segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A grandeza do sambista Modesto

O sambista no seu aniversário de 69 anos
Foto: David da Silva - 03.fev.2013
Todas as manhãs, a janela do quarto do compositor Silvio Modesto se abre para Taboão da Serra.
A residência fica lá na calçada do outro lado da rua, pertencente a Embu das Artes. Mas é sobre o lugar onde eu nasci que o artista deita seu primeiro olhar do dia.
Tem laços afetivos com a cidade – inclusive é pai de um vereador daqui.
E é com todo respeito que volta e meia saio da calçada do lado de cá em Taboão da Serra, e atravesso a Estrada São Judas.
Na calçada oposta abraço aquele que Plínio Marcos considerou “mestre-sala nota dez, compositor inspirado, excelente ritmista, e um dos maiores partideiros do Brasil”.
Só mesmo uma via pública que divide dois municípios para comportar toda a grandeza do sambista Modesto.
Estive com Silvio no último 3 de fevereiro, no aniversário dos seus 69 anos.
A primeira vez que o poeta me recebeu em sua casa foi em 2003, por intermédio de Aloisio Nogueira Alves.
O rosto de Silvio Modesto não me era estranho. Logo constatei que o assisti quando eu tinha 20 anos no espetáculo inaugural do Teatro Popular do Sesi em 1977, e Modesto interpretava o sambista Wilson Baptista na peça O Poeta da Vila e Seus Amores, escrita por Plínio Marcos em homenagem a Noel Rosa. Do mesmo autor, Silvio também foi ator em Balbina de Iansã.
Não bastasse o privilégio de ter sido colega de trabalho e parceiro de sambas com o revolucionário Plínio Marcos, ainda coube a Silvio Modesto a glória de tocar no grupo que acompanhou Cartola em sua última apresentação ao vivo.

Foto: David da Silva
Fala, Silvio: “Ganhei este gravador
do David da Silva há uns dez anos.
Eu não tinha como registrar quando
me surgia uma inspiração na rua,
dentro de um ônibus, ou outro lugar.
Daí que eu ‘caguetei’ muito rascunho
de sambas pra este gravadorzinho aqui”.
Na outra ponta da Via Dutra
Carioca da gema, nascido em Brás de Pina e criado no morro do Salgueiro, a década de 1960 tangeu Silvio Modesto pela Serra das Araras acima.
O negócio estava esquisito lá no Rio, e o sambista veio ganhar a vida vendendo bilhetes da loteria federal na Praça da Sé.
Foi numa dessas de “jogar a sorte grande no pé do otário e dizer que foi o destino”, que Modesto foi avistado por seu amigo Jangada.
O colega estava acompanhado de Plínio Marcos.
Propuseram a Silvio juntar-se a eles no hoje legendário grupo que o dramaturgo, jornalista e escritor estava montando.
Assim Modesto converteu-se no “mais completo sambista carioca em São Paulo”, ainda na definição indelével de Plínio Marcos.
Venceu mais de 20 concursos de samba-enredo.
Tem sua obra gravada por Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Benito di Paula, Bezerra da Silva e outros gigantes do samba brasileiro.
Hoje Silvio Modesto é o único vivo dentre os sambistas históricos que trabalharam com Plínio Marcos.
Tal proeza em sua biografia valeu-lhe o convite para prestar um depoimento, a ser gravado em breve pelo Centro de Memória da Secretaria da Cultura de Taboão da Serra.

2 comentários:

Matheus Trunk disse...

Prezado David: Sílvio Modesto é um dos principais sambistas de São Paulo e merece maior reconhecimento. Afinal, se o cara foi amigo e parceiro do Plínio, quem somos nós pra discordar? Suas composições são retratos do nosso povo. Excelente post

homero garcia duenas disse...

Silvio Modesto é a historia do samba em pessoa, vivo, um dos unicos baluartes dos tempos em que samba era feito no terreiro e não nos camarins das estrelas platinadas, continua a brilhar mesmo esquecido pela midia, um poeta de verdade e um cantor dos velhos tempos , devoz melodiosa e potente ...parabens David..Bagda