O cinema falado é o grande culpado da transformação
sábado, 11 de dezembro de 2010
100 anos de Noel de Medeiros Rosa
O cinema falado é o grande culpado da transformação
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
... e por isso seu nome era Noel
Por ter nascido em dezembro, o compositor Noel Rosa foi batizado com o nome do personagem da lenda do “bom velhinho”.Seu nascimento estava previsto para o Natal. Mas o moleque (na foto à direita com 5 anos) era apressado: veio ao mundo 14 dias antes, em 11 de dezembro de 1910. Foi arrancado à fórceps do ventre de sua mãe dona Martha de Azevedo Rosa. Veio daí a mutilação de seu queixo.
Já contei, nesse nosso boteco virtual, algumas passagens da vida de Noel (leia aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).
Hoje vamos falar da sua dureza crônica.
Sempre correndo atrás de grana, Noel não se importava de, vez por outra, vender o direito autoral de um samba para bancar seus gastos com mulheres e butiquins. Excelente frasista, alguns de seus versos ganharam tal notoriedade que muitos, erroneamente, os têm como ditado popular. O famoso “Devo, não nego. Pago quando puder” vem do seu samba Malandro Medroso, de 1931:
Eu devo; não quero negar
Mas te pagarei quando puder
Se o jogo permitir
Se a polícia consentir
E... se Deus quiser
Dois anos depois, no samba Fita Amarela, Noel voltou a falar da sua constante pindaíba:
Não tenho herdeiros, não possuo um só vintém
Eu vivi devendo a todos, mas não paguei a ninguém
Esta sina de durango perseguia o Poeta da Vila desde seu ingresso na vida artística. No seu primeiro sucesso (Com que Roupa?) gravado em 1927, quando tinha apenas 17 anos, Noel já expunha ao mundo o seu bolso vazio:
Agora eu não ando mais fagueiro
Pois o dinheiro
Não é fácil de ganhar
Mesmo sendo um cabra trapaceiro
Não consigo ter nem pra gastar
Para ler o que já foi publicado sobre Noel nessa nossa birosca imaginária, clique aqui.
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Com que roupa? (2)
Já contei aqui o quanto Noel Rosa era desligado na sua maneira de vestir-se. Para não ficarmos só naquele episódio de 1930, vejamos o que se passou na excursão do Poeta da Vila no Rio Grande do Sul.No dia 29 de abril de 1932, o navio Itaquera ancorou em Porto Alegre. Desembarcaram Chico Alves, Mário Reis, Peri Cunha, Nonô e... Noel Rosa. Na 6ª-feira seguinte, os sambistas cariocas ocuparam o palco do Cine-Teatro Imperial. Casa cheia; os músicos todos de smoking.
Quer dizer, quase todos... Noel trajava um paletó branco, enorme, estranhíssimo. De smoking tinha apenas a cor. Chico Alves bronqueou:
- Quem fez este paletó, Noel?
- O alfaiate, não sei – respostas desconcertantes eram típicas de Noel. – Este paletó não é meu. Como não tenho smoking, aluguei este aqui de um garçom...
Reparem na foto abaixo, tirada a bordo do navio Itaquera, como mesmo posando com seus amigos Mário Reis e Chico Alves, Noel mantinha-se sempre no seu jeitão de “tô nem aí...”
Não vou por gosto
Cena do filme Noel – Poeta da VilaEm abril de 1932, Noel Rosa foi fazer uma temporada de shows em Porto Alegre (RS). Enquanto seus amigos Francisco Alves e Mário Reis dormiam em hotel, Noel e Nonô hospedavam-se na Pensão Manguache.
Depois dos shows, iam pro cabaré Clube Jocotó. Ali Noel Rosa caiu de paixão por uma das “meninas” do dancing. Na hora de voltar para o Rio, os colegas tiveram um trabalho danado pra afastar Noel dessa uma de suas muitas e fulminantes paixões. Praticamente o arrastaram à força para o porto.
