domingo, 10 de março de 2013

A arte zapatista de Tico Finkenauer

Tico Finkenauer
Na coluna central da porta do bar do Sarau do Binho, o personagem me encarava por trás da máscara.
Depois revi o mascarado reproduzido em vários muros da cidade.
Principalmente nas quebradas do Parque Pinheiros. “O ninho deste cara deve ser por aqui”, matutava.
Logo constatei. Carlos Alberto Finkenauer Neto é o nome composto e algo solene do grafiteiro Tico. Morador do Parque Pinheiros onde nasceu em 11 de janeiro de 1984.

Assim como sua arte de rua é uma explosão de cores, nas veias de Tico Finkenauer correm sangues de variados matizes.
Neto de alemão com índia, filho de paulista com goiana, Tico é dos poucos artistas do ar livre que tem personagens fixos. Além do mascarado, suas marcas são um flamingo e um pelicano.


Arte e atitude
Tico Finkenauer botou máscara em seu personagem central como símbolo da postura de “fazer mais e falar menos”.
O mascarado pode se manifestar na forma de uma criança ou de um idoso. De um bandoleiro ou um portador de deficiência física.

O mascaradinho fez sua estreia triunfal em 2007, em um muro da Rua Hortênsia Albuquerque Orlandino, onde Tico morava com seu pai funcionário de transportadora e sua mãe metalúrgica da Keiko. Hoje ele mora e se banca sozinho com a sua arte.
A máscara é também uma homenagem aos guerrilheiros do Exército Zapatista, que lutam no sul do México.

Tico começou pela pichação nos idos de 1998-1999, quando estudava na Escola Lúcia de Castro Bueno.
Depois evoluiu para a arte grafite.
Mas não aceita comercializar seu talento. Se for convidado para pintar a fachada de algum imóvel, não faz desenho por encomenda. Pinta apenas o que sua consciência manda.


Se for pra pagar comida e aluguel, prefere trabalhar em outra coisa. Para não submeter seu dom artístico ao capital.

Já encarou trampo de caixa de supermercado, telemarketing, e outras paradas duras.
Mas na sua lata de spray, só ele dá ordens.
“Vivo dentro das minhas possibilidades. Vivo sem ostentação”, é sua filosofia cotidiana.

Valorização da periferia
“As pessoas andam sempre desatentas à paisagem à sua volta. Daí quando a gente pinta um muro, deixa ele bonito, as pessoas passam a reparar naquilo”, define o artista. 
Apesar de preferir paredes e muros como suporte de sua obra, Tico Finkenauer também se liga na pintura de tela dos nomes consagrados. Gosta particularmente do surrealista Salvador Dali.

Quem vê sua aparência meio que rude, algo desleixada, não repara que o grafiteiro curte MPB, gosta de Elis Regina, samba de raiz e, é claro, o reggae.

A única cara feia que o sempre humorado Tico Finkenauer fez durante a entrevista, foi quando perguntei do funk pankadão que motoristas aloprados tocam em som agressivo pelas ruas.
“É o tipo da música que influencia as crianças a não estudar. Estimula o jovem a querer ostentar carrão, relógio de grife, cordão de ouro. Eu repugno este tipo de som. Que nem é funk. Funk de verdade é James Brown, Tim Maia. Eu repugno o pankadão. Eles tocam assim pra afundar e destruir a periferia”.

O mascarado assume várias formas em suas manifestações de rua
Foto: David da Silva

Um comentário:

Carlos Finkennauer disse...

Não por ser meu Filho,mais o talento é indiscutivél.