terça-feira, 17 de março de 2015

Elis Regina e a história da música “Fascinação”

Elis Regina faria 70 anos, hoje
Dois fatos me ligam à história de vida da Elis Regina e a uma canção que ela re-eternizou.
Elis faria 70 anos hoje, 17 de março, se não tivesse errado na dose.
Eu estava na Biblioteca Mário de Andrade, fazendo pesquisas naquela tarde de 19 de janeiro de 1982. Meu amigo (e hoje doutor em Antropologia) João Batista Félix foi o arauto da má notícia: “Acharam a Elis morta hoje de manhã”.
Me lembro ter saído zonzo de entre os livros, e subido a pé desconsolado a Rua da Consolação. No início da descida da Avenida Rebouças me dei conta que já havia uma legião de autômatos em direção à casa da Elis. A Rua Melo Alves começa na esquina da Alameda Franca e despenca em direção à Rua Estados Unidos. Chegamos ao Edifício Mello Alves, número 668 da rua com o mesmo nome. Olhos fitos e encharcados na direção do 5º andar, onde Elis Regina morreu por overdose no quarto do apartamento 52.
Estava com 36 anos de idade.
Era ali seu lar alugado – a casa oficial ficava na Serra da Cantareira. E em frente ao prédio onde a cantora emitiu seu último suspiro, há hoje uma placa, indicando o lugar onde fora plantada uma árvore em seu louvor.
Placa na calçada do prédio onde Elis Regina morava 
quando faleceu.  Foto: David da Silva

Em 1997, eu estava fazendo uma reportagem no Cemur (mix de salão de festas com teatro aqui em Taboão da Serra) quando um assessor do então secretário Antonio Carlos Fenólio (Educação e Cultura) me pediu um help: “O professor Fenólio quer saber o nome do compositor da valsa ‘Fascinação’, pois o coral da terceira idade vai cantar essa música agora”.
No final da apresentação o desditoso assessor voltou a mim meio tristonho: “O secretário me deu bronca, porque vim perguntar pra você o nome da música”. Na defesa do meu velho amigo, dei o troco: “O Fenólio bronqueou não porque você veio me pedir a informação. Foi por causa do teu descaso, desleixo em não incluir o nome do autor da música na ficha de apresentação”.

A melodia de “Fascinação” nasceu em 1904. Sua autoria é atribuída ao violinista italiano Dante Marchetti. O músico trabalhava em cabarés de Paris. Em 1905 o ator Maurice de Féraudy colocou letra na música que até então era apenas instrumental. A primeira gravação cantada foi feita por Paulette Darty: Je t'ai rencontré simplement / Et tu n'as rien fait pour chercher à me plaire / Je t'aime pourtant / D'un amour ardent / Dont rien, je le sens, ne pourra me défaire. / Tu seras toujours mon amant...”
No meio artístico francês corre uma lenda que Dante Marchetti não é o verdadeiro compositor de “Fascinação”. Ele teria feito uma encomenda a um jovem compositor em início de carreira. Era o colossal Maurice Ravel, que para não prejudicar sua ascensão como compositor de música clássica, aceitou o dinheiro, mas não quis seu nome como autor de uma valsa cigana.
De fato, Dante Marchetti foi um compositor inexpressivo. Quando se ouve com atenção a melodia de “Fascinação”, chegamos a crer ter sido mesmo obra de um músico superior. Nos volteios da melodia maravilhosa, parece que as cordas dos violinos laçam a pessoa, puxando-a para dançar a valsa irresistível.
Nunca ninguém poderá saber se “Fascinação” saiu ou não da partitura de Ravel.

Em 1943 o radialista brasileiro Armando Louzada fez uma versão em português gravada por Carlos Galhardo no dia 4 de fevereiro daquele ano. “Os sonhos mais lindos sonhei / De quimeras mil um castelo ergui / E no teu olhar tonto de emoção / Com sofreguidão, mil venturas previ. / O teu corpo é luz, sedução...”.
A valsa virou tema de novela na Rádio Nacional. Sucesso estrondoso.
Em 24 de outubro de 1957, Galhardo voltou a gravá-la na nova tecnologia dos discos de vinil. A música, que tinha duas partes no original em francês, desta feita foi gravada só em sua primeira parte.
Ocorre que, três anos antes, em 1954 a valsa havia sido gravada pelo fantástico cantor norte-americano Nat King Cole, na versão inglesa de Dick Manning. Foi uma covardia. A interpretação aveludada de Nat virou mania mundial: “It was fascination I know / And it might have ended / Right then, at the start / Just a passing glance / Just a brief romance / And I might have gone / On my way empty hearted…”
Quase ninguém mais falou na interpretação do brasileiro Carlos Galhardo...

Em 1976, Elis Regina incluiu “Fascinação” no repertório do seu show “Falso Brilhante”. Com uma forte crítica à ditadura militar, o espetáculo é ainda hoje o maior e melhor show da história da MPB. Ficou em cartaz sempre com o Teatro Bandeirantes lotado no período de 17 de dezembro de 1975 até 18 de fevereiro de 1977. Me lembro de ter ido assisti-lo por duas ou três vezes.
Um ano mais tarde, Elis voltaria a gravar esta valsa ao vivo no seu show “Transversal do Tempo”.

Quando Elis Regina morreu em janeiro de 1982, ela estava contratada para o show de encerramento do Festival de Verão em fevereiro daquele mesmo ano, na praia do Gonzaga, em Santos.
Os produtores do espetáculo nem cogitaram chamar uma substituta. No palco totalmente vazio, enquanto a voz gravada de Elis cantava a eterna valsa, colocaram apenas um pedestal com microfone debaixo de um foco de luz.
De arrepiar.

2 comentários:

Antonio Carlos Fenólio disse...

Perfeito, caro David! Pesquisador e conhecedor profundo de nosso acervo músico-cultural, vc está sempre nos brindando com todas essas suas galhardias, repartindo as mais belas histórias e estórias, socializando com milhares o sabor mais encantador dos gênios de nosso País. É real, atual e verdadeiro o descrito sobre o ocorrido no Cemur "Carlos Drumond de Andrade". Crédito a quem tem crédito... Sempre.

David da Silva disse...

Este meu amigo Fenólio é profissão professor nesta encarnação. Tenho dúvida alguma que, na anterior, ele era colega do temível Queequeg, de assombrosa pontaria no romance "Moby Dick", do Hermann Melville. Cada sílaba sua é um arpão.