quarta-feira, 8 de julho de 2015

O cachorro que falava grego

Para Natália Romeiro

Boa parte do atual respeito mundial ao povo grego, por sua altivez perante os interesses dos banqueiros internacionais, se deve a dois cachorros sem raça definida. Há quem diga que são um só, reencarnado.
Kanellos em um motim de 2008
O primeiro cão vadio da capital da Grécia a ganhar as manchetes dos jornais foi o vira lata Kanellos – em grego se escreve Κανέλλος. O cachorro chamou a atenção dos fotógrafos e cinegrafistas no ano de 2008, pois aparecia em todas as manifestações de rua contra as propostas do FMI (Fundo Monetário Internacional) e do Banco Central Europeu. O que mais encantou os jornalistas é que Kanellos sempre estava ao lado do povo, e atacava todo policial que se aproximava dos manifestantes.

Na chatice das reuniões... Kanellos tirava um cochilo
Quando não estava vadiando pelas ruas, Kanellos se abrigava no campus da Universidade Técnica Nacional de Atenas. Perambulava livremente pelos corredores e salas de aula.
O vira lata também era presença constante nas assembleias dos estudantes. Mas sempre acabava tirando um cochilo durante os debates. Talvez o palavrório enchesse o saco do animal.
Se pegava no sono durante as reuniões, Kanellos ficava muito aceso nas ações de rua.
Kanellos no fim da vida em cadeira-de-rodas
Foto: Marko Djurica | Reuters - 23fev2008
Sua valentia criou fama, e ocupou páginas e mais páginas de jornais e revistas. Logo virou personagem de telejornais do mundo inteiro. Ganhou até um blog onde se registravam suas peripécias.
Com o avançar da idade, depois de tantos combates nas ruas contra a polícia, Kanellos passou a sofrer de artrite. Os universitários fizeram uma coleta de dinheiro, e mandaram fabricar uma cadeira-de-rodas para o cão-herói. Neste mês de julho, faz exatamente sete anos que Kanellos morreu, e seu túmulo é reverenciado até hoje.

Cão reencarnado?

Dois anos depois da morte de Kanellos, o povo da Grécia continuava indo às ruas protestar contra o arrocho econômico. E novamente surgiu entre a multidão um cão muito parecido com ele. As opiniões se dividiam sobre se era um filhote de Kanellos, ou o próprio reencarnado. Na dúvida batizaram o bicho de Loukanikos.
Nada detinha o valente Loukanikos
Este segundo vira latas participou ativamente dos protestos durante os anos de 2010 até 2012.
Sua saúde foi severamente castigada pela grande quantidade de gás lacrimogêneo que inalava nos ataques da polícia contra a população. 
Também não foram poucas as vezes que Loukanikos recebia pontapés dos milicianos.
Em setembro de 2011, Loukanikos protagonizou um episódio impressionante. Mesmo maltratado pelos carrascos do povo, se posicionou a favor de um grupo de policiais em greve.
Policial chuta Loukanikos 
Quando a tropa de choque foi reprimir os colegas de farda, Loukanikos passou a morder as botas dos repressores – mas não avançou em nenhum dos homens fardados que protestavam contra o governo.

Com o estado físico comprometido, o valoroso vira lata se aposentou dos motins. Viveu até perto dos 10 anos de idade. Faleceu na tarde de 9 de outubro de 2014, deitado no sofá da pessoa que cuidou dele em seus últimos dias.

Gás lacrimogêneo afetou a saúde do cão
No último domingo, os 9,8 milhões de eleitores gregos foram ao plebiscito sobre a exigência dos bancos mundiais para que seu país pague sua imensa dívida. Venceu o “não”, com 61% dos votos.
Loukanikos e seu ancestral Kanellos devem ter latido felizes lá onde estão agora. Persiste a dúvida das pessoas se foram dois cães ou um só. Tanto faz. Como nos ensinou o escritor argentino Jorge Luis Borges, não interessa se uma história é verdadeira ou não. Importante é que alguém tenha acreditado nela.
Acima e abaixo, Loukanikos em ação no dia 17 de junho de 2011.

Um comentário:

Lidia disse...

impossível não acreditar na história!!!