No cais, Noel despediu-se da garota com imenso pesar. Tomado de profunda tristeza, o Poeta da Vila compôs para a ex-amante gaúcha um dos seus mais famosos sambas:
“Até amanhã, se Deus quiser
Se não chover eu volto pra te ver, oh mulher
De ti gosto mais que outra qualquer
Não vou por gosto, o destino é quem quer...”
Dois anos depois, em março de 1934, Noel Rosa foi apresentar-se em Vitória, capital do Espírito Santo.
Como sempre, quando não estava cantando, enfurnava-se nos puteiros. E foi no Cabaré da Badú que o Poeta da Vila interessou-se por uma morena baixinha, de nome Isaura.
Desta feita os amigos do compositor não conseguiram arrancá-lo de sua paixão. Voltaram sem ele para o Rio.
Dias depois, dona Marta, mãe de Noel, teve de juntar um dinheirinho e ir pessoalmente resgatar seu filho dos braços da sedutora capixaba...
Noel Rosa e seu sono de pedra
“NÃO SE ESQUEÇAM! PRECISO ACORDAR CEDO!"
"GRAVAÇÃO ÀS 10 HORAS DA MANHÃ! IMPORTANTÍSSIMO!"
"NÃO ACREDITEM EM MINHAS DESCULPAS!!!”
Quando o sono de Noel se mostrava ainda mais difícil para arrancá-lo dos lençóis, dona Marta, sua mãe, recorria a um mulato gordinho, muito solítico, apelidado de Calulá, entregador de roupas de uma tinturaria próxima da casa do sambista. Calulá sentava pachorrentamente na beira da cama, levantava uma ponta da coberta, e com sua voz fanhosa:
- Noeel... Noeel... Noeel...
O compositor puxava a coberta pra cima da cabeça. Calulá retomava a cantilena. Noel escondia a cabeça debaixo do travesseiro.
- Noeeeel... Noeeeel... Noeeeel...
O Poeta da Vila sentava-se estremunhado:
- Já sei, Calulá. Já vou levantar. Pode ir.
- Noeeeeeeeel... Noeeeeeeeel... – Calulá estava escolado; várias outras vezes Noel o havia dispensado, para a seguir ferrar novamente no sono.
- Noeeeeeel...
- CHEGA!!! – e Noel saltava do colchão. Somente aí o mulato ia embora com um risinho vitorioso nos lábios.
segunda-feira, 5 de maio de 2008
Noel agora é (sempre foi) do povo
Era pra ter atualizado as coisas aqui no boteco desde ontem. Mas estávamos sem conexão durante a tarde. E na boca da noite, ocupei meu lugar no balcão, ao lado dos meus bons e fiéis Edson Cachimbo e Mongol. Não fosse o Déco nos intimar a desocupar as dependências, a madrugada fria ia nos encontrar ainda mais encachaçados e embrameados...Nem perguntei (não me interessava) o por quê dos amigos estarem tão elevados no álcool. De minha parte, o porre monumental só não se consumou pela urgência do gerente em dar por encerrados os trabalhos. Bebi, como sempre em quantidade industrial, em louvor a Noel Rosa. Fez-se ontem 71 anos de sua perda irreparável. Eu já servi aqui aqui no nosso Bar & Lanches Taboão uma breve e dolorida crônica sobre os últimos dias de Noel Rosa.
Pois bem. A partir de hoje, toda a obra do Poeta da Vila passa a ser Domínio Público. A lei determina que decorridos 70 anos da morte do artista, no ano seguinte seu trabalho fica livre dos direitos autorais.
Estou certo que Noel não está nem aí com esta questão jurídica. Viveu como poucos, e sempre costeando perigosamente o alambrado da morte.
Noel era um cara muito atormentado, totalmente descrente. Mergulhou fundo nos copos dos bares, e nos corpos das mulheres da noite.
Era tão desapegado de algumas besteiras a que os otários chamam Vida, que em 1933, com apenas 22 anos, fez seu samba-testamento, que vamos ouvir um trecho com a impagável Araci de Almeida.
Mas antes, deixem-me contar um detalhe, protagonizado pelo compositor Donga. Acho que Donga era um tremendo mau-caráter (outra hora conto como ele se apropriou indevidamente, meteu a mão, se fez dono, roubou o samba Pelo Telefone).
