sexta-feira, 27 de março de 2015

No palco, na tela e na cruz – Clayton Novais

Na profissão do pai, o ator Clayton Novais tem uma forte identificação com o personagem principal que vai interpretar pela quinta vez na Encenação da Paixão de Cristo em Taboão da Serra. “Meu pai também é carpinteiro”. Mas as semelhanças param por aí. “Quando eu tinha 14 anos, no segundo espetáculo da minha carreira meu pai foi assistir a uma peça onde eu interpretava um travesti. Nunca mais voltou pra me ver em nenhuma outra apresentação. Nem depois que passei a fazer o papel de Jesus”. Começa assim em meio a gargalhadas a entrevista com um dos atores mais completos do meio teatral - e do cinema - taboanense.
Clayton Novais - Foto: Divulgação
Dos 38 anos de idade que Clayton completou na última 2ª-feira, 37 deles são vividos em nosso município. “Eu nasci na Vila Prudente, zona leste da capital São Paulo. Quando fiz um ano de vida, minha família morou por um breve período no bairro da Moóca. Nessa época meu pai já estava construindo nossa casa no Parque São Joaquim, e desde então eu sempre morei aqui em Taboão da Serra”, relata o artista.
Se o travesti Trinity vivido por Clayton Novais na comédia A Farsa da Madame Custódia em 1994 espantou da plateia o seu pai [Egberto de Novais, 66 anos, baiano de Tremedal, carpinteiro aposentado, mas que continuou na ativa mesmo depois de um infarto e duas angioplastias realizadas em 2013], o público sempre maior a cada ano nunca lhe faltou com aplausos seja nos palcos, nas apresentações de teatro de rua, ou diante das câmeras cinematográficas.
No currículo teatral que abriu suas cortinas em 1992, Clayton Novais já encarnou nos palcos e nas ruas um manda-chuva de vilarejo nordestino, um engenheiro, uma parteira mãe-de-santo, o sacerdote judeu Caifás, um índio, e outros personagens. No cinema, fez o Rony, um habitante da noite que não tem escrúpulo algum em explorar seus dessemelhantes.
Cena do filme A Sombra do Fogo - Divulgação
Nada mal para um garoto que, se não teve maiores problemas com a família ao abraçar o ofício de ator, nem por isto deixou de ter problema com o zelo materno. “É uma coisa absurda, mas meu diálogo com minha mãe [Efigênia Almeida de Novais, 62 anos] ficou estremecido por uns tempos quando iniciei no teatro”, relembra.
Marido da Edna, pai da Carolina, 16 anos, e do futuro biólogo marinho Caíque, 20 anos, Clayton Novais vai fazer o papel de Jesus Cristo no próximo dia 3 de abril, como já fez nos anos 2007, 2008, 2013 e 2014. “Eu também faria o Cristo em 2009 não fosse a grande dissidência que houve naquele ano”, conta.
Na época, Clayton escreveu uma crônica para o blog bar & lanches taboão com sua análise sobre o episódio – aqui.

A sua ligação com a Paixão de Cristo tem um precedente importante lá atrás, na sua adolescência. Ali, sem se dar conta do que viria na sua vida depois, você teve contato com as vestimentas que se usavam nas encenações da Sexta-Feira Santa aqui na nossa cidade.

