terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Ganhando o pão com a fruta nossa de cada dia

O vendedor ambulante Kaká - Foto: David da Silva
Conheço Kaká, o vendedor de frutas, há cerca de 15 anos, pouco mais, pouco menos.
Geralmente, a gente “se tromba” nas altas noites do fecha-nunca do Largo do Campo Limpo. Engraçado é que Kaká nunca “está”. Vê se me entende: ele está sempre indo ou voltando. “Fui vender lá no [bairro] Rio Pequeno”, diz ele, se a passada pelo boteco for à boca da noite. Se a madrugada se avizinha, a conversa toma outro rumo: “Tô indo agora vender lá na Vila Madalena”. Se não vai (ou foi) vender, a parada para o drinque também é rápida: “Vou ver minha filha lá na casa da mãe dela”. Cada frase, arrematada com seu bordão favorito: “Comigo é pau-no-gato!”.

Sobre a caçamba da camionete azul do Kaká, a paisagem frutífera me lembra Clarice Lispector no conto A Repartição dos Pães: “... maçãs vermelhas, (...) abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, (...) uvas pretas que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas (...) uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes...”.
E pau-no-gato!

Na carteira de identidade, Kaká é José Ricardo Rodrigues de Farias. Nascido na região de Venda Nova, em Belo Horizonte, no dia 29 de abril de 1969. Signo de touro – bicho forte, trabalhador, bem pé no chão, tal e qual. Dona Maria José Gomes se mandou pra São Paulo com o mais velho Kaká, então com sete anos, e mais quatro filhos. Fincaram residência no Jardim Olinda, região do Campo Limpo, zona sul de São Paulo. Do pai Luciano Rodrigues de Farias, Kaká não tem notícias: “Não conhecí meu pai. Mas eu tinha vontade de conhecer ele”, diz com uma ponta de tristeza na voz.

A entrada de Kaká no comércio de frutas não foi como vendedor. Muito menos como comprador. “Eu catava restos de frutas com meus irmãos debaixo das bancas da feira do Parque Ypê. A gente não tinha o que comer em casa”, conta.
Já mais grandinho, Kaká se virou vendendo limão. “Vendia limão na mão. Não tinha caixote pra pôr o limão em cima. E pau-no-gato! Eu vendia assim, ó”, e empalma o monte imaginário de limões.
Ao ver o esforço do menino, o feirante japonês Luiz ofereceu-lhe emprego. “Eu vendia limão, mas tinha de continuar pedindo esmola, porque vendia muito pouquinho. Aí o japonês ficou com dó de mim, e me deu o emprego”, lembra Kaká.
Depois de anos como empregado, foi vender frutas por conta própria. Quase quebrou. Chegou a passar no exigente teste admissional de um grande hipermercado.  Ia ser chefe do setor de horti-fruti... Mas prefere a vida solta das ruas. Para as donas de casa, a venda diurna. Para os boêmios, a refrescância das frutas anti-ressaca vendidas nas madrugadas.
E pau-no-gato!.
Kaká Frutas Selecionadas
Fones: 9369-0492 e 8534-5499
Kaká vende frutas em domicílio durante o dia, e sai pela noite vendendo nas portas dos botecos.
Foto: David da Silva

2 comentários:

Matheus Trunk disse...

Meu caro amigo David: um feliz Ano Novo pra você e toda sua família. Por favor, no próximo ano continue perfilando essas figuras que só você acha. Esse Kaká é figuraça pelo jeito.

Matheus Trunk
www.violaosardinhaepao.blogspot.com

David da Silva disse...

Ô, Matheus!
Também te desejo um 2011 com muita saúde, e muitas pautas boas pela frente.
Parabéns pelo prêmio que vc recebeu pelo trabalho na Zigu.
Você é o perfeito "amigo leal" que o Adelino e o Nelsão cantaram.