quinta-feira, 20 de agosto de 2015

A verdadeira história da música “Aquarela”

“Eu estou com uma blusa amarela, uma calça cinza e uma mala marrom te esperando”, diz um homem ao telefone no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, em meados de 1982. “Vou buscar você com um carro prata”, diz o outro.
Foi assim que nasceu a música Aquarela, uma das obras mais populares do violonista Toquinho. Maioria das pessoas que ouve esta canção logo a associa com a imagem de Toquinho e seu violão ao lado do poeta Vinícius de Moraes. Mas Vinícius já estava morto dois anos antes de Aquarela. Que nem veio ao mundo com este nome. Nasceu italiana, batizada Acquarello.

A vinculação de Toquinho com Vinícius de Moraes se deve aos 11 anos em que foram parceiros – de 1969 a 1980, quando o poeta faleceu (Toquinho estava com ele quando deu o último suspiro). E a confusão é porque a primeira parte de Aquarela é justamente uma canção que Toquinho e Vinícius fizeram em 1974, intitulada Uma Rosa em Minha Mão, sob encomenda para a novela Fogo Sobre Terra, da TV Globo – naquela novela, os dois foram contratados para compor toda a trilha sonora nacional.

O diálogo no aeroporto que abre este texto foi entre Toquinho e o pianista italiano Maurizio Fabrizio, no meio do ano de 1982. A união dos dois foi uma jogada de marketing do empresário Franco Fontana. Ele tinha criado a gravadora Maracanã, para trabalhar com a MPB junto ao mercado fonográfico da Itália. Queria um disco de Toquinho só com inéditas. Maurizio tinha vencido o Festival de Música de San Remo, e o empresário viu algo de comum entre ele e Toquinho. Mandou-o ao Brasil, para fazer algumas músicas com o nosso violonista. Nascia ali uma parceria que rendeu quatro discos entre 1983 e 1994.
É o próprio Toquinho quem nos conta:
“Eu nuca tinha visto o Maurizio na vida. Não sabia quem era. Por isto tivemos que nos descrever daquele jeito para eu reconhecê-lo no aeroporto. Chegamos em casa, e ele foi dar um cochilo”.

Toquinho é extremamente profissional. Foi ele quem botou Vinícius no eixo em termos de produção de músicas, e obediência a horários e prazos. Com Maurizio Fabrizio também não teve moleza. Terminado o almoço:
“Nós temos que fazer músicas”, disse Toquinho. “Peguei meu violão e Maurizio foi para uma pianolinha que eu tinha em casa – uma coisinha ridícula (risos). Daí ele começou a tocar uma música. Achei chata a primeira parte. Mas quando entrou na segunda parte, eu lembrei da Uma Rosa em Minha Mão. Toquei pra o Maurizio ouvir, e assim que terminei ele atacou com a segunda parte da música dele. Tudo se encaixou logo de primeira. Gastamos nem três minutos para fazer o que seria conhecido como Acquarello.”

Nascia ali um dos maiores fenômenos da música no Brasil e na Itália. Apesar disto, Toquinho não se tocou que tinha um tesouro nas mãos.
“Achei bonita, mas não confiava nela como sucesso. Partimos pra outras composições, fizemos outras 8 músicas nos dias seguintes. O Maurizio voltou pra terra dele, foi fazer os arranjos e entregar para o Guido Morra colocar as letras”.

Em novembro de 1982 Toquinho foi à Itália gravar o disco com as músicas novas:
“Nunca vou esquecer. Eu estava num restaurante quando chegaram o Maurizio e o Guido letrista para mostrar as músicas. Deixaram Acquarello por último. A música tem versos mágicos. Desperta a criança que temos dentro da gente, reforça o romantismo da amizade, avisa as delícias de se ganhar o mundo com a rapidez da modernidade. Mas também nos alerta que tudo um dia vai perder a cor. É o enigma do futuro que guarda no bojo a ação implacável do tempo”, analisa Toquinho.
Lançado em San Remo, o disco vendeu 30 mil cópias em dois dias. De volta ao Brasil, Toquinho teve de voar de novo para a Itália, tão grande o clamor popular pela canção. Já havia vendido 100 mil discos. Foi o primeiro artista brasileiro a ganhar um Disco de Ouro na Itália:
“Virei artista popular fora do Brasil”, vibra o violonista. “As pessoas também passaram a me reconhecer como violonista”.

Os que conhecemos a MPB já sabíamos em 1982 que Toquinho é um virtuose no violão, tendo sido aluno de Paulinho Nogueira, e discípulo de Baden Powell. Mas o grande público só se ligou no violão imenso que ele toca no magnífico solo de improviso de Acquarello, que logo ganhou versão brasileira:
“Logo que ouvi a letra italiana, me empolguei em fazer a tradução. Sabia das dificuldades, pois é uma letra grande. Tive que mudar muita coisa, para preservar na nossa língua aquela magia que o Guido Morra dizia em italiano”.