Em 1990, com 13 anos, eu tinha participado pela primeira vez de uma peça de teatro onde estudei o primeiro grau, na Escola Estadual Reynaldo Falleiros. E tinha gostado pra caramba. Olha que engraçado. Eu estava na sexta série. Era pra gente fazer um trabalho para a aula de História. Uma maquete sobre o Egito. A professora deu prazo de um mês para entregar. A gente reunia o grupo de alunos, ia pra casa dos amigos. Naquela época rolava muita música do Legião Urbana; ficava ouvindo música, cantando, brincando. E nada de sair a maquete. No dia da entrega...: “A gente não fez nada!!! E agora?”. Cortamos três triângulos, pegamos uns palitinhos de dente, colamos tudo e falamos: “As pirâmides do Egito”. Entregamos pra professora. A reação dela: “Isto aqui não dá nem pra dar nota. Vou jogar no lixo”. Era mesmo uma merda. Mas ela quebrou o galho: “Pra vocês não ficarem sem nota, vão ter de montar uma peça de teatro para a Semana Cultural”.  Eu era o mais revoltadinho da turma, e falei: “Não vou fazer essa pôrra, não! Teatro é coisa de boiola. Vou fazer esse negócio, nada”. Mas o grupo topou: “Vâmo fazer. Vâmo fazer”. Resolvi encarar. Como eu sempre gostei de escrever, e lia muito, acabei fazendo um roteirinho pro pessoal. Montamos os personagens, Cleópatra, Marco Antonio, Brutus, fizemos uma salada mista (risos). Uma pesquisa meio na loucura.  Mas montamos a peça, o pessoal da escola gostou. Tudo bem feitinho, figurinos na base do papel crepom... Mas, no estilo. Aí a professora falou que ficou bacana a nossa montagem. E que haveria uma Mostra Cultural na Escola Estadual Edgar Francisco. Era uma mostra de teatro das escolas da região. A professora providenciou um figurino mais adequado, com vestimentas de tecidos, espadas, lanças. Por coincidência, aquela professora era da Comunidade São Pedro, que fazia a Paixão de Cristo aqui em Taboão. Então ela levou figurinos da Paixão pra gente utilizar lá na nossa peça juvenil sobre o Egito. Tinha até uma premiação, ficamos em terceiro lugar.
Aquilo ficou marcante para mim. Na época, a gente com os hormônios à flor da pele, um monte de menininhas todas em cima... Eu curti aquela ideia.

Esta professora foi, na verdade, a responsável por abrir as portas para você ser o ator que é hoje. Qual o nome dela?

Professora Vilma. Dava aulas de História na Escola Estadual Reynaldo Falleiros.

A experiência no teatrinho da escola te deixou animado pra virar artista...

No bairro onde eu morava tinha um amigo, o Pedro, que a gente chamava de “Pizza”. Era colega de rua. Encontrei com ele, e ele disse que estava indo para o ensaio com um pessoal de teatro. Falei da minha experiência com a peça lá na escola; pedi pra me dar um toque quando tivesse uma vaga no grupo.
Passou aquele final de 1990 sem novidade. Eu até já tinha esquecido o assunto. Em junho de 1991, num sábado com muita chuva, o Pedro bateu em casa. “A gente vai montar uma peça, e tem uma vaga lá”. Era o Grupo Arte Urbana, criado pelo Noel Magalhães depois de uma briga que ele teve com o grupo “Só de Raiva” [do ator, diretor e autor teatral Reginaldo Nascimento da Silva, falecido em 1999, e hoje nome de uma rua no Jardim Três Marias, em Taboão da Serra].
Fomos para a casa do Noel. Estavam ensaiando O Planeta dos Palhaços. Me apresentei pro pessoal. Hiper acanhado. Aqueles exercícios de soltar a timidez. Trabalho de teatralização junto com danças folclóricas. Pensei: “Isso não vai dar certo...”.  Na noite desse mesmo sábado do meu primeiro ensaio, tinha uma festa no Embu, com o pessoal do Solano Trindade. A dona Raquel Trindade organizou a festa, acho que era aniversário do teatro deles.
Eu nunca tinha dormido fora de casa. Meus pais muito rígidos, e tal. Passei a noite vendo congadas, maracatu, os poetas amigos do Solano, aquele mundo cultural todo... E teve uma apresentação do “Só de Raiva”. Foi quando eu conheci o Reginaldo, o Eduardo, o pessoal de quem o Noel tinha se separado.
Como havia muitos homossexuais no Grupo Só de Raiva (tanto que alguns chamavam de grupo “Só de Bicha”), eu pensei: “Onde é que eu tô me metendo?”. Mas, beleza. Fiquei assistindo e conversando com todos. Quando olhei no relógio, já havia passado da meia-noite. Não tinha mais ônibus pra voltar para casa. A dona Raquel jogou uns panos no chão, a gente dormiu por lá mesmo. No outro dia tomei comida de rabo em casa, mas foi uma experiência bacana.

