terça-feira, 8 de novembro de 2011

TESOL: templo da Arte; quartel da resistência cultural

Foto: Thânia Rocha
No muro daquela casa da Rua José Nunes de Oliveira, o número 73 aparece em duas plaquinhas. Uma no alto, outra mais embaixo. Como se para ser visto por gente grande e gente pequena. Adultos e crianças.
Ali mora o casal Daniel e Vera Diez. Ele com 76 anos, ela, 66. Para entrar na residência, temos de passar pelo espaço cultural que ocupa toda a frente do imóvel. Em 1977 a casa nasceu pequenininha, bem lá no fundo do terreno. De propósito. Pra dar espaço ao teatro.
É a sede da Cia de Teatro de Expressão Sol (Tesol), em Taboão da Serra. Onde pessoas de todas as idades se iniciam na magia da arte de encenar.
No sábado 5 de novembro, o Tesol festejou 35 anos de existência.

Daniel Diez - Foto: David da Silva
Construção da brasilidade no velho peito peruano
Daniel Ernesto Diez Mendoza veio do Peru para o Brasil em 1964. Fugia do golpe militar em seu país. Aqui também estávamos sob coturnos. Mas havia “um caldeirão cultural”. Isto seduzia o jovem peruano, a despeito dos perigos.
Chegou “disfarçado de turista”. Seu desejo era ficar. Enquanto atuava em uma peça aqui, outra ali, batalhou pelo visto de permanência...
No dia 14 de março de 1967, seu pedido foi atendido. A página 16 do Diário Oficial da União de 4 de maio daquele ano, dava as boas vindas a Daniel em solo brasileiro.
Todavia, seu coração irrequieto o levava a reuniões onde se tramava contra a ditadura militar. Foi mandado de volta ao Peru.
Teimoso, após dois anos e meio retornou ao Brasil. Agora vinha com carteira de ator profissional, pai de dois filhos com a brasileira Vera Ferreira Diez. E o sonho de criar o Tesol incluso na bagagem.

Acaso e persistência
Daniel e Vera Diez - Foto: Joyce Mourão
Já lhes disse em postagem anterior que o teatro entrou por acaso na vida de Daniel Diez. Foi assim também com sua esposa Vera Diez. Por volta de 1975 o casal freqüentava o Centro de Estudo Macunaíma. Mas só Daniel era “do palco”. Um dia, precisaram de uma moça para a peça O Diletante, de Martins Pena. Sem nenhuma experiência anterior, Vera encarou o teste de encarnar Merenciana, mulher do personagem principal. “O papel é seu”, sentenciou o diretor Carlos Alberto Sofredini. Para desespero e pranto da mocinha psicóloga que era a intérprete titular até então. “Tentei convencer o diretor a manter a outra mocinha no papel”, relembra Daniel Diez. “Não teve jeito. Ele insistiu na Vera”.
A mãe de Vera já morava em Taboão da Serra naquela época. E sugeriu ao genro comprar um terreno próximo à casa dela. Esta sugestão concretizou-se como a mais antiga e uma das mais sólidas iniciativas culturais da nossa cidade e região.
Daniel Diez levantou esta obra artístico-social batendo lata pela periferia. Dia e noite. Literalmente.

Teatro Tesol - Foto: Google Street
Uma Kombi velha e a Grande Arte
O Teatro Tesol é prova viva que não é preciso obras imponentes para se disseminar Cultura. O pequeno salão de 16m x 24m é berço de atrizes, atores e outros profissionais que gravitam pela arte cênica.
As paredes e o teto do espaço cultural seguem sem reboco, decorridas três décadas e meia da sua fundação. As colunas de sustentação permanecem expostas, nuas no seu vigor de ferro pedra cimento.
Mas tudo ali dentro está disposto com dignidade. Palco, coxia, bastidores. E uma plateia para 120 pessoas. Pequenino templo da Arte. Respeitado quartel da resistência cultural.
Daniel Diez levantou aquelas paredes como vendedor ambulante nas ruas da periferia.
Durante o dia, de 2ª-feira a 6ª-feira ele embarcava na sua Kombi velha, lotada de galões de óleo de cozinha. Com uma máquina manual acoplada aos recipientes, vendia um litro, ou meio litro, ou um simples copo de óleo comestível.
Enquanto vendia óleo pro povo cozinhar, ia de olho em potenciais locais para receber um espetáculo teatral.
Nas noites dos dias úteis e em tempo integral aos sábados e domingos, saia de cena o vendedor, e assumia a função de diretor teatral. Formador de seres humanos nos segredos da Grande Arte.
Foram estas pessoas, e também colegas de outras companhias teatrais, que compareceram no Tesol sábado à noite pra dar seu abraço de gratidão ao respeitável cidadão dos palcos.

5 comentários:

Anônimo disse...

Texto perfeito. História de amor e dedicação ao teatro. Roteiro ideal para comprovar que o amor supera as barreiras impostas pela adversidade e constrói seu próprio caminho. Só há que se lamentar a falta de sensibilidade do Poder Público que pelo visto nunca apoiou o que deixa de ser simples iniciativa para se consolidar como projeto de vida. Parabéns David da Silva por retratar com tanta sensibilidade o tema.

sonia almeida disse...

Sr Daniel e Dona Vera Diez, pessoas especiais para mim, quando cheguei em Taboão da Serra em 1990, fui trabalhar com o saudoso Reginaldo SIlva, do grupo Teatral "Só de Raiva" e através dele tive a honra de conhece-los. Parabéns David pela bela matéria!

David da Silva disse...

Sonia Almeida, amiga querida. Tb tive a honra de fazer reportagens com Reginaldo Silva do Grupo Só de Raiva. Não sabia que vc conhece há tto tempo Daniel e Vera. Se não, teria “te arrastado” (rs rs rs) pra lá sábado. Eles vão ficar felizes – como estou – com este seu comentário. Amo vc, Sonja (assim mesmo, feito Conan) e sou devoto da sua Escola de Bailado.

Sonia Almeida disse...

David, o Reginaldo Silva, numa de suas muitas brigas com o coreógrafo Eduardo, desabafou para mim (Que sou fotógrafa e nesse tempo fazia a cobertura da festa da primavera do Lucia de Castro) que precisava de alguem para ajuda-lo, o baixinho era muito invocado, brigava com todo mundo, mas seu amor incondicional pela feira do folk e o grupo me comoveram e aceitei o convite... o resto é história. O Sr Daniel nesta época me liberou o Tesol para um evento, perguntei quanto custava o aluguel do Teatro e ele me respondeu: (Um saco de cimento) dei as costas para que ele não me visse chorando, porque aquele Peruano com os olhos brilhantes de amor por sua arte, só queria terminar seu teatro...

Versos diversos disse...

Daniel faz a gente flutuar na emoção, face ao seu modo interpretativo que nos prende a atenção e nos faz sonhar para uma libertação cultural.
Conhece-lo e te-lo nas rodas de saraus em Taboão da Serra, foi uma construção para o meu aprendizado na arte do falar, do expressar perante muitos, quando a atenção(POR MUITAS VEZES) soma-se apenas em poucos.


Um forte abraço mestre.
Carlos Silva