


Nota do Balcão (1)A sequencia sobre a Conjuração Mineira pode perfeitamente ser destacada do espetáculo, para torná-lo mais curto e atraente. A abordagem sobre Tiradentes é uma sátira dentro da sátira. O mesmo se aplica à citação da escravidão dos negros, que sugere outra abordagem à parte. Se privilegiar as sequencias com os índios este espetáculo encantador ganhará maior agilidade. Sou da opinião que se uma coisa está muito boa, tem a obrigação de virar ótima.

Nota do balcão (2) – É um absurdo o estado da Praça do Campo Limpo. Mato e lixo disputam espaço com os pedestres. Esta praça está na cara da autoridade local. É lá onde fica o gabinete do subprefeito do Campo Limpo. Deveriam tê-la varrido e capinado pelo menos para a apresentação teatral.

Aspecto da Praça do Campo Limpo. Ao fundo a Trupe Artemanha se preparando para o espetáculo.

3 comentários:

Prof. Christian disse...

Antigamente na praça do Campo Limpo ficava o gabinete do subprefeito.

O mesmo há alguns anos fica próximo ao Shopping Campo Limpo, Rua Nossa Senhora do Bom Conselho no Jardim Laranjal.

David da Silva disse...

Valeu, Christian. Eu nem sabia que o dito cujo tinha mudado de enderêço.
O gabinete do subprefeito pode estar no shopping, no Capão, no Laranjal ou no escambau.
O que não pode é ele ser relaxado e deixar naquela esculhambação a praça que leva o nome da região.

Trupe Artemanha disse...

Olá amigo David, agradecemos muito por sua presença ilustre no dia da
apresentação e sobre a matéria que vc escreveu em seu blog. Estamos aí
amigo...

Grande abraço e sucesso!

Luciano Santiago e o pessoal da Trupe!