Pois esse sujeito arrumou uma muzenga com o doce Noel de Medeiros Rosa, acusando-o de plágio.
Negro presepeiro, Donga abriu o berreiro no mundo, alvoroçou redações de jornais, dizendo que Fita Amarela, do sublime Noel, era uma cópia de um samba seu com o maestro Aldo Taranto. Vejam o absurdo; a letra de Fita Amarela está logo abaixo; comparem com estes versos de Donga: ‘‘Quando você morrer/ Não pense que vou chorar/ Vou procurar quem me dê/ O que você não dá’’.
Digam-me vocês: tem alguma coisa a ver? Este Donga era mesmo um bom de um filho-de-uma-puta, nénão?
O compositor e cantor Almirante comprou a bronca, defendeu Noel com vigor. Almirante explicou que ele próprio havia sugerido o tema de Fita Amarela pra Noel, com base numa batucada que corria becos, vielas e morros do Rio: ‘‘Quando eu morrer/ Não quero choro nem nada/ Eu quero ouvir um samba/ Ao romper da madrugada’’.
Bom. Agora que já mandamos, mais uma vez, o Donga de volta pros quintos dos infernos, vamos saborear os versos imortais do Filósofo do Samba. Fita Amarela foi gravado em 1933 na Odeon, com Francisco Alves fazendo dupla com Mário Reis.
Quando eu morrer, não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela gravada com o nome dela
Se existe alma, se há outra encarnação
Eu queria que a mulata sapateasse no meu caixão
Não quero flores nem coroa com espinho
Só quero choro de flauta, violão e cavaquinho
Estou contente, consolado por saber
Que as morenas tão formosas a terra um dia vai comer.
Não tenho herdeiros, não possuo um só vintém
Eu vivi devendo a todos mas não paguei a ninguém
Meus inimigos que hoje falam mal de mim
Vão dizer que nunca viram uma pessoa tão boa assim.
Já conversamos aqui no balcão, sobre a facilidade fenomenal de Noel em incorporar novos versos às suas obras. A maioria das gravações de Fita Amarela termina da forma como está acima. Mas há outras versões que trazem estes versos adicionais:
Quando eu morrer, não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela gravada com o nome dela
Quero que o sol não visite o meu caixão
Para a minha pobre alma não morrer de insolação
Canta, Araci!
UM GOLE A MAIS: Aqui em Taboão da Serra, Noel Rosa é homenageado com uma rua. O prefeito da época, Armando Andrade, sabia das coisas. Deu nomes de artistas a todas as vias daquele loteamento. Como artista é boêmio, geralmente beberrão, o bairro só poderia chamar-se Jd Santo Onofre, o santo padroeiro dos cachaceiros...
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Noel, a operária e o apito da fábrica
Imprescindível, extremamente necessário reafirmar que, os fatos da vida de Noel Rosa até aqui relatados, são extraídos do livro de Almirante. Comprei No Tempo de Noel Rosa no dia 27 de fevereiro de 2004, em uma banca de jogo do bicho aqui em Taboão da Serra. Espalhados no assoalho da banquinha, livros usados, e entre eles a jóia rara que comprei por R$ 3,00. Só num país com povinho bunda, a história da maior glória da música popular pode ser comprada por menos que uma cerveja e um rabo-de-galo...Vamos ao caso do samba Três Apitos e sua musa inspiradora.
Em 1930, Noel namorava já há 4 anos Clara, professorinha do Externato Santa Rita de Cássia, de propriedade da mãe do compositor. Só que, ao sair da casa da moça na Rua Barão do Bom Retiro, Noel se mandava para os braços de outra namoradinha moradora da antiga Rua Mojú, hoje Rua Sebastião de Paula. Ao descobrir a pulada de cerca, a professorinha deletou Noel de sua vida.
A garota da Rua Mojú chamava-se Josefina, de 15 anos e órfã de mãe; era criada pela avó. Sobre seus amores volúveis, Noel (num porre homérico, segundo a moça) chegou a brincar no primeiro samba feito para Josefina: “Em cada morro que passo / Um novo amor eu conheço / Cada paixão que eu esqueço / É mais um samba que faço...” (Seu Riso de Criança, gravado em 1935 por Araci de Almeida).
