quinta-feira, 1 de maio de 2014

Invasão amarela: mercadinhos chineses de Buenos Aires

Cidadão argentino olha vitrine de mercadito chinês,
no bairro Belgrano, Buenos Aires.
Sim. Você não anda mais que duas ou três quadras aqui em Buenos Aires sem deparar com um mercado.
Não daqueles super. Mas, tipo mercadinhos de vila. Para pequenas compras providenciais.
Caminhando para o mercadito da Calle (rua) Charcas, lembrei do tango de Ernesto Santo Discépolo. Tango divertidíssimo, onde um otário dono de mercadinho, perde tudo pra uma fulana que lhe deu o golpe do coração apaixonado.

Mas em vez de um típico cidadão portenho, ou uma daquelas moças bonitas de arrabalde trabalhando no mercadito, tudo o que vi foram chineses.
Por mais que beba vinho (e aqui estamos bebendo muito vinho) não pense estar vendo coisas.
Sim. Todos os mercadinhos portenhos têm um chinês no caixa. Um chino, como dizem aqui.
Mercadinho chinês da Rua Jorge Luis Borges, no bairro Palermo, Buenos Aires.
Onde estamos hospedados no bairro Palermo, então, é uma exuberância. Tem o mercadinho chino da Rua Charcas perto da esquina com Rua Jorge Luis Borges; tem o mercadinho chino exatamente na esquina da Rua Charcas com Rua Jorge Luis Borges, e tem o mercadinho chino da Rua Jorge Luis Borges perto da esquina com Rua Charcas.
Meu amigo proprietário do Daniel’s Bar, na esquina da Rua Charcas com Rua Thames, me ajuda a desvendar o mistério do por quê todo mercadito de Buenos Aires tem como dono um chinês.

Estima-se que a cada semana cinco novos mercadinhos chineses são abertos na Argentina. Somam hoje em torno de 10 mil pelo país.
A grande onda de imigração chino-argentina se deu na década de 1990. Era fácil obter documentação – demorava entre 90 a 180 dias.
Depois o governo embirrou. O visto de entrada passou a demorar de seis meses a dois anos. A invasão amarela amainou.
Como tudo que é oficial aqui na Argentina tem cheiro de picaretagem, o censo também mente. O levantamento populacional de 2010 alega 8.929 chineses por aqui. Mas eles próprios admitem serem em torno de 100 mil às margens plácidas do Rio da Prata.

Oitenta por cento dos imigrantes chineses na Argentina vêm da província Fujian, no leste da China. O resto vem na maioria de Taiwan, já que são vizinhos lá naquelas bandas.
A importância dos mercadinhos chineses no cotidiano argentino foi reconhecida pela presidência da República. O governo federal incluiu os mercaditos no pacto de preços controlados de 122 artigos. Os de maior demanda são: macarrão, arroz, erva-mate, produtos de higiene pessoal e de limpeza doméstica. Sem esquecer o sal e o fernet. Sim, o direito de encher a cara está garantido na cesta básica do governo.

Mercaditos são figuras clássicas da história de Buenos Aires
Não fosse meu amigo Daniel, pelos chineses daqui eu jamais saberia o que acabo de te contar. Estes imigrantes não dominam o idioma local. Mal balbuciam “si” ou “no”. Foi só depois da minha undécima ida ao mercadito da Rua Borges, que a orientalzinha arriscou um risinho nos lábios e perguntou: ¿Quieres bolsa?” (quer sacolinha?)

Com salões de normalmente 200 a 300 metros quadrados, os mercaditos chineses de Buenos Aires seguem sempre o mesmo desenho. Na parte da frente uma quitanda (verdulería) e, na de trás um açougue (carnicería). O setor horti-fruti nunca é do chinês (invariavelmente é de bolivianos ou peruanos). E o açougue é sempre de um argentino.
Os mercadistas chineses de Buenos Aires chegaram à conclusão que carnes e legumes devem estar nas mãos de quem lhes chama e respeita pelo nome. Se mal aprendem a dizer buenos dias, como poderiam decifrar o corte de carne pedido pelo freguês? Mesmo uma brasileira feito você passaria maus bocados na quitanda. Aqui, alface é lechuga, beterraba é remolacha, cenoura é zanahoria, mexerica é mandarina, abóbora é carbonada, pêssego é durazno... e por aí vai.

Quando um chinês chega aqui, uma família de conterrâneos o adota. Ele começa a trabalhar como repositor, depois assume o caixa e, guardando dinheiro, abre seu próprio negócio.
Buenos Aires, 1º.mai.2014

Um comentário:

Anônimo disse...

Texto ótimo.Parabéns David.