Clayton Novais na Paixão de Cristo (2014)
Foto: Cláudio Cruvinel
Tem parentes artistas na sua família?

Só um tio, irmão do meu pai. A minha irmã é empresária. Meus filhos também não se interessaram em serem artistas. Meu filho Caíque já participou da Paixão de Cristo, fez o Menino Jesus quando tinha uns 10 anos, e o Cristo era o Mário Pazzini. Depois fez papel de soldado comigo no papel de Cristo, mas vai seguir carreira acadêmica. O meu tio Jairo Novais, caçula dos meus tios paternos fez curso de ator, trabalhou no filme A Vingança do Chico Mineiro. Recebeu proposta da TV Globo, mas não pôde aceitar porque a mulher dele é ciumenta. Daí ele investiu em uma fábrica de blocos em Lavras (MG). Faz aniversário no mesmo dia que eu. Vou quase sempre lá pra comemorarmos juntos.

Você cogitou em ser ator profissional?

Não. Eu fui pai muito cedo. Meu filho nasceu um mês antes de eu completar 18 anos. Então meu foco sempre foi cuidar da família. Quando casei, morava numa casinha no quintal do meu pai. Minha meta era comprar minha casa própria. Morei por uns tempos no Jardim Helena, perto do Ginásio de Esportes. Hoje moro no Jardim Silvio Sampaio. Vendi o apartamento e comprei uma casa térrea.
O teatro para mim era apenas uma ocupação de final de semana. Gosto muito do palco. Mas eu via os perrengues que os colegas guerreiros do teatro passavam. E eu não podia me arriscar naquilo. Nunca fiz curso de interpretação nem mandei currículos para agências de atores. Faço teatro por paixão. Logo quando conheci minha mulher, avisei: “Eu não jogo bola, mas meus sábados e domingos são para o teatro”. O palco é o meu futebol de final de semana.

Fora dos palcos, você foi trabalhar no que?

Minha atividade principal sempre foi a informática. Fiz colegial técnico de contabilidade na Escola Municipal Machado de Assis, mas nunca trabalhei nesta área.
Meu primeiro registro na carteira profissional foi de Office-boy num escritório da Avenida Faria Lima. Eu estava com 15 anos, a mesma idade com que subi no palco pela primeira vez. Depois fui trabalhar no Embu, em uma empresa terceirizada da Rede Card Visa. Ali me interessei pela computação. Entrei como auxiliar administrativo, mas comecei a “fuçar” nos computadores - tira uma peça aqui, coloca outra ali. Montei um computadorzinho em casa, fui aprendendo na curiosidade. Passei a fazer cursos internos sobre computação nesta empresa. Daí passei para a equipe de técnicos. Fiquei com chave de fenda na mão consertando e instalando computadores de 1999 até 2001. Trabalhando na rua direto. Mochilona com 15 quilos de peças e ferramentas nas costas. Subindo e descendo Avenida Paulista, ruas do centro de São Paulo, por ali tudo. Como eu já tinha uma experiência de escritório, o pessoal me colocou para digitar as ordens de serviços. Passei a coordenador de cursos para o pessoal que estava entrando na empresa. Depois fui promovido a supervisor. Quando decidi sair de lá, já estava como sub-gerente.
De lá fui trabalhar na empresa Ativity, prestadora de serviços para a Caixa Econômica Federal. Nesta firma fiquei desde 2001 até 2013, na manutenção de computadores e instalação de softwares. Hoje faço faculdade de História.