Noel passava muitas noitadas na casa da namorada. Também a levava para longos passeios madrugada adentro por Copacabana e Barra da Tijuca, sempre conduzido por seus taxistas preferidos, Valuche e Alegria.
Um ano depois que Noel e Josefina namoravam, a situação apertou, e a moça teve de ir trabalhar. Por vergonha da fábrica de botões onde trabalhava (Hachiya Ind. e Com.), Josefina fez com que Noel a imaginasse operária de uma fábrica de tecidos. Na verdade, a tecelã era a irmã de Josefina.
A garota exercia certo poder sobre Noel. Diferente de Clara, que suportou ao máximo a traição do Poeta, Josefina enciumava bravo, armava barraco, ameaçava quebrar o violão na cabeça de Noel – que certamente achava o máximo tais arroubos.
Josefina fazia de tudo para Noel não descobrir onde ela trabalhava. Mas para seu azar, Noel comprou um automóvel Chandler, preto, a que chamava de Viramundo. O carro foi comprado da agência de veículos do cantor Francisco Alves. E Noel pagava as prestações com... sambas!!!
Com seu carrinho preto Noel seguia a namorada, para descobrir seu local de trabalho. E isso às 5h da madrugada, quando a garota ia trabalhar em trajes simples, sem agasalho, nem meias nos pés. Por fim, o segredo foi desfeito, mas as rimas do samba (tecido/ouvido, pano/piano) já estavam bem costuradas no peito do boêmio incorrigível.
Quando o apito
Da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você
Mas você anda,
Sem dúvida bem zangada
Ou está interessada
Em fingir que não me vê
Você que atende ao apito
De uma chaminé de barro
Por quê não atende ao grito
Tão aflito
Da buzina do meu carro?
Sou do sereno
Poeta muito soturno
Vou virar guarda noturno
E você sabe por quê
Mas só não sabe
Que enquanto você faz pano
Faço junto do piano
Estes versos pra você
Você no inverno
Sem meias vai pro trabalho
Não faz fé com agasalho
Nem no frio você crê
Você é mesmo
Artigo que não se imita
Quando a fábrica apita
Faz reclame de você

Certo dia Josefina (à direita, em foto de 1930) contou a Noel que o chefe de seção Jerônimo Feliciano da Encarnação, vivia assediando-a com propostas de todo o tipo, até com casamento e dinheiro. Sem coragem física pra enfrentar o don-juan fabril, o Poeta da Vila sacou de sua caneta, e alfinetou mais uns versos novos no seu samba:
Nos meus olhos você vê
Como eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente
Impertinente
Que dá ordens pra você...
Três Apitos foi gravado pela primeira vez por Orlando Silva, em 1936, mas com versos a menos. Em 1951 Araci fez sua gravação definitiva.
Leio por aí que, em 1984, Josefina foi localizada por uma emissora de TV. Se você souber como e onde encontrar este material, divida conosco aqui no balcão.
terça-feira, 13 de novembro de 2007
O amigo “mutcho loco” de Noel Rosa
Entre suas muitas doideiras, Henrique Brito inventou o violão elétrico, sem receber nenhum centavo pela criação
Juntamente com Noel Rosa, o violonista Henrique Brito foi um dos fundadores do Bando de Tangarás – do qual também faziam parte João de Barro (o Braguinha) e Almirante. Todos os músicos do conjunto tinham como apelido o nome de um pássaro – já que tangará é um passarinho típico do nordeste brasileiro. Como Henrique vivia dia e noite agarrado ao seu instrumento, os amigos não lhe imaginaram outro apelido senão Violão. Noel foi parceiro de Henrique Brito na canção “Queixumes”, de 1929.
Henrique Brito (15.jul.1908-11.dez.1935) nasceu em Natal (RN). Em 1920, o governador potiguar Antonio José de Melo e Souza foi ouvi-lo no Teatro Carlos Gomes, na sua cidade natal. Ficou abismado com o virtuosismo de Henrique ao violão, e resolveu manda-lo estudar no Rio de Janeiro, com todas as despesas pagas.
