sábado, 14 de novembro de 2015

Matança em Mariana – os alertas do poeta Drummond

Não foi apenas o laudo técnico emitido em outubro de 2013, exatos dois anos antes da catástrofe.
Carlos Drummond de Andrade (31.out.1902 - 17.ago.1987)
Também foram ignorados os sucessivos alertas do poeta Carlos Drummond de Andrade sobre a prática predatória das companhias exploradoras de minérios nas entranhas do Estado de Minas Gerais.
Dois dias antes de falecer, o poeta disse ao repórter Luiz Fernando Emediato: “Minas foi um lugar especial. Hoje não é” (entrevista publicada em 15 de agosto de 1987 no jornal O Estado de São Paulo).
Em 1939, quatro anos depois de se mudar de Minas para o Rio de Janeiro, Drummond escrevia em uma de suas mais importantes obras: 
“De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço: 
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil”
Pelotas de ferro extraídas do lugar da catástrofe
e expunha a simbiose entre as pessoas e o ferro arrancado do subsolo de sua terra natal: 
“Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. 
Noventa por cento de ferro nas calçadas. 
Oitenta por cento de ferro nas almas” 
(Confidência do Itabirano)

Minério e destruição

Era pelas páginas do jornal O Cometa Itabirano que Carlos Drummond despejava suas mais lancinantes preocupações com o destino de sua terra escalavrada. Em 1984 ele publicou no jornal da cidade de Itabira, onde nasceu:
Estátua de Drummond em Itabira (MG). Ao fundo, as
montanhas arranhadas pela exploração do ferro.
“O maior trem do mundo
Puxado por cinco locomotivas a óleo diesel
Engatadas geminadas desembestadas
Leva meu tempo, minha infância, minha vida
Triturada em 163 vagões de minério e destruição”
Em dezembro do ano anterior, Drummond já tinha enviado ao Cometa Itabirano sua poesia mais profética sobre a exploração e a espoliação  pela companhia Vale do Rio Doce (veja abaixo à direita a folha original datilografada pelo próprio Drummond).
Publicado na ed. nº 58 do jornal
O Cometa Itabirano, dez/1983

Lira Itabirana
I
O Rio? É doce.
A Vale? Amarga.
Ai, antes fosse
Mais leve a carga.

II
Entre estatais
E multinacionais,
Quantos ais!

III
A dívida interna.
A dívida externa
A dívida eterna.

IV
Quantas toneladas exportamos
De ferro?
Quantas lágrimas disfarçamos
Sem berro?

Oito anos antes da publicação do poema acima, Drummond já avisava às futuras gerações:  
“Essa serra tem dono (...) 
Cassetetes e revólveres me barram a subida 
Não mais a natureza a governa (...) 
proibido viver a selvagem intimidade destas pedras
que se vão desfazendo em forma de dinheiro.”
(Triste Horizonte, publicado em 14 de agosto de 1976).

Cidade-monstro
Drummond vaticinou um futuro sombrio para a
sua terra natal, espoliada pelas mineradoras

No dia 13 de maio de 1984, em depoimento ao programa Diálogo, da extinta TV Manchete, Drummond desabafou:
“[Minha cidade de Itabira está] hoje transformada pela Cia. Vale Rio Doce. Acho que é uma cidade “meio-monstro”, né? Ela tinha 4 mil habitantes, agora tem mais de 100 mil, sendo que dez mil estão desempregados. À espera de que a Companhia Vale Rio Doce dê a eles um trabalho qualquer. Está se retirando de Itabira, transferindo-se para Carajás [no Estado do Pará] e vai fazer a mesma coisa que fez no interior de Minas. Vai despojar a terra de sua riqueza e vai exportar isso. Nem sequer aquilo beneficia o Brasil. Beneficia a empresa! E, depois, abandona aqueles buracos!”
Vilarejo de Bento Rodrigues, 
destruído para todo o sempre

Materialização da metáfora

“Mar de lama” é expressão criada em 1954 pelo jornalista e político Carlos Lacerda sobre a corrupção que assola o país. Os 62 milhões de metros cúbicos de lama e água despejados pelo rompimento das barragens Fundão e Santarém transbordam os limites dessa metáfora.
O crime ambiental cometido pela mineradora Vale e sua sócia australiana matou o Rio Doce. E com ele o ecossistema dos 40 municípios banhados por este rio – 29 cidades em Minas Gerais e 11 cidades no Estado do Espírito Santo. O lodaçal assassino está chegando ao litoral capixaba, levando desolação a 60 km por hora.
Tão terrível quanto a agressão à natureza, foi o comportamento da classe política. O governador de Minas provou ser lacaio da empresa. A entrevista coletiva oficial não se deu no Palácio do Governo; ocorreu no escritório da multinacional. A presidente da República demorou sete longos dias para fazer breve sobrevoo na área devastada. Aplicou uma multinha de R$ 250 milhões. A própria Vale estima que vá gastar R$ 2 bilhões em medidas mitigadoras da matança humana e do meio ambiente. A multa governamental é, portanto, de míseros 25% sobre o estrago causado. Uma ação entre amigos.
A omissão da presidência do Brasil não ficou sozinha na parada. O senador mineiro, principal adversário do governo nas últimas eleições presidenciais, também não pôs o pé na lama. Limitou-se a balir: “Não é hora de apontar culpados”...

Em 1973 Drummond publicou o poema A Montanha Pulverizada. Nele o autor revela a angústia de ver as montanhas de Minas Gerais “britadas em bilhões de lascas deslizando em correia transportadora”.
Três anos depois o poeta romperia definitivamente com a capital do lugar onde nasceu:
“Porque não vais a Belo Horizonte? a saudade cicia
e continua branda: Volta lá.
Anda!Volta lá, volta já.
E eu respondo, carrancudo: Não.
Não voltarei para ver o que não merece ser visto...”
Mar de lama liberado pelas barragens da Cia. Vale é o maior crime ambiental da história do Brasil

Um comentário:

Anônimo disse...

Desde o tempo colonial, que o estado de Minas Gerais foi bastante explorado. Já levaram quase todo o ouro, pedras preciosas, diamantes e minério. Porque que Tiradentes foi sacrificado? Porque ousou reclamar disso tudo. A roubalheira sempre foi intensa, o ouro de Minas já serviu para reedificar Lisboa e, até para fazer uma esplendida carroça para a rainha de Portugal a " Maria- A louca",para desfilar sua "maluques". Mas pelo jeito nada vai se modificar... Os mineiros vão ter que aguentar essa insensatez por muito tempo, porque os irresponsáveis continuarão "mandando" e os incautos aceitando tudo, como se fosse tudo natural essa espoliação secular.