quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Doutor em hip-hop lança livro em SP, dia 26

Batista Félix é doutor em Antropologia Social. Foto: Reprodução

David da Silva

O antropólogo Batista e eu éramos “ratos” da Biblioteca Mário de Andrade, no centro da cidade de São Paulo. Após o último encontro em 1982, só voltei a vê-lo 25 anos depois em uma palestra no Cemur, espaço de eventos em Taboão da Serra. De lá pra cá, nosso contato só rompe a distância de 2.225 quilômetros na cerveja de fim de ano.
Professor na Universidade Federal de Tocantinópolis, doutor em Antropologia Social e Coordenador do Curso de Ciências Sociais, o meu mano João Batista de Jesus Félix lança na 6ª-feira, 26 de outubro, seu livro Hip-Hop: Cultura e Política no Contexto Paulistano.

Um rapaz desce bufando de raiva a Rua São Vicente, no bairro paulistano do Bexiga. Estamos em julho de 1987. Ao passar pela quadra da Escola de Samba Vai-Vai, o que ecoa na cabeça de João Batista não é o som dos tamborins. Soam-lhe pesadas as palavras do advogado Celso Fontana, no escritório de quem Batista estava minutos atrás. “Pôrra, Batista! Você não tem nenhum curso superior? Assim não dá! Eu achava que você fosse formado”. A decepção do advogado vinha da admiração que nutria pela vasta cultura do rapaz. Velhos amigos, Celso Fontana se prontificou a apresentar Batista para uma vaga na Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo. Mas quando viu o currículo do moço...
Os imensos conhecimentos de história, cinema e filosofia de Batista vinham das suas longas jornadas de leituras na Mário (esta intimidade é concedida a mim e ao meu amigo devido à nossa assiduidade naquele templo do aprendizado autodidata). A biblioteca-símbolo de Sampa fazia a nossa conexão norte-sul. Batista é do Bairro do Limão, e eu, das quebradas do quadrante sudoeste da Grande SP.

“Esfregar na cara”
Sem um puto no bolso, Batista resolveu bater na recepção de um curso pré-vestibular ali mesmo na Rua São Vicente onde descarregava sua bronca numa caminhada estugada. Conquistada a bolsa de estudo, ingressou na turma de agosto. Em dezembro a Fuvest anunciava que Batista fora admitido na USP (Universidade de São Paulo).
Sua aplicação no estudo tinha uma pitada de vingança. “Eu não tinha engolido o desaforo do Celso em não levar meu currículo à prefeitura. Minha intenção era terminar a graduação e esfregar o diploma na cara dele. Hoje sou totalmente grato a ele. Sem a atitude dele eu jamais teria tomado a decisão que mudou profundamente a minha vida”, relata.
No ano 2000 Batista defendeu sua dissertação de mestrado, fruto de 15 anos de pesquisa sobre a construção da identidade negra nos bailes paulistanos. Em 2006 defendeu sua tese de doutorado que agora chega ao grande público no formato físico do livro.
A ladeira onde Batista decidiu mudar o rumo da sua vida. Rua São Vicente - São Paulo/SP

“Operação Salva Batista”
O êxito acadêmico não se deu sem percalços. No último degrau para se tornar doutor, Batista balançou. Seus colegas montaram uma operação de resgate para dar respaldo na redação final da sua tese de doutorado.
Nenhuma narrativa escrita substitui o relato em viva voz do Batista sobre a tal operação de salvamento. Nada supera as modulações da sua voz possante. Nenhum prazer maior do que ouvir sua explanação explodir em gargalhadas de vigor vulcânico. Vê-lo rir remete a um trecho do Henry Miller, onde o autor norte-americano afirma que dos negros provêm “acessos autênticos de riso como nunca se ouviram de gargantas de gente branca. O negro ri tão facilmente quanto respira” (The Rosy Crucifixion – Plexus).

De olho no furacão
Batista teve um estudo seu publicado no Anuário Brasileiro de Segurança Pública, lançado em 30 de agosto deste ano. O autor debruçou-se sobre as estatísticas dos homicídios em Tocantins no período de 2014 a 2017. Constatou que o número de mortes violentas intencionais ali cresceram 12,7% no período. Mortes causadas por intervenções policiais naquele Estado subiram 1.380% nos quatro anos pesquisados. Se entre 2014 e 2017 a polícia de Tocantins matou 74 pessoas, 46 delas ocorreram só em 2017.
Além de professor, Batista é Diretor de Cultura da
Universidade Federal de Tocantins

Suburbano coração
Para o seu mestrado, Batista foi atrás dos sons dos subúrbios. Se embrenhou nos bailes black. Seu périplo pela periferia me lembra Jorge Luis Borges quando moço, onde o escritor argentino revela que “en aquel tiempo, buscaba los atardeceres, los arrabales y la desdicha”.
O doutorado de Batista veio de outro mergulho nas entranhas da metrópole.
Uma das suas conclusões foi que “a aproximação entre o PT (Partido dos Trabalhadores) e o rap [na periferia paulistana] fez com que esses grupos não sentissem a necessidade de criar nenhuma forma de atuação política alternativa”. O movimento hip-hop se sentia protegido pelo partido. Cria que o partido podia resolver todas as paradas. A análise fria de Batista prenunciava uma advertência diante da ingenuidade política do movimento.
Sintomaticamente, na noite de ontem o maior nome do rap nacional falou que o PT perdeu a capacidade de interagir com as periferias. Espetando o polegar no ar, Mano Brown apontou de costas para membros do PT e seus candidatos a presidente e vice: “O pessoal daqui falhou e agora vai pagar o preço. Porque a comunicação é alma, e se não está falando a língua do povo vai perder mesmo, certo?”, questionou o líder dos Racionais MC’s.
O artista se mostrou desiludido com a atuação partidária. “Política não rima, não tem swing, não tem balanço. Não tem nada que me interessa”, depreciou.

NOITE DE AUTÓGRAFOS
Hip-Hop: Cultura e Política no Contexto Paulistano (Editora Appris)
De João Batista de Jesus Felix
26 de outubro de 2018 – sexta-feira, às 19h
Sindicato dos Professores (APEOESP)
Praça da República, 282 – São Paulo/SP

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