segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O grafite guerreiro de Marcelo Molão

Molão com grafite de Sérgio Vaz feito a partir de foto de Ricardo Vaz. Foto: David da Silva
David da Silva

Ligeiro no desenho, lento no futebol. Vem daí o nome de guerra de um dos melhores grafiteiros do Estado de São Paulo. “Eu era bom de bola, mas os moleques diziam que eu era mole, o apelido pegou”, recorda rindo. Marcelo Molão recebeu a reportagem para falar do encontro de grafite que está organizando no Projeto Nós por Nós, a ser realizado em novembro. Também antecipa que seu personagem Pele Vermelha, famoso nos muros das quebradas, vai virar história em quadrinhos. O primeiro volume está em fase de roteirização, em parceria com Stephanie Funny.

 Molão é paulistano da gema. “Poucos têm o privilégio de ser batizado na Catedral da Sé. Eu fui. Meu pai trabalhava perto da Sé, e morava no próprio emprego. Mas ele judiava da minha mãe. Quando eu tinha quatro anos ela largou dele, fomos morar no Real Parque [bairro da zona sul de SP]. Quando fiz 10 anos de idade viemos morar no Jardim do Colégio [subúrbio de Embu das Artes, região sudoeste da Grande São Paulo]”.

Para chegar à casa do artista, o carro sai da Avenida Aymará, sobe serpenteando a Rua Órion, cruza a Triângulo Astral, e desemboca na Rua Eridano, na confluência com a Rua Pégaso, quase esquina com a Rua Centauro, a poucos metros da Rua Ursa Maior. Você já se ligou que as vias públicas do lugar são todas ligadas à astronomia.
Fachada de imóvel no Jd do Colégio. Arte: Molão
Estamos no coração da terra do Pele Vermelha. Aqui Marcelo Molão é onipresente. Seus grafites estão nas fachadas de estabelecimentos comerciais, nos muros das residências, na carenagem de carros e motos, em tatuagens, e principalmente no Boteco do Velho. “Aqui é o meu escritório”, diz divertido ao entrar no bar do Reinaldo.

Menino tem a atenção atraída por grafite no Jardim do Colégio. Foto: David da Silva
Gostos e influências
Molão foi abduzido pelo grafite ainda criança. “Eu me ligava nos desenhos dos muros, pirava com a combinação das cores, e senti que eu também era capaz de fazer aquilo”, relata enquanto sorve goles de cerveja Lokal.
No mundo do grafite sua admiração vai para Gláucio Santos. “Conheci ele na locadora de vídeos onde trabalhei por 13 anos. Gláucio era freguês da loja. É um monstrão no grafite, aprendi muito vendo os seus trampos”.
No universo do cartoon, o ídolo de Molão é Angeli.
No panorama musical, o astro que brilha é Al Green. “O Al Green é a trilha sonora da minha vida inteira”.

Sina de grafiteiro
A devoção de Marcelo Molão à Arte já rendeu fruto. Excelente fruto, por sinal. Seu filho, também chamado Marcelo, mas com nome artístico Mazola, 20 anos, é respeitado na galera da street art. “Minhas filhas também curtem lidar com tintas. Talvez saia mais algum artista lá de casa”, diz nomeando as meninas Isabela, 18, Giovanna, 14, e Luíza, sete anos.

