quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A bica d’água que mora no coração do povo

Biquinha do Pq Pinheiros - Foto: David da Silva
“Se alguém subir no trator pra aterrar a biquinha, daqui mesmo aperto o gatilho. Mando bala. Sento o aço”. 
O homem (que vamos citar apenas pela inicial A.) estava de fato disposto a derramar sangue para que a mina de água continuasse a jorrar. 
Aquela era a segunda ameaça de extinção contra a nascente. A legendária Biquinha do Parque Pinheiros, em Taboão da Serra. Primeiro foi a Sabesp. Depois, a própria prefeitura. Ambas tentativas no decorrer da segunda metade da década de 1980. 
Mas a população se rebelou. Não permitiu a morte do olho d’água. 
Mais encantador é saber que a fonte brotou por entre os dedos de uma menininha em flor, no ano de 1967.

Situada no canteiro central da Avenida Laurita Ortega Mari, a biquinha do bairro Parque Pinheiros verte 900 litros de água por hora; 21.600 litros por dia; 648 mil litros por mês.
Nunca aconteceu de secar; nem jamais diminuiu sua vazão por um minuto de um dia sequer, nos seus quase 50 anos de descoberta.

Quem descobriu a nascente foi Ana Maria Ribeiro de Almeida, quando ainda criança. “Eu devia ter seis ou sete anos de idade, e brincava sempre por aqui com meus irmãos”, conta. 
Nascida em Itajubá (MG), Ana Maria veio para Taboão da Serra com apenas seis meses de vida. 
Por feliz coincidência, Ana fazia aniversário no dia em que
fui procurá-la para a entrevista. Foto: David da Silva
Morando de aluguel, sua família ficou por uns tempos na Vila Iasi, depois no Jd Irapuã, até o pai comprar o terreno na antiga Rua F-16, atual Rua Virgínia Placidina da Conceição, onde vive até hoje. “Meu pai e minha mãe trabalhavam, e eu tinha coisas da casa pra cuidar. Mas sempre sobrava tempo para brincar”, lembra Ana, que hoje é copeira do Hospital das Clínicas.

Os filhos do funcionário público Manoel Leite de Almeida se espalhavam pelos descampados dos arredores. Tudo era um imenso quintal. “Nossa casa foi a segunda a ser construída neste trecho. Só tinha o nosso vizinho Zé Queijeiro. Em volta era só mato. E o brejo”, relata Ana. 
Seus irmãos Benedito e João Batista pegavam argila do brejo para fazer bolinhas e atirá-las com estilingue. A menina sempre por perto. “De repente, do nada eu fui afastar uns raminhos de mato, e vi aquela água borbulhando na areia. Chamei meu irmão Benedito, e começamos cavar. Vinha água e mais água. Até ficar um buraco desse tamanho assim”, e Ana Maria envolve na largura de um abraço a descoberta que fez 47 anos atrás.
Manoel Almeida, pai de Ana Maria, foi da primeira leva de funcionários do cemitério municipal de Taboão da Serra. Daí ser conhecido nas redondezas por Mané Coveiro.  “Meu pai se juntou com os amigos Otávio e Joaquim para arrumar a biquinha. Até que outro morador antigo, o carpinteiro seo Rafael colocou o tubo que está lá até hoje”, conta João Batista, irmão de Ana Maria. 
"Este lugar aqui marcou minha infância e a juventude inteira", diz Ana com uma sombra de saudade no olhar.
O outro irmão, Benedito, parceiro de Ana na aventura do descobrimento da bica, faleceu em 2006.

Valentias na beira da bica
O motorista de caminhão Getúlio Miguel da Silva, 49 anos, é vizinho da biquinha há 40 anos. “Teve ocasião de vir uns cinco caras zoar aqui na bica. Tomar banho só de cuecas, e todo mundo vendo a bagunça. Daí o Celso [morador já falecido] pegou o revólver, foi pipoco pra todo lado, e botou os caras pra correr na base da bala”, lembra Getúlio. “Vez ou outra aparecia uns folgados pra urinar no buraco da bica. A gente não deixa, não”, diz. 
Os amigos Getúlio e Valtão relembram momentos de real bravura
dos que lutaram com ardor na defesa da biquinha. Foto: David da Silva
Junto com o ator teatral Valter Costa, o motorista resgata outros casos de valentia em defesa da bica. Feito o do morador que jurou matar o tratorista que se atrevesse jogar terra sobre a fonte.
“Por volta de 1985 a Sabesp colocou uma placa aqui, proibindo a gente de pegar água pra beber. Diziam que era contaminada. Mas o povo continuou. Ninguém nunca ficou doente por beber água da biquinha. E eu uso água dela até no meu aquário, peixinhos pequenos, sensíveis, e nada de mal acontece para eles”, garante Getúlio.
A biquinha do Parque Pinheiros é um santo auxílio quando há problemas no abastecimento da Sabesp. “Vem gente de bairros distantes encher vasilhas aqui”, conta Valter.
O eletricista Marcos Assunção, morador do Parque Marabá, é uma dessas pessoas. “Comecei a construir minha casa em 1979 misturando areia, pedra e cimento com água da biquinha. A casa ficou pronta em 1982, e vim pro Marabá. Ficamos quase três anos usando água da bica para fazer comida, pra beber, lavar louça e roupa. Na época não furamos poço porque já tinha o projeto da Sabesp instalar água encanada no bairro. E a biquinha sempre foi nosso grande quebra-galho”, diz Assunção.
"Bebo água da biquinha desde criança",
diz o comerciante João Batista.
Foto: David da Silva