Clayton na Mostra de Cinema da Leroy Merlin / Raposo
E o seu batismo de fogo como ator?

Aquele primeiro texto que ensaiei no Grupo Arte Urbana, o Planeta dos Palhaços, não chegamos a levar para o palco. Na época estava até o Salvador Ribeiro com a gente, mas o espetáculo não aconteceu. O que fizemos foram apresentações de esquetes do espetáculo, que a gente vendia para escolas particulares de Embu.
Minha primeira vez como ator no palco foi na peça Dama de Brinquedo, no dia 6 de maio de 1992, no Cemur. Era uma Mostra Teatral. Fiz o personagem Teodoro, com um figurino estiloso típico da década de 1920, terno, chapelão e bengala. Era o cara mais importante da cidade, apaixonado por uma mulher que morava no prostíbulo. Ele arranca ela de lá pra morar com ele. Só que tem outra mulher que gostava muito dele. E tinha o cafetão da prostituta...
Peguei o papel principal porque o Noel confiou no trampo que a gente vinha fazendo nos ensaios nos dois anos anteriores. Olhei pela cortina, casa cheia. O coração acelerou.
Minha primeira fala era “Onde está Lili?”. Me enrolei logo de cara. Misturei tudo com outras falas do texto. O público riu. Mas a coisa foi fluindo, e findou um bom espetáculo.

O que o Cemur representava para a sua geração de artistas de teatro em Taboão da Serra?

Era como ganhar um Oscar no início das nossas carreiras. Aquele orgulho de dizer: “Eu subi no palco do Cemur!”. Hoje ainda tem uma galerinha que sonha com isto. Mas boa parte já valoriza mais os espaços alternativos. Eu mesmo prefiro muito mais me apresentar no Teatro Clariô, no Teatro Encena, no CITA. O problema do Cemur sempre foi falta de espaço para temporadas. As pessoas levam seis meses, sete meses, até um ano ensaiando, produzindo o espetáculo. E tem só uma noite de apresentação no Cemur, e a peça morre.

Novais em Vi Makunaima na Rua - Foto: Rogério Gonzaga
Quando foi que o Grupo Arte Urbana voltou a se fundir com o Grupo Só de Raiva?

Foi naquele mesmo mês de maio de 1992. Logo depois da Dama de Brinquedo. Eles se reagruparam na realização do “Folk da Feira”. Voltou tudo a ser apenas Grupo Só de Raiva. Tinha as atividades com danças, eu participava. Mas cobrava muito o teatro. Eu gosto é de palco.

E quando rolou o seu segundo espetáculo? Aquele famoso episódio da travesti... (risos)

Demorou mais dois anos pra gente montar outra peça. Em 1994 estreamos A Farsa da Madame Custódia. Tinha uma treta entre o Davi, autor da peça, e o Reginaldo, porque ele havia registrado no nome dele algumas peças do Davi. Quase a mesma temática envolvendo prostituição. “Madame Custódia”, personagem vivido pelo Noel, era um travesti dono do bordel. Eu interpretava a Trinity, braço direito da dona do puteiro. Trinity era uma bichinha bem espalhafatosa. Meu pai estava na plateia, e depois disto, nunca mais foi me ver no teatro... (risos). Aliás, foi só na vez, ali por volta de 2005, quando meu filho fez o papel de Jesus Menino, na Paixão de Cristo. E nunca mais (risos). Nesta época eu fazia o personagem Caifás.

Antes de a gente enveredar pela Paixão de Cristo, conta um pouco da sua experiência com o Grupo Só de Raiva.