A convivência de longos anos de Toquinho com o poeta Vinícius, acabaram lhe valendo habilidade também com as palavras:
“Quando comecei a escrever a tradução de Acquarello para o português, começou a sair um negócio bonito. Nem eu mesmo sabia o que era. Esta música tem a força da ingenuidade infantil. É também ligada a um encanto popular que emociona. Já no primeiro acorde do violão as pessoas ficam tomadas pela música”, diz Toquinho.
Aquarela estourou rapidamente nas paradas de sucesso do Brasil, repetindo aqui o acontecido com Acquarello na Itália. Quando recebeu a letra em castelhano de I. Baldacchi, o estouro se repetiu na Espanha, Argentina e toda a América Latina.

Aqui a canção gravada em 1974, cuja melodia integra a primeira parte de Aquarela
Procurei um lugar com meu céu e meu mar, não achei
Procurei o meu par, só desgosto e pesar encontrei
Onde anda meu rei, que me deixa tão só por aí
A quem tanto busquei, e de tanto que andei, me perdi.

Quem me dera encontrar,
Ter meu céu, ter meu mar, ter meu chão.
Ver meu campo florir
E uma rosa se abrir na minha mão
·        Toquinhoarrangements, vocals, acoustic guitar, viola, piano
·         Messias – viola
·         Isidoro Longano (Bolão) – flute
·         Jorge Henrique da Silva (Cebion) – tambourine
·         Nelson Fernandes Moraes (Branca de Neve) – surdo
·         Rubens de Souza Soares (Rubão) – ganzá
·         Antonio Pecci Filho (Cucho Xulim) – agogô

Aqui o original italiano ao lado da versão brasileira de Toquinho:
Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva
Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu

Vai voando, contornando a imensa curva norte-sul
Vou com ela viajando Havaí, Pequim ou Istambul
Pinto um barco a vela branco navegando
É tanto céu e mar num beijo azul

Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo, com suas luzes a piscar
Basta imaginar e ele está partindo, sereno e lindo
E se a gente quiser ele vai pousar

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos bebendo de bem com a vida
De uma América a outra consigo passar num segundo
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Um menino caminha e caminhando chega no muro
E ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está

E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar
Não tem tempo nem piedade nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida
Depois convida a rir ou chorar

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá

Sopra un foglio di carta lo vedi il sole è giallo,
ma se piove, due segni di biro ti danno un ombrello.
Gli alberi non son(o) altro che fiaschi di vino girati,
se ci metti due tipi là sotto saranno ubriachi,
l' erba è sempre verde, e se vedi un punto lontano,
non ci scappa: o è il buon Dio o è un gabbiano e va.

Verso il mare a volare, e il mare è tutto blu
e una nave a navigare, ha una vela, non di più,
ma sott'acqua i pesci sanno dove andare
dove gli pare non dove vuoi tu.

E il cielo sta a guardare, e il cielo è sempre blu,
c'è un aereo lassù in alto e l'aereo scende giù,
c'è chi a terra lo saluta con la mano
va piano piano, fuori dal mare, chissà dove va.

Sopra un foglio di carta lo vedi chi viaggia in un treno
sono tre buoni amici che mangiano e parlano piano,
da un'America all'altra è uno scherzo, ci vuole un secondo
basta fare un bel cerchio ed ecco che hai tutto il mondo.
Un ragazzo cammina, cammina, arriva ad un muro,
chiude gli occhi un momento e davanti si vede il futuro già.

E il futuro è un'astronave che non ha tempo né pietà,
va su Marte, va dove vuole
niente mai, lo sai, la fermerà.
Se ci viene incontro, non fa rumore
non chiede amore e non le dà.

Continuiamo a sognare, lavorare in città,
noi che abbiamo un pò paura, ma la paura passerà.
Siamo tutti in ballo, siamo sul più bello
In un acquarello
che scolorirà
A versão lançada na Espanha:
En los mapas del cielo el sol siempre es amarillo
Y la lluvia o las nubes no pueden velar tanto brillo.
Ni los árboles nunca podrán ocultar el camino
De su luz hacia el bosque profundo de nuestro destino.

Esa hierba tan verde se ve como un manto lejano
Que no puede escapar
Que se puede alcanzar solo con volar.

Siete mares he surcado, siete mares color azul
Yo soy nave voy navegando, y mi vela eres tu
Bajo el agua veo peces de colores
Van donde quieren no los mandas tu.

Por el cielo va cruzando, por el cielo color azul,
Un avión que vuela alto
Diez mil metros de altitud.

Desde tierra lo saludan con la mano,
Se va alejando, no se donde va,
No se donde va.

Sobre un tramo de vía cruzando un paisaje de un sueño
En un tren que me lleva de nuevo a ser muy pequeño
De una américa a otra tan solo es cuestión de un segundo
Basta un desearlo y podrás recorrer todo el mundo.
Un muchacho que trepa, que trepa a lo alto de un muro
Si se siente seguro verá su futuro con claridad.

Y el futuro es una nave que por el tiempo volará
A saturno, después de marte, nadie sabe donde llegará.
Si le ves venir, si te trae amores, no te los roben sin apurar

Aprovecha los mejores que después no volverán.
La esperanza jamás se pierde
Los malos tiempos pasarán
Piensa que el futuro es una acuarela y tu vida un lienzo que colorear
Que colorear

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