segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Uma tarde invulgar para quatro amigos incomuns

Foto: Tatiane Nogueira
Então, uma foto pode perfeitamente inverter a ordem natural das coisas. Na imagem acima dois nomes importantes da Cultura da cidade de São Paulo atentam pr’alguma coisa que digo.
O da esquerda é Djalma da Silveira Allegro, 76 anos, poeta, jornalista, advogado, autor teatral e ex-ator de teatro e televisão. O do centro é o sambista Silvio Modesto, 70 anos, vencedor de mais de 20 concursos de samba-enredo, também ator, autor de músicas gravadas pelos maiores nomes do samba brasileiro, e parceiro do legendário dramaturgo Plínio Marcos num marco histórico do teatro paulistano.
Logo, eles têm nada a escutar de mim, esta pobre coisica.
O da direita é Aloísio Nogueira Alves, produtor de duas das mais importantes reportagens que já fiz. Conhecedor profundo da música nordestina e da literatura de cordel.
Portanto, eu tinha mais é de ficar (e fiquei) calado.
O retrato do momento acima é típico do que nos ensina Roland Barthes. Fotografias têm algo além do poder do tempo.
O encontro da foto foi promovido pelo Aloísio, no seu aniversário. De Aloísio vou contar coisa alguma aqui. Desde 1997 praticamente imploro para que ele próprio escreva sua história de vida. Mas este filho de Messejana, no interior do Ceará, refuga grudar no teclado, e dar de si para nosotros lermos. Já escrevi em incerta feita que Aloísio é um açude de informações e de inspirações. Injusto nos deixar assim, a seco.

Sentar à mesa com Djalma Allegro é festa para os ouvidos. Já se disse por aí que ele deveria cobrar para conversar, tal o prazer de a gente beber de suas palavras. Seja numa casa de família, ou no tradicional restaurante O Gato Que Rí, ou no mais respeitável estabelecimento comercial da Rua Maceió (o bar das putas). 
Djalma Allegro
O malabarismo verbal começa ao falar onde nasceu: “Eu nasci, de fato, em Bebedouro; de direito, em Viradouro. Mas sou mesmo é de Terra Roxa, tudo no interior de São Paulo”. A biografia de Djalma faz sulcos no Direito e na literatura paulistana. Foi secretário-geral da Caixa de Assistência dos Advogados de São Paulo; Conselheiro da OAB e organizador de concursos literários naquele órgão. Por duas gestões diretor da União Brasileira de Escritores. No jornalismo trabalhou na Editora Abril e no lendário Jornal da Tarde.
Mas, sua profissão (de fé) é a Poesia. Integrou a Ala dos Treze na Faculdade de Jornalismo Cásper Líbero. Poeta ativo na década de 1960 na Catequese Poética ao lado de Roberto Piva, Lindolfo Bell, Carlos Felipe Moisés... “Nós não deixávamos os poemas nas gavetas. Declamávamos em pontes, praças, viadutos, boates, botecos, estádios de futebol”, relembra Djalma.
Tem apenas um livro publicado. E justifica esta aridez com um arrazoado sacana: “A advocacia é um hobby que me toma muito tempo”.
Não há encontro com Djalma em que ele não me presenteie com algo inédito. Ou que eu ainda não tenha ouvido da sua vasta produção. Desta vez foi este poema, entregue em 2007 ao ator Paulo Autran que o gravaria para o programa Quadrantes, da Radio Band News. Faleceu logo depois de recebê-lo de Djalma, antes de poder registrá-lo em áudio.
Acesse o Facebook e veja a declamação do próprio Djalma Allegro aqui
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A festa do Aloisio aniversariante rolava divertida. Mas na nossa mesa o compositor Silvio Modesto irrompeu num choro convulsivo. Não de tristeza. Por gratidão.
O sambista sempre me oferece nacos generosos da sua biografia quando nos vemos. Uma vida ainda não eternizada no papel. Mas digna de morar entre capa e contracapa de livro. Por mais  que já falei dele aqui no blog (veja os links no rodapé), sempre tem um detalhe que escapou do papo anterior.
Silvio Modesto. Foto: David da Silva
A comoção do Silvio no encontro com Aloísio, Djalma e eu, remete ao ano de 1982. “Eu andava numa dureza... Lá em casa, as panelas de boca para baixo, e do fogão não subia nenhuma fumaça”.  Vai daí que lhe procura o amigo Bicalho. “Era um policial amigo meu. Disse que ia me levar pro Rio de Janeiro naquela hora, no ato, pra gente negociar um samba meu no disco do Benito di Paula”. O disco estava quase completo com sete composições do próprio Benito, uma outra música de Roberto e Erasmo Carlos... mas Benito queria alguma coisa que falasse da Bahia. E Silvio Modesto tinha um samba na manga. “O Bicalho me levou pro aeroporto, me enfiou num avião da Pan-Air. A gente não podia perder tempo”, relata o sambista Modesto, nascido em Brás de Pina e criado no morro do Salgueiro. Mas morando em São Paulo desde o fim da décade de 1960.
Para agilizar os trâmites Bicalho sugeriu a Sílvio que lhe desse a parceria no samba Doce Bahia. “Lógico que eu autorizei ele entrar de parceiro. No sufoco que eu tava...”.
Chegados ao Rio, Benito aceitou a música. Modesto e Bicalho foram receber o adiantamento pelos direitos autorais. “Quando chegamos na minha casa com um pacote lotado de dinheiro, minha mulher deu um pulo. Disse que ia chamar a Polícia, porque não queria dinheiro roubado”, diz Sílvio, que respira fundo e prossegue: “O Bicalho mostrou a carteirinha pra ela, disse ‘eu sou policial e este dinheiro veio da gravadora do disco que Benito di Paula vai lançar’. A mulher sossegou. E na hora que falei pro Bicalho pegar a parte dele daquela grana, ele simplesmente me disse: ‘é tudo teu’, e não aceitou nenhum centavo”, conta Sílvio com a face banhada em pranto.
Aqueles 3 minutos e 24 segundos de duração do samba Doce Bahia deu uma virada na vida de Sílvio Modesto. Foi com aquele ganho que ele comprou a casa onde mora até hoje no Parque Esplanada, vizinho à região do Jd São Judas, de Taboão da Serra.

Há outro vínculo do nome de Sílvio Modesto com a minha cidade de Taboão da Serra. Ele interpretou o sambista Wilson Baptista no musical O Poeta da Vila e seus Amores, de Plínio Marcos. Estreada em 27 de maio de 1977 na inauguração do Teatro Popular do Sesi, na peça Sílvio compartilhou elenco com gigantes do palco como Ewerton de Castro e Elias Gleiser. No elenco feminino, interpretando a principal namorada de Noel Rosa, estava Analy Alvarez. Irmã de Amaury Alvarez, o homem que revolucionou o teatro de Taboão da Serra.

Dado às riquezas destes fiapos de fatos aqui relatados, eu já disse a você no início deste texto - eu tinha coisa nenhuma pra falar de interessante pro Sílvio Modesto e pro Djalma Allegro.
Daí é que, às vezes, uma foto inverte totalmente a ordem natural das coisas.

Referências anteriores a Djalma Allegro no blog aquiaquiaquiaquiaqui, e aqui
Coisas que já publiquei sobre o Silvio Modesto no nosso blog-boteco, quem inda não leu veja aquiaqui e aqui
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Foto: Tatiane Nogueira

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