Depois que o Reginaldo morreu, a gente ainda tentou levar o Só de Raiva. Tinha todo aquele trabalho de pesquisas, tinha o maracatu... Eu guardo uma mágoa muito grande a respeito disto. Quando o Reginaldo estava internado, em 1999, estávamos montando a peça Infinito Delírio, dele mesmo, texto e direção do próprio Reginaldo. Quando ele piorou o estado de saúde, fizemos direção coletiva da peça. Mas, como eu era o mais velho da turma, acabei tomando as rédeas. Disputamos um Festival de Teatro, e vencemos o prêmio de melhor texto. Fui levar a medalha pro Reginaldo no hospital. Ele estava já bem debilitado. Não se lembrava mais direito das coisas. O Reginaldo me chamava de Tanaka. No leito do hospital, ele pegou na minha mão e disse: “Tanaka, eu não vou viver muito tempo. Já estou indo. Não deixe o Só de Raiva morrer. Se o grupo for morrer, pega todo o figurino, tudo o que está lá no apartamento, joga tudo no terreno baldio e toca fogo. E dança o Boi-Bumbá em volta enquanto queima”. Eu era muito novo, e não tinha a força e o carisma pra levar o grupo em frente. A morte do Reginaldo deixou todo mundo sem um norte. O Noel é meu amigo, meu brother, meu compadre, padrinho do meu filho. Mas nessa questão do Só de Raiva o Reginaldo era o coração. Um mês depois da morte dele, marcamos um ensaio. Mas quando olhamos uns para as caras dos outros, tudo o que fizemos foi nos abraçar e chorar, tamanho o peso da perda.

Depois deste calvário da perda do Reginaldo, que rumo você deu pra sua vida de ator?

Fiquei uns tempos procurando um grupo para me integrar. Eu ia a dois ou três ensaios, mas não me sentia em casa. Meses de buscas sem encontrar, quase dois anos se passaram. Pensei em desistir de tudo. Mesmo assim, no final de 1999 participei de um evento teatral onde os jurados eram Manoel da Nova [criador da Paixão de Cristo em Taboão da Serra], a Luci Balotin, e o Zé Maria de Lucena [que havia assumido a coordenação-geral da Encenação após a aposentadoria de Manoel da Nova]. O Zé Maria me chamou para participar da Paixão de Cristo do ano 2000. Recusei, porque continuava sem estímulo nenhum para atuar. No ano 2001 o Zé Maria telefonou na minha casa: “Vamos fazer a Paixão, Claytão!”.
Daí a minha mulher falou: “Pelo amor de Deus, Clayton. Arruma alguma coisa pra fazer” (risos). Eu não saia mais nos fins de semana. Ficava só em casa, enchendo o saco. A Edna, minha esposa, reforçou: “Sai de casa e vai fazer teatro!” (gargalhadas).
Acho que eu já estava num processo de depressão. Do trabalho para casa, de casa pro trabalho, e nada mais. O teatro era a minha válvula de escape. E sem isto eu já não engrenava mais nada. Ficava em casa estressado.
Na Paixão de Cristo revi alguns amigos de longa data, o Valter Costa, a Thânia Rocha. Fiz novas amizades maravilhosas tipo Joselito Gazza, Mario Pazzini, Naruna Costa, Naloana Lima...
Naquele 2001 comecei a fazer o papel de Caifás, e fiz até 2006. O papel de Cristo era do Mário Pazzini.  Antes de aceitar o papel, eu nunca tinha assistido a Paixão. Nem sabia como era o espetáculo. Quando vi a multidão espalhada pela praça [na época o espetáculo tinha início nas escadarias do Cemur com a cena do batismo na fonte da Praça Nicola Vivilechio], gente até em cima da fonte luminosa, fiquei maravilhado. “Me encontrei”, disse pra mim mesmo.

Clayton Novais (de amarelo) na comédia
Como Nasce um Cabra da Peste
Quando te reacendeu o amor pelo teatro, surgiram outros trabalhos?

