quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Marco Pezão ganha o Prêmio Governador do Estado

Em seu agradecimento ao prêmio, Pezão relembrou o início dos saraus em bares da capital e Grande São Paulo. Foto: David da Silva – 23.jan.2015
Entregue na noite da última 2ª-feira, 23 de fevereiro, o Prêmio Governador do Estado de São Paulo contemplou artistas e/ou grupos culturais que se destacaram em suas atividades no ano de 2014. Foram 45 finalistas distribuídos em nove categorias. Dentre os cinco concorrentes avaliados pela capacidade de reinventar os espaços onde fazem sua arte, e pela criatividade na forma de se relacionar com o público, o poeta Marco Pezão foi eleito pelo Júri Especializado na categoria Territórios Culturais.
De camiseta azul, Pezão na plateia ao lado da esposa Otília acompanha o anúncio dos vencedores. 
Foto: Reprodução
Pezão é co-fundador do Sarau Poético da Cooperifa, criado em outubro de 2001 em um boteco do município de Taboão da Serra. Em 2011 coordenou a elaboração do Mapa da Poesia que identificou os saraus da Grande São Paulo e centro da capital.  Nos últimos quatro anos ele organiza o Sarau A Plenos Pulmões, sediado na Casa das Rosas, região central de São Paulo. Atualmente, está estruturando o projeto I Love Laje de estímulo à leitura e declamação de poemas, no bairro Campo Limpo, zona sul, onde reside.
A cerimônia de premiação foi no Theatro São Pedro, famoso pela sua elegância e clima aconchegante. Este teatro não foi construído pelo poder público. Conheça a história e as magníficas instalações desta casa de espetáculos aqui
A entrega dos troféus teve como Destaque Cultural o poeta Paulo Bomfim. Com 35 livros publicados desde 1947, membro da Academia Paulista de Letras há 52 anos, Bomfim, chamado “Príncipe dos Poetas Brasileiros”, além de troféu foi homenageado com R$ 100 mil, em reconhecimento à sua trajetória e contribuição para a cultura brasileira. O músico Eduardo Santhana, do grupo Trovadores Urbanos, cantou para o homenageado a melodia que criou para o poema “Não me pergunte mais nada”. Hoje com 89 anos de idade, na solenidade o poeta comparou a honraria recebida na noite da 2ª-feira ao primeiro troféu ganho em sua carreira em 1947 das mãos de Manoel Bandeira. “Aquele foi o meu batismo, e este é a minha crisma, a minha confirmação", afirmou no seu agradecimento.

O Prêmio Governador do Estado existe desde 1957. No meio da década de 1980 a premiação foi suspensa, e retomada em 2010. Em 2012 foi aberta a participação do público via internet na escolha dos premiados.  Neste ano de 2015, a votação dos internautas aconteceu entre 19 de janeiro a 19 de fevereiro. Nesse período foram contabilizados mais de 42 mil votos.
Na votação popular da modalidade de Territórios Culturais, o poeta Marco Pezão foi segundo colocado com 30% dos votos, contra 42% do Grupo OPNI, da região do bairro São Mateus, zona leste da capital.

Enquanto aguardávamos o Theatro São Pedro abrir suas portas, Marco Pezão contou à reportagem seus laços emotivos com aquela casa de espetáculos. 
“Eu tinha 22 anos, já estava casado, e resolvi voltar a estudar. Concluir o segundo grau no GECALI - Ginásio Estadual do Campo Limpo [atual Escola Estadual Leonardo Villas-Boas, colada ao Terminal de Ônibus Campo Limpo]. A gente tinha uma professora bem de esquerda, era época da ditadura militar, e ela nos levava para ver peças de conteúdo político. E foi aqui que vim assistir Galileu Galilei, em 1973. Meu interesse pela peça foi tanto, que até a moça lanterninha sugeriu que eu mudasse de lugar, longe da falação dos outros alunos. Nasceu dali o meu amor pelo teatro”, relembra.
Pezão com seu troféu na saída do Theatro São Pedro.
Foto: David da Silva - 23.jan.2015
Em 1978, já entrosado com grupo teatral, Pezão ensaiou no andar superior do Theatro São Pedro uma encenação de Cartas Chilenas, de Tomás Antonio Gonzaga. “A gente ensaiava lá em cima, na parte chamada na época Studio São Pedro. E na parte de baixo, no teatro mesmo, estavam ensaiando Macunaíma, dirigida pelo Antunes Filho. Então, voltar aqui hoje como indicado para um prêmio, passa todo um filme na minha cabeça”, disse Pezão minutos antes da cerimônia de onde sairia vencedor.

Os discursos mais aplaudidos da noite de prêmios ficaram por conta de grandes ícones da Cultura paulista. A bailarina e atriz Marilena Ansaldi, 80 anos, comoveu a plateia ao contar da sua recuperação de grande problema de saúde no início do ano passado, e sua volta aos espetáculos. “Fora do palco, longe da sua arte, o artista é uma pessoa morta”. Já o fotógrafo German Lorca arrancou risos do público, com seu discurso telegráfico: “A gente precisa fazer 93 anos de vida para receber um prêmio como este aqui”.
A fala mais envolvente foi do celebrado Zé Celso Martinez Corrêa, ator, diretor e criador do revolucionário Teatro Oficina. “Eu pensava que o Apocalipse fosse coisa para bem depois de eu estar morto e esquecido. Mas nós já estamos vivendo o apocalipse da falta de água”, disse para delírio dos presentes, que não economizaram palmas na crítica ferina ao governador Geraldo Alckmin que estava sentado no auditório. “Nós precisamos redescobrir os córregos desta cidade de São Paulo. Por baixo do nosso teatro Oficina passa um córrego, canalizado. A geração dos meus avôs tinha ódio da terra. Cobriram tudo com cimento. Precisamos reencontrar essas águas. Todas estas medidas que os governos estão tomando, medidas econômicas, não têm nada a ver. Precisamos resgatar a Vida. Combater o desmatamento também é coisa pouca. Precisamos é reflorestar. Plantar árvores aos milhões. Aqui em São Paulo temos os escritórios da Berrini [Avenida Luiz Carlos Berrini], o metro quadrado mais caro da cidade. E fica bem ao lado do Rio Pinheiros totalmente poluído, fedido. E os capitalistas não fazem nada contra este fedor”, seguiu o veterano artista no seu discurso apoteótico.