Mazola não esconde o orgulho de o filho ser igual seu pai. “É sempre um grande prazer pintar com meu pai. Sempre quando estamos juntos num trampo são altas zoeiras, risadas, aprendizado, ideias boas que fluem. Às vezes uns desentendimentos, mas acontece nas melhores famílias. Enfim, a saga continua”, escreveu recentemente em sua conta do Facebook.
Mazola e sua arte (Morgan Freeman) na Bienal Internacional de Graffiti em set/2018. Foto: Ranielly Bezerra
Galeria de heróis anônimos
Molão tem grande prazer em desenhar moradores símbolo do seu bairro. As biografias mudas ganham eloqüência nos murais.
Seu Anísio fez 80 anos em 10 de março. Natural de Monteiro (PB). “Faz 30 anos que tô quieto aqui no Jd do Colégio. Trabalhei em parque de diversão e circo. Qualquer lugar do Brasil que você me perguntar, eu já fui. Aprendi tocar sanfona sozinho. Muitas coisas já não lembro. Tem vez que esqueço até do meu nome. Minha cabeça não tá mais funcionando direito”. Arte: Molão. Foto: David da Silva
“Eu sempre quis homenagear o Velho Mancha, morador ancião aqui do bairro. Ele era pintor de paredes. Figura marcante. Ainda bem que ele teve tempo de ver a pintura que fiz dele.”, diz Molão. Mancha faleceu em agosto/2018. Foto: David da Silva

O mundo distópico do Pele Vermelha

O personagem criado por Molão é filho da amargura. “Quando perdi minha família, parei de acreditar em várias coisas. Em 2012 minha mãe morreu de infarto fulminante aos 62 anos. Em 2013 meu irmão Anderson de 26 anos morreu em acidente de automóvel. Daí o Pele Vermelha brotou na minha mente. Eu ainda não sabia que nome ele teria, nem o jeito que era. Mas o tema veio forte”, explica o autor.

O criador e a criatura. Foto: Reprodução | Facebook

Pele Vermelha é uma espécie de alter ego do povo da periferia. “Tem muito Pele Vermelha por aí, viu? Ele é o trabalhador sofrido, que cumpre com as obrigações, acredita nas pessoas. Mas na hora do vamos ver, não consegue nada”.
No gibi, Pele Vermelha já vai estar no último degrau da vida. “Os quadrinhos vão mostrar o Pele com mais ou menos uns 80 anos. Mas ainda estamos desenvolvendo este assunto.  Vamos mostrar ele quando ainda brincava com crianças, tinha esperanças”, diz Molão que na capa da HQ aparece com assinatura espelhada OALOM.
Em novembro de 2017 Marcelo Molão fez a exposição Pele Vermelha na Terra do Cão, na organização não governamental Associação Comitiva Esperança, no Jardim Independência, onde ensina desenho para crianças embuenses.

O encontro de grafiteiros, em data a ser divulgada em breve, vai rolar na Rua Pégaso, nº 164, próximo ao CEU Jardim do Colégio.

Conheça um pouco mais da Arte de Marcelo Molão aqui

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AGRADECIMENTOS

Apesar de as ruas do Jd do Colégio terem nomes de corpos celestes, na hora de eu ir embora a Claro não tinha sinal de internet naquele local. Fui salvo pela gentileza da Irlândia, morena de beleza majestosa, que chamou o Uber para a reportagem.
Foto: Bruna Morgado - 12.out.2018
Fiel escudeira - A técnica em logística Bruna, 26 anos, sempre acompanha os grafiteiros. “Um dia o Molão falou pra mim: ‘Você tá sempre junto com a gente, mas não desenha nada. Tá na hora de você fazer alguma arte sua’. Fui no muro e fiz. Gosto de desenhar gatos”. Fotos: Bruna Morgado (esq) e David da Silva

Reinaldo Silva de Oliveira, 62 anos, natural de Rui Barbosa (BA) mora há 22 anos no Jd do Colégio. Antes do comércio próprio, trabalhou em lanchonete, padaria e lojas de roupas e calçados. Foto: David da Silva

2 comentários:

Jussanam disse...

Parabens pela arte em ceu aberto Marcelo Molão. Teu bairro ficou lindo com sua arte estampada.

Eddie Ferraz disse...

Mais uma vez Embu das Artes mostrando sua genética e o melhor com um mano da quebrada mostrando que nem só das cercanias do centro brota arte em terras Jesuítas.Maravilhoso trampo deste blog que dá voz e vez a periferia.