Em 2004 recebi um convite do Luiz Domingues. Mas ainda estava reticente. Não conseguia me identificar com nenhum grupo. O Luiz estava com a comédia Como Nasce um Cabra da Peste. Três atores e um músico. A peça tem cinco personagens - a mãe grávida, o marido, a vizinha, o filho do casal, menino de seus 12 anos, e a mãe-de-santo parteira. Daí me colocaram para interpretar a vizinha, o menino e a parteira. Pensei: “Pô, de cinco personagens eu fazer três... Não vou dar conta!”. Mas encarei. Estreamos no bairro Barra Funda, em São Paulo.
Me identifiquei tanto com o espetáculo, que quando propuseram aliviar minha carga de trabalho, perguntaram: “Qual personagem você quer deixar de fazer?”. E eu: “Nenhum”. (risos). É um texto excelente do Altimar Pimentel, baseado na obra do folclorista Mário Souto Maior. Faz um apanhado das crendices populares do interior do Brasil rural quando uma mulher está para ganhar neném. Isto recuperou um pouco daquilo que eu tinha vivido nos tempos do Grupo Só de Raiva.
Foi uma coisa muito bacana. Chegamos até a participar em janeiro de 2008 do V Festival de Teatro lá no Acre. Lugar que eu nunca imaginava conhecer algum dia. Entre pausas e remontagens, ficamos cerca de seis anos em temporada com o Cabra da Peste.
Acabou o Cabra da Peste, fui trabalhar com o grupo ArteManha, no bairro Campo Limpo. Fiquei com eles de 2010 a 2012.

E a tua ‘promoção’ para Cristo em Taboão da Serra?

Em 2007 teve uma renovação na Paixão de Cristo. A encenação era dirigida pela Thania Rocha, o Marinho e a Naruna, com o Zé Maria na coordenação-geral. O Marinho já não queria mais fazer o Cristo, queria abrir espaço a novos atores. Daí chegaram a um consenso que eu assumiria o papel.

Você estava pronto para isto?

A primeira sensação que vem pra você quando é escolhido pro papel principal, é aquela euforia. Mas por incrível que pareça... Nos setes anos em que eu fiz o papel de Caifás, nunca me passou pela cabeça ser o Cristo. Cheguei a pensar em fazer o papel do centurião Flávio Lúcio. É um papel pequeno, mas importante, pois é o centurião que está ali com Pilatos, num momento em que ele meio que defende o Cristo. Outras vezes pensei em ser um dos apóstolos. Mas nunca me imaginei no papel do Cristo.

Mas você não tem a fisionomia à qual as pessoas estavam acostumadas a ver o Cristo...

Pois então. Primeira coisa que me falaram: “Como é que vai ser? Você nem tem cabelo comprido!”. As pessoas têm aquela visão Renascentista do Cristo, olhos claros, barba e cabelos longos. Eu não correspondo a esta caracterização que as pessoas idealizam. E tinha só 90 dias para compor meu personagem. Chegaram a sugerir me colocar cabelos. Num bate papo decidi não colocar aplique de cabelo comprido. Também resolvi fazer uma diminuição no gestual, e movimentação de palco mais contida.

Como você passou a lidar com a notoriedade que te deu o papel de Cristo na cidade?

Acontecem algumas coisas curiosas. Certa vez eu estava no Pronto Socorro Municipal [da Antena] esperando minha vez de passar com o médico. Por coincidência na sala de espera estavam passando o vídeo da Paixão de Cristo. As pessoas ficavam se cutucando e falando em voz baixa: “É ele!” (risos).

Paixão de Cristo no ano 2013 - Foto: Eduardo Toledo
Tirando a parte folclórica da fama, que emoções te tocaram nos primeiros anos como personagem central?

