sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A respeito de rebeliões e cemitérios

Sankt Olai Kirke - Foto: David da Silva - 22.jul.2009
Como tem muita gente em Taboão da Serra com vontade de surrar o prefeito Evilásio por causa do aumento do IPTU, me lembrei de uns cemitérios lindos que vi na Europa no ano passado.
Você vai entender já-já porque meu raciocínio torto de vira-lata boêmio fez esta associação entre revolta popular e cemitério.
Quando passei por Hjørring, no norte da Dinamarca, em julho último, visitei os cemitérios que ficam dentro dos terrenos de duas igrejas locais. Hjørring foi criada em 1243. Tem apenas 24.953 habitantes.


Sankt Hans Kirke - Foto: David da Silva - 22.jul.2009

A Igreja de Santo Olavo (em dinamarquês: Sankt Olai Kirke) é rodeada de túmulos – click na foto para abrir. Sua construção começou nos anos 1200 e foi concluída em 1559. Em 1966 descobriram debaixo desta igreja de pedras restos da igreja de madeira original.
A Sankt Hans Kirke (Igreja de São João Batista) fica a poucos metros da Sankt Olai. Também foi erguida no século 13. 
Tamanho zelo dá impressão que há concurso para escolher o cemitério mais bonito ali. 
Na manhã que percorri os túmulos desta igreja, os canteiros de flores eram cuidados por uma mulher jovem. Aquela jardineira viking estava muito linda debaixo das suas roupas rústicas levemente sujas de terra. A sequencia desta visão, eu conto um'outra hora...

Enterros e quebra-paus
No Brasil, a prática de sepultar pessoas ao lado das igrejas foi proibida em 1801 por Dom João, então príncipe regente de Portugal. O rei alegou questões de saúde pública para a medida. 

Mas o povão nem deu bola.
Os féretros continuaram seguindo o rumo dos templos.
Só que no dia 1º de outubro de 1828 o governo Imperial brasileiro deixou a cargo das Câmaras Municipais a escolha dos locais de sepultamento. E onde vereador mete o dedo, o lombo do povão sofre...

Em 1836 os vereadores de Salvador, capital da Bahia, proibiram funerais nas igrejas, e entregaram o monopólio dos enterros para uma companhia particular. O povo teria de levar seus mortos para o cemitério Campo Santo, construído pela firma de papa-defuntos.A baianada se arretou. 
Na manhã de 25 de outubro de 1836 os sinos de várias igrejas de Salvador tocaram ao mesmo tempo. 
Era a senha pro povaréu se reunir no Terreiro de Jesus, defronte à igreja de São Domingos. Cerca de três mil pessoas armadas com machados, alavancas e outros ferros gritavam:  
 - Morra o cemitério! 
Dali marcharam para a Praça do Palácio – hoje Praça Municipal. 
As autoridades se mijaram de medo da turba, e suspenderam até 7 de novembro daquele ano a proibição de sepultamentos nas igrejas.
Mas a galera estava com sede de vingança. 
Partiram pra cima do Campo Santo, derrubaram o muro da frente do cemitério, botaram abaixo a capela do lugar e seguiram demolindo tudo o que achavam pela frente. O escritório da funerária foi apedrejado e queimado.
Esta rebelião entrou para a história do Brasil como A Cemiterada.

Um comentário:

Jussanam disse...

Depois de um tempao sem passar por aqui por falta de tempo, coloquei hoje a leitura em dia. Adorei ler os últimos artigos sobre sua visita 'a Scandinavia.
Beijos com carinho,
Jussanam