Porém, o rapaz não tinha o menor ânimo pela escola. Sua paixão era a música.
Henrique era um morenão forte, troncudo, e vivia em constante agitação. Não tinha a menor cerimônia, qualquer fosse o lugar ou a situação. Onde estivesse, exigia, esbaforido, que mantivessem abertas todas as portas e janelas:
- Ufa, que calor. Não pode ser, não! Abre! Abre tudo! Tô sufocado! Ar! Quero ar! – dizia em frases telegráficas, com rapidez estonteante.
O violonista era tão desligado do mundo que, certa feita, em um intervalo do seu programa na Rádio Clube do Brasil, onde executava solos de violão, o compositor Almirante pediu para falar com ele ao telefone.
- Alô. Ah!, Almirante? Até logo. – e simplesmente desligou o telefone, sem perguntar ao amigo o que ele queria.
A maneira atrapalhada de agir de Henrique quase o mandou à prisão. Durante uma excursão com colegas do colégio, descobriram na mata uma cabana abandonada. Dentro dela, a um canto, uma arma toda enferrujada.
- Vou me matar! – gritou Henrique, e puxou o gatilho com o cano colado à fronte.
Sucedeu-se apenas um estalido seco. Os amigos mal tiveram tempo de refazer-se do susto, e Henrique apontou a velha garrucha para o peito de um amigo de nome Jacob.
- Vou te matar! – E, infelizmente, a arma disparou, estraçalhando o peito do rapaz.
Graças à intervenção dos colegas, a Polícia convenceu-se que havia sido uma brincadeira com final funesto.
Nem com isto Henrique adotou modos mais comedidos.
Em 1932, o Brasil enviou uma delegação para os Jogos Olímpicos de Los Angeles, nos EUA. Também foi enviada uma banda para animar os atletas, a Brazilian Olympic Band. Dentre os músicos escalados, Henrique Brito.
A Olimpíada terminou, e todos acomodaram-se no navio para a volta ao Brasil. Na hora de levantar âncora, Henrique Brito disse aos amigos que esquecera o violão em um boteco do cais do porto. Desceu, e não voltou mais a bordo. Por cerca de um ano, ficou perambulando pelos EUA, tocando violão e escapando da polícia de imigração.
Quando voltou ao Rio, trazia debaixo do braço um violão elétrico. Há tempos Henrique queixava-se da baixa potência do som do violão comum. Sugeriu a vários técnicos eletrônicos brasileiros, que acoplassem um amplificador de som às cordas do violão. Ninguém lhe deu ouvidos.
Por isto, enquanto se aventurava pelos EUA, Henrique expôs sua idéia a um fabricante de instrumentos musicais de San Francisco. O industrial seguiu o projeto de Henrique, patenteou-o, e limitou-se a dar-lhe como presente o primeiro violão elétrico da História.
- Por que você não registrou este invento, Henrique? Você poderia ficar rico!!! – criticavam-lhe os amigos.
Mas, Henrique mostrava-se satisfeito pelo simples fato de seu violão tocar com o som alto...
Morreu repentinamente aos 27 anos, vítima de septecimia.
No Youtube, você assiste a um vídeo com Henrique Brito (sentado à esquerda de Noel Rosa) em uma apresentação do Bando de Tangarás. Clique aqui:
http://br.youtube.com/watch?v=26GAxh6_aKI&feature=PlayList&p=429476AE950F78AA&index=0
quinta-feira, 1 de novembro de 2007
Os últimos dias de Noel Rosa

Evitava se alimentar em público. O defeito de sua face o obrigava a movimentos do maxilar que ele considerava vergonhosos. A mastigação causava-lhe dores. Quando muito, ingeria caldos ou sopas ralas. Mas fumava e bebia em abundância. Isto lhe corroeu a saúde.
Seu médico determinou uma temporada de recuperação por vários meses em Belo Horizonte. Ao retornar para o Rio, retomou a mesma vida sem regras.