O que mais me tocou, foi no meu primeiro ano como Cristo. Na cena da ressurreição, quando saio na parte de cima do Morro, o pessoal da produção pronto para me levar embora, veio uma senhora por volta dos seus 60 a 70 anos, senhorinha de cabelinhos brancos. Ela ajoelhou no chão e beijou minha mão. Com aquilo ali, eu fiquei uma semana em casa, vendo as matérias publicadas sobre a encenação. Mas eu estava numa outra sintonia. Me senti um cara mais leve depois daquela experiência com a idosa que me tocou.
É uma coisa muito forte. A gente ouve a plateia interagindo com o espetáculo... vozes ao longe de pessoas do povo pedindo para não açoitarem o Cristo, crianças gritando...

As emoções das tuas primeiras apresentações em 2007 e 2008, também voltaram quando você retomou o papel em 2013?

Quando voltei a interpretar Jesus em 2013, sofri alguns ataques de certa pessoa pelas redes sociais. Por causa do cisma que rolou em 2009. Foi um ano muito difícil. Mas segui em frente. Convidei algumas pessoas da, digamos assim, ‘velha guarda’, para fazerem a Paixão comigo novamente, tipo o Renato, o Edemi e o Diego. Nos ensaios, o Judas que o Diego interpretava, já nos ensaios me fazia chorar tamanha a carga de emoção que ele depositava no personagem.
Na cena em que a Thaís interpretava o demônio na tentação de Cristo, na parte da fala “Eu te dou todo este mundo”, ela vinha se levantando do chão, babando, no vídeo gravado da encenação a gente vê a perfeição e fúria com que ela vinha babando pra cima do Cristo, eu chorava nos ensaios, de emoção.
Naquele meu retorno ao papel em 2013, eu saí daqui do Cemur chorando, antes de descer para o palco em frente ao Parque das Hortênsias. Chorava e dizia a mim mesmo: “Estou de volta. Estou de volta à Paixão!”. Antes de entrar no ônibus que leva a gente para o cenário, pedi para a Natasha Marques [atriz e maquiadora do espetáculo] um pedacinho de algodão. Ela quis saber para quê. Eu disse que era para arrumar a maquiagem no meu olho. Mas ela viu que eu estava chorando, e chorou comigo também.

Durante gravação do curta-metragem
O Cão que Morde Dentro
E o cinema, como entrou na sua trajetória?

Eu já tinha alguma intimidade com a câmera. Tinha participado de dois curtas-metragens que acabaram não editados. Também tinha feito figuração em um episódio do quadro Retrato Falado, da Denise Fraga, no programa Fantástico, da TV Globo.
Fiquei sabendo que o diretor Jean Grimard estava buscando pelo Facebook pessoas para participar de um vídeo curta-metragem. Não rolava grana, nem nada. Eu topei. Única coisa que me pediram foi para ir com uma camiseta azul. O personagem não tinha fala. Tudo o que eu tinha a fazer era ficar deitado, enquanto vinha uma coisa meio sombria, tipo urubu, puxar meu pé. A gente foi gravar no Parque Laguna. Mas a coisa lá tava meio esquisita. Uns mal encarados passando pra lá e pra cá de motos. E o Jean com aqueles equipamentos caros de filmagem. “Vamos dar o fora daqui”. Terminamos filmando na rua do IML, ao lado do Cemitério da Saudade.
Com Márcia Nunes em A Sombra do Fogo
O projeto não foi pra frente. Mas o Jean voltou a me procurar: “Estou com uma ideia”, ele disse. “Fazer o filme de um cara que anda pela noite. Você topa fazer?”. Eu: “Firmeza. A gente faz este curta-metragem”. Ele: “Não! Estou querendo fazer um longa”. Eu: “E quem tá envolvido neste negócio?”. “Só eu e você”, ele disse (risos). Daí ele propôs que fôssemos gravando aqui e ali, e durante o processo ir convidando as pessoas pra entrar no filme. “E o roteiro?”, perguntei. “Não tem roteiro” (mais risos).


A Sombra do Fogo estreou pelo Canal Brasil no último dia 21 de janeiro - leia aqui

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