quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

58 anos de vida e de sonhos do candeeiro Geraldo Magela

Magela observa formação de temporal no Pq Marabá.
Foto: David da Silva - 19.dez.2014
O Facebook mandou me avisar que hoje é aniversário de Geraldo Magela. Líder de cortejo de Boi-Bumbá, mestre-cirandeiro, compositor, violonista, percussionista e fundador do Grupo Candearte. Mas ele troca todos estes títulos de nobreza por uma única singela autodefinição: “Sou folião, e filho de folião”.
Com 7 anos de idade, desobedecendo ao pai, o menino Magela espichou os olhos para uma Folia de Reis, lá na cidade de Barra Longa (MG) onde nasceu. Pela crendice popular, a uma criança é vedado assistir à Folia. Pra não dar azar, o pai disse ao garoto que ele deveria acompanhar a folia por sete anos seguidos. Chegando a São Paulo, Geraldo quis seguir a tradição paterna. Mas a Folia não deu pé. E ele enveredou pelo Boi-Bumbá, organizando cortejos nos finais de ano pelas ruas do Parque Marabá, bairro onde mora em Taboão da Serra.
“No começo o meu Boi-Bumbá só era assistido pelos bêbados, os cachorros e as crianças. As pessoas ‘normais’ achavam que eu era maluco”. Hoje o Boi de Geraldo Magela arrasta uma multidinha por onde vá.
O nome Candearte do seu grupo cultural também deita raízes na infância em Minas Gerais. “Com 6 anos de idade eu era candeeiro de boi. Aquela criança que vai na frente do carro-de-boi ou do arado, mostrando o caminho certo pro boi seguir. Daí que quando fui batizar meu grupo, bateu uma saudade danada da minha terra. E resolvi homenagear todo o meu passado, e as tradições que aprendi com meu pai e com as outras pessoas que criaram essa Cultura do nosso país”.
Foto: David da Silva - março/2008
Além deste alicerce sentimental na escolha do nome de seu grupo, Magela tem uma explicação poética para o título Candearte: “De certa forma, mesmo agora com a idade que eu já tenho de 58 anos, ainda sou um menino-candeeiro. Só que agora eu conduzo um imaginário carro-de-boi carregado de Artes”.

Tenho o privilégio de ser vizinho de Geraldo Magela. E privilégio maior me foi concedido quando vi surgir, de uma conversa nossa, a música título do seu mais recente disco ‘Minas Canções’.  No finalzinho do ano 2010, havíamos nos encontrado no bairro Jardim Roberto, distante cerca de três quilômetros de onde moramos. Percebendo que nossa conversa não caberia na rápida viagem de ônibus até nosso bairro, resolvemos vir a pé, para espichar a prosa. Na caminhada brotou a inspiração para a ansiada faixa-título do disco, lançado em maio de 2011.
Ciranda na estação Santa Cecília do Metrô.
Foto: David da Silva - 29.set.2009
Tive também o privilégio de filmar a primeira vez em que o Metrô de São Paulo foi palco de uma enorme roda de ciranda, comandada por Geraldo Magela. O fato se deu na finalização de um Sarau do Binho, realizado na Estação Santa Cecília, em setembro de 2009. Enquanto a multidão de passageiros se escoava lentamente em direção aos trilhos na volta para casa, a ciranda comia solta. Escrevi na época: “É como se um trem do metrô de São Paulo fosse partir daqui direto para a ilha de Itamaracá, um dos berços da ciranda em Pernambuco. A voz franzina deste mineiro se agiganta quando ele coloca as pessoas para cirandar”.
Magela e eu damos muitas risadas do período em que ele iniciou sua vida de professor de violão aqui na região. “Eu tinha só uma menina que fazia aula de violão comigo no projeto Arrastão [ONG situada no limite entre o bairro Campo Limpo e o município de Taboão da Serra]. Daí eu saia daqui do Parque Marabá, e no caminho até o local da aula, eu ia rezando a Deus pra aquela menina não desistir do violão. Não que ela fosse ser uma grande instrumentista. Acontece que a mensalidade dela era o único dinheirinho certo que eu podia contar naquela época”, diz Magela, se torcendo na gargalhada das lembranças dos tempos difíceis.
Magela e eu temos um samba inacabado, inspirado em um acidente medonho ocorrido durante a construção da Estação Pinheiros do Metrô. Começamos a fazer o samba em janeiro de 2007, época da tragédia onde sete pessoas morreram soterradas. A melodia do samba começou a brotar das cordas do violão de Magela, enquanto eu contava a ele que aquelas pessoas não eram todas trabalhadoras da obra. Foram engolidas pela cratera; estavam passando ao lado da construção quando a terra começou a desbarrancar. Volta e meia Magela se aperreia e cobra: “David, cadê a letra do samba?, rapaz...”. Mas depois ele mineiramente filosofa: “Esquenta a cabeça, não. Paulinho da Viola e Eduardo Gudin demoraram 20 anos pra fazer um samba, por que nós dois não podemos demorar 40, uai!?”.
Apesar dessa ‘privilegiação’ toda, não escrevi muita coisa sobre Magela no meu blog até hoje. Só uma coisa ou outra. A bem dizer, quase nada. Casa de ferreiro, espeto de pau, como se diz.
Faço agora um pequeno resgate dessa omissão, vicejada por tanto nos vermos nas manifestações culturais das quebradas do mundaréu. E por nos encontrarmos tamanhas vezes na fila do banco, na porta do açougue, balcão de padaria, no ponto de ônibus, no caminho do sacolão...

Vai aqui um salve! suave e um abraço forte para meu colega de copo e de cruz, Geraldo Magela do Brasil.

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