Em janeiro de 1937, Noel e sua mulher Lindaura seguiram para Nova Friburgo, em busca do ar puro da serra fluminense. Passados 20 dias na esperança de uma recuperação dos pulmões, tudo o que Noel conseguiu foi um doloroso reumatismo, causado pelo frio.
De volta à sua casa, raramente saía. Passava os dias esticado sobre uma espreguiçadeira, entre almofadas.
No Carnaval daquele ano, deu um pequeno passeio pela Avenida Rio Branco, porém voltou para casa fatigado, desanimado.
Já no fim de abril, foi aconselhado por amigos a retirar-se para a cidade de Piraí. Não poderiam ter indicado lugar pior para seu estado de saúde...
No pequeno hotel onde ficara, Noel compôs suas duas últimas obras: “Mas quem lhe deu tudo isso?”, um samba considerado incompleto, e a embolada “Chuva de Vento”, datada de 29/04/1937 – cinco dias antes de sua morte.
O dia 1º de maio, um sábado ensolarado, encontrou Noel em melhor estado de espírito. Quis passear na represa existente em Piraí. Lá, foi colhido por fortes rajadas de vento frio. Sobreveio-lhe a febre. De volta ao hotel, foi acometido pela hemoptise. A tuberculose preparava o seu ataque final...
Dia 4 de maio de 1937. Noel estava de volta à sua residência, na Rua Teodoro da Silva, nº 30. Em uma casa próxima, festejava-se um aniversário. O som da festa chegava até o quarto do doente. Sem saber do estado do Poeta da Vila, os participantes da comemoração cantavam músicas de Noel.
Eram cerca de 21h30 quando dona Marta, mãe de Noel, e sua mulher Lindaura despediam-se de visitantes. Na cabeceira de Noel, seu irmão Hélio viu que ele abriu os olhos em delírio.
- Está sentindo alguma coisa, Noel? – perguntou Hélio.
- Estou muito mal. Quero virar para o outro lado...
Hélio atendeu Noel. Ao esticar um braço, sua mão foi parar sobre uma mesinha de cabeceira. Acometido por uma contração de nervos, a mão ficou batendo sobre o tampo, como obedecendo a um ritmo esmorecente...
Noel tinha então 26 anos e cinco meses de vida. Deixou 233 músicas registradas em disco, e várias inéditas.
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
Noel e o disco “fabricado” ao vivo
Em agosto daquele mesmo ano, o grupo foi convidado para fazer um show em prol da Santa Casa de São José dos Campos, no interior de São Paulo. O espetáculo ficou combinado para o dia 7 de setembro seguinte.
Chegando a São José dos Campos, os músicos foram recebidos pelo delegado da cidade, dr. Carlos Ribeiro, que também era dono da loja de discos local. Fazia poucos dias que o delegado havia recebido uma máquina de gravações.
Ao ver o equipamento, Noel Rosa logo teve a idéia de pregar uma peça no público. Na bagagem do conjunto, estava a matriz da gravação de “Cordiais Saudações” com acompanhamento dos amigos de viagem. “Vamos levar esta máquina de gravações para o palco”, expôs seu plano, Noel. “Como o verso final do samba cita a data de 7 de setembro, podemos dizer que esta matriz aqui, que gravamos lá no Rio, foi gravada na hora, em cima do palco!!!”
Na noite do show, com o teatro lotado, foi anunciada a novidade: pela primeira vez na história, um disco seria gravado à frente do público.
Os músicos que acompanhavam Noel Rosa no disco anteriormente gravado, eram os mesmos que estavam no palco naquela noite. Não havia qualquer risco de alguém notar qualquer diferença.
Noel Rosa cantou acompanhado do Bando dos Tangarás:
Estimo que este mal traçado samba,
Em estilo rude,
Na intimidade,
Vá te encontrar gozando saúde
Na mais completa felicidade

(Juntos dos teus, confio em Deus)
Em vão te procurei,
Notícias tuas não encontrei,
E hoje sinto saudades
Daqueles dez mil réis que te emprestei.
Beijinhos no cachorrinho,
Muitos abraços no passarinho,
Um chute na empregada
Porque já se acabou o meu carinho.