A Comissão Julgadora da categoria Territórios Culturais foi composta por:
·         Marcelino Freire, escritor paraibano-paulistano nascido em Sertânia (PB) há 47 anos, completa 48 de vida no próximo 20 de março. Autor dos mais renomados da atualidade na literatura brasileira. Como contista ganhou em 1991 o prêmio do Governo do Estado de Pernambuco, e em 2006 o Prêmio Jabuti de Literatura. Em 2014 lançou seu primeiro romance Nossos Ossos, ganhando o seu segundo Prêmio Jabuti. É criador da Balada Literária da cidade de SP, iniciada em 2006.
·         Rosa Iavelberg - graduada em Arquitetura e Urbanismo em 1973 pela USP (Universidade de São Paulo); especialização em arte-educação I e II pela ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP (1989); mestrado em Educação pela USP (1993), e doutorado em Artes pela ECA - USP (2000).
·         Maria Thereza Bosi de Magalhães - Foi coordenadora do Prêmio Governador em 2013. Graduada em Licenciatura em Psicologia pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília (1992) e graduação em Psicologia pela Universidade de Brasília (1996). Especialização em Arte pela PUC/SP e em Comunicação pela ECA - USP. Experiência em pesquisa, planejamento, curadoria, execução e avaliação de projetos artísticos e socioculturais, além de gestão de estratégias de comunicação.
·         Luciana Rodrigues
·         Eugenio Lima

Assista no perfil do Marco Pezão, no facebook, o seu discurso de agradecimento ao prêmio.

CONFIRA A LISTA COMPLETA DOS VENCEDORES - 2014:
DESTAQUE CULTURAL | Prêmio de R$ 100 mil e troféu criado por Ester Grinspum
Paulo Bomfim - Conjunto da Obra

VOTO DO JÚRI – Prêmio individual de R$ 60 mil e troféu criado por Ester Grinspum
ARTE PARA CRIANÇAS: Banda Mirim – 10 anos de trajetória
ARTES VISUAIS: German Lorca – Fotografia “Moderna para Sempre” e “A 5º Bandeira”
CINEMA: Alê Abreu – “O Menino e o Mundo”
CIRCO: Amercy Marrocos – Artista e formadora
DANÇA: Marilena Ansaldi – “Callas: O Mito”
MÚSICA: Juçara Marçal – “Encarnado”
TEATRO: Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona - Projeto Odisseia Cacildas
TERRITÓRIOS CULTURAIS: Marco Pezão – Agitador cultural

VOTO POPULAR – Troféu
ARTE PARA CRIANÇAS: Fortuna - Tic Tic Tati (29% dos votos)
ARTES VISUAIS: German Lorca – Fotografia “Moderna para Sempre” e “A 5º Bandeira” (86% dos votos)
CINEMA: Daniel Ribeiro – “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” (32% dos votos)
CIRCO: Amercy Marrocos – Artista e formadora (58% dos votos)
DANÇA: Holly Cavrell – “Suportar” (47% dos votos)
MÚSICA: Monica Salmaso - Corpo de Baile (30% dos votos)
TEATRO: Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona - Projeto Odisseia Cacildas (32% dos votos)
TERRITÓRIOS CULTURAIS: Grupo OPNI - Galeria Céu Aberto (42% dos votos)

INSTITUIÇÃO CULTURAL: SESC - Programação e espaços multidisciplinares (57% dos votos)

2 comentários:

Ariel Souza disse...

Dá mesma forma que escritores, cientistas, filósofos, enfim, mentes brilhantes brasileiras são reconhecidas em geral somente no exterior, os artistas da região só são reconhecidos pelo poder público em São Paulo.
Pegando carona no protesto muito conveniente do Zé Celso Martinez, sobre o estado vergonhoso na maior cidade da américa latina em pleno século 21 que só se compara aos países em guerra ou africanos.
Quero muito conclamar à toda sociedade taboanense para cobrarmos contrapartidas a exploração imobiliária e comercial, muito crescente em nosso município. Imensos hipermercados e condomínios proliferando.
Por que não compensar com plantio de árvores pelo menos nas principais vias públicas que em geral são congestionadíssimas? Quem ainda não ficou assando dentro do carro preso no congestionamento?
Agora pensem no corredor verde da Av.Rebouças,em São Paulo. Invejável, não?
Além disso, as arvores contribuiriam em melhorar o ar e também com a sombra preservaria muito o asfalto, enfim, benefícios inumeráveis.
Fica aqui o registro

tio mauro disse...

Marco Pezão parabens pelo prêmio Governado do Estado;um reconhecimento pelo seu talento e pela contribuição à nossa cultura com seus saraus da vida,poemas e suas lentes históricas como fotografo e jornalista, mostrando nosso futebol varzeano no seu dia a dia,com toda a dificuldade da nossa periféria,e nos brindando com sua genealidade e coleguismo.um abraço Tio Mauro