sábado, 12 de novembro de 2011

Receita musical para uma noite feliz

Foto: David da Silva
Foto: David da Silva
Mesmo com novembro ainda pela metade, é bom puxar o Natal aqui mais pra perto. Foi isto o que fez a Associação Músicos do Futuro no recital de ontem, 6ª-feira 11 de novembro. O poeta Drummond deixou-nos a ordem para organizar o espírito natalino antes do tempo: “... não parece absurdo imaginar que pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal”. A Cantatinha de Natal, de Edmundo Villani-Côrtes, interpretada pelo conjunto de cordas e coral infantil Músicos do Futuro no final do espetáculo, fez a plateia sair do teatro do CEU Campo Limpo em clima literalmente celestial.
O homenageado da noite Edmundo Villani-Côrtes é pianista, compositor, arranjador e regente. É o mais importante compositor de música clássica brasileira em atividade. Três dias antes de receber o carinho dos Músicos do Futuro, ele festejou 81 anos de vida na terça-feira 8 de novembro.
É autor de mais de 300 composições. Gravou mais de 40 CDs em vários países do mundo. Fez mais de 1.000 arranjos para orquestras de TV (Tupi, SBT e Globo). “A gente ganha pouquinho compondo. Já para os arranjos nos pagam muito bem”, explica o mestre que divide seu talento entre as músicas erudita e popular. Já acompanhou a cantora Maysa e o cantor Altemar Dutra em turnês internacionais. É ganhador de vários prêmios no estrangeiro.

Foto: David da Silva
Sua excelência, o mestre
Edmundo Villani-Côrtes (à direita agradecendo aos Músicos do Futuro no CEU Campo Limpo) começou a tocar cavaquinho aos 8 a 9 anos de idade. Sua família havia sido bem de situação. Mas o pequeno Edmundo só pegou a beirada dura da vida. “Não alcancei a fase boa da minha família. Quando eu quis aprender música, meus pais já tinham vendido o piano de casa”. O jeito foi aprender na marra, olhando o irmão que tocava violão.
Aprendeu teoria musical sozinho, e foi admitido no Conservatório Brasileiro de Música onde se formou em piano.
Mais tarde o pai conseguiu-lhe um piano. Com algumas teclas bichadas. “Quando eu começava a tocar, os bichos saiam das teclas para me ouvir”, lembra divertido.
Este espírito ensolarado, bem brasileiro, Villani-Côrtes imprime em cada frase de suas obras.
O recital dos Músicos do Futuro da 6ª-feira começou com a vigorosa Vozes do Agreste. Enfeitiçante ouvir a batida do baião adentrar o ambiente sinfônico.
A segunda peça da noite foi Djopoi (oferenda, em tupi guarani). Executada pela Banda Sinfônica Juvenil, Djopoi voltou ao programa na penúltima atração, no piano a quatro mãos com Gisele Crepaldi e Rodrigo Queroz.
Foi impossível não sair do teatro assoviando Djopoi. Como em todas as músicas de Edmundo Villani-Côrtes, Djopoi tem uma melodia poderosa. Resvala delicadamente na música popular. As composições de Villani-Côrtes são aparentemente simples, meio que intimistas, e verdadeiramente lindas. De sensibilidade profunda.

Foto: David da Silva
Formando músicos
A música de Villani-Côrtes é um desafio para quem ouve e para quem toca.
Nos solos de seus alunos, o maestro Edison Ferreira do Nascimento Junior ficava contemplando por entre as cortinas. A cada execução, que ele ouvia levitando, maestro Edison bradava vários “Bravo! Bravo!”, com aplausos vigorosos. “Eu formo músicos, David! Eu formo músicos!”, me dizia ele após cada número, com contagiante alegria despida de vaidade.
O trombonista Jefferson Machado desceu do palco encharcado de suor e emoção após o concerto para piano e trombone Introdução e/ao Desafio. Ao ouvir o elogio de seu mestre Edison, o músico respondeu: “Muito obrigado pela oportunidade!”. Edison virou-se para o repórter e gracejou: “O cara dá um belo show deste, e ainda vem me agradecer!? Eu é que agradeço.”
Edison contou orgulhoso que 82 alunos da Associação Músicos do Futuro já ganham a vida como músicos profissionais. Alguns com salários acima de R$ 10 mil por mês.
Apesar de já trilhar o caminho das grandes orquestras, vários ex-alunos do maestro Edison dedicam parte de seu tempo à Associação Músicos do Futuro. Como é o caso da violoncelista Roberta Regina Santos. Ela interrompeu apresentações que faz no Rio de Janeiro e Brasília para trazer sua música e sua beleza para o recital.

Formando plateias
A par de sua missão de entregar novos talentos musicais à Humanidade, maestro Edison é um autêntico formador de plateias.
Acostumado a observar grandezas espaciais, o astrônomo amador Ariel Souza, 38 anos, fez um resumo eloquente do que viu e ouviu: “Coisa maravilhosa”, disse o morador do Pq Pinheiros e consultor em tecnologia e segurança da Informação.
O contabilista Márcio Assunção, 33 anos, revelou curiosidade por instrumentos autenticamente sinfônicos, que ele nunca tinha visto como os tambores tímpanos, o fagote, entre outros. Como bom profissional dos números, quis saber como se sustenta a Associação Músicos do Futuro.
Estou certo que a obra musical e social do maestro Edison ganhou novos adeptos no recital da 6ª-feira.
Foto: David da Silva

3 comentários:

Associação Músicos do futuro disse...

Caro amigo David,

Venho por meio deste, agradecer o carinho prestado a toda comunidade Músicos do Futuro. O seu trabalho não esta apenas como um grande jornalista fazendo uso das coerências ao escrever qualquer matéria, o que me chama atenção é vê-lo redigir com tanta propriedade no que se refere à música e arte em geral, digo a você meu caro amigo que pela cultura o homem se posiciona como ser inteligente e se difere de qualquer outra espécie animal.

Parabéns por tuas palavras...

Maestro - Edison Ferreira
Presidente Fundador da "ASSOCIAÇÃO MÚSICOS DO FUTURO"

Anônimo disse...

David você traduziu com perfeição e sensibilidade ímpar cada instante do recital. Mesmo quem não esteve lá vai poder compartilhar a magia da noite e antecipar todos os sentimentos que caracterizam as festividades natalinas. Só temos que lamentar não haver apresentações assim com tamanho valor cultural na praça kizaemon Takeuti ou Cemur, por exemplo. Uma pena a administração não atentar em promover algo assim.

Ariel disse...

Dê tudo de mais belo que já pude contemplar feito pelo ser humano,sem dúvida essa apresentação está entre elas.

Para mim tornou-se referência.

Maestro Edison,o senhor realmente é um tocador de almas.Tanto o senhor quanto seus pupilos são patrimônios que possuimos.

Gostaria de ver mais vezes e, com toda certeza, o poder publico e privado não ficarão desatentos e inertes.

Não há também como deixar de notar o dom do Jornalista David da Silva em descrever em palavras à tão sublime apresentação.

Parabéns à todos.

Ariel.