Seis anos atrás, ao mudar-se para Parque Pinheiros, o morador Edivaldo desconfiou da segurança com que seus vizinhos bebiam da biquinha. Tomou a iniciativa de levar amostras da água para atestar sua potabilidade no Instituto Adolfo Lutz.

Contra as duas investidas do poder público sobre a biquinha décadas atrás, os vizinhos da nascente não mediram esforços. Fizeram abaixo-assinado, se articularam com vereadores, e ainda contaram com a solidariedade bélica dos valentões do pedaço.

Pela sua importância na vida das pessoas, e pelo lugar que ocupa no coração da comunidade, a Biquinha do Parque Pinheiros merece uma bela reforma.
Fotos: David da Silva - 25.out.2014

8 comentários:

Anônimo disse...

Afina a água da biquinha presta para beber? Qual foi o resultado do laudo?

Ariel Souza disse...

Desde a administração passada, tenho entrado em contato com as assessorias de alguns vereadores solicitando a reforma estrutural da Biquinha do Parque Pinheiros, bem integrante do patrimônio da região e uma das poucas que ainda existe em Taboão da Serra.
A bica em questão está degradada há tempos e só não está em pior estado por conta do esforço dos moradores do bairro, que tentam preservá-la da melhor forma possível. Entre as melhorias solicitadas estão a reestruturação dos muros, colocação de corrimão e um projeto paisagístico.
A obra atenderá reivindicação da população proporcionando maior segurança aos usuários, além de atender as necessidades de água potável da população num momento crítico.
Ficaria muito contente se nossos vereadores atentassem para isso e nos representassem junto à Prefeitura.
Aproveitando o assunto para quem quiser saber a verdade sobre a crise hídrica no Estado de São Paulo, recomendo veementemente o seguinte link:
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/10-mitos-sobre-a-crise-hidrica/4/32047

Anônimo disse...

Quantos baldes e baldes......o que matava era a caminhada em rua de terra batida até o Marabá.

A biquinha deveria ser proclamada Patrimônio histórico de Taboão!!!

M.A

Ana disse...

tambem gostaria de saber o resultado do laudo....

Jornalpraticidade disse...

Apoio solicitando a reforma estrutural da Biquinha do Parque Pinheiros, patrimônio da região e uma das poucas que ainda existe em Taboão da Serra.

Anônimo disse...

Você que gosta de falar do Taboão de antigamente.Se ainda não sabe fique sabendo: A água tratada veio em 1972, na administração Ary Dau. A água vinha da represa do Morro Grande ,que ficava em Cotia. Que fim levou a água da represa formidável? E falando da biquinha,porque as autoridades competentes,não tranformaram ainda, àquele lugar num recanto aprazível? Se até agora, segundo relatos, a água-da-bica, não causou males como a infestação parasitária,porque não remodelar o local? Deveriam cuidar melhor dessa nascente de água.Do jeito que está local,da para imaginar a imundicie que poderão deixar o lugar, se resolveram usá-lo para outros fins.Vamos pelo menos, tentar mudar um pouco a feiura e o aspecto que deixaram a querida biquinha

Arnaldo Léo disse...

Conheço Davi Silva desde quando sentávamos nas carteiras do Grupo escolar em auros tempos de Neide Gonçalves e Nivaldo Plachevisk.
Parabenizo-o pela publicação desta matéria pois, nossa cidade é provida de inúmeras nascentes e nunca houve uma politica de proteção voltada aos recursos naturais da cidade.

Anônimo disse...

Quantas e quantas vezes houve briga em épocas de crise na falta de água. Aqui já teve quase uma semana sem água! Então pensa no desespero de quem tinha velhos em casa pra saciar a sede apavoradora! A fila tomava toda a avenida dobrava e seguia sentido clementino pela Benedito sesario de Oliveira ou sentido semiterio da saudade... então pessoas entravam em desespero por falta de água queriam cortar fila e a briga era certa. Isso acontecia na época do saudoso Amaral q botava ontem na bica. Se entre o próprio povo havia briga! Imagine se alguém de fora tentar entulhar nossa fonte!!!! Kkk a guerra seria certa.E se alguém fechasse nois reabriria a fonte quebrando todos os lacres.