quarta-feira, 25 de junho de 2014

Leve seu pé de tomate no próximo sarau

 
O tomate foi domesticado pelos incas do Peru, e teve sua
lavoura expandida pelos maias e astecas do México. Seu nome
original é tomatl, no idioma asteca Nahuatl.
"As rosas não falam”, diz o samba do Cartola. Mas os tomateiros mandam recados entre si.

Num bate-papo, tempos atrás, com o poeta Sérgio Vaz, entrou tomate na nossa conversa.
Eu dizia a ele do poder do tomate contra o câncer de próstata, graças ao licopeno, substância responsável pela cor vermelha do fruto. Mas a Medicina recomenda comê-lo sem sementes. “Pôxa... daí perde a graça”, assim falou o poeta.
Nos encontros hoje já não tão amiúde, em muita coisa a gente discrepa. Mas há dois pontos de vista que acendem nossos cachimbos da paz à sombra de um tomateiro em flor:
“Água sem gelo não tem gosto”, e “Tomate sem semente não tem alma”.
Lembrei disto porque hoje Sérgio Vaz festeja 50 anos de vida, e 25 de poesia. E também porque aprendi sábado retrasado com o biólogo Fernando Reinach que os pés de tomate enviam mensagens uns aos outros.
Na Europa Antiga, o tomate era apenas planta ornamental. Temiam comê-lo, 
pois julgavam-no venenoso. E o associavam à mandrágora, usada em feitiçarias.
Em novembro de 2013 cientistas japoneses divulgaram uma experiência encantadora. Colocaram potes com tomateiros em dois recipientes de vidro, ligados por um tubo para passagem de ar. Depositaram larvas de insetos herbívoros nas folhas do primeiro grupo de plantas. Por duas horas as larvas devoraram os tomateiros. Durante todo este tempo, os tomateiros do segundo recipiente ficaram recebendo o ar que vinha dos tomateiros atacados.
Terminado o experimento, os cientistas colocaram larvas herbívoras nos tomateiros do segundo recipiente, e recolocaram larvas naqueles que já tinham sofrido ataque. Verificaram que os tomateiros do segundo lote estavam imunes às larvas, enquanto seus “colegas” permaneciam vítimas da fome insaciável dos filhotes de insetos.
Para saber o que estava protegendo as plantas do segundo recipiente, compararam as moléculas das folhas atacadas com as das plantas imunes.
Descobriram que nos tomateiros resistentes havia uma molécula a mais, chamada HexVic. Para saber se era mesmo esta molécula a valente defensora dos tomateiros do segundo grupo, adicionaram HexVic na dieta das larvas. Não deu outra. Elas morriam mais depressa, ou não se desenvolviam bem.
Mas... como é que o HexVic foi parar nos tomateiros do segundo grupo?
Recolheram moléculas do ar daquele tubo de passagem, e nelas descobriram uma molécula bem parecida com o HexVic. Marcaram os átomos desta molécula, e borrifaram nas folhas das plantas sadias. Quando recolheram o HexVic, ele continha aqueles mesmos átomos marcados.
Conclusão: ao serem atacados, os tomateiros do primeiro recipiente liberaram no ar uma substância que foi parar sobre seus vizinhos. Ao receberem este sinal químico, capturaram a molécula precursora e “fabricaram” seu próprio defensivo agrícola, o HexVic.
Esta experiência maravilhosa aconteceu no Departamento de Nutrição e Ciências da Vida, do Instituto de Tecnologia Kanagawa, Japão.

No meu sonho impossível, penso que se tomateiros são capazes de mandar alertas aos seus parentes para que acionem o sistema de proteção, eles bem podem aprender a espalhar versos sobre os tomatais do mundo.

O poeta chileno Pablo Neruda em sua exaltação ao tomate disse que este fruto cor de fogo pega o verão pela cintura, invade as cozinhas, senta repousado nas travessas. Cabe a nós, infelizmente, assassiná-lo; afundar a faca na sua polpa viva, abri-lo em dois hemisférios de vermelho víscera. Para Neruda, o tomate tem luz própria; é um sol fresco, profundo, inesgotável. Casa-se alegremente com a branca cebola, e nos dá de presente a totalidade do seu frescor.

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