O público olhava extasiado, ora para os músicos e Noel, ora para o equipamento, ligado com suas luzes todas piscando, como se de fato estivesse gravando.
E prosseguia Noel:A vida cá em casa está horrível.
Ando empenhado
Nas mãos de um judeu.
O meu coração vive angustiado,
Pois minha sogra ainda não morreu
(Tomou veneno e quem pagou fui eu)
Sem mais para acabar
Um grande abraço queira aceitar,
De alguém que está com fome
Atrás de algum convite pra jantar.
Espero que notes bem:
Estou agora sem um vintém
Podendo, manda-me algum.
Rio, 7 de setembro de 31.
Em suspense, o público mal aplaudiu o sambista. Todos queriam era ver se a música estava mesmo gravada no disco. Com o maior cinismo, Noel pôs a máquina para tocar.
E quando ouviu-se pelo alto-falante sair do disco aquela precisa data do show, a platéia irrompeu em delirantes aplausos.
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
Com que roupa?
A primeira composição de Noel Rosa como profissional foi o samba Com que Roupa?, em 1927. Mas, ao contrário da preocupação expressa na letra da famosa música, Noel não estava nem aí com a vestimenta.Em 1930, o Poeta da Vila ainda integrava o Bando dos Tangarás (com Almirante, Braguinha, etc.). E Almirante, como mestre de cerimônias do grupo, certa vez ponderou com o sambista:
- Ô, Noel. Você já está ficando famoso. Está na hora de cuidar da aparência.
Noel usava, sempre, um único terno, com listras de dois dedos de largura nos tons cinza-claro/cinza-escuro. Parecia revestimento de colchão. Noel ouviu calado, e foi-se embora.
No dia seguinte, no show no Cine Eldorado, faltava dois minutos para o conjunto subir ao palco, e nada de Noel chegar. Mesmo preocupado com a ausência – àquela época ele já era o mais requisitado pelo público – Almirante foi fazer a apresentação dos músicos. Ofuscado pela luz do refletor, vislumbrou, na primeira fila da platéia, o indefectível terno. “Será que eu ofendí o Noel?”, pensou Almirante. “Ele ficou magoado com a observação que fiz sobre sua roupa, e não subirá ao palco hoje”, lamentou.
Mas, quando abriram-se as cortinas, lá estava Noel, vestindo um terno azul-marinho com excelente caimento no corpo. Finda a apresentação, Almirante foi falar com Noel, e saber o que havia ocorrido.
- Eu troquei de terno com meu amigo Sebastião – contou Noel. – Ele queria ver o show e não tinha dinheiro. Eu tinha esquecido de arrumar uma roupa nova, conforme você me recomendou. Daí propus a ele que me emprestasse o terno, em troca de entrar de graça no espetáculo, como meu ajudante.
Dias depois, Almirante voltou a falar com Noel sobre seu visual:
- Agora que você anda de terno novo, devias engraxar estes sapatos!
Noel tinha o hábito de cruzar a perna direita sobre a esquerda, para tocar o violão quando vinha à frente do grupo fazer seus números solos. E a iluminação do palco pegava em cheio naquele sapato imundo.
Na hora do show, lá vem Noel, com um sapato brilhando, e o outro ainda enlameado.
- O dinheiro só deu para engraxar um pé – desculpou-se o poeta.
Almirante foi tirar satisfações com o engraxate.
- Qual o quê, seu Almirante! – riu-se o engraxate. – Eu pelejei com seu Noel pra engraxar os dois sapatos. Ele disse que não precisava, porque só o sapato direito é artista. O outro pé é só para apoiar...
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
Porque Bebel não ajuda Noel?
Ainda não conseguí entender a miopia de alguns marketeiros do cinema brasileiro. O filme Noel - Poeta da Vila tem no seu elenco a atriz Camila Pitanga interpretando a dançarina Ceci, a maior paixão da vida de Noel de Medeiros Rosa, o mais importante compositor de samba do Brasil.
Aqui, a mesma Ceci, aos 49 anos, quando já havia abandonado a dança para montar uma escola particular onde chegou a ter 70 alunos.
